Terça-feira, 17 de Julho de 2007
Erros no Exame de Filosofia 714, de Julho de 2007, em Portugal

 


O exame 714 de Filosofia  do 10º e 11º anos de escolaridade , 2ª fase, realizado em Julho de 2007, em Portugal, está repleto de questões mal construídas que deveriam levar à sua impugnação.  Basta que milhares de alunos e encarregados de educação ponham a circular por internet um abaixo assinado com a fundamentação que abaixo se explicita e o entreguem à ministra da Educação, aos sindicatos de professores, à imprensa em geral, aos tribunais  e ao parlamento português. Vejamos alguns exemplos dessa deficiente estrutura das questões.


GRUPO I- QUESTÃO 1


«1. Em qual das seguintes opções é formulado um problema filosófico?


(A) Porque é que há pessoas que se suicidam?


(B) Será que há regras morais absolutas?


(C) Haverá seres extraterrestres inteligentes?


(D) Foi a filosofia de Kant influenciada pela sua educação religiosa?»


Resposta oficial (imposta pelos critérios de correcção emanados do Ministério da Educação): a hipótese B é a única certa...


Resposta correcta (ao arrepio destes critérios): As opções A ( indagação do suicídio) , B e C ( indagação da inteligência extraterrestre) formulam problemas filosóficos.


Então o suicídio, que Albert Camus classificou como o único problema realmente filosófico da vida, não contém um problema filosófico?  E não é filosofia interrogarmo-nos sobre a existência de seres extra terrestres inteligentes?


Francamente! Os autores desta prova de exame são, seguramente, pessoas filosoficamente míopes... E quem vai ressarcir os milhares de estudantes que responderam, correctamente, opção A ou opção C e viram reduzida a zero as suas cotações de resposta?


GRUPO I- QUESTÃO 2


«2. O relativismo moral enfrenta a objecção seguinte:


(A) Se os relativistas tivessem razão, não teríamos legitimidade para condenar as culturas que discriminam as mulheres.


(B) Uma vez que existem muitas culturas, devemos tentar compreender as suas diferenças e aprender a viver com elas.


(C) Se existisse a possibilidade de encontrarmos normas morais universalmente válidas, as diferenças culturais desapareceriam.


(D) Uma vez que não há normas morais universalmente válidas, podemos condenar tanto outras culturas como a nossa.»


Resposta oficial (critérios de correcção do Ministério): a opção A é a única certa.


Resposta correcta (não oficial): Nenhuma das quatro opções constitui uma objecção ao relativismo moral.


O erro de construção desta pergunta reside na concepção equívoca de relativismo (patente por exemplo no Manual de Filosofia «Arte de Pensar» de Desidério Murcho e António Paulo Costa, Lisboa Editora): o relativismo é interpretado como um neutralismo igualizador das diferentes doutrinas e visões do mundo quando não é nada disso.


O relativismo moral- reconhecimento de que os valores de bem e mal variam de acordo com os povos, a geografia terrestre, as épocas da história e de que é impossível impôr uma perspectiva única- não implica que se valore por igual as diferentes perspectivas e se caia no cepticismo axiológico. Ora se os critérios de correcção desta prova indicam a opção A isso supõe que assentam na seguinte definição (errónea): «os relativistas acham que a verdade é relativa às culturas, povos, épocas, etc, logo não é possível criticar nenhuma forma de cultura, incluídas as que discriminam as mulheres..»


Mas isto não é o relativismo em geral. É o relativismo adicionado de cepticismo. Há relativismo adicionado de dogmatismo axiológico como é o caso, por exemplo, dos democratas liberais que são, em regra, relativistas morais- sabem, por exemplo,  que o «bem» não é o mesmo em democracia liberal e no nazi fascismo, admitem que o comunismo também possui verdade no plano dos direitos sociais dos trabalhadores ... - mas preferem a democracia liberal ao fascismo e ao estalinismo. Isto não foi meditado pelos autores desta prova de exame que não são, nem de perto nem de longe, pessoas genuinamente filosóficas.


Acrescente-se que nos critérios específicos de correcção do exame 714 devia vir inscrita a definição de relativismo perfilhada pelos autores da prova. Ora nada está escrito.  Fornece-se a chave «certa» e já está...Ignoram os autores da prova  que há várias modalidades de relativismo: relativismo sincrónico diferencialista, relativismo sincrónico indiferentista, relativismo diacrónico, etc.


Foi uma dessas definições - a de relativismo sincrónico indiferentista -que os autores da prova adoptaram, sem terem consciência das outras. Daí a questão estar mal concebida.


 


GRUPO I-QUESTÃO 4


«4. Um dos problemas da justificação do Estado consiste em procurar saber...


(A) como se deve escolher o governo do Estado.


(B) qual é o melhor regime político para governar o Estado.


(C) o que legitima a autoridade do Estado.


(D) em que aspectos da nossa vida pode o Estado interferir.»


Resposta oficial (critérios do Ministério): só a opção C está certa.


Resposta correcta (não oficial): as opções A,B,C e D estão certas, dado que todas elas, justificam, de uma maneira ou de outra, o Estado.


O que é justificar? É fundamentar, racional e empiricamente, uma tese , um argumento.


Ora a definição de como se deve escolher o governo do Estado (opção A) justifica esse mesmo Estado. Exemplo: « O governo deve ser escolhido a partir de um parlamento eleito livremente por sufrágio universal. Logo este tipo de escolha justifica o Estado liberal democrático».


Do mesmo modo, a escolha do melhor regime político para governar o Estado (opção B)  - exemplo: na Espanha de hoje, decidir se o regime deve ser monárquico ou republicano - justifica o Estado.


A opção C é válida - nisso concordamos, nós e os autores da prova.


Determinar os aspectos em que o Estado pode interferir (opção D) - exemplo: em certas circunstâncias, pode levar a cabo escutas telefónicas e deter cidadãos ou fazer as forças policiais dissolver manifestações de rua; não pode interferir no conteúdo da informação veiculada pelos media... - justifica igualmente o Estado. Não é apenas a consequência de uma fundamentação prévia: o fundamentado volve-se também fundamento (reversibilidade de opostos). Comparação: se Deus fundamenta ou justifica o Homem (na visão dos crentes) o Homem, a posteriori, justifica, de certo modo, Deus.


Note-se que os critérios de classificação oficial das 10 questões do grupo I - que se centram em conceitos como problema filosófico, relativismo, juízo de valor, dilema, cepticismo, etc... -  são vazios, não contêm definição alguma. Apenas a cotação. Será isto um sintoma da «má consciência» , da fragilidade intelectual dos autores da prova que não quiseram arriscar ser confrontados com o rigor filosófico de muitos dos professores correctores?


Quanto à cotação dos critérios de classificação das respostas de outros grupos, respaldadas em itens pomposos e vagos como «descritores do nível de desempenho» no domínios da disciplina e da lingua portuguesa, padece do absurdo de impor uma escala descontinuísta (baseada em quê, em concreto?). Um exemplo: a pergunta 1.1 do grupo III vale 20 pontos mas só pode ser classificada com as cotações seguintes: 6,7,8,10,11,12, 14,15,16, 18,19, 20.  Porque impedem os correctores de atribuir 3, 4, 5 , 9, 13 ou 17 pontos? Com que fundamento?


«Minúcias» de autores de prova que com esta injustificada ditadura dos números visam subordinar os professores correctores à sua autoridade e dar uma aparência de «alta qualidade científica»...


 


GRUPO I- QUESTÃO 6


«6. Qual das seguintes opções é um argumento por analogia?


(A) Conservar a saúde é importante. Ora, o controlo do peso é indispensável para conservar. Além disso, é falso que «a gordura é formusura».


(B) Um edifício, para não cair na ruína, tem de ser conservado pelos seus proprietários. O teu corpo é como um edifício. Por isso, se não o conservares, ele arruinar-se-á.


(C) Um edifício tem de ser conservado pelos seus proprietários. Como o teu corpo é um edifício, tu és o proprietário do teu corpo.


(D) Conservar a saúde é importante. Como o controlo do peso é indispensável para conservar a saúde, deves controlar o teu peso».


Resposta oficial (critérios de correcção do Ministério): só a opção B está certa.


Resposta correcta (não oficial): as opções B e C são argumentos por analogia, porque em ambas se compara o corpo humano a algo de completamente distinto (analogia) , isto é, a um edifício.


É certo que o raciocínio de analogia contido na opção B é mais perfeito do que o raciocínio de analogia patente na opção C, mas a analogia existe em ambos. Logo há duas respostas certas e não uma...


GRUPO I-QUESTÃO 8


«8. El Baradei, director da Agência Internacional de Energia Atómica, agraciado em 2005 com o Prémio Nobel da Paz, afirmou que, em 2005, existiam 27 mil ogivas nucleares no planeta. Logo, em 2005, existiam 27 mil ogivas nucleares no planeta.


Este argumento é:


(A) inaceitável, porque El Baradei está a fazer afirmações tendenciosas.


(B) aceitável, porque, em 2005, existiam 27 mil ogivas nucleares no planeta.


(C) inaceitável, porque incorre numa petição de princípio.


(D) aceitável, porque a autoridade invocada é uma autoridade qualificada.»


Resposta oficial do Ministério: só a opção (D) está certa.


Resposta correcta (não oficial): as opções B e D são correctas.


De facto, o argumento B é aceitável se repousa na «autoridade dos factos empíricos». Se El Baradei ou um desconhecido  funcionário de um qualquer Ministério da Defesa citarem, com base nos dados existentes, as 27 000 ogivas nucleares disseminadas no planeta Terra, é um argumento aceitável. Ou só as autoridades qualificadas possuem argumentos aceitáveis?


Portanto, uma vez mais a estreiteza da inteligência dos autores da prova prejudica milhares de alunos que tenham respondido B...


 


GRUPO I-QUESTÃO 10


«10. Segundo Popper uma teoria é falsificável se...


(A) tiver sido falsificada.


(B) ainda não tiver sido empiricamente testada


(C) não for científica


(D) for possível conceber um teste empírico que a refute.»


Resposta oficial (critérios de correcção do Ministério): a opção D é a única certa.


Resposta correcta (não oficial): as opções A, B e D estão correctas.


Na verdade, pode alguém negar (opção A) que se uma teoria tiver sido falsificada - exemplo: uma experiência feita por um alquimista com a «pedra filosofal» que não tenha transformado o cobre ou o chumbo em ouro e portanto fizesse fracassar a teoria da transmutação de qualquer metal em ouro.. - continua a ser uma teoria falsificável, segundo Poper?


E pode alguém negar (opção B) que uma teoria ainda não empiricamente testada (exclui-se, obviamente, a religião) é falsificável , segundo PopperFalsificável significa que revelará, mais tarde ou mais cedo, excepções, anomalias à lei empírica geral.


Mais uma questão mal concebida que vai injustiçar milhares de alunos que pensam filosoficamente. É paradoxal que este exame peça constantemente ao aluno que «formule o problema filosófico em causa» quando os autores do exame são, como se vê, incapazes de formular filosoficamente a amplitude real das respostas possíveis às questões que estruturaram... Os aprendizes de feiticeiro da filosofia desencadearam forças para as quais não possuem inteligência bastante.


É provável que este exame tenha a chancela da Sociedade Portuguesa de Filosofia. Mas o que é a SPF senão um lobby, um grupo de professores, quase todos saídos do ensino secundário em Portugal, ávidos de prestígio, de protagonismo e lucro editorial, sem que haja entre eles um único pensador filosófico genuíno, cujo activismo e cujas incoerências de pensamento são visíveis no «crítica na rede»?


Se os exames de Biologia e Química e Física foram impugnados, em tribunal em Junho e Julho deste ano por conterem uma questão mal elaborada cada um, de que se está à espera quanto a esta prova 714 de Filosofia?


www.filosofar.blogs.sapo.pt


f.limpo.queiroz@sapo.pt


© (Direitos de autor para Francisco Limpo de Faria Queiroz)



 



publicado por Francisco Limpo Queiroz às 17:13
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21 comentários:
De f.limpo.queiroz a 23 de Julho de 2007 às 11:16
Caro Manuel, agradeço as suas observações. Faço notar, no entanto que a posição que o Manuel me atribui sobre o «absolutismo de valores» não é a definição que dou: sustento que o absolutista de valores possui toda a gama de informação sobre o mosaico de valores a nível mundial (exemplo: a Igreja Católica antes do Vaticano II estava informada sobre o conteudo de todas as religiões do mundo mas sustentava que «a salvação da alma só é possível dentro da Igreja Católica ) mas exclui toda e qualquer forma de ecletismo, de variabilidade dos conceitos de «bem», «mal», etc.

Continuo a pensar que o Manuel vincula o termo relativismo a um cepticismo axiológico, o que, quanto a mim, é uma interpretação estreita da palavra relativismo. Há um cepticismo relativista (definição usada pelos autores da prova 714, sem terem consciência disso, uma vez que não se aperceberam da gama de colorações que a palavra relativismo implica...) e há um dogmatismo relativista (aquilo a que eu chamo o relativismo diferencialista).

Como classificaria a posição de Hegel ao sustentar que em todas as religiões, até no homem que venera o crocodilo como deus, há um certo grau de apreensão da verdade de Deus («a verdade é o Todo das diferentes perspectivas» segundo Hegel) ainda que o protestantismo seja a melhor e mais verdadeira perspectiva de apreender Deus? Chamaria relativista ou não relativista a Hegel nesta matéria?

Eu sustento que esta posição de Hegel é dogmatismo relativista (a verdade é relativa às diferentes religiões, não está concentrada numa só) ou relativismo diferencialista - que está longe do relativismo céptico do «não se conhece o grau de verdade de cada uma, valem todas o mesmo».

O conceito de relativismo na teoria relativista de Einstein ilustra, de certo modo, o que se deve entender por relativismo: não é impossibilidade de formular o dogma, mas a sua formulação a partir de perspectivas diferentes, com valores diferentes.

Veja o caso do perspectivismo de Nietzchze - se puder veja o meu artigo «Perspectivismo e ecletismo (Crítica de Manuais Escolares-II) neste blog, de 4 de Fevereiro de 2006. O perspectivismo de Nietzschze é um relativismo - reconhece que não há uma verdade absoluta mas infinitas perspectivas de verdade. Essa é a base gnosiológica geral do relativismo. Mas concluir daí que não é possível optar porque «há muitas perspectivas, logo nenhuma é criticável» é adicionar cepticismo ao relativismo, não constitui a essência deste.

Insisto que há outra via de relativismo: considerar que há infinitas perspectivas mas hierarquizá-las segundo graus crescentes ou decrescentes de verdade (moral, política, etc). Nietzchze fez isso: foi relativista dogmático, sustentou que a verdade é o Eterno Retorno e o domínio incontestado da aristocracia sobre a plebe e a burguesia. Chamo a isto relativismo diferencialista. É certo que há democratas que não são relativistas dogmáticos, mas sim absolutistas: «o único sistema político aceitável no mundo é a democracia liberal, com eleições e imprensa, livre, etc, e sob pretexto nenhum se podem limitar ou restringir as liberdades». Mas a maioria dos democratas não pensa assim: quando na Argélia há mais de uma década a Frente de Salvação Islâmica venceu de facto as eleições legislativas, houve um golpe militar pró-ocidental para impedir este triunfo e os democratas do Ocidente (Soares, Chirac, Clinton, etc) relativizaram o seu conceito de eleições livres como legitimadoras e aceitaram o golpe ditatorial.

Que os manuais de filosofia e as enciclopédias não façam estas distinções é apenas o sintoma de que nas cátedras e editoras de filosofia se pensa insuficientemente e se tomam como seguros, a uma luz unilateral, conceitos que são muito mais ricos do que supunhamos. E com a avalancha actual de mestrados e doutoramentos, pagos como vulgares mercadorias do sistema capitalista que são, não podemos esperar profundidade filosófica da grande maioria dos titulados...

Aproveito para informar os professores e alunos de filosofia que visitam este blog que hoje acrescentei ao artigo acima «Erros do Exame 714..» a crítica à questão 4 do grupo I e à escala de cotações descontínuas impostas aos correctores...


De Manuel Trindade a 23 de Julho de 2007 às 00:02
Francisco, cumprimento-o pela sua independência intelectual, nomeadamente em relação aos filósofos da ciência, mas recordo que o que estava em causa nesta discussão era a prova de filosofia. Não há-de querer que o enunciado de uma prova nacional consagre pontos de vista residuais em vez daquilo que é aceite pela generalidade dos especialistas!

Quanto ao relativismo: o ponto crucial está justamente nas consequências da sua caraterização para a distinção relativismo/"absolutismo". A mim, de novo, parece-me que uma consequência indesejável da sua caraterização é a de o absolutista ser apenas uma pessoa que não tem em conta toda a informação disponível, por exemplo acerca da diversidade dos padrões morais existentes. O relativismo seria, quase por definição, o ponto de vista correcto, e as discussões actuais sobre o tema nem sequer fariam sentido. Digamos que isto é altamente improvável. E, crucialmente, não me parece que o Francisco consiga caracerizar o seu "relativismo diferencialista" coerentemente: o seu exemplo da homosexualidade soa-me perfeitamente absolutista: o de alguém que é heterosexual mas que aceita a legitimidade do amor homo (exactamente a minha posição, e eu não me considero relativista de nenhuma espécie). Repare que não estão aqui em causa crenças diferentes, mas apenas tendências sexuais diferentes, de modo que o exemplo não lhe serve. Para a sua caracterização resultar, teriamos de ter um exemplo como o dos pontos de vista acerca do melhor sistema político, por exemplo. Algo como "eu sou democrata, mas aceito que no Zimbabwe ou na Birmânia a democracia não seja a melhor opção". Mas isto é o relativismo tal como eu o caracterizei (de acordo aliás com a melhor doutrina), e não o seu "relativismo diferencialista". Ou seja: aqui a democracia é o melhor, mas lá não é, porque o contexto, a história, as mentalidades, etc são diferentes. Não vejo como a sua "síntese" hegeliana entra aqui.

A propósito, tomo a liberdade de referir a excelente entrada sobre o tema na Standford Encyclopedia of Philosophy: http://plato.stanford.edu/entries/relativism

De novo, mesmo que tivesse razão, acontece que a sua visão "tripartida" está longe de correponder ao que é a caracterização canónica do debate sobre o relativismo, e o enunciado do exame seria criticável se o tivesse em conta...

Cumprimentos.
MT


De f.limpo.queiroz a 22 de Julho de 2007 às 01:05
Em minha opinião, Manuel, há que distinguir entre relativismo sincrónico ( a verdade varia de país para país, de classe a classe social, etc, num mesmo mês, ano ou época) e relativismo diacrónico «objectivista» ( a verdade moral é universal e objectiva num dado ano ou época no mundo inteiro, embora varie na sucessão das épocas).

Esta distinção não é feita nos manuais de filosofia em voga nem nas obras da especialidade (Hessen, Dancy..) mas deveria sê-lo.

Falemos então do relativismo sincrónico. Divide-se, na terminologia que criei, em diferencialista ( exemplo: sou partidário do regime dos conselhos operários baseados na autogestão para os países industrializados pequenos e médios mas relativizo esta opção ao aceitar outros tipos de regime em países diferentes de outros continentes, regimes que me agradam MENOS...) e em indiferentista (exemplo: há muitos tipos de atitudes culturais em relação às mulheres no mundo, desde elevar a mulher a primeiro ministro até à escravidão e aniquilamento da mulher, logo todas essas atitudes são aceitáveis..).

A prova 714 no Grupo I supunha implicitamente esta ultima definição de relativismo indiferentista mas o relativismo, em geral, não é isso.

O democrata, em geral, é relativista diferencialista: reconhece o mosaico da diversidade e não procura homogeneizá-lo de forma totalitária, mas opta preferencialmente por uma ideologia, a sua, frente aos fascismos e ao estalinismo. É dogmatico («A democracia liberal exprime a vontade popular, de forma livre, o fascismo e o estalinismo não») e relativista («Reconheço que na democracia liberal nem tudo é perfeito, que no estalinismo há menos desemprego que no regime liberal e que no fascismo há menos toxicodependência do que na democracia... mas opto por esta»). Ser relativista não implica valorar tudo por igual, mas sim reconhecer que um valor moral determinado está distribuído, desigualmente, na diversidade das perspectivas e optar por uma delas. É óbvio que o crente fanático que diz que só a sua religião possui a verdade, as chaves da salvação, não é um relativista, mas um absolutista. Mas o clérigo católico progressista que admite que em todas as religiões os crentes se podem salvar é um relativista.. sem deixar de perfilhar a missa, a confissão e a veneração das imagens tradicionais no catolicismo como sendo o melhor culto.

Quando lhe digo que os comunistas são relativistas apesar da sua rigidez estratégica, dou-lhe um exemplo que me parece claro: durante a campanha eleitoral para as presidenciais, de 26 de Janeiro de 1986, o PCP apoiou Zenha e atacou Mário Soares (PS) e Freitas do Amaral (PSD-CDS) classificando-os como candidatos da reacção. Ao constatar que estes dois ultimos passaram à segunda volta, o PCP relativizou, (no fundo o pensar dialéctico suscita o relativismo), rectificou o seu juízo sobre Soares, apelando a votar nele.. contra Freitas.

Isto é relativismo diferenciador: há várias verdades ou perspectivas políticas e nós optamos a cada momento por aquela que mais convém, não estamos fixos a uma «verdade absoluta». Não há aqui o conceito de relativismo indiferentista do «vale tudo o mesmo, não se pode criticar nada» que é o único veiculado pelos manuais de filosofia em voga e que está subjacente à prova 714. Esta última concepção é um cepticismo axiológico (não se conhece o bem e o mal, há que aceitar por igual todas as interpretações).

Aceito que se possa designar como relativismo indiferentista mas sublinho a existência do outro relativismo (diferencialista) que considera haver várias vias de verdade moral hierarquizáveis entre si, isto é, uma com maior grau de verdade e outras com menor grau, de forma escalonada.

O democrata liberal é um relativista quando aceita, em circunstâncias excepcionais, a supressão temporária da democracia liberal que defende em nome da luta «contra o terrorismo» ou do «perigo de uma guerra civil». No entanto, não valora por igual a existência de liberdades públicas e a sua supressão, antes prefere as primeiras. Não é indiferente. Não diz, com um cepticismo axiológico implícito: «Vale tudo o mesmo».

Vamos agora à questão que o Manuel põe: se é assim, se o democrata é, na minha (de Francisco) opinião, um relativista «musculado», diferenciador,
selectivo, o que o distingue do anti relativista, isto é, do absolutista moral, sendo certo que ambos reconhecem o mosaico de valores contraditórios existente no mundo?

Justamente a questão da flexibilidade dos valores, da sua distribuição ou não pelos diferentes sujeitos ontológicos. O relativista diferencial entende possuir o essencial ou pelo menos a parte mais importante da verdade mas concede que existe verdade moral nas posições opostas à sua (Exemplo: «Sou a favor da heterossexualidade que considero ser a forma perfeita do amor mas admito que haja amor entre homossexuais e que estes possam ser felizes»).

O anti-relativista ou absolutista entende que a verdade toda se circunscreve a um único canon, a uma única posição, e que as outras constituem erros, desvios (Exemplo: «A heterossexualidade é o padrão normal do comportamento humano, o único moralmente aceitável, sendo a homossexualidade e a bissexualidade meras aberrações, formas degeneradas de sexo onde o amor está ausente»).


Assim há pelo menos três posições e não duas: relativismo indiferencista («Os valores mudam, valem todos o mesmo, somos forçados ao cepticismo») relativismo diferencialista («Os valores mudam, mas não valem todos o mesmo, não somos cépticos mas dogmáticos flexíveis, críticos») e anti relativismo ou absolutismo («Os valores são imutáveis, universais e absolutos, somos dogmáticos inflexiveis»). Em termos de tríade hegeliana, poderá dizer-se: absolutismo de valores é a TESE, relativismo indiferentista é a ANTÌTESE e relativismo diferencialista é a SÌNTESE.



De f.limpo.queiroz a 22 de Julho de 2007 às 00:29

Agradeço a sua observação, Manuel. A ciência possui dois tipos de reflexão: a reflexão livre, especulativa, criadora e essa é sem dúvida, filosofia; a reflexão não livre, baseada na memorização e aplicação automática das leis e pressupostos estabelecidos e esta reflexão não é filosofia, é ciência estabelecida aplicada.

No entanto, cada cientista combina estes dois tipos de reflexão: a criativa, livre, e a reprodutiva. A formulação de hipóteses tem um princípio filosófico e um princípio não filosófico, determinista/necessitarista simultaneamente empírico e ideal.

Mas as grandes intuições livres são, de facto, filosóficas. Por exemplo, a intuição de Freud de que a cultura e as normas éticas no comportamento humano são libido sublimada foi, ao menos no início, uma intuição filosófica. Hoje é um «pressuposto científico» ... para os psicanalistas freudianos.

Do mesmo modo, a ideia de Einstein de que o cosmos é esférico e fechado é uma intuição filosófica que cristalizou em dogma científico na doutrina einsteiniana.

Se a maioria dos filósofos da ciência discordar disto, não importa. Desconfio dos consensos das maiorias, que, em regra, são superficiais...


De Manuel Trindade a 22 de Julho de 2007 às 00:15
Acerca do relativismo.

1. Se o relativismo fosse aquilo que diz, qualquer pessoa de bom senso seria relativista e o debate filosófico acerca do relativismo (quente, neste momento - ver o Truth, do Blackburn, Oxford University Press) nem sequer faria sentido. De novo: o que caracteriza, genericamente, uma tese relativista não é a constatação da existência de vários pontos de vista (isto é uma constatação e, logo, não é uma propriamente uma tese) ; é, antes, a ideia de que não pode haver uma perspectiva privilegiada a partir da qual se possa certificar ou validar como correcto um desses vários pontos de vista, em detrimento dos outros. Assim, um relativista tenderá a reconhecer a democracia como indicada para Portugal, mas não necessariamente para o Zimbabwe, por exemplo. A sua pergunta típica aqui seria "quem somos nós, europeus, portugueses, para decidir o que é melhor para o Zimbabwe? O que prova que a nossa atracção pela democracia deverá ter aplicação universal? Não sejamos etnocêntricos." Etc., etc.
2. Dando de barato que o seu exemplo dos comunistas corresponde ao seu (deles) pensamento, ele não revela, por si só, qualquer relativimo. Apenas mostra que eles adaptam as suas opções tácticas a um fim estratégico que tipicamente consideram ABSOLUTAMENTE corresponder ao melhor sistema político de todos.
3. A sua dificuldade em admitir que um democrata convicto não seja relativista está, julgo, na identificação de relativismo com tolerância. Mas, Francisco, pode-se ser tolerante (se se admitir um espaço para a expressão e defesa de todas as perspectivas) ao mesmo tempo que se acredita que só uma é correcta. E se se acredita nisto, então não se é relativista.
4. Mas se ser relativista é "reconhecer as várias perspectivas e optar por uma em detrimento das outras", como caracterizaria a posição de um anti-relativista? Do mesmo modo, mas sem a parte do reconhecimeto das várias perspectivas? Ser anti-relativista é idêntico a a ser ignorante?

MT


De Manuel Trindade a 21 de Julho de 2007 às 23:42
Francisco, a sua equação filosofia = ciência ou senso comum + reflexão soa um bocado insultuosa para a ciência (pelo menos), porque subentende que só a filosofia reserva um lugar importante para aquilo a que chama "reflexão". Como classificaria a investigação feita por cientistas que leva à formulação e teste de hipóteses? Ela certamente nasce de reflexão, e portanto seria já filosofia. Ou seja, segundo a sua caracterização a parte interessante daquilo a que chamamos ciência é de facto filosofia. Julgo que a grande maioria dos filósofos da ciência discordaria de si...


De Hugo Arajo a 21 de Julho de 2007 às 15:24
Para mim, sendo apenas um aluno que realizou este exame nas duas fases, torna-se incompreensível, como, professores de Filosofia, que estudaram Filosofia e que durante um ano apenas têm o trabalho de elaborar um exame nacional de Filosofia, cometam erros tão graves e vergonhosos?! Não admira, que muitos alunos fujam desta disciplina, que a partir do próximo ano apenas será mais uma, sendo apenas para ingresso na area de Filosofia! Foram os próprios professores ou alguns deles (não querendo generalizar) que levaram a este panorama no que toca á Filosofia! È pena, que mais uma vez quem sai prejudicado destes disparates, sejam os alunos!! Enfim, ao menos agora também os professores serão avaliados! Assim haverá prestigio no ensino!


De f.limpo.queiroz a 21 de Julho de 2007 às 00:26
Caro Manuel: a meu ver, você tem uma concepção confusa, vaga - desculpe dize-lo - sobre o que é filosofar. Qualquer interrogação, qualquer formulação especulativa, que transcenda a imediatez dos sentidos, é filosofia. A filosofia é como a libido: está por toda a parte. A ciência - filosofia ossificada - converte-se em filosofia - ciência desagregada, instabilizada pelo sismo da dúvida.

Ciência é dizer: «O átomo existe e tem um núcleo de protões no centro». Filosofia (epistemologia) é interrogar: «Existe o átomo? Porque razão os protões estão no centro e não na periferia?» O cientista usa quase permanentemente a indagação filosófica, feita de intuições intelectuais que irrompem, de conexões racionais e irracionais, filosofia que desaparece, aparentemente ao condensarem-se as leis científicas.

Mas o mínimo abalo de dúvida converte a ciência ou a religião em filosofia enquanto interrogação. E é esta concepção dialéctica (o Todo em tudo) que o Manuel, o Valter e muitos outros não possuem. Separam a haste da espiga, compartimentam, sem entender a conversão dos contrários um no outro.

Falta-vos o pensamento dialéctico: «toda a ciência contém filosofia e vice versa». A pergunta «que horas são» não é filosófica, se pronunciada no sentido comum, e é filosófica, desde que meditada ( «o ser da hora», «o que é a hora»).

As matérias da ciência e da filosofia são exactamente a mesma: célula , diástole/sístole, suicídio, estrutura do cosmos e do ser humano, contaminação ambiental, tabela periódica dos elementos, etc. A pergunta «Porque se suicidam as pessoas?» é simultaneamente filosófica (abre um leque de interrogações) e científica (gera respostas de contorno determinista rigoroso ou tendencialmente determinista).

Filosofia e ciência diferem, sim, na forma: a ciência é dogmático-positiva, assente no determinismo real ou tendencial, a filosofia é não dogmática ou dogmático-especulativa. Onde estiver uma está a outra (lei dialéctica da unidade dos contrários).

É como Deus e o diabo. Encontram-se lado a lado em tudo no universo.


De Manuel Trindade a 20 de Julho de 2007 às 23:51
Caro Francisco,

Quanto à quesrtão sobre o suicídio, discordamos acerca de duas coisas: 1) o que é uma questão filosófica 2) se uma questão filosófica pode ter apenas respostas não filosóficas. Comecemos por 2): parece-me evidente que o que define o ambito de uma questão ou problema é justamente o tipo de respostas que se lhe pode dar. Se, para uma dada questão, as únicas respostas possíveis são, digamos, sociológicas ou psicológicas, então o tipo de questão de que se trata é assim circunscrito. O que nos leva a 1). O Francisco parece acreditar que uma questão ou problema adquire o estauto de filosófico se for sério, ou profundo, etc. Assim, qualquer questão científica séria seria no fundo filosófica. Julgo que o que está aqui pressuposto é a ideia de que qualquer questão acerca do assunto X adquire a sua seriedade se for no fundo acerca do conceito X e das suas implicações filosóficas — uma questão acerca de buracos negros seria no fundo acerca do papel teórico do conceito de "buraco negro" em física (e portanto uma questão de metodologia ou de filosofia da física), uma questão acerca das causas do suicídio seria no fundo acerca do conceito de suicídio e das suas implicações éticas, por exemplo e, já agora, uma questão como "que horas são, se faz favor?" seria no fundo acerca do conceito de hora e assim também filosófica. Por este critério, não haveria questões que não fossem, no fundo, filosóficas — de modo que o próprio conceito de "questão filosófica" seria tão abrangente que se tornaria vazio de conteúdo (uma consequência que o Francisco certamente reconhece ser inaceitável) . Julgo que o equívoco reside no seguinte: uma confusão entre aquilo acerca do que uma questão é e aquilo que está pressuposto nela. Em geral, não confundimos as duas coisas: quando eu vou votar e hesito entre o candidato A e o B, na questão que eu formulo para mim mesmo ("A ou B?") está pressuposta a aceitação do sistema democrático, e a razoabilidiade de alienar o poder do meu voto a um tipo, A ou B, que vai talvez usar durante 4 anos o poder que lhe dou para fazer coisas diferentes das que me prometeu. Mas a minha questão não concerne esse problema — ela é apenas a de saber qual dos dois candidatos me agrada mais. A distinção é cristalina. Por que razão não haveria de ser nos casos anteriores?
Deixo a resposta sobre o relativismo para amanhã.

MT


De Maria a 20 de Julho de 2007 às 13:24
Esta é mesmo a silly season!


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