Quarta-feira, 29 de Abril de 2009
Para Aristóteles, Deus é substância, tema em que São Tomás se contradiz

Aristóteles definiu Deus como um pensamento activo, perfeito, imutável, imóvel, fonte do bem e causa indirecta, passiva, de todo o movimento no universo. E esse pensamento vivo é substância, isto é, a substância primeira imaterial, princípio da perfeição. Todavia, o neoaristotélico medieval SãoTomás de Aquino recusou atribuir a Deus a condição de substância. 

 

Escreveu Aristóteles:

 

 

«E posto que há algo que move sendo ele mesmo imóvel, estando em acto, esse não pode mudar em nenhum sentido. (…) Trata-se de algo que existe necessariamente. E enquanto existe necessariamente é perfeito, e deste modo é princípio. (…)

 

«De um tal princípio pendem o Universo e a Natureza. E a sua actividade é como a mais perfeita que somos capazes de realizar por um breve intervalo de tempo (ele está sempre em tal estado, o que para nós é impossível), pois a sua actividade é prazer (por isso o estar desperto, a sensação e o pensamento são sumamente prazenteiros e em virtude disto são-no também as esperanças e as recordações). »

 

«Do que foi dito, resulta evidente, por conseguinte, que há uma certa substância (ousía) eterna e imóvel, e separada das coisas sensíveis. Foi igualmente demonstrado que tal substância não tem em absoluto, tamanho, mas carece de partes e é indivisível.» (Aristóteles, Metafísica, Livro 12, capítulo VII, 1072b-1073a; o bold é nosso).»

 

 

São Tomás de Aquino nega que Deus pertença a qualquer género, inclusive ao género substância:

 

«Artigo 5º

 

Deus pertence ou não pertence a algum género?

 

Objecções pelas quais parece que Deus pertence a algum género:

 

1.      Substância é o ser que subsiste por si mesmo. Isto corresponde sobretudo a Deus. Portanto, Deus pertence ao género da substância. (…)

 

Resposta às objecções: À primeira há que dizer: A palavra substância não significa somente o que subsiste por si mesmo, pois o que é ser enquanto tal não é género, como se demonstrou. Mas significa a essência a que lhe corresponde ser assim, isto é, ser por si mesma. Sem embargo, o ser não é a sua própria essência. Deste modo, é claro que Deus não pertence ao género da substância.» (Santo Tomás de Aquino, Suma de Teologia, I, Parte I, Biblioteca de Autores Cristianos, Madrid, pags 119-120; o bold sem itálico é nosso).

 

 

Não é claro, a meu ver, este texto do doutor angélico: a frase «o ser não é a sua própria essência» é equívoca, como equívoca é a consequência «Deste modo, é claro que Deus não pertence ao género da substância». São Tomás joga com um duplo sentido da palavra ser: existência em geral; ente supremo, princípio criador. É certo que a substância é um ser-aí, um ser-algo, além de ser (existir em geral). Mas para fazer Deus escapar da redoma do género substância, que identifica com essência, o doutor angélico afirma, em contradição com outras passagens da Suma, que o ser (Deus) «não é a sua própria essência».

 

São Tomás usa nos dois sentidos conferidos por Aristóteles, com alguma ambiguidade, a palavra substância (ousía): objecto ou ente singular, único; essência, ou seja, forma comum (eidos), colectiva, a diversas substâncias individuais.

 

Deus, ser singular, é uma substância espiritual, imóvel e eterna, no dizer de Aristóteles; mas não é substância e não pertence ao género substância para São Tomás . Parece que o erro reside neste último.

 

Aliás, São Tomás admitiu que o Filho - uma das pessoas constituintes de Deus - é engendrado substancialmente do Pai, isto é, a substância (essência individualizada) do Filho nasce do Pai:

 

«Segundo o Damasceno, ingénito significa o mesmo que incriado, em um sentido: o substancial. E nisto se diferencia a substância criada da incriada.(...) É assim que não se pode deduzir que o Pai ingénito se distinga do Filho engendrado substancialmente, mas que só há distinção de relação, isto é, enquanto a relação filial não se dá no Pai.» (Santo Tomás de Aquino, Suma de Teología, Tomo I, pag 353).

 

Não pode haver dúvidas de que o Filho, parte integrante de Deus, possui substância. Como seria possível, pois, que Deus não pertencesse ao género substância?

 

Afinal, o que é substância, em sentido pleno do termo, isto é, de substância primeira (proté ousía), na doutrina aristotélica? É uma forma individualizada: pela matéria ou não. Deus é a substância incriada (a proté ousía), a forma pura sem matéria, a única substância em que a essência é a sua própria existência.

 

Pertence pois à espécie substância, sendo embora absolutamente singular e distinto, em grau superior, de todas as outras substâncias.

 

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© (Direitos de autor para Francisco Limpo de Faria Queiroz)

 

 

 



publicado por Francisco Limpo Queiroz às 23:12
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7 comentários:
De Libia a 4 de Dezembro de 2014 às 12:24
Santo Tomás de Aquino diz substância convém a Deus veja:
“..substância convém a Deus enquanto significa o existir por si.” (Suma Teológica, I, questão 9, As Pessoas Divinas, artigo 4, p. 530).
Substância é o Ser que subsiste por si. Isso ocorre em Deus. O Ser que subsiste por si é Deus. “Enquanto existe em si e não em outro, chama-se subsistência, pois subsistir se diz do que existe em si mesmo e não em outra realidade.” (Suma Teológica I, questão 29, art. 2, p. 526).


De Hudson a 15 de Outubro de 2016 às 03:50
O autor comete erro grosseiro, ao identificar o Filho como "parte integrante" de Deus ou "constituinte" de Deus. Não é assim na Trindade. Deus não tem partes, é indivisível. Não há três partes em Deus, Deus é um.


De Francisco Limpo Queiroz a 17 de Outubro de 2016 às 15:35
O catecismo da igreja católica diz:

253. A Trindade é una. Nós não confessamos três deuses, mas um só Deus em três pessoas: «A Trindade consubstancial.» As pessoas divinas não dividem entre Si a divindade única; cada uma delas é Deus por inteiro.»


Portanto, segundo esta teologia, o Filho é Deus ou constituinte de Deus, Hudson. Faço notar que não sou católico romano.


De Hudson a 25 de Outubro de 2016 às 16:44
"Cada uma é Deus ppr inteiro" Não há constituição nisso. O credo não supõe constituiçao na Trindade. CONSTITUIÇÃO supõe PARTE, componentes, isso é absurdo em se tratando de Deus.
Deus não tem partes, não tem constituintes. Se Deus é UM, como diz o credo, então não constituído de nada. Simples.


De Francisco Limpo Queiroz a 26 de Outubro de 2016 às 02:57
A sua posição teórica é confusa Hudson. Se Deus é um só, porque razão é ao mesmo tempo três pessoas? É evidente que Três Pessoas estão contidas num só Deus, são constituintes de Deus. Se apenas houvesse o Pai, aí sim, a coincidência seria absoluta, e não haveria partes. No fundo você diz que um é igual a três. Um triângulo é um só mas tem três vértices, um superior (o Pai)e os outros dois inferiores (o Filho, o Espírito Santo) - essa é a imagem geométrica da Trindade, Hudson. Não tem lógica dizer que cada um dos vértices é o triângulo mas sim que os três em conjunto formam o triângulo. Logo, três Pessoas constituem o Deus dos católicos.


De José LuizAlves Pereira a 8 de Outubro de 2017 às 01:04
Por causa dessa concepção triangular colocando o Pai novértice superior a igreja romana atodou o autoritarísmo!....
Esse autoritarismo foi prejudicial a igreja adotando a justiça em detrimento a misericordia!...
Prefiro o conceito pericorético da igreja oriental, onde esse triangulo é trocado por tres círculos entrelaçados, numa coreografia universal!.............................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................. ............................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................


De Francisco Limpo Queiroz a 8 de Outubro de 2017 às 14:04
Sim, José Alves Pereira, o autoritarismo da igreja romana e a errónea assunção desta de que «o Deus do Antigo Testamento Iavé-Elohim é o pai de Jesus» fizeram com que esta fosse sempre parcialmente e essencialmente satânica (inquisição, acumulação de riquezas desmedidas, feudalismo, fascismo, etc).


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