Quinta-feira, 13 de Março de 2008
A História da Filosofia não é parte da Filosofia? (Equívocos de Manuel Maria Carrilho)

Num livro lançado há 18 anos, Manuel Maria Carrilho insistiu na ideia equívoca de que "a história da filosofia não é filosofia" :

 

«É preciso que se entenda: uma coisa é a filosofia, outra a história da filosofia; e o facto de a filosofia não possuir objectos específicos não transforma a tradição no seu território. Para a filosofia, a história da filosofia pode funcionar como esclarecimento, informação relativamente aos seus problemas actuais; para a história da filosofia, a filosofia pode ser um elemento de reactivação e de reformulação de problemas «tradicionais». Em rigor, o estudo estritamente histórico da história da filosofia não tem, a ser possível, nada a ver com a filosofia.»

«Mas se a filosofia não é a história da filosofia, ela também não é um acréscimo, um suplemento de tipo reflexivo, das várias disciplinas ou saberes

(Manuel Maria Carrilho, Verdade, suspeita e argumentação, Editorial Presença, 1990, pag.89; o bold é de nossa autoria).

 

Carrilho perfilha diversas tese paralógicas: uma, a de que "a filosofia não é um suplemento de tipo reflexivo da arte, da biologia, da física, das teorias literárias, etc" (o que não é verdade, porque, a sê-lo, eliminaria a vertente da filosofia como epistemologia e crítica da arte e da literatura); outra, a  de que "a filosofia revela senilidade, ao acantonar-se na sua história" (também não é verdade de um modo geral, na medida em que os grandes filósofos como Sartre, Heidegger, Hegel, Merleau-Ponty mergulharam na história da filosofia para dela extrair questões vivas do presente).

 

No artigo "A História da Filosofia no Ensino da Filosofia" , de 2 de Janeiro de 2007, neste blog, refutámos aquela tese anti dialéctica de Carrilho, sustentada por Desidério Murcho e outros, de que a história da filosofia não contém e não é filosofia. Escrevemos então aí:

 

«Não há contradição nenhuma entre ensinar filosofia e ensinar história da filosofia - a não ser, claro, nas mentes confusas de Desidério Murcho e do seu grupo de «iluminados». O ensino da filosofia compõe-se de duas vertentes: história da filosofia (ou história das ideias filosóficas, que é o mesmo) e heurística (arte de pensar e descobrir a verdade por si mesmo). Os professores inteligentes e competentes sabem combinar estas duas vertentes nas suas aulas (a tradição e a criação inovadora). A história da filosofia está dentro da filosofia embora não esgote a extensão desta. Não são mutuamente extrínsecas entre si.»

«Ao invés do que sugere Desidério, estudar as ideias de Platão, Guilherme de Ockam, Nicolau de Cusa, Leibniz ou Schopenhauer não impede ninguém de filosofar, de pensar pela sua própria cabeça, antes pelo contrário, estimula a verve filosófica de cada aluno. Existe o risco da memorização na avaliação? Sim, mas a memória é necessária à inteligência criativa e não é má, em si mesma. Há um risco ainda maior nos que optam por abolir a tradição filosófica: o do vacuismo anti historicista e conteudal, susceptível de produzir alunos «livres» e ignorantes, porque não solicitados aos desafios do pensamento consagrado historicamente.»


O sofisma de Desidério ( e de Carrilho) formula-se assim:

 

«A história da filosofia não é filosofia».
«Os professores do secundário ensinam, em regra, história da filosofia,

«Logo, os professores do secundário não ensinam filosofia».

 

E refuta-se deste modo:

 

«A história da filosofia é, em parte não filosofia (história) e em parte filosofia.»

«Os professores do secundário ensinam história da filosofia».

«Os professores do secundário ensinam filosofia, sobretudo aqueles que insistem na heurística adicionada à transmissão da filosofia tradicional».

 

A filosofia é sempre filosofia, não deixa de o ser pelo facto de ter sido produzida no século IV antes de Cristo ou no século XIII ou no século XX:  uma parte substancial da filosofia plasmou-se, cristalizou, em história da filosofia, em textos, livros, debates registados que,felizmente, sobraram do passado. Levando ao extremo a busca da inovação e o corte com o passado como essência da filosofia, perfilhada por Manuel Maria Carrilho, dir-se-ia que o livro de Hilary Putnan Reason, Truth and History, já pertence à história da filosofia, porque foi publicado em 1981 e, portanto, não se impõe debater as suas teses petrificadas no granito de há 27 anos...

 

Nietzchze, um filósofo inteligentíssimo - certamente muito acima de Carrrilho e da generalidade dos doutorados em filosofia de hoje- propôs uma transmutação de valores mas não veiculou a peregrina tese de que "a história da filosofia não contém filosofia"  nem advogou não estudar Platão, Epicuro, Espinoza ou Kant.

Há professores que ensinam a filosofia de Platão sem a questionar filosoficamente? Há. O defeito não se encontra nos textos de Platão mas no modo acrítico como são perspectivados.  Fornecer os textos de Platão e outros a estudantes de filosofia e aos interessados em geral continua a ser uma fonte viva da filosofia.

 

Considere-se o seguinte texto da Metafísica de Aristóteles:

 

«Tampouco é possível definir Ideia alguma, já que, como dizem, a Ideia é uma realidade individual e separada. Pois a definição consta necessariamente de nomes; ora bem, o que define não inventa nomes (pois resultariam ininteligíveis) e os (nomes) que estão à disposição são comuns a todas as coisas e, portanto, se aplicam também a outras coisas» (Aristóteles, Metafísica, Livro VII, Capítulo XV).

 

Pergunta: se o professor dá este texto aos seus alunos para estes o interpretarem e debaterem livremente, está a dar história de filosofia ou filosofia?  A confusão é, seguramente, grande entre os discípulos de Desidério e Carrilho...

Pois bem, a resposta correcta é: está a dar filosofia, principalmente, e a aflorar história da Filosofia, secundariamente...

 

Parafraseando Heraclito de Éfeso, na sua tese «O universo gera-se em função do pensamento e não em função do tempo», direi que «O universo filosófico, a filosofia, gera-se em função do pensamento e não em função do tempo». Platão é tão actual como Derrida ou Putnam. Ao invés, Carrilho e outros diriam que «O universo filosófico gera-se em função do tempo actual e não em função do pensamento de todas as épocas».

 

Ao contrário do que Manuel Maria Carrilho, Desidério Murcho e muitos outros parecem supor, a memória é uma faculdade intrinsecamente filosófica. Sem memória, seria impossível conceber pensamentos como "o Ser é, não foi nem será" (Parménides) e seria inviável distinguir a essência do acidente, o modus tollens do modus ponens, etc. Ora a história da filosofia é a memória da filosofia.

 

www.filosofar.blogs.sapo.pt

f.limpo.queiroz@sapo.pt

© (Direitos de autor para Francisco Limpo de Faria Queiroz)


 

 



publicado por Francisco Limpo Queiroz às 12:01
link do post | comentar | favorito
|

mais sobre mim
pesquisar
 
Outubro 2017
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6
7

8
9
10
11
12
13

15
16
17
18
19
20

22
23
24
25
26
27
28

29
30
31


posts recentes

Teologia cátaro-bogomila:...

Teologia cátaro-bogomila:...

Ponto 23º 7´/23º 15´de qu...

Erros na tradução portugu...

O sublime moral para Scho...

Seísmos en México en Astr...

Área 9º-10º do signo de T...

Neocátaros versus budismo...

Teologia neocátara: sem j...

Herbert Marcuse: o caráct...

arquivos

Outubro 2017

Setembro 2017

Agosto 2017

Julho 2017

Junho 2017

Maio 2017

Abril 2017

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Agosto 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Setembro 2006

Agosto 2006

Julho 2006

Maio 2006

Abril 2006

Março 2006

Fevereiro 2006

tags

todas as tags

favoritos

Teste de filosofia do 11º...

Pequenas reflexões de Ab...

Suicídios de pilotos de a...

David Icke: a sexualidade...

links
Fazer olhinhos
blogs SAPO
subscrever feeds