Domingo, 11 de Março de 2007
São o cepticismo e o relativismo formas de irracionalismo?

No seu artigo Epistemologia: Cepticismo, Relativismo e a Defesa da Razão (Plano de Curso), Eduardo Chaves, professor universitário no Brasil, afirma:


«A filosofia é, por muitos, considerada a mais perfeita expressão da racionalidade humana.»


«No entanto, a razão é freqüentemente utilizada para combater a razão. Dentro da filosofia existe uma corrente irracionalista tão forte que, atravessando os milênios, encontra no século XX um terreno fértil para a sua propagação. É a razão que perdeu o rumo, e que tenta agora demonstrar sua própria fragilidade.»


«As principais armas do irracionalismo são o ceticismo e o relativismo.»


«O ceticismo é, fundamentalmente, a tese de que a verdade e o conhecimento não existem. Só existem pontos de vista, opiniões, crenças, coisas desse tipo. Mas nada disso é verdade, nada disso merece o título de conhecimento. Os pontos de vista que adotamos (se é que adotamos algum) são tão inválidos quanto quaisquer outros.»


«O relativismo é, fundamentalmente, a tese de que a verdade e o conhecimento existem, mas cada época, cada cultura, ou mesmo cada indivíduo, tem a sua verdade e o seu conhecimento. O relativismo, no fundo, afirma que tudo pode ser verdade, dependendo do contexto. Quaisquer outros pontos de vista são tão válidos quanto os que adotamos.»


«Note-se que tanto o ceticismo como o relativismo apelam para sentimentos nobres.» (Eduardo Chaves, in www.chaves.com.br ; o negrito é nosso).


Classificar o cepticismo e o relativismo como correntes anti racionalistas é um erro profundo.


Afinal o que entende Eduardo Chaves por racionalismo? A nosso ver, racionalismo é  toda e qualquer corrente que coloca a razão como fonte principal ou exclusiva do conhecimento humano, desvalorizando ou mesmo anulando as sensações e percepções empíricas. Só que há muitas modalidades de racionalismo: o cepticismo é uma delas, o relativismo, que em em muitos casos é um dogmatismo mutabilista, é outra.


Se um céptico afirma: «Duvido de esta árvore e este campo diante de mim serem reais e de os outros existirem», está a pensar racionalmente, a assumir uma forma de racionalismo. Se um dogmático afirma: «Esta árvore e este campo existem, seguramente, embora os meus olhos e narinas mos possam reproduzir de maneira deformada» assume outra forma de racionalismo.


Eduardo Chaves não se dá conta, sequer, que a palavra relativismo comporta duas definições diferentes e uma delas não se compatibiliza com sua definição de que «o relativismo, no fundo, afirma que tudo pode ser verdade»...


O que vale a Universidade, especialmente em matéria de Filosofia? Que competência possuem os «filósofos» que nelas ocupam cátedras?  Tirar um doutoramento em filosofia não prova que se pense com profundidade, como é o caso acima. Para ser filósofo, não é necessário tirar curso de filosofia nas instituições oficiais ou privadas: é necessário, sim, meditar, pensar com profundidade e originalidade, possuir um olhar crítico agudo e, quase obrigatoriamente, conhecer em detalhe algumas dezenas ou centenas de obras de filósofos consagrados e o respectivo vocabulário.


 f.limpo.queiroz@sapo.pt


www.filosofar.blogs.sapo.


(Direitos de autor para Francisco Limpo de Faria Queiroz)




publicado por Francisco Limpo Queiroz às 12:24
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