Sexta-feira, 24 de Agosto de 2007
O tempo não existe? Dos perigos da lógica pura (Sobre um livro de Desidério Murcho)

Há filósofos como McTaggart que com argumentos lógico-linguísticos negam a existência do tempo. Desidério Murcho descreve assim os argumentos daquele  pensador:


«O debate moderno sobre a realidade do tempo tem origem nos argumentos defendidos por J.M.E. McTaggart (1866-1925) num famoso ensaio publicado em 1908. McTaggart defendeu que o tempo é uma ilusão. Para se compreender o seu argumento é necessário distinguir duas formas diferentes de localizar acontecimentos no tempo, a que McTaggart chamou «séries A» e «séries B». Esta terminologia não é esclarecedora, pelo que iremos chamar «flexionadas» às primeiras e «não flexionadas» às segundas (poderíamos igualmente chamar-lhes "dinâmicas" e "estáticas", respectivamente). Compreende-se a diferença contrastando duas formas diferentes de falar do tempo. Afirmar «Hoje está a chover em Londres mas ontem esteve calor» envolve o uso de verbos com flexões temporais ("está" e "esteve"). Mas afirmar algo como «Chove em Londres em 29 de Julho de 2004, mas faz calor em 28 de Julho de 2004» não envolve o uso de verbos com flexões temporais - pois "chove" neste contexto é intemporal  como o "é" na expressão "A raiz quadrada de 16 é 4"» (...)


«O terceiro passo do argumento é que as formas flexionadas de referir os acontecimentos no tempo implicam contradições, pelo que não podemos pensar que descrevem a realidade - limitam-se a descrever uma certa aparência enganadora da realidade. Esta é talvez a ideia menos plausível do argumento, mas não é obviamente falsa. A ideia é que se levarmos as formas flexionadas de expressão a sério, então devemos aceitar que exprimem verdadeiras propriedades dos acontecimentos. Assim qualquer acontecimento tem três propriedades temporais: ocorrerá, ocorre e ocorreu. Mas um acontecimento como o assassinato de Kennedy não pode ter as três propriedades: não pode ser um acontecimento futuro, presente e passado - pois se Kennedy foi assassinado hoje, não poderá ser assassinado amanhã nem pode tê-lo sido ontem, e se foi assassinado ontem não poderá ser assassinado hoje nem amanhã. Logo, o tempo é em si irreal: uma mera ilusão».


«Resumindo, o argumento de McTaggart pode ser formulado do seguinte modo:


1) O tempo envolve mudança.


2) Só as formas flexionadas de expressão podem exprimir mudança.


3) Mas as formas flexionadas de expressão envolvem contradições. Logo, o tempo é irreal.» (Desidério Murcho, Pensar outra vez Filosofia, valor e verdade, Edições Quasi, Lisboa 2006, pag. 179-181; o negrito é nosso).


Como é que da contradição entre formas linguísticas flexionadas se infere contradição na realidade ontológica-cronológica? Só por um passe de «mágica» de argumentação...


Este argumento de McTaggart lembra o argumento do grego Zenão de Eleia contra o movimento: contra toda a evidência empírico-racional, Zenão defendeu que o corredor Aquiles não poderia nunca alcançar a tartagura que vagarosamente avançava alguns metros à sua frente porque, em cada instante, tinha de situar-se em metade do espaço que o separava dela e, nessa fracção de segundo o animal adiantava-se levemente, de modo que Zenão ficava colado à tartaruga sem nunca a alcançar.


O argumento de Zenão, que desenha o cálculo infinitesimal, é um exemplo de como o pensamento lógico, ou pelo menos de certas lógicas, falsifica a realidade. As lógicas formal e proposicional não são absolutamente fiáveis e, aplicadas de alguns modos, à realidade empírica deformam esta.


O argumento de McTaggart é facilmente refutável pois trata-se de um sofisma. O tempo não é homogéneo, como mostrou Heidegger, e já outros (Marco Aurélio por exemplo) o tinham feito antes. O tempo não se compõe de três propriedades - passado, presente e futuro - ao mesmo nível horizontal mas de duas dimensões distintas: o tempo real como existência, que se reduz ao instante presente, que nasce e morre a cada fracção de segundo, e o tempo ideal como essência (o passado que já não existe: não é tempo real mas ideia do tempo; o futuro que ainda não existe: não é tempo real mas ideia do tempo).


A realidade do instante presente ninguém a pode negar. Capta-se de forma metalógica, por intuição sensivel e ideal. Portanto, o tempo existe: é um vir a ser que a cada fracção de segundo deixa de ser, em linguagem hegeliana. É por isso que considero perigosa a sobrevalorização da lógica pura a que hoje se assiste como uma espécie de metafísica negativa - Deus imanente ao jogo de palavras, a verdade (divina) repousando nas tabelas de verdade, no inspector de circunstâncias, no modus ponens ou no modus tollens, etc - que enfraquece a lógica intuitiva "informal", empírico-ideal, espelho do mundo físico exterior. Desidério Murcho e outros orientadores de filosofia no ensino em Portugal fazem parte deste movimento de metafísica negatíva que emana da esfera da filosofia analítica e que constitui uma reacção «barrôca» ao materialismo e ao idealismo dialécticos que emergiram com grande pujança na década de 70 em conexão com a revolução dos cravos de 1974-1975 em Portugal.


www.filosofar.blogs.sapo.pt


f.limpo.queiroz@sapo.pt


© (Direitos de autor para Francisco Limpo de Faria Queiroz)


 



publicado por Francisco Limpo Queiroz às 10:09
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