Sábado, 8 de Setembro de 2007
Prescritivismo opõe-se a Descritivismo ? (Crítica a R.M. Hare e Michael Smith)

 

Prescritivismo ético é a doutrina ou conjunto das doutrinas éticas  que formula ou prescreve conceitos e regras morais a partir da autonomia da consciência de um sujeito ou conjunto de sujeitos e que, em diversos casos, faz tábua rasa da tradição ética e se opõe ao costume social.

 

Quase todas as correntes éticas são prescritivistas, ainda que este não seja o ponto de vista de Peter Singer e dos mais renomados teóricos da ética. A moral deontológica de Kant com o seu imperativo categórico (Age apenas segundo uma máxima tal que possas ao mesmo tempo querer que ela se torne lei universal) é um exemplo de prescritivismo. Na classificação parcialmente errónea de R.M. Hare prescritivismo opor-se-ia a descritivismo: ao contrário dos descritivistas «naturalistas» que extraem a norma moral da lei geral sociológica em vigor ( Exemplo: «Se estou na Suíça, não atirarei um papel sequer ou uma ponta de cigarro para o chão, na via pública porque neste país a limpeza na via pública é norma “naturalista” de aceitação geral»), os prescritivistas delineriariam a sua moral em bases autónomas (Exemplo de um prescritivista: «Mesmo na Suíça, como em qualquer outro país, atirarei os papéis ao chão em protesto contra a existência da pasta de papel que considero ser um crime ecológico contra as árvores do planeta»). A minha posição é distinta: o descritivismo, exemplificado no primeiro caso, é simultaneamente prescritivismo, dado que além de descrever o conteúdo do juízo ético recomenda implicitamente aplicá-lo.

 

Hare que situa o descritivismo como teoria externalista e o prescritivismo como doutrina internalista, opondo-os de forma antidialéctica, escreveu:

 

«O prescritivismo pertence assim à classe das teorias éticas conhecidas como «internalistas": as que afirmam que aceitar certo juízo moral é estar eo itso motivado de determinada maneira.(...) As teorias internalistas contrastam com as teorias externalistas, segundo as quais se pode aceitar um juízo moral independentemente das próprias motivações» (R.M.Hare in Compendio de Ética, de Peter Singer, Alianza Diccionarios, pag 614).

 

Alguns como Michael Smith incorporam o prescritivismo no irrealismo :

 

  

 

«Segundo os irrealistas, não existem factos morais, nem tão pouco se necessita de factos morais para entender a prática moral.  Felizmente podemos reconhecer que os nossos juízos morais exprimem simplesmente o nosso desejo de como as pessoas se comportam. Esta posição, a contrapartida psicológica ao irrealismo, denomina-se "não-cognotivismo" (o irrealismo tem diferentes versões: por exemplo, o emotivismo, o prescritivismo e o projectivismo).» (Michael Smith, El realismo in Compendio  de Ética, de Peter Singer (ed), Alianza Diccionarios, pag 544).

 

 

 

Parece-nos errada esta hierarquização, pois mistura o axiológico-práxico (prescritivismo é valoração e apelação moral…) com o ontológico (irrealismo/ realismo, existência ou não em si mesmos dos valores).. Existe um prescritivismo realista, que se integra no realismo ético – exemplo: «A democracia liberal é o modelo que deve ser instaurado em todos os países porque o bem da liberdade colectiva e individual é real em todas as latitudes e povos»; a ética de Kant é um prescritivismo realista ético subjectivista, uma vez que o supremo bem existe objectivamente ainda que cada um lhe confira uma coloração ética subjectiva– e um prescritivismo irrealista – exemplo de pragmatismo psicologista: «É imprescindível implantar, por mero pragmatismo, o valor de existência de um Deus justo e igualitário para toda a humanidade ainda que esse facto moral não seja real mas apenas uma irrealidade imanente à consciência de milhões ou biliões de seres humanos».

 

  

 

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© (Direitos de autor para Francisco Limpo de Faria Queiroz)

 


 

 



publicado por Francisco Limpo Queiroz às 00:06
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