Domingo, 29 de Julho de 2007
Do carácter metaético do relativismo e suas duas derivações, dogmática diferencialista e céptica

 

Está hoje em voga vincular o conceito de relativismo (a verdade varia de povo a povo, classe a classe social, etnia a etnis, religião a religião, época a época, etc) ao conceito de cepticismo ( não se conhece o grau de verdade de cada perspectiva moral, sócio-cultural, etc, valem todas o mesmo).

 

À essência do relativismo, que se exprime, em regra, no plano ético, por um dogmatismo crítico, flexibilista, - um descritivismo, termo nebuloso que nem a Wikipédia se atreve, de momento, a definir -  não pertence o cepticismo igualitário ou igualizador de todas as posições.

 

Assim, sustento que há um relativismo sincrónico ou diacrónico, diferencialista. Exemplo:  a posição de Hegel ao sustentar que em todas as religiões, até no homem que venera o crocodilo como deus, há um certo grau de apreensão da verdade de Deus («a verdade é o Todo das diferentes perspectivas» segundo Hegel) ainda que o protestantismo seja a melhor e mais verdadeira perspectiva de apreender Deus, posição que está longe do relativismo céptico do «não se conhece o grau de verdade de cada uma, valem todas o mesmo». O relativista diferencial entende possuir o essencial ou pelo menos a parte mais importante da verdade mas concede que existe verdade moral nas posições opostas à sua (Exemplo: «Sou a favor da heterossexualidade que considero ser a forma perfeita do amor mas admito que haja amor entre homossexuais e que estes possam ser felizes»).

 

E há um relativismo sincrónico ou diacrónico niilista, céptico. Exemplo: nenhuma religião é superior em grau de verdade às outras, dado que nalgumas religiões do mundo se crê na reencarnação e noutras não, numas veneram-se estátuas, noutras ícones e noutras rejeita-se as imagens, numas sacraliza-se o casamento monogâmico e moutras o poligâmico, logo valem todas o mesmo.

 

No fundo, o relativismo não é niilista: em si o relativismo é metaético, situa-se no terreno da gnosiologia ou da ontognosiologia (o ser indissociável do conhecer), o cepticismo ou niilismo normativo que se lhe justapõe é que é propriamente ético. O perspectivismo de Nietzschze é um relativismo - reconhece que não há uma verdade absoluta mas infinitas perspectivas de verdade. Essa é a base gnosiológica geral do relativismo. Mas concluir daí que não é possível optar porque «há muitas perspectivas, logo nenhuma é criticável» é adicionar cepticismo ao relativismo, não constitui a essência deste.

 

No artigo «O relativismo» de David Wong no Compêndio de Ética de Peter Singer não se encontra esta noção de relativismo diferencialista, meio termo (SÌNTESE) entre o absolutismo anti-relativista (TESE)- que entende que a verdade toda se circunscreve a um único canon, a uma única posição, e que as outras constituem erros, desvios (Exemplo: «A heterossexualidade é o padrão normal do comportamento humano, o único moralmente aceitável, sendo a homossexualidade e a bissexualidade meras aberrações, formas degeneradas de sexo onde o amor está ausente») - e o relativismo indiferentista ou seja o relativismo adicionado de cepticismo normativo (ANTÌTESE)

 

Wong classifica de relativismo metaético o que se designa por  relativismo (ponto em que estamos de acordo):

 

«Esta doctrina es el relativismo metaético, porque versa sobre la relatividad de la verdad moral y de la justificabilidad. Otra especie de relativismo moral, también una respuesta común a conflictos morales profundos, es una doctrina sobre cómo debemos actuar hacia quienes aceptan valores muy diferentes de los propios. Este relativismo moral normativo afirma que es erróneo juzgar a otras personas que tienen valores sustancialmente diferentes, o intentar que se adecuen a los nuestros, en razón de que sus valores son tan válidos como los nuestros.»

(David Wong in Compendio de Etica, de Peter Singer, pags 593-594)

 

Além do relativismo, existe o absolutismo de valores, que  possui toda a gama de informação sobre o mosaico de valores a nível mundial (exemplo: a Igreja Católica antes do Vaticano II estava informada sobre o conteudo de todas as religiões do mundo mas sustentava que «a salvação da alma só é possível dentro da Igreja Católica ) mas exclui toda e qualquer forma de ecletismo, de variabilidade dos conceitos de «bem», «mal», etc.

 

Assim há pelo menos três posições e não duas: relativismo indiferencista («Os valores mudam, valem todos o mesmo, somos forçados ao cepticismo») relativismo diferencialista («Os valores mudam, mas não valem todos o mesmo, não somos cépticos mas dogmáticos flexíveis, críticos») e anti relativismo ou absolutismo («Os valores são imutáveis, universais e absolutos, somos dogmáticos inflexiveis»). Em termos de tríade hegeliana, poderá dizer-se: absolutismo de valores é a TESE, relativismo indiferentista é a ANTÌTESE e relativismo diferencialista é a SÌNTESE.

 

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f.limpo.queiroz@sapo.pt

© (Direitos de autor para Francisco Limpo de Faria Queiroz)


 



publicado por Francisco Limpo Queiroz às 11:32
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