Sábado, 17 de Novembro de 2007
O número na concepção tradicional (Leituras de René Guénon)

René Guenón (1886-1951), filósofo da Tradição contra o espírito do Mundo Moderno, sustenta, na linha de São Tomás de Aquino, que é a quantidade que permite a materialização das essências ou formas espirituais.

 

Tomás de Aquino distingue a matéria prima - potência pura, a substância indeterminada inexistente em acto - e a forma (por exemplo: o homem, em abstracto), por um lado, da matéria determinada ou designada (materia signata quantitate, que é o composto, na filosofia aristotélica. Por exemplo: este homem, com 1,80 metros de altura, nariz aquilino, ombros largos é matéria designada (informada) que resulta da união entre a forma (imaterial) e a matéria indeterminada (inexistente), por outro lado. É pelo número que a forma se plasma na matéria mas há dois conceitos de número:

 

«Outra questão se levanta ainda : a quantidade apresenta-se-nos de modo diferente, nomeadamente a quantidade descontínua, que é propriamente o número (2), e a quantidade contínua, que é representada principalmente pelas grandezas de ordem espacial e temporal; qual é, de entre estes modos, o que constitui mais precisamente aquilo a que poderemos chamar a quantidade pura? Esta questão também tem a sua importância, tanto mais que Descartes, base de boa parte das concepções filosóficas e científicas especificamente modernas, quis definir a matéria pela extensão, e fazer desta definição o princípio de uma física quantitativa que, se ainda não era "materialismo", era, pelo menos, "mecanicismo"; é que poderíamos ser tentados a concluir que a extensão, porque é directamente inerente à matéria, representa o mundo fundamental da quantidade.»

 

Nota 2) « A noção pura do número é essencialmente a do número inteiro, e é evidente que a continuação dos números inteiros constitui uma série descontínua; todas as extensões que esta noção tem recebido e que deram lugar à consideração dos números fraccionários e dos números não mensuráveis, são verdadeiras alterações e, na realidade,  representam unicamente os esforços que foram feitos para reduzir o mais possível os intervalos do descontínuo numérico, a fim de tornar menos imperfeita a sua aplicação à medida das grandezas contínuas.»

(René Guénon, O Reino da Quantidade e os Sinais dos Tempos, Publicações Dom Quixote, pag. 24-25, o bold é da minha autoria).

 

Deve ter-se em conta o facto de na concepção pitagórica do mundo, o número não ser meramente aritmético mas também geométrico: o Um designa o ponto, o Dois a recta, o Três o plano e o Quatro o tetraedro. Há pois, um aspecto qualitativo-formal na noção tradicional de número.

 

 

Nota de rodapé: As reflexões de René Guenón nesta matéria estão muito acima das vulgaridades de um Fernando Savater, de um Neil Warburton, de um James Rachels, de um Peter Singer que são, hoje, os filósofos da moda para a grande maioria dos professores de filosofia nas escolas públicas dos países da Europa ocidental e central ou dos EUA.

 

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© (Direitos de autor para Francisco Limpo de Faria Queiroz)


 



publicado por Francisco Limpo Queiroz às 15:05
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