Sexta-feira, 23 de Maio de 2008
Filosofia viva contra Filósofos mortos, uma falsa questão de Desidério Murcho

Em artigo no jornal português "Público", escreveu Desidério Murcho, este semifilósofo  do regime capitalista neoliberal, construído, em parte, pelos favores dos media:

 

«Confunde-se muitas vezes a filosofia com discursos pretensamente inspiradores. Transfigura-se a filosofia e não se trata de discutir ideias livre e cuidadosamente, mas antes de usar a autoridade ilusória dos filósofos mortos para alimentar as aspirações mais palermas. Descobriu-se que não estamos no centro do universo e que o Deus bíblico não fez o mundo em sete dias? Ah, mas a marca de Deus está nas nossas aspirações humanas indeléveis, de suprema importância lógica. Aceitamos que Deus morreu? Ah, mas substitui-se isso pelo Ser e desatamos a perorar contra a lógica e a racionalidade, as culpadas de todos os males da humanidade.» ( Desidério Murcho, Filosofia e aspiradores, Público de 20 de Maio de 2008).

 

Duas falácias são empregues por Murcho na sua argumentação: 1. A de que é irracional admitir a existência de Deus ou Deuses; 2. A de que a filosofia deve derrubar as teorias dos filósofos mortos porque estas abusam da autoridade.

 

NÃO É IRRACIONAL ADMITIR A EXISTÊNCIA DE DEUSES, AO CONTRÁRIO DO QUE MURCHO SUSTENTA

 

O obscurantismo não é apenas o da Inquisição medieval ou de cultos religiosos sádicos e punitivos em alto grau: assume, numa das suas vertentes modernas, o carácter de ateísmo totalitário. Vimo-lo historicamente em regimes marxistas-leninistas, como a Albânia, em que as igrejas foram fechadas e transformadas em armazéns. Na guerra civil de Espanha de 1936-1939, os meus "camaradas" anarquistas cometeram, por força das circunstâncias é certo, actos de totalitarismo anti-religioso tradicional como a violação de freiras, queima de templos e exumação de cadáveres, etc.

É certo que um filósofo pode e deve proclamar-se ateu, se o entender. Mas é apenas uma visão metafísica particular. O problema de Deus ou dos deuses permanecerá sempre em aberto como um espaço residual para a reflexão filosófica. Na verdade, quem pode demonstrar que é palermice, irrealidade, a existência de Deus? O ateísmo de Desidério é uma petição de princípio (falácia): Deus não existe porque não se vê ou não se manifesta físicamente. Mas o mesmo sucede com certos tipos de átomos, ou com as partículas sub-atómicas, nas quais Desidério, supostamente crê, por força do condicionamento mental a que se submeteu.

 

É possível demonstrar a irracionalidade, a assistematicidade da divisão que Desidério Murcho fez, com os seus amigos (Aires Almeida, Pedro Madeira, Célia Teixeira, Paula Mateus, etc) das correntes sobre livre-arbítrio e determinismo no manual de 10º ano de Filosofia "A arte de pensar", imitando Simon Blackburn : determinismo radical, determinismo moderado ou compatibilismo, indeterminismo, libertarianismo. Já em artigo deste blog mostramos o magma de confusão do pensamento destes autores. Onde está aqui na "Arte de Pensar" a racionalidade que Desidério invoca? Não existe, ou existe mutilada. Um filósofo ateu pode ser estúpido e confuso, em certa medida; e um filósofo agnóstico ou mesmo um filósofo crente nos deuses pode ser inteligente superiormente, racional, luminoso. A crença ou não em Deus não é a pedra de toque da verdadeira racionalidade filosófica.

Não é possível provar a inexistência de Deus ou deuses. Aliás, Aristóteles e os cabalistas foram tão inteligentes na teorização de um Deus além de tudo, que o conceberam como pensamento puro, sem qualquer interferência no mundo material em que vivemos.

 

A FALSA QUESTÃO DOS FILÓSOFOS VIVOS CONTRA OS FILÓSOFOS MORTOS

 

A outra falácia de Desidério é dizer que combate a autoridade ilusória dos filósofos mortos, como se isso fosse a verdadeira filosofia. Mas Montesquieu, Rousseau ou Alexis de Tocqueville, teóricos da democracia liberal e da soberania popular, estão mortos. É isso motivo para condenar este regime?  E Bertrand Russell, criador do atomismo lógico, da lógica proposicional que Desidério faz tanta questão de promover como a pedra de toque da verdade - lógica que tem vários erros formais, diga-se - está morto. Desidério defende portanto filósofos mortos - Bertrand Russel, McTagart, etc - contra outros filósofos mortos - Hegel, Platão, Heidegger, etc- mas esconde o facto.

 

É uma falsa questão opor os filósofos vivos aos filósofos mortos, porque as ideias filosóficas são perenes, reactualizáveis em qualquer época. Lembra os vendedores de aspiradores que proclamam que o modelo mais recente é melhor do que o modelo de há 2 anos ou de há 5 anos. No fundo, Desidério Murcho é um vendedor de "aspiradores teóricos": a sua teoria da preponderância da lógica interproposicional é uma aspiração metafísica, uma religião logicizada. Proclamando subversiva a filosofia, Desidério muito pouco tem de subversivo: o seu conservadorismo lógico, o seu desesperado agarrar-se à bíblia russel-fregiana da lógica, é expressão da insegurança de quem pensa pouco e, muitas vezes, mal, na galáxia da filosofia.

 

www.filosofar.blogs.sapo.pt

f.limpo.queiroz@sapo.pt

© (Direitos de autor para Francisco Limpo de Faria Queiroz)



publicado por Francisco Limpo Queiroz às 19:02
link do post | comentar | favorito
|

3 comentários:
De beatriz a 31 de Maio de 2008 às 12:11
Concordo com o que diz - de há uns anos a esta parte chega a haver quase um assédio no sentido de se adoptar os manuais destas pessoas.
Toda esta pressão no sentido de usarmos todos os mesmos óculos para olhar o real parece pouco democrática, pouco crítica, pouco filosófica.


De f.limpo a 24 de Maio de 2008 às 22:51
Concordo plenamente consigo, Beatriz. É, certamente, uma professora de filosofia lúcida e atenta a estes "filósofos" de pacotilha que os media promovem.

E repare no poder mediático do grupo de Desidério Murcho, Aires Almeida, Antonio Paulo Costa e Pedro Galvão: o "critica na rede" (para além do anúncio de livros, abunda em artigos paralógicos e é quase só uma passarela de comentários filosóficos, muitos deles a correr, superficialissimos); a lekton (lista portuguesa de filosofia; a mim não me permitiram anunciar lá um livro...); os manuais da Plátano ou Lisboa Editora deles, confusos e insistindo sempre na palavra argumento, como se a filosofia fosse lógica proposicional, retórica e quase nada mais...; a revista Intelektu; a organização do próximo Congresso de Professores de Filosofia em Portugal; uma rede de blogs "amigos" que engraxam os sapatos da vaidade de Desidério, promovido a "grande pensador" (imagine-se o quanto Desidério plagia o Simon Blackburn, essa "sumidade" inglesa com pouco sumo filosófico superior..)

Este grupo quer o poder, acima de tudo, mas é intelectualmente fraco. E semeia nuvens e nuvens de poeira de confusões conceptuais entre os professores de filosofia portugueses.


De beatriz a 24 de Maio de 2008 às 21:04
Gostei da classificação de 'vendedor de aspiradores teóricos' - esses senhores que têm uma sociedade «científica» de filosofia( falácia do apelo à autoridade?) parecem não ser capazes de discussão racional fora dos limites da lógica proposicional e parecem não ser capazes de viajar intelectualmente pelas épocas passadas e dialogar com os filósofos, não como autoridades mortas mas como espíritos vivos.
Deve ser por isso que os manuais desses indivíduos são intelectualmente 'apertadinhos'.


Comentar post

mais sobre mim
pesquisar
 
Novembro 2017
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4

5
6
7
8
9
10
11

13
14
15
16
17
18

19
20
21
22
23
24
25

26
27
28
29
30


posts recentes

Reflexões de Novembro de ...

Quando se tornará a Catal...

Cátaros do século XXI: o ...

Reflexões de Outubro de 2...

Aristóteles: Deus, causa ...

Rui Rio deverá vencer San...

Teologia cátaro-bogomila:...

Teologia cátaro-bogomila:...

Teologia cátaro-bogomila:...

Ponto 23º 7´/23º 15´de qu...

arquivos

Novembro 2017

Outubro 2017

Setembro 2017

Agosto 2017

Julho 2017

Junho 2017

Maio 2017

Abril 2017

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Agosto 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Setembro 2006

Agosto 2006

Julho 2006

Maio 2006

Abril 2006

Março 2006

Fevereiro 2006

tags

todas as tags

favoritos

Teste de filosofia do 11º...

Pequenas reflexões de Ab...

Suicídios de pilotos de a...

David Icke: a sexualidade...

links
Fazer olhinhos
blogs SAPO
subscrever feeds