Terça-feira, 1 de Janeiro de 2008
É a causalidade irreal na fenomenologia e somente real no realismo? (Sobre um artigo de João Paulo Monteiro)

Alguns autores ligam a causalidade irrealista à fenomenologia e a causalidade realista (real em si mesma) ao realismo ontológico. É o caso de João Paulo Monteiro num longo, sinuoso e paralógico artigo publicado na revista Intelektu de Dezembro de 2007. Aí afirma o seguinte:


«Muitas ciências procuram edificar  suas próprias visões do mundo, que vêm acrescentar-se àquela que temos naturalmente, umas vezes desmentindo-a e outras vezes confirmando-a e desenvolvendo-a . Para tal, elas propõem objetos teóricos, através dos quais procuram explicar o nosso mundo, mas sem nunca chegarem a tornar plausível qualquer “em si”  que pudéssemos aceitar como verdadeiro, e muito menos como definitivo. O privilégio do “em si”, ou seja, do estatuto de construções que não são aparências, permanece exclusivo das relações causais, ou das causas e dos efeitos - conforme a linguagem epistêmica que preferirmos adotar.» (João Paulo Monteiro, Mundo e Causação, in Intelektu nº 12, Dezembro de 2007; o negrito é de nossa autoria).


Há claramente uma confusão de João Paulo Monteiro ao afirmar que só o "em si" , isto é, o mundo real ou ideal-real que subsiste por detrás das aparências, possui o sistema das causas e efeitos e vice-versa, isto é, só este engendra ou é imanente ao "em si".


Importa precisar que a coisa "Em si" é uma questão ontológica fulcral e a relação causa-efeito é uma questão modal, por assim dizer ontológico-periférica e não podem amalgamar-se assim. O sistema de causas e efeitos funciona perfeitamente em filosofias da aparência, do «para mim», como é o caso do realismo empírico de Kant (também designado por idealismo transcendental) que excluem o «em si» do mundo da ciência e da "realidade" sensível e o situam no terreno da metafísica incognoscível.


A própria definição de "em si" dada acima por J.P.Monteiro - "estatuto de construções que não são aparências" - é um equívoco: a realidade em si, em regra, não é uma construção (a menos que se refira ao "mundo criado ou construído por Deus", adoptando-se então o teísmo) mas um ser ou conjunto de entes por si. O termo "construção" é impróprio, em regra, para designar o em si.


OBSCURIDADE CONCEPTUAL EM TORNO DA CAUSAÇÃO


Todo o artigo padece de uma certa falta de clareza que é patente, por exemplo, no seguinte excerto:


«Sem dúvida que toda descoberta se torna possível no interior de um contexto determinado, mas no caso da causação há apenas uma dependência contextual “fraca”, na necessária mediação da percepção sensível antes que se torne possível o conhecimento causal, e não aquela dependência mais “forte” que é a dos objetos sensíveis em relação à nossa estutura como sujeitos e à influência dos “estímulos quineanos” (ver From Stimulus to Science) na construção de nossa imagem pré-científica do mundo em que vivemos.»


Pergunta-se: por que razão «há na causação uma dependência contextual "fraca"» e por que razão «a dependência mais forte que é a dos objectos sensíveis em relação à nossa estrutura como sujeitos» não é classificada como causação? O que significa, concretamente, "dependência contextual fraca"?


É um discurso palavroso e inconsistente, em certa medida.


 


A FENOMENOLOGIA NÃO GERA NECESSARIAMENTE UMA INVENÇÃO OPOSTA À CAUSALIDADE


O artigo finaliza assim:


«Temos assim dois tipos de processos de construção da realidade, o primeiro gerando uma fenomenologia que pode em sentido filosófico ser considerada uma “invenção” involuntária e inconsciente do sujeito percipiente e cognoscente, e o segundo gerando um conhecimento causal caracterizável como autêntica descoberta de realidades existentes em si mesmas. Mas o plano fenomenológico oferece também autêntico material de descoberta, na medida em que a similaridade entre objetos do mundo sensível, indispensável para que se constituam as classes de objetos que depois serão consideradas causas ou efeitos, ao mesmo tempo que obedece a padrões inatos que são parte de nossa herança genética, como mostra Quine em Ontological Relativity, só pode ser pensada e comentada como similaridade em si, em todos os casos em que dá origem a inferências causais corretas.  Deixo para outra ocasião a discussão desta problemática, bem como a da problemática da repetição, que é condição de possibilidade de muitas daquelas inferências, embora não de todas, conforme vimos. A conjunção repetida de pares de objetos também só pode ser concebida como repetição em si mesma, embora ambos os  dois tipos de objetos, aqueles que designamos como causas e aqueles que chamamos efeitos, sejam claramente,  em termos filosóficos, aquilo que se convencionou chamar "aparências".


«Assim, a causação, junto com a similaridade e a repetição, constituem um domínio de objetividade que só pode ser pensado em termos contrários ao idealismo do século XIX ou ao realismo interno do século XX (1). Se esses três domínios não formassem um campo de realidade independente e irredutível, nunca se formariam os conhecimentos causais que, entre outras coisas, tornaram e continuam tornando possível nossa sobrevivência. Fica para trás qualquer tentação goodmaniana de irrealismo. Se não fosse assim não estaríamos hoje todos aqui.» 


«(1) Uma outra forma de causação, segundo a teoria causal da percepção, é a produção das próprias imagens e idéias sensíveis pelos estímulos provenientes do mundo exterior. Mas esta tese, ao lado de muitos outras, supõe que a teoria que a sustenta é correta, e a discussão disto encontra-se em um campo distinto daquele onde transcorre o presente texto: o campo da filosofia da ciência. »


(João Paulo Monteiro, Mundo e Causação, in Intelektu nº 12, Dezembro de 2007; o negrito é de nossa autoria).


O equívoco que percorre o artigo de João Paulo Monteiro é de tripla ordem:


1) Não distingue explicitamente entre a causação ou causalidade determinista (o efeito é previsível e escravo da causa) e a causalidade indeterminista (o efeito é inovador e imprevisível, livre em relação à causa).


2) Vincula, equivocamente, à fenomenologia - uma ontologia indecisa, nem realista nem idealista - a noção de uma causalidade irrealista, embora de inegáveis efeitos práticos devido à similaridade. E, simetricamente, vincula ao realismo ontológico a causalidade real (o realismo da causação). Na realidade, as coisas são mais complexas do que isso. Há doutrinas fenomenológicas em que a causalidade é real, existe em si mesma, independentemente da realidade ou irrealidade do mundo material e há doutrinas realistas, como a de Karl Popper, em que a causalidade determinista não é real.


3) Situa no mesmo plano os conceitos de causação, repetição e similaridade, sem se aperceber de que a causalidade (causação) determinista se encontra contida dentro da repetição. Quando afirma que as três se opõem ao idealismo do século XIX, equivoca-se. E nem sequer define o que é o idealismo do século XIX (Hegel? McTagart? Bradley?). Em suma, um artigo retórico relativamente ôco, recheado de imprecisões. 


www.filosofar.blogs.sapo.pt


f.limpo.queiroz@sapo.pt


© (Direitos de autor para Francisco Limpo de Faria Queiroz)



 


 



publicado por Francisco Limpo Queiroz às 12:04
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