Segunda-feira, 11 de Maio de 2009
Popper, intérprete medíocre da doutrina de Kant

Karl Popper é apenas um, de uma plêiade de filósofos medianos e de centenas de milhar de professores de filosofia de todo o mundo, que não compreenderam a essência da doutrina de Kant, o idealismo transcendental e físico, em particular a tese de que a matéria – a madeira, a água, o ferro, a árvore, etc – é mera percepção e não ser em si.


Escreveu Popper:


«A esta perspectiva que acabo de delinear, Kant decidiu atribuir a feia – e duplamente enganadora – designação de Idealismo Transcendental. Depressa se arrependeu dessa escolha, na medida em que ela levava as pessoas a crer que ele era um idealista no sentido de negar a realidade das coisas físicas: de afirmar que as coisas físicas eram meras ideias. Kant apressou-se a explicar que se limitara a negar que o espaço e o tempo fossem empíricos e reais – empíricos e reais no sentido em que as coisas e os acontecimentos físicos são empíricos e reais. Mas de nada lhe serviu protestar. O seu estilo difícil selou-lhe o destino. Kant iria ser venerado como pai do Idealismo Alemão.»( Karl Popper, Conjecturas e Refutações, Almedina, pag 246; o bold é nosso)


 Popper afirma pois que, para Kant, os corpos são objectos reais em si mesmos mas Kant diz exactamente o oposto:


«Devíamo-nos, contudo, lembrar de que os corpos não são objectos em si, que nos estejam presentes, mas uma simples manifestação fenoménica, sabe-se lá de que objecto desconhecido; de que o movimento não é efeito de uma causa desconhecida, mas unicamente a manifestação fenoménica da sua influência sobre os nossos sentidos; de que, por consequência, estas duas coisas não são algo fora de nós, mas apenas representações em nós; de que, portanto, não é o movimento da matéria que produz em nós representações, mas que ele próprio (e portanto também a matéria que se torna, assim, cognoscível) é mera representação.» (Kant, Crítica da Razão Pura, Fundação Calouste Gulbenkian, nota das pags 363-364: o bold é nosso)


Assim os corpos são meras representações, isto é, percepções sensoriais tridimensionais. Não são reais em si, ontologicamente. São apenas reais empiricamente, ou seja reais para nós, enquanto a nossa mente, as nossas categorias intelectivas  e os nossos sentidos os produzem.


Popper afirma que para Kant, os objectos como mesa árvore são reais, estão fora de nós, sobrevivem à morte dos sujeitos humanos (visão realista). Mas a leitura atenta de Kant leva-nos a perceber que, segundo este, a árvore e a mesa existem em nós, embora fora do nosso corpo físico, mas dentro da grande redoma do nós que abarca o mundo «exterior», e a perceber que a árvore e a mesa desapareceriam, como «miragens», caso a mente humana se extinguisse (visão idealista).


 É, pois, medíocre a interpretação de Popper sobre a gnosiologia de Kant


www.filosofar.blogs.sapo.pt


f.limpo.queiroz@sapo.pt


© (Direitos de autor para Francisco Limpo de Faria Queiroz)


 


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publicado por Francisco Limpo Queiroz às 22:46
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