Sexta-feira, 27 de Abril de 2007
Determinismo, Causalismo e Fatalismo (Crítica de Manuais Escolares XII)

 


É geral, em manuais escolares e dicionários de filosofia, o equívoco sobre o conceito de determinismo.


Assim num manual escolar português intitulado «Filosofia 10º ano», da Plátano Editora, está escrito:


«Os partidários do determinismo negam a liberdade. O determinismo é a doutrina que afirma que tudo o que acontece, quer no mundo físico quer no mundo humano, tem uma causa. Tudo o que fazemos é um acontecimento determinado (causado)  por um conjunto de acontecimentos anteriores e a ideia de que efectuamos escolhas ou decisões é uma ilusão que se deve ao facto de não termos consciência plena dos eventos que nos determinaram a fazer o que fizemos. Esta é a versão extrema ou "dura" do determinismo. Fala-se também de determinismo soft, menos radical, mas a conclusão a que se chega é a de que , se o determinismo duro não admite que faça sentido falar de decisões e de escolhas, o determinismo soft (mitigado) admite que realizamos escolhas, mas estas já estão determinadas pela hereditariedade (pelo património genético) e pelo meio ambiente (pela educação, pela socialização, pelas pressões sociais interiorizadas). Por outras palavras, efectuamos escolhas, mas não há liberdade de escolha»


(Luís Rodrigues, «Filosofia 10º ano», Plátano Editora, Lisboa, 2003, pag.62)


Ao definir determinismo como a doutrina segundo a qual tudo o que acontece tem uma causa, Luís Rodrigues comete um erro. De facto, está a definir causalismo e não determinismo. O erro é duplo, no texto acima, porque identifica determinismo com fatalismo, teoria segundo a qual a liberdade não existe visto haver a predestinação de tudo: Luís Rodrigues afirma que o determinismo soft só possui liberdade aparente de escolha e que em ambas as versões do determinismo não há liberdade de escolha real.


Luís Rodrigues, como a  generalidade dos autores de manuais escolares e dicionários de filosofia, parece ignorar que a noção de causa não é exclusiva do determinismo. Este é a doutrina segundo a qual nas mesmas circunstâncias, as mesmas causas produzem sempre os mesmos efeitos. Ora a definição de determinismo, que envolve a ideia de repetição, igualdade entre causas correspondendo a uma igualdade de efeitos, é substancialmente diferente da definição segundo a qual tudo tem uma causa (causalismo).


Além do mais, determinismo não exclui livre arbítrio: são complementares. O livre-arbítrio é o indeterminismo (de certo modo, um deus originário) que põe em marcha este ou aquele mecanismo do determinismo. Um jogador de futebol é livre de falhar um penalty propositadamente, atirando ao lado da baliza, ainda que a trajectória da bola obedeça ao determinismo do pontapé, do atrito do ar e da relva, da velocidade, etc.


Os físicos, os químicos, os biólogos sabem perfeitamente que o determinismo se conjuga com o livre-arbítrio (libertismo): sempre que  juntarmos numa tina ácido clorídrico com sódio, obter-se-á cloreto de sódio mais água - e isto é determinismo - mas podemos fazê-lo uma vez por semana ou uma vez por ano, nos dias que nos aprouver, no laboratório A da escola secundária ou numa garagem - e isto é livre-arbítrio, libertismo.


O espantoso é haver autores de manuais de filosofia - que deveriam iluminar os cientistas «não filosóficos»- incapazes de um pensamento claro, dialéctico nesta matéria.


www.filosofar.blogs.sapo.p


f.limpo.queiroz@sapo.pt


(Direitos de autor para Francisco Limpo de Faria Queiroz)



publicado por Francisco Limpo Queiroz às 16:09
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