Segunda-feira, 3 de Julho de 2006
Erros teóricos na concepção do Exame Nacional de Filosofia (Prova 714)

 

O exame nacional de Filosofia, prova escrita 714, realizado em Portugal em 3 de Julho de 2006, contém diversos erros na estrutura das perguntas que deverão, por imperativo,  levar à sua impugnação.

 

Vejamos alguns exemplos desses erros, no que toca ao GRUPO I , (Versão 2 da prova), composto por 10 questões de resposta obrigatória, em cada uma das quais se oferecem 4 tipos de resposta  (A, B, C, D), devendo o aluno indicar uma única como certa.

 

 

A VALIDADE NÃO SE REFERE SÓ AOS ARGUMENTOS MAS TAMBÉM ÀS PREMISSAS, À PROPOSIÇÃO...

Atente-se na questão 1 do GRUPO I do dito exame (Versão 2):

«1. A validade é uma propriedade...

(A) das permissas

(B) dos argumentos

(C) das conclusões

(D) das proposições .»

 

Crítica:  Em primeiro lugar, a pergunta peca por não identificar o sentido da palavra validade: há validade em sentido formal; há validade em sentido material.

Pode responder-se  (A) e está certo. Exemplo, o raciocínio: «A água ferve somente à temperatura de 60º centígrados, à pressão atmosférica normal, na Terra;  a minha cafeteira ao lume tem água a 70º C, logo essa água já ferve» está inválido na primeira premissa porque, em condições normais, a água ferve a 100º c.  Portanto há premissas válidas e premissas inválidas.

 

Mas também se pode responder (B) e ser considerado certo: é óbvio que a validade pertence aos argumentos, como pertence às permissas e às conclusões que os compõem..

 

E também se pode responder, correctamente, (C) pois a validade é também propriedade das conclusões.  Exemplo:  o raciocínio «Os homens são mortais, Diógenes é homem, logo Diógenes é mortal»  tem uma conclusão válida mas o raciocínio «Os elefantes são paquidermes, Caetano Veloso não é elefante, logo Caetano Veloso não é brasileiro» não tem validade na conclusão.

 

Se responder (D)  o aluno igualmente dá uma resposta correcta porque há proposições válidas e inválidas.  Exemplo: A proposição «A parte é maior do que o todo em que se integra» é inválida mas a proposição «Dois adicionado de sete perfaz nove» é válida.

 

Em suma: quer responda A,B,C ou D o estudante acerta sempre. Mas assim não pensam os «filósofos» que elaboraram esta espantosa prova de exame que apenas consideram correcta a hipótese (B).  À excepção de Russell, de Ayer e de alguns outros, podemos dizer que a maioria dos pensadores analíticos, formalistas, vêem a árvore e não vêem a floresta...

 

A CONFUSÃO ENTRE ALGUNS DIREITOS E TODOS OS DIREITOS NA QUESTÃO 3...

 

Vejamos outra questão de estrutura errónea, a questão 3, grupo I, na referida prova de exame (versão 2):

 

«3. Como é que as mulheres conquistaram os direitos que têm?  Sem dúvida que foi através da luta activa, pois foi através da luta activa que conquistaram o direito de voto, foi através da luta activa que conquistaram o direito à igualdade de oportunidades no emprego, e também foi através da luta activa que conquistaram o direito de frequentar o ensino superior.»

Qual é a conclusão deste argumento?

(A) Foi através da luta activa que as mulheres conquistaram o direito de voto.

(B) Foi através da luta activa que as mulheres conquistaram o direito à igualdade.

(C) Foi através da luta activa que as mulheres conquistaram os direitos que têm.

(D) Foi através da luta activa que as mulheres conquistaram o direito de frequentar o ensino superior.»

 

Crítica: Ao contrário do que pretendiam os autores deste teste, há três respostas que estão certas, embora parcelares- (A), (B) e (D) - visto que a conclusão deste argumento se desdobra em três dimensões (voto, igualdade, ensino superior). E, contra o que parece,  há uma resposta errada: a (C), justamente aquela que os critérios de correcção oficiais apontam como.. correcta..

Na verdade, há direitos das mulheres que não foram, presumivelmente, conquistados pela luta activa: o direito a ser mãe, por exemplo, que é um direito biológico, inerente ao organismo; o direito à sedução feminina, que é um direito psico-biológico. E outros.

Para que a resposta (C) fosse correcta era preciso que a frase fosse a seguinte: (C) Foi através da luta activa que as mulheres conquistaram alguns dos direitos que têm».

 

A INCAPACIDADE DE DEFINIR INDUÇÃO FORTE

 

Medite-se, agora, noutra questão concebida confusamente, a questão 4 do grupo I (Versão 2):.

 

«4. Um argumento é indutivamente forte quando...

(A) parte do particular para o geral.

(B) a verdade das premissas torna muito provável a verdade da conclusão.

(C) é impossível as premissas serem verdadeiras e a conclusão falsa.

(D) parte do geral para o particular.»

 

Crítica: As quatro hipóteses estão erradas. Se o aluno responder (A) , isto é, que a indução, forte, consistente, é a que parte do particular para o geral erra por insuficiência na definição, por indiferenciação,  porque a indução fraca também parte do particular para o geral.  Exemplo de como a  indução fraca generaliza, também parte do geral para o particular: «Fui a Serpa e perguntei a cinco transeuntes em quem votavam nas eleições autárquicas, 4 disseram que no PSD e 1 no PS, portanto, induzo que a maioria dos votantes em Serpa votam PSD». Ora, a maioria dos eleitores em Serpa nas autárquicas vota CDU...

 

Se o estudante responde (B), está igualmente errado, porque numerosas induções fortes não afirmam a probabilidade mas a certeza da verdade. Exemplo: « Sou médico, já dei 2.017 injecções de insulina a diabéticos e em todos os casos a taxa de açúcar no sangue baixou, induzo, com toda a certeza, que o mesmo sucederá com o próximo diabético...». Os autores do teste estabeleceram, confusamente, que a resposta correcta» seria esta (B)...É um erro crasso.

 

As respostas (C) e (D) são, obviamente, extrínsecas à noção de indução forte.

Qual seria então a possível resposta correcta sobre a indução forte, que os autores da prova não souberam construir?  A resposta (A´) se fosse enunciada assim: parte de numerosos exemplos particulares, que não registaram excepção conhecida ou que têm raríssimas excepções, para uma tese ou lei geral...

 

EMPÍRICO CONTRAPOSTO A EXPERIMENTAL E A A POSTERIORI? A «FÉ» EM QUE A CÔR É A PRIORI ERIGIDA EM DOGMA...

 

Veja-se agora outra questão, a nº 8 do grupo I, (Versão 2) claramente errada na sua formulação porque supõe haver uma única resposta certa: 

 

«8. Sabemos que as coisas verdes são coloridas. Este conhecimento é...

(A) empírico

(B) experimental.

(C) a priori 

(D) a posteriori

 

Crítica: se o aluno responder (A) acertou: é pela via empírica (dos sentidos: visão, audição, tacto, etc) que o ser humano se apercebe que as coisas verdes são coloridas (tautologia..). Este é o ponto de vista da física dominante: a côr forma-se em nós dependendo da incidência dos raios de luz exteriores, objectivos, não é um a priori.

 

Mas se o aluno responder (B) acertou também: é pela via experimental, isto é, baseada na experiência que se descobre que as folhas das árvores são, geralmente, verdes e que são coloridas. Aliás digam-me: qual é a diferença entre o empírico e o experimental? Em certo sentido, são exactamente o mesmo.

 

E se o estudante responder (D) está igualmente correcto: constatar que as coisas verdes são coloridas é um conhecimento a posteriori, ou seja, gerado na experiência, depois de o ser humano nascer e apreender sensorialmente o mundo.

 

Em suma: respondendo (A), (B) ou (D) o aluno tem resposta correcta. Se responder (C) está também correcto, sob outra óptica filosófica - a de um certo tipo de inatismo ou apriorismo.

Mas  os autores da prova pretendem que só uma resposta é correcta.. E o mais surpreendente é que sustentam que a resposta certa é a (C) : a côr é conhecida a priori, isto é, já está inata em nós antes de vermos pela primeira vez os objectos de côr verde. Pecam portanto, por unilateralismo: erigem um determinado ponto de vista gnosiológico, legítimo, em fonte única da verdade àcerca da côr, eliminando a interpretação empirista aposteriorista, absolutamente legítima, patente nas hipóteses (A), (B) e (D). A isto chama-se intolerância antifilosófica... A questão da côr não está dirimida entre os filósofos e biólogos. É ainda uma questão de «fé»...isto é, de especulação metafísica.

Mas os autores da prova querem obrigar os professores correctores a segui-los na queda ao precipício do seu míope dogmatismo.

 

NENHUMA PROPOSIÇÃO A POSTERIORI SE CONHECE APENAS COM RECURSO À EXPERIÊNCIA...

Examinemos agora a questão 9 do grupo I, (versão 2) também mal estruturada.

«(9) Diz-se que uma proposição é conhecida a posteriori se é conhecida ...

(A) apenas por recurso ao pensamento.

(B) por todas as pessoas.

(C) apenas pelos empiristas.

(D) apenas por recurso à experiência.»

Crítica: Nenhuma destas quatro respostas é correcta. A proposição conhecida a posteriori é a que deriva da experiência sensorial, como por exemplo: «Hoje está, aqui, um dia quente de verão, de céu azul sem nuvens».

Os autores da prova supunham que a resposta (D) é a correcta mas tal não sucede. Na verdade, uma proposição a posteriori como «Está calor aqui na praia» não se conhece apenas por recurso à experiência ( «Sinto o calor na pele, a areia da praia nos pés, vejo o mar...) mas também por recurso ao pensamento porque, como proposição, implica ideias, juízo, raciocínio que se traduzem na frase.

Uma proposição factual, a posteriori, não é apenas um ver e um sentir esta coisa, esta acção: é uma estruturação pensante - recorre também ao pensamento - desses dados empíricos.

Logo, a resposta correcta seria a (D) se esta tivesse sido formulada do seguinte modo: por recurso à experiência e ao pensamento.

HÁ VÁRIAS OBJECÇÕES, E NÃO APENAS UMA, À INDUÇÃO CIENTÍFICA....

A questão 10 do grupo I (versão 2) está concebida de forma errónea ao pretender uma única resposta certa das quatro possíveis. Vejamos.

«10. A concepção indutivista de ciência enfrenta a objecção seguinte:

(A) muitas teorias científicas têm como objecto factos inobserváveis.

(B) as teorias científicas permitem fazer previsões.

(C) a observação não intervém no desenvolvimento da ciência.

(D) todo o conhecimento científico é a priori

Crítica: No quadro da pergunta, há três respostas certas a esta pergunta: (A), (C) e (D). Por concepção indutivista da ciência entende-se aquela que estabelece leis ou regularidades a partir da generalização (indução amplificante) de alguns exemplos empíricos da mesma natureza. Ora os autores da prova pretendiam que só a (A) é correcta, falhando o ângulo de visão teórica correcta, porque, por exemplo, sustentar que a observação não intervém no desenvolvimento da ciência - e Popper fá-lo no que concerne à criação das ideias científicas- é uma objecção à concepção indutivista da ciência.

 

QUE IDEOLOGIA «FILOSÓFICA» ENFORMA OS TESTES DE EXAME?

 

Há mais erros nesta prova que, oportunamente, revelaremos.

Detecta-se, no tipo de perguntas, no modo de construção da prova,  a preponderância dada pelos autores a um determinado manual: concretamente, A arte de pensar, manual de Filosofia do 11º ano, da Didáctica Editora, de Aires Almeida, Célia Teixeira, Desidério Murcho, Paula Mateus, Pedro Galvão. A escolha das falácias Ad Misericordiam, Apelo à Ignorância e outros pormenores revelam este manual como sua fonte. A verdade é que as orientações de exame dadas aos professores de Filosofia, há meses, não referiram explicitamente estas falácias como de estudo obrigatório para exame e assim só os alunos que estudam por um dado manual de uma dada editora saem beneficiados em relação aos outros... Enfim, camaradas, Todos somos iguais, mas uns são mais iguais do que outros, como no livro de George Orwell.

 

Em tudo isto, temos um exemplo de como o lobby da (sub)filosofia  analítica em Portugal , cristalizado na chamada Sociedade Portuguesa de Filosofia, essa espécie de tecnocratas do pensamento, que fragmentam e reduzem o caule do pensar a definições laminadas, distorcidas, desconexas entre si, sem visão holística, domina o sector de concepção de exames no Ministério da Educação.

 

f.limpo.queiroz@sapo.pt

(Direitos de autor para Francisco Limpo de Faria Queiroz)

 



publicado por Francisco Limpo Queiroz às 16:34
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2 comentários:
De f.limpo.queiroz a 29 de Julho de 2006 às 16:48
Digno de todos os elogios, até porque alertou a tempo o Ministério da Educação para um «afunilamento» do horizonte filosófico levado a cabo por um «lobby» incompetente na área dos exames nacionais de Filosofia, prossegue assim o documento dos professores de Filosofia da Escola Secundária João de Deus, transcrito em parte no comentário anterior:

PARA UMA MELHOR COMPREENSÃO DA RELAÇÃO ENTRE PROGRAMA E ORIENTAÇÕES, APRESENTAMOS UM BREVE HISTORIAL DOS ACONTECIMENTOS PRÉVIOS

Em 22/02/2001 foi homologado um novo programa para a disciplina de filosofia, 10º e 11º anos, a entrar em vigor com a revisão curricular que se previa ser em 2003;
Os programas passam a vigorar no início do ano de 2003/2004; o programa de filosofia não contemplava a existência de exame; este só é introduzido a 26/03/2004.
Só a 19/09/2005 surgiram as Orientações para a leccionação do programa, oriundas do DGIDC (Direcção Geral de Inovação e Desenvolvimento Curricular), e que, embora não dissessem respeito a todas as unidades programáticas, abrangiam a maior parte do mesmo; para tal parecer muito contribuiu a Sociedade Portuguesa de Filosofia, da qual alguns membros são autores de manuais; consultando os cerca de 15 manuais que existem para os dois anos, verificámos imediatamente que as orientações coincidiam quase exclusivamente com o manual A Arte de Pensar (quer no do 10º, quer no do 11º anos), da autoria de quatro sócios dessa sociedade.
Em meados do 2º período, este ano, surge a decisão ministerial de abolir os exames de filosofia no 11º ano. No entanto alguns alunos, por razões de acesso à universidade, continuam a ter necessidade de o realizar
Em 11/01/2005 e em 31/05/2005 surgiram duas informações, emanadas do GAVE (Gabinete de Avaliação de Exames), o primeiro sobre....“aprendizagens e competências que são objecto de avaliação, as características da prova, material a utilizar e duração da mesma”; a segunda (a anteriormente referida nº 08(II)/05, processo nº SE.04.08(II)/2005) fornecia informação :::”sobre a estrutura da prova e exemplos de itens/descrição de tarefas e critérios de classificação”.....

AO LONGO DESTE ANO LECTIVO VÁRIAS FORAM AS VEZES EM QUE ALERTAMOS PARA AS CONTRADIÇÕES, ILEGALIDADES E INJUSTIÇAS QUE ESTA SITUAÇÃO PROVOCAVA. FIZEMO-LO JUNTO DA DIRECÇÃO REGIONAL DE EDUCAÇÃO DO ALGARVE, DO SECRETARIO DE ESTADO DA EDUCAÇÃO, DO CONSELHO NACIONAL DE EDUCAÇÃO, DA SOCIEDADE PORTUGUESA DE FILOSFIA, DA ASSOCIAÇÃO DE PROFESSORES DE FILOSOFIA E, POR ULTIMO, DA PRÓPRIA MINISTA DA EDUCAÇÃO (dos organismos oficiais só recebemos resposta a 13 deste mês, emanada da Direcção de Serviços de Educação Escolar, laconicamente informando que a questão das orientações se encontra “a aguardar uma decisão superior”

Em 28 de Outubro e 11 de Novembro de 2005, escrevíamos “…… a leitura das orientações mostrou-nos não se tratar de uma especificação do programa em vigor mas de um de novo programa. Isto quando o ano escolar decorre há três semanas!
Muitas outras questões se nos levantaram ... mas duas delas apresentam uma pertinência especial:
• perguntamo-nos se o M. E. pretende que os professores improvisem para este ano lectivo;
• perguntamo-nos se o M.-E. tem consciência que essas orientações coincidem grandemente com o conteúdo de um manual à venda, cujos autores são elementos da Sociedade Portuguesa de Filosofia (responsável pelo parecer prestado à DGIDC), que têm o”obra” escrita na Internet defendendo iguais “posições”. Aliás essa organização, neste momento, (meados do 1º período) “corre o país de lés a lés” a vender formação ao corpo docente…. (de notar que, para o programa da revisão curricular, o mistério da educação, em colaboração com os centros de formação de professores, tinha disponibilizado formação a todos os docentes, tendo inclusivamente organizado uma formação de formadores por regiões nacionais; esta formação tinha uma lógica coerente com o programa aprovado e completamente diferente da formação fornecida pelos autores das “orientações”)

Em 22 de Março de 2006 voltámos a escrever “… a informação de que o exame desta disciplina abarcaria apenas o programa do 11º ano, não é solução para as questões com que nos deparamos e que oportunamente colocamos. O ano decorre e encontramo-nos perplexos sobre a orientação a dar às aulas.”



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De f.limpo.queiroz a 29 de Julho de 2006 às 16:40
Foi-nos enviado o seguinte texto do grupo de Professores de Filosofia da Escola Secundária João de Deus que, há meses, alertou, muito inteligentemente, para a desconformidade entre as orientações para exame nacional de Filosofia em Portugal, vinculadas a um grupo restrito e a um manual, e os programas leccionados nas escolas de Portugal:

LIGAÇÕES PERIGOSAS entre UM EXAME (o de FILOSOFIA do 11º ano) e UM MANUAL (A Arte de Pensar)

Agora que os exames já se concretizaram, CONFIRMAMOS A QUASE TOTAL SINTONIA entre a prova de Filosofia (código 714) (elaborado por uma equipa do GAVE, Gabinete de Avaliação dos Exames, do Ministério da Educação) e o manual escolar “A Arte de Pensar” da Didáctica Editora

A 31/05/2005 o GAVE enviou às escolas, a informação nº 08(II)/05, processo nº SE.04.08(II)/2005, com exemplos de perguntas tipo a serem presentes na futura prova de exame de filosofia (714); mas até esta foi desvirtuada; apenas um exemplo: nela, as questões de escolha múltipla diziam respeito ao conteúdo de um texto apresentado e, no exame, testaram conceitos e domínios de reflexão filosófica fora de qualquer enquadramento, questões onde não pode existir apenas uma opção de resposta (a verdadeira?!), porque implicam referentes teóricos ou linhas de pensamento diversificadas – casos das questões 8 e 10, do I Grupo, onde a única resposta considerada correcta é a defendida por uma facção filosófica, aquela que está subjacente a esse manual.

Analisando os critérios de correcção desta prova,1ª Fase, verificamos que:
• a terminologia e conceitos usados são quase exclusivos do manual “Arte de Pensar”, da autoria de alguns elementos da Sociedade Portuguesa de Filosofia, a grande ideóloga das orientações e defensora da filosofia analítica (por exemplo, o conceito de crença verdadeira justificada – III Grupo, questão 1)- ver páginas 101 e anteriores, do referido manual;
• os exemplos e as respostas consideradas correctas são os defendidos por uma determinada corrente, a da filosofia analítica, no imenso universo aberto, de debate e argumentação, que é o da reflexão filosófica (por exemplo, os casos já referidos das questões 8 e 10, do I Grupo, e no III Grupo, a questão 2); com a agravante de que essa corrente tem como referentes uma tendência minoritária na tradição do pensamento português e europeu;
• a “catalogação” das teorias e respectivos filósofos de referência, apresentados nos critérios de correcção para a resposta 3, do III Grupo, não aparecem em nenhum documento oficial relativo ao novo programa de filosofia, nem sequer fazem parte dos acrescidos nas “orientações para a leccionação de filosofia” ; mais um caso em que a única fonte é o manual”A Arte de Pensar”- ver páginas e 116, 127 e seguintes, do referido manual;
• na 2ª questão, do grupo III, há uma discrepância evidente entre aquilo a que a pergunta se reporta (crítica, de Descartes, à fundamentação dos cépticos) e o que os critérios de correcção propõem (para se atingir o nível 3 de desempenho basta explicar a ideia central da filosofia cartesiana);
• – na questão 2, do Grupo III, pressupõe-se que o aluno (e o professor) conhece os mecanismo de justificação das crenças de um conhecimento muito específico, o da astrologia, e tal não é previsível nesta disciplina; quando muito, esse conhecimento decorrerá do senso comum, por natureza vago e difuso; mas, caso interessante, no referido manual, página 97, aparece um exemplo semelhante ao que é proposto nos critérios para a correcção desta pergunta.

Tudo isto nos confronta com uma desigualdade de dimensão nacional: a situação em que os alunos se apresentaram a exame é totalmente diferente.
Para quem foi treinado no manual “A Arte de pensar”, algumas respostas podem ter resultado de puro condicionamento e o nível de desempenho 3 reduzir-se a memorização e aplicação em situações por demais conhecidas.
Para os outros alunos, as questões poderiam ter testado a capacidade de esses alunos aplicarem conhecimentos em situações novas, caso não tivessem os critérios “fechado” as opções aceitáveis e excluído todas as respostas decorrentes de teorias alternativas, não previstas nesse manual.

Faro, 26 de Julho de 2006

Os professores do Departamento de Filosofia da
Escola Secundária João de Deus





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