Sexta-feira, 6 de Março de 2009
A Hermenêutica de Habermas frente ao Estruturalismo de Foucault

Habermas é um pensador hermenêutico  - a hermenêutica é a interpretação contextualizada, historicizada, privilegiando o discurso dos sujeitos subjectivos -  ao passo que Foucault era um pensador estruturalista – o estruturalismo é uma arquitectura de estruturas de pensamento e modos de ser, eliminando o sujeito subjectivo.

É interessante ver como Habermas critica Foucault ,a quem no texto seguinte classifica de historiógrafo genealogista.

 

«1. Como vimos, Foucault quer eliminar a problemática hermenêutica e, assim, a auto-referencialidade que se manifesta com uma abordagem interpretativa do domínio do objecto. O historiógrafo genealogista não deve proceder como o hermeneuta, não deve tentar tornar compreensível aquilo que os actores fazem e pensam, a partir de um contexto tradicional entrelaçado na autocompreensão dos actores. Ele deve, antes, elucidar o horizonte dentro do qual tais manifestações podem aparecer dotadas de sentido de sentido partindo de práticas subjacentes. Deve, por exemplo, explicar a proibição dos combates dos gladiadores na Roma tardia, não como devida à influência humanizante do Cristianismo, mas à dissolução de uma formação de poder substituída pela seguinte. No horizonte do novo complexo de poder de Roma posterior a Constantino é, por exemplo, perfeitamente natural que o soberano já não trate o povo como um rebanho de carneiros que têm de ser acautelados, mas como um bando de crianças que precisam de ser educadas - e não se pode deixar que as crianças se entreguem descuidadamente a espectáculos sangrentos. Os discursos que fundamentaram a organização ou a abolição dos combates de gladiadores não passam de um disfarce de uma prática de dominação inconsciente que lhes está subjacente. Enquanto fontes de todo o sentido, tais práticas são em si mesmas destituídas de sentido; o historiador tem de as abordar do exterior, para lhes apreender a estrutura. Neste contexto, não há necessidade de nenhuma pré-compreensão hermenêutica, mas tão somente do conceito de história como mutação formal destituída de sentido e caleidoscópica de universos discursivos que nada têm de comum senão o serem protuberâncias do poder em geral. »

 

«Relativamente à pretensão obstinada à objectividade que acompanha a auto-compreensão, basta um relance de olhos a qualquer dos livros de Foucault para se ficar a saber que o historiador radical só pode explicar as tecnologias do poder e as práticas de dominação comparando-as umas com as outras -  e de modo nenhum pode explicar cada uma delas como uma totalidade a partir de si própria.»

(Jürgen Habermas, O Discurso Filosófico da Modernidade, Publicações Dom Quixote, pag 260-261; o negrito é posto por nós).

 

O combate entre a hermenêutica, que dá voz às subjectividades situadas no seu tempo, espaço e circunstância psicológica particular, e o estruturalismo positivista de Foucault, que se centra na sobreposição das radiografias das diferentes culturas e formas sociais históricas eliminando o particular e o subjectivo de cada uma, é uma modalidade do combate entre o empirismo, que colhe as sensações, os sabores, os odores, e o empirismo, que despreza as sensações, as interpretações subjectivas, em favor de um esquematismo universal.

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f.limpo.queiroz@sapo.pt

© (Direitos de autor para Francisco Limpo de Faria Queiroz)

 



publicado por Francisco Limpo Queiroz às 10:31
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