Sexta-feira, 11 de Abril de 2008
A incompreensão de Russell sobre a teoria da sensibilidade de Kant

 

Bertrand Russell não compreendeu o essencial da teoria do espaço, do tempo e da matéria em Kant, designada por Estética Transcendental. É espantoso que fraudes parciais, como a interpretação de Kant por Russell, sobrevivam nas universidades – Cambridge e Oxford incluídas – durante décadas ou séculos, e em livros universalmente difundidos. As cátedras universitárias não são imunes ao paralogismo, ao erro persistente, ao sofisma.

 

Escreveu Russell:

«Há aqui, como através de toda a teoria da subjectividade do espaço e do tempo em Kant, uma dificuldade que parece que ele não sentiu. O que me induz a estruturar os objectos da percepção como o faço, de preferência a outro modo? Por que razão, por exemplo, vejo sempre os olhos das pessoas acima das suas bocas e não abaixo delas? De acordo com Kant, os olhos e a boca existem como coisas em si, e causam as minhas percepções separadas, mas nada neles corresponde ao arranjo espacial que existe na minha percepção (Russell, History of Western Philosophy, Routledge, pag. 648; o negrito é de nossa autoria).

 

Russell interpreta Kant como se este fosse um realista crítico radical – gnosiólogo que postula que há um mundo material exterior e invisível para mim e que o mundo que percepciono é uma ilusão representativa da realidade desconhecida – e não um idealista como Kant, de facto, foi.

 

Kant nunca escreveu que os objectos da percepção, os fenómenos, como boca, olhos, cavalos ou árvores, existem em si mesmos: sustentou exactamente o contrário, os olhos e a boca existem em nós – na nossa mente exterior – como fenómenos.

 

Assim, de acordo com Russell:

 

1) Kant defenderia que não podemos conhecer a verdadeira boca e as verdadeiras árvores, porque são númenos, incognoscíveis. Conhecemos unicamente as sensações, que não correspondem aos objectos numénicos mas distorcem a captação destes..

 

A nossa crítica a Bertrand Russell é a seguinte: uma árvore, uma boca, um corpo humano, a Terra ou o céu não podem ser númenos porque possuem espaço e tempo e matéria incorporados em si e os númenos são coisas reais, imateriais, ideias, fora do espaço e do tempo. Os objectos da experiência (mesas, animais, casas, etc) não podem ser númenos, nem mesmo as suas essências (de mesas, animais, casas, etc) o podem ser. Russell estava tão preso ao empirismo orientado para uma ontologia realista que era incapaz de «esvaziar» a realidade exterior de objectos materiais com formas determinadas. Mas os númenos não têm nenhuma forma e não são compostos de matéria. Russell não compreendeu, como quase todos os catedráticos do mundo inteiro ainda hoje, que a doutrina de Kant supõe dois níveis da mente humana, a interior – onde estão a sensação, o tempo, a percepção – e a mente exterior – onde se situa o mundo visível, o espaço, o conjunto dos fenómenos materiais, árvores, céu, rios, animais, etc..

 

De acordo com Kant:

 

1) Podemos conhecer a boca (a boca aparentemente real porque não existe outra boca atrás dessa) e as árvores, árvores aparentemente reais, reais na medida em que são criados pela nossa mente que está dentro e fora do nosso corpo. Certamente, a autêntica realidade última– os númenos – está  atrás dos fenómenos, quer dizer, atrás das casas, pessoas físicas, mar, ruas, sol, nuvens, céu, estrelas, etc. Mas não há uma árvore numénica, nem uma boca numénica (como Russell supunha).

 

Vejamos como Kant distingue dois níveis de exterioridade nos objecto: a verdadeira exterioridade do númeno e a pseudo exterioridade do fenómeno, apenas exterior em relação ao corpo humano, distinção que Bertrand Russell, Simon Blackburn e milhares de outros catedráticos foram incapazes de conceber, dada a sua incompreensão do pensamento genuíno de Kant:

 

«Porque, entretanto, a expressão fora de nós traz consigo um equívoco inevitável, significando ora algo que existe como coisa em si, distinta de nós, ora algo que pretence simplesmente ao fenómeno exterior, para colocar fora de incerteza este conceito tomado neste último sentido, que é aquele em que propriamente é tomada a questão psicológica respeitante à realidade da nossa intuição externa, distinguimos os objectos empiricamente exteriores daqueles que poderiam chamar-se assim no sentido transcendental, designando-os por coisas que se encontram no espaço».(Kant, Crítica da Razão Pura, Fundação Calouste Gulbenkian, pag 352).

 

Assim, todos os fenómenos (bocas, árvores, paisagens, etc) estão dentro da nossa enorme alma, contendo dentro em si o universo físico, e não fora dela como Russell supôs.

 

NÃO HÁ DOIS ESPAÇOS, MAS UM SÓ, NA DOUTRINA DE KANT

 

Russell supôs erradamente que a teoria de Kant sustenta a existência de dois espaços:

 

«Deixem-nos experimentar tentar considerar a questão levantada por Kant como pontos de vista sobre o espaço de maneira mais geral (…) Similarmente, deve haver uma correlação entre o espaço como ingrediente nas percepções e o espaço como ingrediente no sistema das causas imperceptíveis das percepções» (Russell, History of Western Philosophy, pag 649-650).

 

É um erro! Kant nunca postulou dois espaços mas apenas um único no interior da nossa representação, mas Russell adultera o pensamento de Kant. Este escreveu:

 

«Simplesmente, o próprio espaço, com todos os seus fenómenos como representações, só existe em mim; mas, nesse espaço, contudo, é dado o real ou a matéria de todos os objectos da intuição externa, verdadeira e independentemente de toda a ficção; e é também impossível que, nesse espaço, seja dada qualquer coisa de exterior a nós (no sentido transcendental), porque o próprio espaço nada é fora da sensibilidade.» Kant, Crítica da Razão Pura, Fundação Calouste Gulbenkian, pag 354; o negrito é colocado por nós).

 

O espaço é, pois, interior à sensibilidade, a qual extravasa o nosso corpo físico. Mesmo o papel desempenhado pelas formas na Teoria da Sensibilidade, de Kant, não foi compreendido correctamente por Russell:

 

«O que nos aparece na percepção, que chamamos um fenómeno, consiste em duas partes: a que é devida ao objecto, e à qual chamamos sensação, e a que é devida ao nosso aparelho subjectivo, que, diz ele, causa a multiplicidade que deve ser ordenada dentro de certas relações. A esta última parte chama a forma do fenómeno. Esta parte não é em si mesma sensação, e por consequência, é não dependente do acidente do meio envolvente; é sempre a mesma, desde que a transportamos connosco, e é a priori no sentido em que não depende da experiência.» (Russell, ibid, pag 646; o negrito é nosso).

 

Como pode Russell separar a sensação da multiplicidade e supor que esta deriva exclusivamente da forma a priori? O caos das sensações, produzido indirectamente pelos númenos e gerado dentro da sensibilidade, é múltiplo, antes de ser moldado pelas formas a priori. As formas são também múltiplas e, bem ao contrário do que Russell afirmou, não são sempre as mesmas, variam: certamente, as formas primitivas como triângulos, círculos, quadrados, são a priori e não mudam mas as formas das árvores, maçãs, montanhas, mar, ondas, corpos humanos, etc, são a posteriori , dependem da experiência, e mudam.

 

Nota: Este artigo foi enviado à revista Intelektu em Outubro de 2007 para eventual publicação, que foi recusada. Como "justificação" foi invocado por Sara Bizarro que «não publicamos história da filosofia»...Mas isto são ideias, raciocínios, fazem parte da própria essência da filosofia.

 

www.filosofar.blogs.sapo.pt

f.limpo.queiroz@sapo.pt

 

© (Direitos de autor para Francisco Limpo de Faria Queiroz)

 

 



publicado por Francisco Limpo Queiroz às 00:57
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