Segunda-feira, 6 de Fevereiro de 2006
É a filosofia mais «a priori» do que a ciência? (Crítica de Manuais Escolares-III)

 

À primeira vista, a filosofia «é» mais «a priori» -isto é, anterior à experiência, isenta de experiência - do que a ciência.

Assim pensam alguns autores como os do Manual de Filosofia do 11º ano português A Arte de Pensar que, no texto seguinte, fornecem uma distinção confusa entre a filosofia e a ciência (o negrito é nosso):

 

«O perspectivismo fraco apoia-se na diversidade de actividades cognitivas, que estudam diferentes aspectos da realidade. Assim, por exemplo, a filosofia procura a verdade sobre problemas de carácter mais básico e mais geral, consistindo num estudo a priori, enquanto a ciência procura também a verdade, mas sobre problemas de carácter empírico ou formal. A natureza dos objectos da filosofia e da ciência é, portanto, diferente. Temos resultados diferentes mas esses resultados são acerca de diferentes objectos.»

 

(Aires Almeida, Célia Teixeira, Desidério Murcho, Paula Mateus, Pedro Galvão, A arte de pensar, manual de Filosofia do 11º ano, Didáctica Editora, pag. 222-223).

 

Salta à vista um primeiro equívoco neste texto: o conhecimento a priori opõe-se decerto a empírico mas não se opõe a formal, pelo contrário, inclui este. A filosofia, pela lógica que lhe é inerente, possui uma forte dimensão formal. E não é verdade que a filosofia se abstenha de buscar a verdade sobre problemas de carácter empírico e que estes sejam exclusivo da ciência, como o texto quer fazer crer. Os problemas da legitimidade do aborto voluntário, da censura na internet e na imprensa em geral, da dicotomia capitalismo/ comunismo,  da industrialização versus preservação ecológica, etc, são problemas empíricos e filosóficos. Sustentar que a filosofia consiste apenas num «estudo a priori» é truncá-la,  reduzi-la a uma gramática do pensamento.

 

O conhecimento a priori é o conhecimento obtido sem recurso directo ou indirecto à experiência sensorial. Em princípio, a sua fonte preexiste à vida biológica: as ideias inatas postuladas por Descartes - segundo este, ao nascer, já teríamos gravados na nossa mente as ideias de alma, Deus, corpo, números, figuras geométricas - são conhecimentos a priori

Podemos, no entanto, admitir que enquanto se vive, isto é, enquanto nos banhamos permanentemente no mundo empírico, na experiência sensorial, exista no nosso espírito um compartimento escuro, hermeticamente fechado à experiência, no qual se processa o conhecimento a priori ( exemplo: conceber um triângulo, conceber que à diversidade de determinações subjaz uma unidade essencial). Seguramente, Kant partilhava este ponto de vista.

 

Kant escreveu (o negrito é nosso):

 

«A matemática fornece o exemplo mais brilhante de uma razão pura que se estende com êxito por si mesma, sem o auxílio da experiência.» (Kant, Crítica da Razão Pura, Fundação Calouste Gulbenkian, pag. 581).

«Assim, construo um triângulo, apresentando o objecto correspondente a um conceito, seja pela simples imaginação na intuição pura, seja, de acordo com esta, sobre o papel, na intuição empírica, mas em ambos os casos completamente a priori, sem ter pedido o modelo a qualquer experiência» (Kant, ibid, pag 580).

«O conhecimento filosófico considera, pois, o particular apenas no geral, o conhecimento matemático, o geral no particular e mesmo no individual, mas a priori e por meio da razão, (...)»

«É nesta forma que consiste, por consequência, a diferença entre estes dois modos de conhecimentos racionais e não é sobre a diferença das matérias ou objectos que repousa.» (Kant, ibid, 580)

 

Kant postula que tanto a filosofia como a matemática são conhecimentos à priori.

A filosofia não é, a nosso ver, mais «a priori» do que a lógica e do que a matemática, ciências formais. Definir filosofia como «conhecimento a priori» é defini-la como lógica e como dialética mas não como epistemologia ( a filosofia pensa sobre as noções de átomo, vacina, infraestrutura e superestrutura, id, ego e super-ego, etc) , ética, estética, gnosiologia.

A filosofia é, em larguíssima media, conhecimento a posteriori, obtido com base na experiência sensorial, articulado com conhecimento a priori. O seu objecto é rigorosamente o mesmo que o da ciência: a «realidade», «a verdade objectiva». Diferem apenas no grau de dogmatismo e de positividade.

 

 

(Direitos de autor para Francisco Limpo de Faria Queiroz)



publicado por Francisco Limpo Queiroz às 12:49
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4 comentários:
De f.limpo a 9 de Fevereiro de 2006 às 10:47

Estou de acordo consigo. Não há provas indiscutíveis da existência de conhecimentos «a priori». Estes poderão não existir e constituir apenas o «esqueleto» formal dos conhecimentos «a posteriori».


De Talvez a 8 de Fevereiro de 2006 às 15:45
John Locke deixou-nos uma ideia interessante sobre conhecimentos «a priori». Ele acreditava que a reflexão seria já parte da experiência, o que nos leva a por em causa toda a noção de «a priori».

Nesse caso, nenhuma delas, filosofia ou ciência, seria «a priori».

Resta-nos considerar a matemática e a lógica como campos de conhecimento «a priori», mesmo isso será perfeitamente discutível.




De f.limpo a 8 de Fevereiro de 2006 às 09:47

Agradeço o seu comentário. Julgo que os ideais da filosofia não podem ser concebidos «a priori», sem contacto com a experiência. Por exemplo, não se pode filosofar a favor da ecologia, sem ter visto campos e cidades cobertos pelo fumo das fábricas, rios poluídos por efluentes da indústria, etc. «A priori» não se pode ser pró-ecologia ou pró-industrialização generalizada. A meu ver, o «a priori» é quase só um pensamento formal, abstracto, organizador.


De Talvez a 7 de Fevereiro de 2006 às 15:59
Não posso deixar de concordar. De facto, é um erro considerar o objecto da filosofia como «a priori».

"À primeira vista, a filosofia «é» mais «a priori» -isto é, anterior à experiência, isenta de experiência - do que a ciência."

Podemos afirmar que a filosofia não se reduz a conhecimentos «a priori», o que é inteiramente correcto. Mas não será, mesmo assim, a filosofia mais «a priori» que a ciência?


Vejamos do seguinte modo:

Uma pessoa vive num espaço fechado, isolado do mundo, sem quaisquer objectos. Essa pessoa não poderá realizar experiências, nem estará em contacto com o que se passa no mundo, com os problemas empíricos. Denote-se então que o conhecimento dessa pessoa se limita a conhecimentos «a priori».

A pergunta é: será essa pessoa capaz de filosofar? E de «fazer» ciência?

Parece-me claro que seja capaz de filosofar, pois poderá criticar-se a si próprio, ter os seus ideais. Toda a pessoa que pensa pode, a meu ver, filosofar. Logo, estamos perante um caso em que a filosofia se baseia em conhecimentos «a priori».

Já quanto à ciência, torna-se bastante difícil elaborar uma teoria sem recorrer à experiência - sem tocar, ver, cheirar, analisar, pesar, etc. É necessário reccorrer à nossa experiência sensorial para podermos induzir novos conhecimentos. Como tal, a ciência requer conhecimentos «a posteriori».


Certamente que a filosofia possa ter um objecto tanto «a priori» como «a posteriori», mas poderá a ciência partir de ideias «a priori», inatas?


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