Sexta-feira, 5 de Janeiro de 2007
Pode separar-se a ética das religiões em geral?

 

Alguns procuram cientificizar a ética (doutrina do bem e do mal em ordem ao comportamento humano) compartimentando-a, separando-a das religiões no seio das quais nasceu e se desenvolveu. É óbvio que há uma ética laicista que saiu do óvulo das religiões tradicionais mas outra ética antiga permaneceu dentro destas. Atentemos na visão e nas definições que nos propõe Desidério Murcho no seu artigo «O que é a Filosofia»:

 

«Comecemos pela ética. A ética não estuda os preconceitos comportamentais -- preconceitos como a ideia católica de que os homossexuais não podem casar e que ninguém deve ter relações sexuais antes do casamento. A ética nada tem a ver com este tipo de coisas. Este tipo de coisas emana de um certo código religioso de comportamentos, que pouco se relaciona na verdade com a ética -- é apenas uma manifestação de uma certa visão religiosa do mundo. Faz-se por vezes uma distinção entre "moral" e "ética" querendo reservar para esta última a acepção filosófica, ao passo que a primeira se referiria aos costumes sociais. Mas esta distinção é artificiosa e caiu em desuso desde há muito tempo.

«A ética ocupa-se de vários tipos de problemas bastante distintos. Os mais fáceis de compreender são os da ética aplicada, que se ocupa de problemas como o aborto e a eutanásia. Será o aborto um mal que deve ser proibido? Repare-se que não se trata de saber se o aborto é um mal aos olhos de Deus ou do Papa ou de qualquer confissão religiosa; trata-se de saber se o aborto é, eticamente, e à luz da nossa razão, algo que deve ser proibido, tal como o assassínio é proibido independentemente das religiões. O que ocupa a reflexão filosófica não é apenas a tentativa de dizer "Sim, o aborto é um mal" ou "Não, o aborto não é um mal". O que distingue a reflexão filosófica é a fundamentação racional: os argumentos que sustentam as nossas posições. O que importa são os argumentos que se apresentam para dizer que sim ao aborto ou para dizer que não. O trabalho da filosofia consiste em estudar esses argumentos e avaliá-los criticamente. A filosofia é algo que cada um faz com a sua própria cabeça, em diálogo crítico com os outros. A filosofia não consiste em ler textos e "comentar" o que esses textos dizem. A filosofia consiste em pensar nos mesmos problemas que são tratados nesses textos, o que é muito, muito diferente. »

«Mas a ética ocupa-se de outras questões menos óbvias. Por exemplo, o que quer dizer "Matar inocentes é um mal" ou "Não devemos matar inocentes"? O que quer realmente dizer a palavra "dever"? Este tipo de problema é enfrentado pelo que se chama "metaética". A metaética ocupa-se da questão de saber qual é a natureza do juízo ético. É a área mais geral e conceptual da ética. Há várias teorias que tentam responder a este problema, algumas delas tecnicamente bastante complexas e precisas. » (Desidério Murcho, «O que é a filosofia», in
www.pensologosou (o negrito é posto por mim).

Desidério Murcho usa a falácia da popularidade ou da mediatização ao escrever que a distinção entre ética e moral «é artificiosa e caiu em desuso desde há muito tempo». Na verdade, ética deriva de ethos que em grego significa carácter e moral deriva de mores que em latim significa costumes. Carácter e costumes não são exactamente o mesmo, ainda que se relacionem de perto. O carácter é capaz de rasgos individuais que quebram os costumes, que não fazem parte destes. É pertinente distinguir ética de moral, ainda que eu não me oponha aos que as identificam como sendo o mesmo.

 

Ao contrário do que sustenta Desidério Murcho, os preconceitos católicos contra o casamento homossexual e contra as relações sexuais antes do casamento são atitudes que transportam valores éticos, encontram-se no cerne da ética e esta estuda-os. Há ética religiosa e ética não-religiosa.

 

Desidério procura desligar, sem sucesso, a ética das religiões - tarefa impossível para um pensador imparcial, objectivo. Chega a ter graça: o Desidério que se levanta indignado contra a «morte da filosofia» decretada por alguns no século XIX com a invasão do positivismo na sua faceta extrema de cientismo, tenta construir um espaço de ética «científica» que, sofisticamente, nega às religiões a componente ética essencial destas. Reintroduz, pela porta do cavalo, no palácio da ética, o cientismo que, aos gritos, «expulsou» pela porta da frente em nome da «liberdade filosófica».

 

Dito de outra maneira: nega-se às religiões domínios  sobre a ética, para que esta seja propriedade de Desidério e dos seus amigos, Sumos Sacerdotes da Religião (encapotada) da Ética Aplicada e da Metaética...

Não existe ética científica: toda a ética é subjectiva ou intersubjectiva. A ética do proletário não coincide por completo com a do capitalista, a ética do ladrão não coincide com a do polícia, a ética do heterossexual não coincide com a do gay...

 

O facto de Desidério ser, por hipótese, a favor do aborto livre «à luz da sua razão» não torna a sua posição eticamente mais científica do que a do papa que condena o aborto livre à luz da «revelação divina». Havia gnósticos no século II DC que sustentavam posição favorável ao aborto, em nome da divindade.

A suposta «ética racional científica» que Desidério Murcho e os seus amigos sustentam não existe: é uma apenas, entre várias leituras possíveis do bem e do mal no comportamento humano (perspectivismo), leituras essas que são, todas elas, um misto de irracionalismo e racionalismo.

Na base de todas as racionalidades, éticas ou de outra natureza, há um elemento irracional, impenetrável, opaco.

 

f.limpo.queiroz@sapo.pt

(Direitos de autor para Francisco Limpo de Faria Queiroz)



publicado por Francisco Limpo Queiroz às 14:44
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