Domingo, 26 de Agosto de 2007
Está o objectivismo da ciência livre de subjectivismo e antropocentrismo ? (Sobre um livro de Desidário Murcho)
No capítulo IV do seu livro «Pensar outra vez Filosofia, valor e verdade», Desidério Murcho desenvolve uma consabida argumentação contra o subjectivismo e o antropocentrismo gnosiológicos, em defesa do «objectivismo científico e do realismo das ciências» que se querem monistas em cada assunto:

 «Surgem então os relativismos em filosofia da ciência: Kuhn e Feyerabend são os mais famosos. A estratégia é a mesma de todos os subjectivismos e de todos os relativismos: dar uma vez mais ao ser humano, um papel central, criador, sobre a natureza última das coisas. E diz Kuhn: a ciência de Aristóteles não estava realmente errada, afinal. Só está errada para nós. Assim, a Terra ora gira em torno do Sol ora é o centro do Universo, consoante as nossas teorias – consoante a decisão dos Criadores (nós, claro). Por outro lado, evita-se também o rude golpe que é compreender que a nossa capacidade para descobrir verdades é limitada e que a probabilidade de engano, de auto-engano e de puro erro tolo é muito elevada. Se afinal tudo é uma construção, não nos podemos enganar. A teoria de Ptolomeu é “tão verdadeira” como a de Einstein e nenhum deles está enganado. Isto, claro, isenta-nos de procurar o rigor, a verdade, e o controle de erros e dá-nos o toque de Midas: seja o que for que acreditemos, isso é verdade, porque “verdade” quer dizer “verdade para mim” (ou “para a nossa comunidade” ou “para o nosso tempo” ou "para o nosso sexo" ou “para o nosso partido político»


«Estas ideias são falsas e incongruentes. Mas desempenham bem o papel de continuar a manter o antropocentrismo humano, pois é uma maneira de insistir que o nosso pensamento determina a maneira como o mundo é, invertendo completamente as coisas.» (Desidério Murcho, Pensar outra vez Filosofia, valor e verdade, Edições Quasi, V.N. de Famalicão, 2006, pag. 74; o negrito é nosso).


 A primeira objecção que se coloca a este texto é: existe alguma ciência que não seja antropocêntrica? Dizemos que não. Não são só os subjectivismos e relativismos que são antropocêntricos. Os "não relativismos" científicos que Desidério Murcho parece defender – a teoria da relatividade de Einstein; a medicina científica convencional, etc. – são também visões antropocêntricas do mundo, que «dão ao ser humano (cientistas, ideólogos e tecnocratas) um papel, central, criador, sobre a natureza última das coisas».


Há uma tese indestrutível que DM escamoteia: «A verdade é verdade para nós, concebidos como um todo, chamado humanidade, e para cada um de nós». Não temos outra maneira de prescrutar e conhecer a verdade a não ser pelo nosso nariz, olhos, ouvidos, boca, tacto, genitais, mãos e pernas, e razão, isto é, de forma antropocêntrica. Portanto a verdade é sempre a nossa verdade e o que chamo «a verdade em si cognoscível» é a minha/nossa verdade, o modo como eu e outros conhecemos a substância do mundo e das coisas. O axioma de Protágoras mantém-se inteiramente válido: «O homem é a medida de todas as coisas…» A verdade sem centro, totalmente objectiva, - e admito que exista, porque professo o realismo crítico gnosiológico - é inalcançável para nós.


 Surpreende-nos a facilidade com que Desidério Murcho «elimina» de uma penada, neste texto, a consistência das objecções que Thomas Kuhn e Paul Feyerabend colocam à «objectividade e neutralidade das ciências». Feyereband, por exemplo, anarquista epistemológico, nivela a medicina química universitária – que trata os cancros com radioterapia e quimioterapia – com a medicina natural alternativa – que regista curas de cancro nos seios, estômago, etc, através da aplicação de sucessivas cataplasmas de argila molhada durante semanas e meses sobre o corpo dos pacientes. Alguém pode garantir que a Medicina Universitária trata melhor os doentes com cancro do que a Medicina Natural Alternativa? Não há aqui lugar para algum relativismo e subjectivismo? E estes são  maus em si mesmos, representam «um vale tudo», um rebaixamento do nível científico como caricatura Desidério no seu texto? Ou antes representam um aperfeiçoamento do espírito científico, que recusa o espelho do realismo ingénuo e se eleva para lá dos reposteiros das aparências empíricas  das teses mais simples das ciências?


Que as diversas doutrinas científicas não têm o mesmo valor de verdade – é um ponto em que estamos de acordo com Desidério Murcho. Mas todas as ciências são interpretações do mundo, mais ou menos plausíveis – e aqui Desidério afasta-se de nós, fixando-se no granito de um maior dogmatismo, como se fosse possível chegar a um monismo em cada área das ciências, elaborar ciência não antropocêntrica, sem as tonalidades da intersubjectividade (acordo entre várias mentes humanas) ! Não é possível. O realismo monista de Desidério é, em diversos casos, o dogmatismo das ciências dominantes que Thomas Kuhn, Paul Feyerabend e Karl Popper combateram, cada um a seu modo.


Segundo Desidério, não se pode ser heliocêntrico e geocêntrico em simultâneo. É óbvio. Mas, a nosso ver, o geocentrismo de Aristóteles ainda é ciência: ciência superada. Não é ciência na perspectiva heliocêntrica mas é ciência num quadro de razão hegeliana, holística, sinóptica. Pode haver vários níveis de ciência como círculos concêntricos opostos entre si, mas sem ocuparem o mesmo lugar do conhecimento. Defendia o aristotelismo que o Sol se move no céu – o que hoje os astrónomos reconhecem ser verdade, sem embargo de reconhecerem que a Terra gira em volta do Sol. Além do mais, do geocentrismo ptolomaico-aristotélico emana a Astrologia Histórica, uma ciência herética, perseguida hoje pelo status universitário, mas, sem dúvida, uma ciência indutiva de enorme importância.


  Nenhuma ciência é absolutamente infalível – nem mesmo a matemática que é também antropocêntrica. E pode muito bem suceder que a teoria heliocêntrica seja rejeitada dentro de séculos, por ser insuficiente, parcial ou essencialmente errónea. Quem nos garante, em absoluto, que não há dois sóis com o mesmo aspecto, um girando em volta da Terra, como dizia Aristóteles, e o outro «imóvel» em torno do qual a Terra girasse?


Ademais, Desidério Murcho passa à margem de um problema capital: o de haver ciências, forçosamente ecléticas, aceitando como científicas em simultâneo duas doutrinas que se contradizem. Por exemplo, a Física actual aceita em simultâneo duas teorias que se contradizem: a teoria corpuscular da luz e a teoria ondulatória da luz…Luz como corpúsculo opõe-se liminarmente a luz como onda. Este é um claro exemplo de relativismo no seio de uma mesma ciência, o que desmente a aspiração monista epistemológica que Desidério levanta como bandeira do seu combate e tira o tapete à sua exorcização do subjectivismo e do relativismo.


www.filosofar.blogs.sapo.pt


f.limpo.queiroz@sapo.pt


© (Direitos de autor para Francisco Limpo de Faria Queiroz)



 



publicado por Francisco Limpo Queiroz às 19:03
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