Quarta-feira, 14 de Maio de 2008
Incompreensões sobre o Relativismo no "Filosofia 11º ano" da Plátano (Crítica de Manuais Escolares- XXIX)

O Manual Filosofia 11º ano da Plátano Editora faz a seguinte crítica ao relativismo:

«2. O relativismo é contraditório. O relativismo é a teoria segundo a qual não há verdades universais e absolutas e e que, consequentemente, todas as verdades são relativas a indivíduos, a sociedades e a culturas. Uma forma rápida de colocar o relativismo em dificuldades é perguntar se esta afirmação é ela mesma relativa ou universal e absoluta. É que se é relativa, então é verdadeira apenas para os indivíduos, sociedades e culturas que a aceitam e falsa para todos os outros. Se pelo contrário, esta ideia não é relativa, mas universal e absoluta, então há verdades universais e absolutas. Em qualquer dos casos, o relativismo contradiz-se.» (Luís Rodrigues, Júlio Sameiro, Álvaro Nunes, Filosofia 11º ano, Plátano Editora, pag 182).

Como se desfaz o sofisma de Luís Rodrigues de que o relativismo é auto-contraditório?  Distinguindo entre essência e existência do relativismo. A essência do relativismo - ou definição, diria Aristóteles - é absoluta. Mas a sua existência é relativa, isto é, varia de acordo com as épocas, lugares, povos, etnias, culturas, religiões, classes sociais, etc.

A definição de relativismo não faz parte do relativismo. É feita de fora. Logo, pode ser absoluta. Do mesmo modo que uma fotografia ( "absoluto imóvel") de uma pessoa não faz parte do corpo vivo, em movimento dessa pessoa (relativo), é feita desde fora.

O relativismo é contraditório na medida em que a vida, a realidade é em si mesma contraditória. Mas em si mesmo, no plano teórico, não há contradição alguma em professar o relativismo, este tem uma consistência fixa como definição, como ideia que engloba as variações.

As ciências empíricas e as ciências hermenêuticas são relativistas, isto é, postulam leis e casos que são verdades relativas, válidas apenas em determinado contexto. Por exemplo, a lei da gravidade terrestre é anulada a partir de um determinado ponto do espaço sideral em que a lei da gravidade lunar se faz sentir com igual intensidade: um corpo colocado nessa zona, em vez de cair para a Terra, começa a circular como um satélite em torno desta. Também as liberdades, direitos e garantias constitucionais de uma democracia liberal são suspensas ou suprimidas em caso de guerra ou ataque terrorista em larga escala ou revolução popular armada. Isto é relativismo político-jurídico. Onde está a contradição, senão na mudança de circunstâncias? Ser relativista na apreciação dos factos é uma obrigação de quem analisa a realidade com espírito de verdade.

O relativismo é o modo de ser das ciências. E se elas contêm algo de "absoluto", de fixo e imutável, esse "absoluto" só é válido dentro de certos limites. O Manual de Luís Rodrigues, Júlio Sameiro e Álvaro Nunes revela uma incompreensão sobre o carácter essencialmente relativista do conhecimento humano, em particular do conhecimento científico.

RELATIVISMO É COMPATÍVEL COM OBJECTIVISMO

No manual "Filosofia 11º ano", de Luís Rodrigues, afirma-se o seguinte sobre o relativismo:

«Não há factos filosóficos ou verdades objectivas em filosofia, mas unicamente interpretações (parece ser isto o que se entende por plurivocidade da verdade).»  (Luís Rodrigues, Filosofia 11º ano, Platano Editora, pag 292).

Isto exprime a nuvem de confusão extraordinária em que flutuam Luís Rodrigues e outros autores da mesma escola de pensamento. Relativismo significa que a verdade objectiva varia conforme as épocas, lugares, mas não deixa de ser objectiva, isto é, igualmente patente a todos. Não há incompatibilidade nenhuma entre relativismo e objectivismo. Eis um exemplo: a côr do céu muda consoante as horas do dia ( relativismo) - rósea ou alaranjada ao nascer do sol, azul nas horas seguintes, rósea ou alaranjada ao pôr do sol- e no entanto, a cada hora, é objectivamente percebida por toda a gente com a mesma tonalidade (objectivismo.)

Luis Rodrigues confunde objectivismo com imutabilismo da verdade ou absolutismo gnosiológico. Mas objectivismo não se restringe a isso, inclui o relativismo científico e filosófico dogmático.

www.filosofar.blogs.sapo.pt

f.limpo.queiroz@sapo.pt

© (Direitos de autor para Francisco Limpo de Faria Queiroz)

 

 

 

 



publicado por Francisco Limpo Queiroz às 10:44
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