Quinta-feira, 3 de Abril de 2008
Paralogismos no "Este Amor pelo Saber-11º Ano de Filosofia" (Crítica de Manuais Escolares XXVI)

Apesar de servir para leccionar o programa de Filosofia do 11º ano de escolaridade em Portugal, o manual da editora A Folha Cultural «Este Amor pelo Saber», de Amândio Fontoura, Mafalda Afonso e Maria de Fátima Gomes, com supervisão de Alexandre Franco de Sá, inclui alguns erros teóricos que vamos explicitar.

 

EM KANT, OS DADOS DA SENSIBILIDADE NÃO APARECEM À RAZÃO, E A SENSIBILIDADE NÃO É "POSSIBILITADA" POR UMA FORMA A PRIORI

 

A gnosiologia de Kant é um dos pontos fracos deste livro cujos autores, como aliás 99% dos autores de manuais de filosofia, não compreendem a fundo o pensamento do filósofo alemão de Konisberg. Que diremos, no entanto, se nem o próprio Bertrand Russell era capaz de perceber o idealismo transcendental de Kant a quem classificava de filósofo "confuso"?

 

«Para Kant, os conceitos puros do entendimento devem organizar a experiência, tornando possível que os dados da sensibilidade apareçam à razão.»  (Amândio Fontoura, Mafalda Afonso, Maria de Fátima Gomes,«Este amor pelo saber», revisão científica de Alexandre Franco de Sá, A Folha Cultural, Lisboa, pag 176).

 

Há aqui um equívoco: os dados da sensibilidade nunca aparecem à razão (Versnunft) , faculdade metafísica voltada para os númenos incognoscíveis - no sistema ontognosiológico de Kant - mas aparecem apenas ao entendimento (Verstand), faculdade intelectual que pensa o mundo físico com os seus objectos (fenómenos, como por exemplo, cadeiras, nuvens, planícies, corpos animais, etc).

 

Lê-se ainda no referido manual:

 

«A sensibilidade é então possibilitada, segundo Kant, pelo facto de a matéria das sensações ser organizada por uma forma a priori que possibilita as próprias sensações. Por exemplo, quando vemos uma mesa e, depois, uma cadeira que esteja perto dela, estes dois objectos não podem ser vistos senão enquadrados numa estrutura que permite o seu aparecimento. Esta estrutura é o espaço comum que eles ocupam...»

(Amândio Fontoura, Mafalda Afonso, Maria de Fátima Gomes,«Este amor pelo saber», revisão científica de Alexandre Franco de Sá, A Folha Cultural, Lisboa, pag 175).

 

O equívoco da primeira frase é o seguinte: dizer que a sensibilidade é possibilitada por uma acção da forma a priori que consiste em organizar a matéria das sensações. Não. Há aqui brumas da confusão. A sensibilidade é as duas formas a priori (espaço e tempo puros), não é possibilitada por estas, não é um momento ou estrutura posterior a estas. A sensibilidade pura possibilita, sim, os objectos empíricos, materiais.

 

O IDEALISMO NÃO ENCERRA, NECESSARIAMENTE, TODA A REALIDADE NA CONSCIÊNCIA

 

Eis como o manual define idealismo:

 

«O idealismo: esta posição sustenta que não há coisas reais independentes da consciência. Segundo esta perspectiva, toda a realidade está encerrada na consciência do sujeito; as coisas são somente conteúdos da consciência; apenas os conteúdos da consciência são reais.»

(Amândio Fontoura, Mafalda Afonso, Maria de Fátima Gomes,«Este amor pelo saber», revisão científica de Alexandre Franco de Sá, A Folha Cultural, Lisboa, pag 182; parte do bold é nosso).

 

Esta é uma definição parcialmente errónea de idealismo. Senão, vejamos: em Kant, os númenos ou coisas em si são coisas reais independentes da consciência e não são, sequer, conteúdos da consciência. Por outro lado, os conteúdos da consciência designados por fenómenos não são autenticamente reais. A doutrina de Kant é um idealismo transcendental e não encaixa mesmo nada na definição de idealismo dada no manual...

 

HÁ  SUBJECTIVISMO COMPATÍVEL COM OBJECTOS INDEPENDENTES DA CONSCIÊNCIA

 

A definição de subjectivismo delineada neste manual é:

 

«O subjectivismo: nesta concepção, o fundamento do conhecimento está no sujeito; os princípios do conhecimento humano residem no sujeito, do qual depende a verdade do conhecimento, uma vez que este conhece de acordo com o conjunto das leis que lhe são inerentes. Nesta concepção, é o sujeito que produz o objecto, não havendo objectos independentes da consciência, pois todos são produto do pensamento.»

(Amândio Fontoura, Mafalda Afonso, Maria de Fátima Gomes,«Este amor pelo saber», revisão científica de Alexandre Franco de Sá, A Folha Cultural, Lisboa, pag 182; parte do bold é nosso).

 

As águas sulfurosas da confusão conceptual são borbulhantes, neste texto. Confunde-se subjectivismo (percepção subjectiva da realidade interior ou exterior) com idealismo. A esmagadora maioria dos subjectivistas - Salvador Dali, Picasso, Mozart, e praticamente todos os artistas, escritores e intelectuais, além de muita gente simples do povo  eram subjectivistas- acreditam na existência de objectos independentes do pensamento humano, simplesmente interpretam-nos de forma singular e intimista.

 

HÁ OBJECTIVISMO EM QUE O OBJECTO NÃO DETERMINA O SUJEITO

 

Eis como o manual define objectivismo:

 

«O objectivismo: segundo esta concepção, é o objecto que determina o sujeito ; o sujeito apenas recebe as características do objecto, fazendo uma mera reprodução destas em si ».

 

(Amândio Fontoura, Mafalda Afonso, Maria de Fátima Gomes,«Este amor pelo saber», revisão científica de Alexandre Franco de Sá, A Folha Cultural, Lisboa, pag 182; parte do bold é nosso).

 

É uma definição bastante imperfeita e sectorial de objectivismo. Na verdade, existe objectivismo sem existir sujeito ou sujeitos: é a teoria defendida por exemplo por Sartre em "O ser e o nada" ou por Alfredo Reis segundo a qual a consciência é ser material, não constitui um espelho ou uma caixa de ressonância psíquica àparte da matéria. E, segundo a concepção realista, há milhões de anos, antes de haver humanidade, havia objectivismo - realidades objectivas, em si mesmas, como a Terra e o sistema solar - sem haver sujeito.

 

AO DEFINIR REALISMO, NÃO BASTA DIZER QUE SUPÕE OBJECTOS REAIS FORA DA CONSCIÊNCIA

 

«O realismo é a posição epistemológica segundo a qual há objectos reais independentes da consciência..

(Amândio Fontoura, Mafalda Afonso, Maria de Fátima Gomes,«Este amor pelo saber», revisão científica de Alexandre Franco de Sá, A Folha Cultural, Lisboa, pag 182; parte do bold é nosso).

 

É uma definição insuficiente, esfumada entre azuis de imprecisão: também o idealismo transcendental de Kant sustenta que há objectos reais - os númenos - fora da consciência....Falta algo mais, de essencial, para definir realismo gnosiológico: a alusão à materialidade dos objectos.

 

A INCAPACIDADE DE DEFINIR FENOMENOLOGIA

 

Sobre fenomenologia, diz o manual:

 

«Para a fenomenologia, conhecer é aquilo que tem lugar quando um sujeito apreende um objecto e cabe-lhe clarificar o que significa ser o objecto de conhecimento, ser sujeito cognoscente, e o que resulta desta relação que é o conhecimento (...) O sujeito desloca-se da sua esfera para a esfera do objecto, de modo a apreender as características do objecto - que está fora do sujeito e possui características diferentes...»

 

(Amândio Fontoura, Mafalda Afonso, Maria de Fátima Gomes,«Este amor pelo saber», revisão científica de Alexandre Franco de Sá, A Folha Cultural, Lisboa, pag 163).

 

Esta é uma interpretação realista, inspirada num texto de Nikolai Hartman, que perverte a essência da fenomenologia. Não explica o que esta é. Aliás, nenhum manual de filosofia para o ensino secundário em Portugal sabe explicar, com clareza, o que é fenomenologia (perdão: o manual que redigi sabe, mas não foi publicado...). As teses de Heidegger da verdade como desocultação do ser, opõem-se àquela definição do manual, que nada mais é que a teoria da verdade como correspondência.

 

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© (Direitos de autor para Francisco Limpo de Faria Queiroz)

 

 



publicado por Francisco Limpo Queiroz às 12:04
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4 comentários:
De f.limpo a 10 de Abril de 2008 às 22:32
É interessante verificar que na argumentação de Alexandre Franco de Sá não se encontram quase nenhumas citações de textos de Kant, em especial da "Crítica da Razão Pura". Fala sem bases concretas, apoiado nos arcobotantes da sua imaginação ou da sua interpretação demasiado falível da doutrina de Kant. Não consegue citar Kant contra mim mas eu consigo citar Kant contra ele. Sem ofensa, duvido que AFS tenha lido de uma ponta à outra a "Crítica da Razão Pura".

1º DISTINÇÃO ENTENDIMENTO-RAZÃO, UMA DAS TÓNICAS DA CRÍTICA DA RAZÃO PURA

Kant escreveu:

"O entendimento constitui um objecto para a razão, do mesmo modo que a sensibilidade para o entendimento. Tornar sistemática a unidade de todos os actos empíricos possíveis do entendimento é a tarefa da razão, assim como a do entendimento é ligar por conceitos o diverso dos fenómenos e submetê-los a leis empíricas. Porém, tal como os actos do entendimento, sem o esquemas da sensibilidade, são INDETERMINADOS, de igual modo a UNIDADE DE RAZÃO É INDETERMINADA em si mesma, com respeito às condições relativamente às quais o entendimento deverá ligar sistematicamente os seus conceitos e quanto ao grau até onde deverá fazê-lo» (Kant, Crítica da Razão Pura, Fundação Calouste Gulbenkian, pag 547).

Este é mais uma citação em que Kant desenha a estrutura triádica do espírito humano: a sensibilidade (degrau inferior, onde se formam os fenómenos árvore, casa, céu, corpos animais, etc); o entendimento (degrau médio, que pensa o mundo dos fenómenos que ajuda a estruturar com as categorias de unidade, pluralidade, causa-efeito etc e produz juízos como: «As árvores florescem na primavera"); a razão (degrau superior, que não recebe dados sensíveis e produz ideias e raciocínios metafísicos do tipo «Deus fez o mundo», «a alma humana é imortal», referentes a NÙMENOS).

Nada disto aparece claro na argumentação de AFS. Pelo contrário, insiste em que é correcta a errónea frase «Para Kant, os conceitos puros do entendimento devem organizar a experiência, tornando possível que os dados da sensibilidade apareçam à razão.» («Este amor pelo saber», A Folha Cultural, Lisboa, pag 176). Sincretismo, onde deveria haver distinção clara de níveis.

2º QUALQUER FENÓMENO EXTERNO SÓ É SE FOR INTERNO"? - O SINCRETISMO NA INTERPRETAÇÃO DE KANT

Sustento que Kant define o fenómeno espacial como estando na sensibilidade externa, isto é, fora do corpo mas dentro da enorme redoma que é a experiência sensível ou sensibilidade. AFS discorda e interpreta-me mal ao dizer que incluo a dor nessa categoria. Não. A dor é um fenómeno interno, distinto desta mesa ou daquela árvore, que são espaciais, externas ao corpo.

4º Se fosse assim, se se pudesse caracterizar o fenómeno como estando “fora do meu corpo mas dentro da minha sensibilidade”, que dizer, por exemplo, de qualquer fenómeno interno (uma dor, uma alegria, uma visão): é preciso não esquecer que qualquer fenómeno externo só o é se for fenómeno interno, ou seja, se for determinado pelo tempo enquanto forma do sentido em geral? Mais: que dizer da própria auto-consciência ou da consciência de si (Selbstbewusstsein), ou seja, daquilo a que Kant chama a “apercepção transcendental”? Quando o eu se conhece a si mesmo, este conhecimento é o de um eu “fenomenalizado”, o de um eu que se conhece a si mesmo sob a mediação da própria forma do sentido interno: o tempo. » (AFS)

Há que distinguir entre fenómenos externos e internos e não cair no caldo sincrético que AFS traça da gnosiologia de Kant: a mesa-fenómeno é um objecto externo ao corpo, não ao espírito, mas a percepção da mesa (dotada de cor, dureza, etc) é um fenómeno interno.

Ao dizer que "todo o fenómeno externo é fenómeno interno" Alexandre Franco de Sá COMETE UMA EXTRAORDINÁRIA CONFUSÃO SOBRE A GNOSIOLOGIA DE KANT (já agora agradecíamos que citasse a passagem onde Kant afirma isso...). É uma visão sincretista, confusa, onde tudo desce à gruta de um interiorismo sem luzes. Oponho-lhe o seguinte exemplo: a árvore que vejo ali é um FENÒMENO EXTERNO, ESPACIAL e não um fenómeno interno (Kant distingue entre o fenómeno e a sua representação); essa árvore está tingida ou impregnada do sentido interno ou tempo (duração, simultaneidade, sucessão) MAS NÂO É UM FENÒMENO INTERNO.

3º A OMISSÃO DE AFS SOBRE O "OBJECTO FORA DE NÓS" QUE NÃO É FENÓMENO, DE QUE FALA KANT., MAS NÚMENO OU COISA EM SI

Eis como AFS julga refutar a nossa tese do númeno exterior à consciência:

«2º Surge então a questão de determinar o númeno positivamente, e não apenas negativamente como não-fenómeno. Se o objecto é sempre o objecto de um determinado sujeito, tal corresponde a perguntar de que sujeito é o númeno o objecto. E daí a resposta de Kant, dada na versão B (ou seja, na 2ª edição): ele é «o objecto de uma intuição não-sensível», de «um modo particular de intuição, a intelectual, que, todavia, não é a nossa, de que nem podemos encarar a possibilidade» (B307). Por outras palavras: o númeno é o conceito do que seria o objecto de um sujeito infinito e criador (ou seja: causa não apenas das representações dos seus objectos, mas dos próprios objectos representados), sujeito esse cuja existência é, sob o ponto de vista teórico, problemática.

3º É por isso que o númeno não pode ser descrito como sendo uma “coisa real” que esteja “fora” da consciência, em contraste com um fenómeno que estaria “dentro” dela. Ao querer fazê-lo, veja que você acaba por forçar gratuitamente o pensamento kantiano, descrevendo o fenómeno como correspondendo «a uma situação de fora-dentro (fora do meu corpo mas dentro da minha sensibilidade, do espaço como intuição externa)» (presumo que o númeno estaria fora-fora…). (AFS)

O SOFISMA DE ALEXANDRE FRANCO DE SÁ contido na passagem do ponto 2º para o 3º consiste em inferir da incognoscibilidade do númeno a sua inexistência. Não é assim que Kant pensou, de facto: POSTULOU O NÙMENO REAL, FORA DE NÓS; AINDA QUE INCOGNOSCÌVEL, AINDA QUE NÃO POSSAMOS DEMONSTRÁ-LO.

Embora argumente que o númeno não existe fora de nós, fora das consciências humanas, o meu prezado contraditor Alexandre Franco de Sá não consegue encontrar uma única citação da "Crítica da Razão Pura" que fundamente essa posição. Pelo contrário, eu cito textos de Kant segundo os quais o objecto transcendental existe fora de nós, fora do nosso pensamento:

"Ora pode-se sem dúvida admitir que alguma coisa que pode estar fora de nós, no sentido transcendental, seja a causa das nossas intuições externas; mas essa alguma coisa não é o objecto que compreendemos ao falar das representações da matéria (...)"
"Porque, entretanto, a expressão FORA DE NÒS traz consigo um equívoco inevitável, significando ora algo que existe como COISA EM SI, distinta de nós, ora algo que pertence simplesmente ao FENÒMENO exterior..." ( Kant, Crítica da Razão Pura, F.Calouste Gulbenkian, pag. 352)

«Seja como for que o entendimento tenha chegado a este conceito, a existência do objecto do mesmo não se pode encontrar nele, analiticamente, porque o conhecimento da EXISTÊNCIA do objecto consiste em o objecto ser posto, em si mesmo, FORA DO PENSAMENTO. Porém é totalmente impossível sair por si mesmo de um conceito e, sem seguir o encadeamento empírico (pelo qual apenas são dados fenómenos), chegar à descoberta de novos objectos e seres transcendentes.» (Kant, Crítica da Razão Pura, pag 530).

KANT ADMITE AQUI UM OBJECTO FORA DO PENSAMENTO, ao qual não se pode chegar por conceitos nem por sensações, portanto, incognoscível. Esse objecto não é o fenómeno. Que será senão o NÚMENO?

E se há objectos fora do pensamento, confirma-se a minha tese de que ESTÁ ERRADA, ao menos no que se refere a Kant, a DEFINIÇÃO DE IDEALISMO dada por AFS e pelo manual "Este Amor pelo Saber" - «O idealismo... sustenta que não há coisas reais independentes da consciência. Segundo esta perspectiva, toda a realidade está encerrada na consciência do sujeito; as coisas são somente conteúdos da consciência; apenas os conteúdos da consciência são reais.» (in "Este Amor pelo Saber")

4º O NÚMENO É UM OBJECTO, SEGUNDO KANT, E NÃO O CONCEITO DE UM OBJECTO COMO DIZ ALEXANDRE FRANCO DE SÁ

Note-se que Alexandre Franco de Sá ignorou comentar esta como outras citações de KANT que colocam a hipótese de o númeno estar fora de nós:

«É por isso que ignoramos totalmente se está dentro ou fora de nós e se seria anulado conjuntamente com a sensibilidade ou se, abolida esta, permaneceria. É-nos lícito, se quisermos, dar a esse objecto o nome de númeno, porque a sua representação não é sensível.» (Kant, Crítica da Razão Pura, pag 291).

O númeno pode estar fora de nós... - admite Kant neste trecho. Este, o verdadeiro Kant, da "Crítica" não o Kant-ficção, inventado, adulterado por comentadores universitários, que Alexandre Franco de Sousa julga interpretar ou interpreta bem.

O númeno é um OBJECTO, afirma Kant, AO CONTRÁRIO DE ALEXANDRE FRANCO DE SÁ QUE ESCREVEU ACIMA: «1º O númeno é o conceito de um objecto. »

Vê-se assim como o nosso professor universitário de Coimbra deturpa, involuntariamente claro, o pensamento do filósofo alemão. Então, se o ´NÚMENO É UM OBJECTO (NÃO SENSÍVEL) NÃO PODE ESTAR CONTIDO NEM NA SENSIBILIDADE, NEM NO ENTENDIMENTO NEM NA RAZÃO, porque a razão não contém objectos mas conceitos transcendentais. LOGO O NÚMENO SÒ PODE ESTAR FORA DO ESPÌRITO HUMANO. Esta demonstração arrasa, insofismavelmente, a retórica sinuosa e falaciosa de Alexandre Franco de Sá.

Receio que AFS tenha caído no pecado que Schopenhauer apontava aos professores universitários: apesar de nada saberem em certas áreas do conhecimento, procuram dar uma aparência de que sabem responder a tudo e dominam todos os problemas para manterem o seu prestígio junto dos alunos e conservarem os seus postos. Ser professor universitário de filosofia é, em muitos casos, ser um antifilósofo. A filosofia é, em regra, incompatível com os ornamentos de realeza e as vaidades das cátedras.






De AFS a 10 de Abril de 2008 às 01:23
Caro Senhor,
Não quero maçá-lo com uma tréplica. Creio que as brevíssimas notas que lhe apresentei, bem como as suas respostas, deixam as coisas claras para qualquer leitor filosoficamente informado. No entanto, como está em causa uma apreciação descuidada de um manual cuja revisão científica me deu muito gosto fazer, elaborado, além disso, por professores que considero e que realizaram – independentemente das críticas que às suas opções e estratégias possam ser feitas – um trabalho sério, informado e honesto, trabalho esse que não merece, por isso, ser criticado apressadamente e com ligeireza, não resisto a voltar a fazer três breves reflexões, em torno apenas dos três tópicos que apresentei.

ad 1.
Volto a insistir que a razão é determinada por Kant como uma “faculdade de conhecimento”, facto pelo qual é possível intitular o projecto crítico como uma “crítica da razão”: «A razão é a faculdade que nos fornece os princípios do conhecimento a priori. Logo, a razão pura é a que contém os princípios para conhecer algo absolutamente a priori» (Crítica da Razão Pura, B24). Neste passo, que cito apenas para exemplo, a razão não aparece como faculdade distinta do entendimento, mas como faculdade de conhecimento em geral, a qual deve precisamente ser alvo de uma “crítica da razão”. Se me disser que Kant, ao eleger a razão como conceito distinto do entendimento, os distingue dizendo que o entendimento conhece através de conceitos puros, e que a razão pensa mas não conhece, dirá apenas algo óbvio e sobejamente conhecido para qualquer pessoa minimamente informada no âmbito filosófico. Mas não é isso que está em causa aqui. O que está em causa aqui é uma crítica injustificada da sua parte, baseada na pressuposição de que a distinção kantiana entre entendimento e razão torna impossível usar o termo “razão” em referência à faculdade do conhecimento, ou seja, em referência a uma faculdade através da qual um sujeito se refere a objectos que, enquanto fenómenos, lhe aparecem. Ora, como sabe, o problema de que parte a crítica kantiana, sob o ponto de vista teórico, consiste precisamente em saber o que a razão pode conhecer. Foi apenas isto que lhe tentei transmitir. E isso parece-me tão óbvio e simples que, sinceramente, não descortino porque diz que, ao fazê-lo, eu estou a “desenhar movimentos retóricos de diversão” (sic).

ad 2.
Não há aqui nenhuma dificuldade de compreensão da sua parte, apenas a insistência pretensamente rigorosa numa crítica à expressão usada no Manual: «A sensibilidade é então possibilitada, segundo Kant, pelo facto de a matéria das sensações ser organizada por uma forma a priori que possibilita as próprias sensações». Como lhe disse – e repito – se sensibilidade significa receptividade, tal quer dizer que é possível afirmar, como faz o Manual, que a sensibilidade ou receptividade encontra nas formas puras da sensibilidade a condição que a possibilita. É claro que Kant chama a estas formas puras da sensibilidade a sensibilidade a priori. Também isso é óbvio e sobejamente conhecido. Que outra coisa, aliás, lhes haveria de chamar? Mas isso de modo nenhum é posto em causa, ou tornado minimamente equívoco, pela formulação usada no Manual. Basta lê-lo. Por isso lhe disse que me parece que a sua leitura do Manual é demasiado apressada.

ad 3.

Este último ponto é o único em que, como lhe disse anteriormente, se torna patente uma má compreensão da sua parte em torno do conceito kantiano de númeno (nos anteriores, não se trata de não compreender Kant, mas de teimosamente tentar encontrar no Manual confusões que não se encontram nele). Permita-me, por isso, sem qualquer animosidade, assinalar-lhe dois absurdos manifestos, e tentar clarificar posteriormente a dificuldade que lhe leva a dizer que eu e «a esmagadora maioria dos docentes universitários não entenderam o pensamento fulcral de Kant» (sic).

O primeiro absurdo consiste em dizer que «o texto genuíno de Kant é o de 1787, base da versão da F.Calouste Gulbenkian». Não sei de onde tirou a ideia de que a base da tradução portuguesa é a 2ª edição e de que este é “o texto genuíno de Kant” (nem sei que quererá dizer com isso). A tradução portuguesa – como, aliás, todas as edições traduzidas e as edições alemãs – traduz a versão de 1781 e a de 1787, respectivamente como versões A e B.

O segundo absurdo consiste em dizer que «é evidente que Kant se contradiz ao longo da Crítica da Razão Pura sobre a noção de númeno». Kant não se contradiz ao longo da Crítica. Permita-me aqui um parêntesis: Heidegger – em Kant e o Problema da Metafísica e no curso do semestre de Verão de 1928, em Marburgo – explorará exaustivamente uma diferença de conteúdo entre as duas versões da Crítica, no que diz respeito ao estatuto da imaginação transcendental; mas isso não pode ser tratado como uma “contradição” e a sua abordagem desviar-nos-ia do tema – poderá, se tiver interesse, encontrar alguns apontamentos sobre estas diferenças entre as versões A e B da Crítica nos sumários desenvolvidos que preparei para o curso de Filosofia Moderna do semestre passado, que estão on-line na página da Univ. Coimbra. Contudo, como dizia, entre as duas versões da Crítica não há contradição. Mas há uma oscilação de formulação que não é inócua nem despicienda, criando dificuldades de expressão que se ligam, em larga medida, as dificuldades de compreensão como as que manifesta. Creio que estas se poderão dissipar com as seguintes notas:

1º O númeno é o conceito de um objecto. Um objecto é sempre (e nisso consiste o idealismo kantiano) o objecto de um certo sujeito. Ora, o sujeito humano é um sujeito finito e, como tal, não criador: ele não cria os seus objectos, mas apenas os conhece. Como lhe disse antes: enquanto faculdade do conhecimento (Erkenntnisvermögen), a razão é causa, não dos objectos representados, mas apenas da sua representação dos objectos. Ao objecto que é objecto de um sujeito finito, ao objecto que aparece a um sujeito que não se constitui como a sua causa, mas apenas como causa da sua representação, chama Kant “fenómeno”. Diante do fenómeno assim determinado, o númeno é apenas o não-fenómeno; ou seja, ele é, determinado negativamente, o objecto que não pode ser objecto de um sujeito finito como o homem.

2º Surge então a questão de determinar o númeno positivamente, e não apenas negativamente como não-fenómeno. Se o objecto é sempre o objecto de um determinado sujeito, tal corresponde a perguntar de que sujeito é o númeno o objecto. E daí a resposta de Kant, dada na versão B (ou seja, na 2ª edição): ele é «o objecto de uma intuição não-sensível», de «um modo particular de intuição, a intelectual, que, todavia, não é a nossa, de que nem podemos encarar a possibilidade» (B307). Por outras palavras: o númeno é o conceito do que seria o objecto de um sujeito infinito e criador (ou seja: causa não apenas das representações dos seus objectos, mas dos próprios objectos representados), sujeito esse cuja existência é, sob o ponto de vista teórico, problemática.

3º É por isso que o númeno não pode ser descrito como sendo uma “coisa real” que esteja “fora” da consciência, em contraste com um fenómeno que estaria “dentro” dela. Ao querer fazê-lo, veja que você acaba por forçar gratuitamente o pensamento kantiano, descrevendo o fenómeno como correspondendo «a uma situação de fora-dentro (fora do meu corpo mas dentro da minha sensibilidade, do espaço como intuição externa)» (presumo que o númeno estaria fora-fora…).

4º Se fosse assim, se se pudesse caracterizar o fenómeno como estando “fora do meu corpo mas dentro da minha sensibilidade”, que dizer, por exemplo, de qualquer fenómeno interno (uma dor, uma alegria, uma visão): é preciso não esquecer que qualquer fenómeno externo só o é se for fenómeno interno, ou seja, se for determinado pelo tempo enquanto forma do sentido em geral? Mais: que dizer da própria auto-consciência ou da consciência de si (Selbstbewusstsein), ou seja, daquilo a que Kant chama a “apercepção transcendental”? Quando o eu se conhece a si mesmo, este conhecimento é o de um eu “fenomenalizado”, o de um eu que se conhece a si mesmo sob a mediação da própria forma do sentido interno: o tempo. Por isso, quando digo “eu sou eu”, isto não é kantianamente uma tautologia, ou uma intuição intelectual do eu por si mesmo como “res cogitans” (à la Descartes), mas o reconhecimento por mim de mim mesmo tal como me apareço no meu percurso temporal, ou seja, tal como me apareço ao longo da própria “história” que constitui a minha vida, i. é, tal como me apareço como uma unidade que está subjacente, como uma síntese, à diversidade de experiências sucessivas que preenchem o meu tempo. Daí que Kant possa dizer, também na segunda versão da Crítica, que «não tenho conhecimento de mim tal como sou, mas apenas tal como apareço a mim mesmo» (B158). Se é assim, já vê a confusão que levanta falar do fenómeno como estando “fora do meu corpo e dentro da minha sensibilidade”.

5º O que você quer dizer é, afinal, que não é possível imputar ao idealismo kantiano um solipsismo cartesiano, no qual a razão aparece como uma “coisa” fechada sobre as suas ideias, duvidando de que haja realidades formais que, "fora" dela, correspondam à realidade objectiva destas. Isso, no entanto, é pacífico. Claro que, para Kant, a razão – ou, se preferir, o sujeito do conhecimento – é essencialmente intuição e está, portanto, projectada para “fora”. Mas este “fora”, ou seja, este objecto para o qual o sujeito se remete ao intuir, é sempre o objecto de um sujeito transcendental que constitui, nessa medida, a sua condição de possibilidade (e isso é o que quer dizer idealismo, pelo que – voltando à sua análise inicial – não há nada a apontar à formulação do Manual). Assim, se quiser dizer que o sujeito do idealismo kantiano está voltado para “fora”, claro que poderá fazê-lo com toda a propriedade: mas este “fora” é, para a razão humana, o fenómeno e não o númeno; o fenómeno não é uma mera aparência que remeta para algo “independente da subjectividade que está fora de nós” como uma existência substancial que a suporta, mas o inevitável correlato intencional de um sujeito marcado pela finitude e receptividade ou sensibilidade. O númeno, esse, é o objecto problemático de um sujeito que nós não somos e que, sob o ponto de vista teórico, é igualmente problemático. Em suma: se pensar bem, a sua dificuldade resulta de definir o númeno sempre como uma “coisa exterior” ou uma “coisa que está fora”. Se o númeno é o objecto que um sujeito que nós não somos, então, em relação à razão humana ou ao sujeito finito que o homem constitui, o númeno não é nem interior nem exterior, não está dentro nem fora; para um sujeito finito, o númeno simplesmente não está.

Mais uma vez, desculpe o tempo que lhe tomei. Penso, no entanto, que estas notas foram úteis para desfazer alguns equívocos que, apesar de tudo, são muito comuns.
Cumprimentos cordiais,
Alexandre Franco de Sá


De f.limpo a 9 de Abril de 2008 às 10:21
Agradeço a sua contestação às críticas que fiz ao vosso manual neste blog. Passo a contrapor o seguinte:

1º KANT INDICA EXPLICITAMENTE QUE A RAZÃO NÃO PENSA A COR VERMELHA, O DADO SENSÍVEL EM GERAL

A frase «Para Kant, os conceitos puros do entendimento devem organizar a experiência, tornando possível que os dados da sensibilidade apareçam à razão.» («Este amor pelo saber», A Folha Cultural, Lisboa, pag 176) é em si mesma contraditória. Como o meu caro contraditor Alexandre Franco de Sá admite, Kant usa, por vezes, o termo razão no duplo sentido de razão-entendimento: mas então que sentido tem o vosso manual usar na mesma frase o conceito de entendimento dizendo que ele possibilita que os dados sensíveis apareçam à razão... ENTENDIDA COMO ENTENDIMENTO?

Não. Isto é ambiguidade de linguagem. A distinção entre entendimento que pensa o mundo sensível e razão que não pensa o mundo sensível mas apenas o inteligível é feita por Kant em várias passagens da Crítica da Razão Pura:

«Sem entendimento, não haveria em geral natureza alguma, ou seja, unidade sintética do diverso dos fenómenos segundo regras; na verdade, os fenómenos, como tais, não podem encontrar-se fora de nós , mas existem apenas na nossa sensibilidade.» (Kant, Crítica da Razão Pura, Fundação Calouste Gulbenkian, pag 169, nota).

«Os conceitos da razão servem para CONCEBER, assim como os do entendimento para ENTENDER (as percepções). Se os primeiros contêm o incondicionado , referem-se a algo em que toda a experiência se integra, mas que, em si mesmo, não é nunca objecto da experiência.» (Kant, Crítica da Razão Pura, Fundação Calouste Gulbenkian, pag 307).

«Um conceito extraído de noções e que transcende a possibilidade da experiência é a IDEIA ou conceito da razão. Quem uma vez se habitue a esta distinção achará insuportável ouvir chamar ideia à representação da cor vermelha, que nem sequer se deverá chamar noção (conceito do entendimento).» (Kant, CRP, pag 313).

ESTÁ AQUI MUTO CLARO O PENSAMENTO DE KANT: A RAZÃO PRODUZ IDEIAS, conceitos que nada têm a ver com a experiência: O ENTENDIMENTO PRODUZ CONCEITOS LIGADOS AO DADO SENSÍVEL, como o conceito de cor vermelha, de árvore, de nuvem, de átomo, etc.

Dizer, como faz o manual «Este amor pelo saber» que "o entendimento oferece o dado sensível à razão" é deturpar o pensamento de Kant. Há que reconhecê-lo com honestidade, meu estimado contraditor Alexandre Franco de Sá, e não desenhar movimentos retóricos de diversão.

2º NÃO É A SENSIBILIDADE MAS A SENSIBILIDADE A POSTERIORI QUE É POSSIBILITADA PELA ACÇÃO DAS FORMAS A PRIORI

Insisto no facto de estar "subtilmente" confusa a frase «A sensibilidade é então possibilitada, segundo Kant, pelo facto de a matéria das sensações ser organizada por uma forma a priori que possibilita as próprias sensações. »
(Amândio Fontoura, Mafalda Afonso, Maria de Fátima Gomes,«Este amor pelo saber», revisão científica de Alexandre Franco de Sá, A Folha Cultural, Lisboa, pag 175). E Alexandre Franco de Sá não me conseguiu refutar, até porque parece ignorar que há dois modos da mesma sensibilidade: a sensibilidade A PRIORI (o espaço e o tempo puros, sem objectos, nem instantes determinados de tempo) e a sensibilidade A POSTERIORI ( o espaço e o tempo preenchidos, isto é, por exemplo, esta paisagem de árvores e céus sem nuvens, a esta hora meio-dia, deste dia X de 2008..)..

Para a frase que critiquei ser CORRECTA deveria ter a seguinte forma: "A sensibilidade A POSTERIORI é então possibilitada, segundo Kant, pelo facto de a matéria das sensações ser organizada por uma forma a priori que possibilita as próprias sensações. "

É uma "minúcia", uma "pequena" diferença, mas faz a diferença entre os que pensam com rigor e os que o não fazem. E não valha a desculpa de que num manual para o 11º ano não se é obrigado a desenvolver exaustivamente Kant. Certo. Mas é-se obrigado a ser claro e a clareza por aí não imperou.

Por outro lado, a frase de Alexandre F.S. «Tal não quer obviamente dizer – como inusitadamente assume a crítica – que as formas a priori da sensibilidade sejam “um momento ou estrutura posterior à sensibilidade”, mas que as formas a priori são as condições de possibilidade de qualquer receptividade em geral» DETURPA o que afirmei na minha crítica. Digo exactamente o inverso: as formas a priori ESPAÇO E TEMPO são a estrutura da sensibilidade, logo nunca poderiam ser um momento posterior a esta; por isso dizer , como faz o vosso manual, que elas «possibilitam a sensibilidade» é tão inexacto como dizer que..«o corpo possibilita o corpo».

Em rigor, só pode dizer-se: as formas a priori possibilitam a sensibilidade A POSTERIORI.



3º O NÚMENO É INDEPENDENTE DA SUBJECTIVIDADE, ESTÁ FORA DE NÓS, SEGUNDO KANT, EM CERTAS PASSAGENS DA "CRÍTICA"


Afirma Alexandre Franco de Sá, visando refutar a minha tese da exterioridade do númeno face ao espírito humano em Kant : "Nesta terceira crítica, torna-se perfeitamente patente uma má compreensão, ingénua e platonizante, do conceito kantiano de númeno. Segundo o autor da crítica, os númenos são “coisas reais independentes da consciência”. Ora, se o fossem, estaríamos na presença de uma espécie de platonismo: por um lado, existiriam coisas reais fenoménicas, que apareceriam ao sujeito e seriam, portanto, conteúdo da sua consciência; por outro lado, existiriam coisas reais numénicas, um mundo invisível que estaria como que atrás dos fenómenos como não aparecendo à consciência. "

Na verdade, ainda que Kant oscile de posição, ele afirma a exterioridade do númeno ou OBJECTO TRANSCENDENTAL em relação ao espírito humano na sua triplicidade sensibilidade-entendimento-razão:

«Deve, portanto, haver certamente algo fora de nós a que corresponde esse fenómeno que chamamos matéria. Porém, na qualidade de fenómeno, não está fora de nós, mas simplesmente em nós, como um pensamento..." (Kant, Crítica da Razão pura, pag 362)

PERGUNTO: QUE É ESSE ALGO FORA DE NÓS, NÃO MATERIAL, A NÃO SER O NÚMENO, A COISA EM SI? E se está fora de nós é ou não verdade que no idealismo transcendental, os númenos ou ideias incognoscíveis, subsistem fora das consciências humanas, ao contrário do que sustenta AFS?

Noutra passagem, escreveu Kant:

"Ora pode-se sem dúvida admitir que alguna coisa que pode estar fora de nós, no sentido transcendental, seja a causa das nossas intuições externas; mas essa alguma coisa não é o objecto que compreendemos ao falar das representações da matéria (...)"
"Porque, entretanto, a expressão FORA DE NÒS traz consigo um equívoco inevitável, significando ora algo que existe como COISA EM SI, distinta de nós, ora algo que pertence simplesmente ao FENÒMENO exterior..." ( Kant, Crítica da Razão Pura, F.Calouste Gulbenkian, pag. 352)

ESTA É UMA PASSAGEM CAPITAL DA DOUTRINA DE KANT mal conhecida e pouco meditada talvez. Admite o filósofo que há dois conceitos de FORA: o da COISA EM SI (o NÙMENO!) , distinto de nós - e DISTINTO DE NÒS QUER DIZER: FORA DA NOSSA SENSIBILIDADE, DO NOSSO ENTENDIMENTO E DA NOSSA RAZÃO, fora, do mesmo modo que os arquétipos de Platão estavam fora da alma humana - e o de FENÒMENO, que corresponde a uma situação de fora-dentro (fora do meu corpo mas dentro da minha sensibilidade, do espaço como intuição externa).

Sem dúvida, Alexandre Franco de Sá e a esmagadora maioria dos docentes universitários não entenderam o pensamento fulcral de Kant de conceber o númeno como arquétipo ou ideia em si «flutuando» fora do espírito humano ( a razão pensa o númeno mas não o apreende). Mas se lerem Schopenhauer descobrirão que a sua interpretação de Kant vai no mesmo sentido que a minha, neste ponto: Schopenhauer estabelece o paralelismo entre os noumena de Kant e as Ideias objectivas, transcendentes, em Platão.

É evidente que Kant se contradiz ao longo da Crítica da Razão Pura ( o texto genuíno de Kant é o de 1787, base da versão da F.Calouste Gulbenkian) sobre a noção de númeno´. Se em regra na "Crítica da Razão Pura" o númeno é postulado como estando FORA DE NÒS - duplamente fora de nós - há uma passagem em que é idada como ncognoscível a sua localização ideal:

«É por isso que ignoramos totalmente se está dentro ou fora de nós e se seria anulado conjuntamente com a sensibilidade ou se, abolida esta, permaneceria. É-nos lícito, se quisermos, dar a esse objecto o nome de númeno, porque a sua representação não é sensível.» (Kant, Crítica da Razão Pura, pag 291).

Se é certo que esta passagem, rara, contraria a minha tese (dominante na CRP) de que Kant sustentou a EXTERIORIDADE DO NÙMENO em relação ao ESPÌRITO HUMANO - que fundamento noutras passagens da "Crítica da RP"- contraria igualmente a vossa tese da INTERIORIDADE DO NÙMENO à razão humana e a vossa definição de que O idealismo... sustenta que não há coisas reais independentes da consciência. Segundo esta perspectiva, toda a realidade está encerrada na consciência do sujeito; as coisas são somente conteúdos da consciência; apenas os conteúdos da consciência são reais.» (in "Este Amor pelo Saber")

Há, por conseguinte, idealismo que sustenta haver ideias, coisas em si ideais, metafísicas, realidade ideal, fora das consciências dos sujeitos, ao contrário do que defende "Este Amor pelo Saber".







De AFS a 8 de Abril de 2008 às 03:47
Caros Senhores,

Por indicação da Drª Mafalda Afonso, li a crítica feita no vosso blog acerca do manual “Este amor pelo saber”, de que fiz a revisão científica. Com alguma surpresa, tomei sobretudo conhecimento das vossas referências às “confusões conceptuais” ou à “não compreensão a fundo do pensamento do filósofo alemão de Koenigsberg (não Konisberg)”. Na vossa crítica, afirmam que “a gnosiologia de Kant é um dos pontos fracos deste livro”. Esta crítica parece-me particularmente injusta. E é, aliás, esta a razão por que vos escrevo: não só não me parece que a breve apresentação feita no livro em torno da filosofia teórica kantiana seja um ponto fraco do livro, como me parece até que é precisamente um dos seus pontos mais fortes, conjugando o rigor e a exigência com a simplicidade imprescindível numa obra desta natureza. Por outro lado, pelo conteúdo das críticas apresentadas, penso ser possível dizer que é justamente o autor da crítica que manifesta a carência de compreensão que pretende assinalar nos autores. Esta minha apresentação poderia, creio, ser demonstrada passo a passo, percorrendo todos os tópicos assinalados pela crítica. Contudo, não pretendendo ser exaustivo nem enfadonho, limito-me, a título de exemplo, a três breves observações em torno das três primeiras críticas formuladas:

1ª crítica:
EM KANT, OS DADOS DA SENSIBILIDADE NÃO APARECEM À RAZÃO, E A SENSIBILIDADE NÃO É "POSSIBILITADA" POR UMA FORMA A PRIORI
«Para Kant, os conceitos puros do entendimento devem organizar a experiência, tornando possível que os dados da sensibilidade apareçam à razão.» (Amândio Fontoura, Mafalda Afonso, Maria de Fátima Gomes,«Este amor pelo saber», revisão científica de Alexandre Franco de Sá, A Folha Cultural, Lisboa, pag 176).
Há aqui um equívoco: os dados da sensibilidade nunca aparecem à razão, faculdade metafísica voltada para os númenos incognoscíveis - no sistema ontognosiológico de Kant - mas aparecem apenas ao entendimento, faculdade intelectual que pensa o mundo físico com os seus objectos (fenómenos, como por exemplo, cadeiras, nuvens, planícies, corpos animais, etc).

Comentário:
Nem o conceito de razão é usado por Kant unicamente no sentido de uma faculdade que pensa ideias, distinta, nesse sentido, de um entendimento que conhece através de categorias esquematizadas (é por isso que se torna possível falar de um “uso teórico da razão” referindo-se à faculdade de conhecer em geral), nem a razão pode ser definida como uma “faculdade metafísica voltada para os númenos incognoscíveis”. A razão humana, no seu uso teórico, é lato sensu uma “faculdade de conhecimento” (Erkenntnisvermögen) determinada pela sua finitude. Nesse sentido, ela é, como Kant afirma, a capacidade de ser causa não dos objectos que conhece, mas do modo como estes objectos lhe aparecem (nisso reside a sua finitude). Por outras palavras: a razão, no seu uso teórico, é precisamente a capacidade de ser causa, não dos objectos das suas representações, mas das representações desses mesmos objectos, no que se distingue da razão no seu uso prático, isto é, da “faculdade de desejar” (Begehrungsvermögen) enquanto capacidade de ser causa, não das representações dos objectos, mas dos próprios objectos representados como algo que não é, mas deve ser. Nesta acepção, o termo razão, no seu uso teórico, cobre a acepção de entendimento e de razão. Enquanto “faculdade de julgar”, a razão é entendimento: ela conhece os objectos mediante conceitos puros ou categorias articulados com a sensibilidade através de esquemas. Enquanto “faculdade de raciocinar”, a razão distingue-se do entendimento enquanto faculdade de conceitos, alargando os conceitos puros pelos quais o entendimento estabelece relações a uma totalidade incondicionada (Crítica da Razão Pura, A323, B379), pensando essa totalidade mas não a conhecendo. A razão, neste sentido, não está “voltada para os númenos incognoscíveis” (dizer isso é não compreender o conceito de númeno), mas para ideias produzidas pela razão a partir justamente dos tipos de relações (juízos categóricos, hipotéticos e disjuntivos) que o entendimento, enquanto faculdade de julgar, estabelece.

2ª Crítica

Lê-se ainda no referido manual:
«A sensibilidade é então possibilitada, segundo Kant, pelo facto de a matéria das sensações ser organizada por uma forma a priori que possibilita as próprias sensações. Por exemplo, quando vemos uma mesa e, depois, uma cadeira que esteja perto dela, estes dois objectos não podem ser vistos senão enquadrados numa estrutura que permite o seu aparecimento. Esta estrutura é o espaço comum que eles ocupam...»
(Amândio Fontoura, Mafalda Afonso, Maria de Fátima Gomes,«Este amor pelo saber», revisão científica de Alexandre Franco de Sá, A Folha Cultural, Lisboa, pag 175).
O equívoco da primeira frase é o seguinte: dizer que a sensibilidade é possibilitada por uma acção da forma a priori que consiste em organizar a matéria das sensações. Não. Há aqui brumas da confusão. A sensibilidade é as duas formas a priori (espaço e tempo puros), não é possibilitada por estas, não é um momento ou estrutura posterior a estas.

Comentário:
Não há o mínimo “equívoco” nesta passagem nem quaisquer “brumas de confusão”. Afirma-se que o espaço é uma forma a priori da sensibilidade que, precedendo os objectos externos (mesa, cadeira, etc.), possibilita a sua relação. Nesse sentido, Kant chama-lhe a forma do sentido externo. É claro que esta forma do sentido externo é determinada pelo tempo enquanto forma do sentido externo e interno, ou seja, enquanto forma pura da sensibilidade em geral. E que é a sensibilidade? É, diz Kant, «a capacidade de receber representações (receptividade)» (B33, A19). Pode então dizer-se que “a sensibilidade [isto é: a receptividade] é possibilitada pelas formas a priori da sensibilidade”. Tal não quer obviamente dizer – como inusitadamente assume a crítica – que as formas a priori da sensibilidade sejam “um momento ou estrutura posterior à sensibilidade”, mas que as formas a priori são as condições de possibilidade de qualquer receptividade em geral.

3ª crítica
O IDEALISMO NÃO ENCERRA, NECESSARIAMENTE, TODA A REALIDADE NA CONSCIÊNCIA
Eis como o manual define idealismo:
«O idealismo: esta posição sustenta que não há coisas reais independentes da consciência. Segundo esta perspectiva, toda a realidade está encerrada na consciência do sujeito; as coisas são somente conteúdos da consciência; apenas os conteúdos da consciência são reais.»
(Amândio Fontoura, Mafalda Afonso, Maria de Fátima Gomes,«Este amor pelo saber», revisão científica de Alexandre Franco de Sá, A Folha Cultural, Lisboa, pag 182; parte do bold é nosso).
Esta é uma definição parcialmente errónea de idealismo. Senão, vejamos: em Kant, os númenos ou coisas em si são coisas reais independentes da consciência e não são, sequer, conteúdos da consciência. Por outro lado, os conteúdos da consciência designados por fenómenos não são autenticamente reais. A doutrina de Kant é um idealismo transcendental e não encaixa mesmo nada na definição de idealismo dada no manual...

Comentário:
Nesta terceira crítica, torna-se perfeitamente patente uma má compreensão, ingénua e platonizante, do conceito kantiano de númeno. Segundo o autor da crítica, os númenos são “coisas reais independentes da consciência”. Ora, se o fossem, estaríamos na presença de uma espécie de platonismo: por um lado, existiriam coisas reais fenoménicas, que apareceriam ao sujeito e seriam, portanto, conteúdo da sua consciência; por outro lado, existiriam coisas reais numénicas, um mundo invisível que estaria como que atrás dos fenómenos como não aparecendo à consciência. É certo que, na primeira versão da Crítica da Razão Pura, Kant formula ainda o conceito de númeno naquilo a que poderíamos chamar um sentido platonizante: «De facto, se os sentidos apenas representam algo simplesmente como aparece, esse algo deve contudo também ser, em si mesmo, uma coisa e um objecto de uma intuição não sensível…» (A249 ss). Contudo, não é por acaso que Kant muda, na segunda edição da Crítica, a sua exposição do conceito de númeno. Nesta segunda edição, o númeno surge definido numa dupla acepção: númeno é, não um objecto ou uma “coisa real” que esteja atrás do fenómeno como o seu suporte substancial, mas um conceito determinado precisamente em função da sua relação com uma consciência. Neste sentido, ele é ou (definido negativamente) aquilo que não pode ser objecto de uma consciência finita e sensível como a humana ou (definido positivamente) aquilo que seria o objecto de uma consciência infinita, cuja existência é problemática (cf. B307). Ora, se a existência desta consciência é problemática, no domínio teórico, também o é a existência de númenos enquanto entidades objectivas distintas dos fenómenos. Consequentemente, o númeno é tratado por Kant sobretudo em face do seu conceito negativo. É neste sentido que, na continuação do capítulo em que estabelece a diferença entre fenómenos e númenos, Kant aplica o conceito ao tratamento da anfibolia leibniziana (cf. A260, B316 ss), mostrando como a substância de Leibniz consiste num “ser de razão” (ens rationis) cuja existência, não sendo impossível, ou seja, não sendo um objecto vazio sem conceito (nihil negativum), é contudo problemática, na medida em que corresponde a um conceito vazio sem objecto. Em suma: ao contrário do que é afirmado, o Manual não erra ao afirmar – de forma simplificadora, é certo – que para o idealismo “não há coisas reais independentes da consciência”. Esta afirmação é perfeitamente correcta naquilo que se pretende ser uma introdução simples e aceitável ao tratamento da questão. Com isso, não se afirma, naturalmente, que todo o idealismo seja um solipsismo, mas antes que, no idealismo, a consciência consiste numa estrutura transcendental que constitui a própria condição de possibilidade do fenómeno e da sua realidade.


Verifico agora que me estendi demasiado, no que gostaria que fossem apenas algumas breves notas que assinalassem, apenas como exemplo, as derrapagens teóricas numa apreciação demasiado apressada do manual em causa. Peço desculpa pela extensão destes comentários.

Recebam os meus melhores cumprimentos,
Alexandre Franco de Sá


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