Domingo, 4 de Maio de 2008
Erros teóricos em "A Arte de Pensar, Filosofia 11º ano" (Crítica de Manuais Escolares -XXVII)

O manual português " A arte de pensar" para o 11º ano de Filosofia, da Didáctica Editora,  tem os seus méritos e deméritos. Entre estes, avulta uma característica ideológica que percorre todo o manual: o seu antimarxismo e a censura que objectivamente faz sobre as filosofias de esquerda (marxismo, anarquismo, internacional situacionismo, parte do surrealismo, grande parte do ecologismo, etc) e as críticas destas à sociedade capitalista, ao conceito e ao ritmo de desenvolvimento tecnocrático-industrial e à ciência como expressão ideológica e política das classes dominantes.

Encontra-se algum texto de Marx, neste manual, que contenha a crítica à alienação política, económica, social e cultural dos trabalhadores sob a dominação capitalista e pré-capitalista? Encontra-se algum texto de Paul Feyerabend criticando a medicina alopática (química) erigida em "verdade única" no sistema de saúde, a arrogância dos físicos galardoados com o Nobel ao recusar discutir a influência possível dos astros na vida humana com os defensores da Astrologia?

Há milhares de textos excelentes para despertar a verve filosófica dos alunos na área da crítica da ciência, da ideologia dominante e do modelo social vigente- de Guy Debord, de Marx e Engels, de Paul Feyereband, de Michael Foucault, de Jean Baudrillard, etc- dos quais nem um só é citado pela "Arte de Pensar". Politicamente, este manual convém ao CDS, ao PSD e à ala direita do PS - e não se pense que estamos a exagerar, porque a política está subjacente aos programas de filosofia aprovados pelo ministério, aos manuais e seus autores. Só quem fôr ingénuo atendo-se ao lema de que "filosofia não tem a ver com política" discordará de nós.

 A  filosofia não serve essencialmente para transmitir a lógica proposicional que, por si mesma, é incapaz de ensinar a pensar correctamente. Serve para pensar em todos os domínios e ajudar a transformar o mundo ou, pelo menos, o indivíduo.

UMA VISÃO INCORRECTA DO QUE É O PRAGMATISMO

Um exemplo de confusão neste manual é o conceito que têm de pragmatismo e a crítica a esta teoria:

«Críticas à teoria pragmatista

1. Verdade e utilidade nem sempre se conjugam. Há acções baseadas em crenças verdadeiras que são manifestamente prejudiciais e acções baseadas em crenças falsas que, por acaso ou não, proporcionam resultados desejáveis. Além disso, do facto de ser frequentemente útil adoptar ideias verdadeiras, não se segue que elas sejam verdadeiras por serem úteis. Pelo contrário, parece que só podem ser úteis precisamente por serem verdadeiras.» (Aires Almeida, Célia Teixeira, Desidério Murcho, Paula Mateus, Pedro Galvão, A arte de pensar, Filosofia 11º ano, Didáctica Editora, pag 266; o bold é nosso).

Está presente aqui uma deturpação do conceito de pragmatismo, reduzindo-o à identidade verdade-utilidade. Ora para o pragmatismo, a verdade não engloba apenas utilidade empíricamente provada mas também a inutilidade empiricamente comprovada. Exemplo: muitos pragmatistas nunca concordaram com a "utilidade" definida pelo governo de Truman, dos EUA, de lançar duas bombas atómicas sobre Hiroshima e Nagasáqui, em 6 e 9 de Agosto de 1945; no entanto, aceitaram como verdadeiros esses factos, não só inúteis como terrivelmente nefastos para o povo japonês e a humanidade em geral.

Nunca os pragmatistas afirmaram que as ideias úteis se tornam ou são necessariamente verdadeiras. Se assim fosse, a metafísica religiosa, útil para a tranquilidade de milhões de pessoas, seria verdadeira, o que William James negou, colocando-a sob a cortina de nevoeiro do cepticismo.

O manual "A arte de pensar" obscurece ou ignora a faceta empírica do pragmatismo, destacando a faceta utilitarista ( que não é o mesmo que a empírica). Não compreendeu, pois, o que é o pragmatismo.

William James escreveu:

«El pragmatismo representa una actitud perfectamente familiar en filosofía, la actitud empírica; pero la representa, a mi parecer, de un modo más radical y en una forma menos objetable. (...) Se aleja de abstracciones e insuficiencias, de soluciones verbales, de malas razones a priori, de principios inmutables, de sistemas cerrados y pretendidos "absolutos" y "orígenes". Se vuelve hacia lo concreto y adecuado, hacia los hechos, hacia la acción y el poder. Esto significa el predominio del temperamento empirista y el abandono de la actitud racionalista. Significa el aire libre y las posibilidades de la Naturaleza contra los dogmas, lo artificial y la pretensión de una finalidad en la verad.» (William James, Pragmatismo, Folio, pag 49).

Não há aqui nenhuma identificação entre utilidade e verdade, tese não pragmatista contra a qual a "Arte de Pensar" esgrime lanças.

PRAGMATISMO CONDUZ AO RELATIVISMO (ANEXO A CEPTICISMO)?

E prossegue o manual "A arte de pensar":

«2. Conduz ao relativismo. O pragmatismo implica o relativismo, na medida em que, para algumas pessoas, pode ser útil acreditar numa coisa e, para outras pessoas, pode não ser útil acreditar nessa mesma coisa. Nesse caso, o que é verdade para uns pode ser falso para outros, o que não é fácil de explicar.» (Aires Almeida, Célia Teixeira, Desidério Murcho, Paula Mateus, Pedro Galvão, A arte de pensar, Filosofia 11º ano, Didáctica Editora, pag 266; o bold é nosso).

O pragmatismo implica o relativismo? Não necessariamente. O método pragmatista, isto é, da análise do mundo empírico e definição de soluções práticas, é compatível com o absolutismo de valores. Oliveira Salazar, por exemplo, era um político pragmático, movia o xadrez da sua política sem metafísica - é duvidoso que acreditasse em Deus, apesar do seu passado como dirigente do Centro Académico de Democracia-Cristã em Coimbra, na 1ª República Portuguesa - mas tinha valores absolutistas (para ele, «o bem corporiza-se nos regimes monárquicos ditatoriais, ou republicanos fascistas e o mal encarna nos regimes de democracia liberal ou de ditadura comunista ou anarquista e nos antitradicionalistas em geral»).

Seria, aliás, de precisar o que os autores de "A arte de Pensar" entendem por relativismo. E, já o sabemos de "A arte de pensar, 10º ano de Filosofia" , concebem relativismo como a teoria que sustenta que, uma vez que há diferentes posições sobre a mesma matéria (casamento, divórcio, religião, política, etc), todas valem o mesmo. Hilary Putnam, Richard Rorty e outros "notáveis filósofos" caem no poço do mesmo erro: definem relativismo desembocando em cepticismo... Ora há um relativismo em que todas as teorias têm diferentes valores entre si, o que os autores de "A arte de pensar" ignoram.

A frase: «o que é verdade para uns pode não ser verdade para outros, o que não é fácil de explicar" é de uma candura pré-filosófica tal que faz sorrir. Qualquer pessoa intui que os homens estão envolvidos em redes sociais que os opõem uns aos outros e que a "verdade dos "vencedores não é a "verdade dos vencidos"...

O PRAGMATISMO NÃO É UMA TEORIA SOBRE A NATUREZA DA VERDADE?

Terceira frágil crítica de "A arte de pensar" ao pragmatismo:

«3. Não é uma teoria àcerca da natureza da verdade. A teoria pragmatista não chega realmente a explicar-nos o que é a verdade, limitando-se apenas a indicar o que é verdadeiro. Por exemplo, apercebemo-nos que estamos perto de uma escola quando vemos crianças com pastas e mochilas, mas isso não quer dizer que "escola" signifique "local em que se podem ver crianças com pastas e mochilas». Ora, indicar o que é verdadeiro, sem nos esclarecer acerca da natureza da verdade é confundir o modo de descoberta da verdade - domínio da epistemologia - com a verdade - domínio da metafísica.(Aires Almeida, Célia Teixeira, Desidério Murcho, Paula Mateus, Pedro Galvão, A arte de pensar, Filosofia 11º ano, Didáctica Editora, pag 266; o bold é nosso).

É um erro dizer que o pragmatismo não é uma teoria sobre a verdade. É, de facto, uma teoria sobre o lado empírico da verdade, da verdade para nós, da manifestação sensorial e  observável desta. O pragmatismo opta pela «verdade do lado de cá, visível» em detrimento da «verdade do lado de lá, invisível».

Ademais, a epistemologia não é meramente um modo de descoberta da verdade - é a verdade nos quadros da ciência - e tão pouco a verdade (em geral) é domínio da metafísica, mas sim a verdade última, profunda.

www.filosofar.blogs.sapo.pt

f.limpo.queiroz@sapo.pt

© (Direitos de autor para Francisco Limpo de Faria Queiroz)

 

 

 

  



publicado por Francisco Limpo Queiroz às 18:57
link do post | comentar | favorito
|

mais sobre mim
pesquisar
 
Outubro 2017
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6
7

8
9
10
11
12
13

15
16
17
18
19
20
21

22
24
25
26
27
28

29
30
31


posts recentes

Teologia cátaro-bogomila:...

Teologia cátaro-bogomila:...

Teologia cátaro-bogomila:...

Ponto 23º 7´/23º 15´de qu...

Erros na tradução portugu...

O sublime moral para Scho...

Seísmos en México en Astr...

Área 9º-10º do signo de T...

Neocátaros versus budismo...

Teologia neocátara: sem j...

arquivos

Outubro 2017

Setembro 2017

Agosto 2017

Julho 2017

Junho 2017

Maio 2017

Abril 2017

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Agosto 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Setembro 2006

Agosto 2006

Julho 2006

Maio 2006

Abril 2006

Março 2006

Fevereiro 2006

tags

todas as tags

favoritos

Teste de filosofia do 11º...

Pequenas reflexões de Ab...

Suicídios de pilotos de a...

David Icke: a sexualidade...

links
Fazer olhinhos
blogs SAPO
subscrever feeds