Terça-feira, 19 de Maio de 2009
Uma equívoca divisão de Popper: Essencialismo / Instrumentalismo/ Teoria das Conjecturas e Refutações

Karl Popper estabeleceu, de forma equívoca, uma divisão triádica da perspectiva científica: essencialista, instrumentalista e conjecturalista (teoria das conjecturas e refutações, posição de Popper).

 

Escreveu Popper:

 

«O essencialismo, a primeira das três perspectivas da teoria científica a ser discutida, faz parte da filosofia galilaica da ciência. Dentro desta filosofia podemos distinguir três elementos ou doutrinas que nos dizem aqui respeito: o essencialismo (a nossa “primeira perspectiva”) é aquela parte da filosofia galilaica que não desejo defender e que consiste numa combinação das doutrinas (2) e (3). São estas as três doutrinas:

 

1)      O cientista tem por finalidade descobrir uma teoria ou descrição verdadeira do mundo (e, em especial, das suas regularidades ou leis), que constituirá igualmente uma explicação dos factos observáveis. (Isto significa que a descrição desses factos tem de ser dedutível da teoria, em conjunção com determinados enunciados, as chamadas “condições iniciais”).

 

«Esta é uma doutrina que desejo apoiar. Faz parte da nossa terceira perspectiva.»

 

2)      O cientista consegue comprovar em definitivo a verdade dessas teorias, para além de qualquer dúvida razoável .

 

«Esta segunda doutrina, segundo creio, necessita de correcção. Tudo o que o cientista pode fazer, em minha opinião, é testar as suas teorias e eliminar todas aquelas que não consigam fazer face aos testes mais rigorosos que for capaz de conceber. Mas não pode estar nunca inteiramente seguro de que os novos testes (ou mesmo uma nova discussão teórica) não possam levá-lo a modificar, ou a abandonar, a sua teoria. Neste sentido, todas as teorias são e permanecem hipóteses: são conjecturas (doxa), por contraste com o conhecimento indubitável (epistemé).»

 

3)      As melhores teorias, as teorias verdadeiramente científicas, descrevem as “essências”  ou as “naturezas essenciais” das coisas – as realidades que subjazem às aparências. Esta terceira doutrina (em conexão com a segunda) é aquela a que chamei “essencialismo”. Estou convencido de que, à semelhança da segunda, é uma doutrina errónea.

 

«Ora o que os filósofos instrumentalistas da Ciência, de Berkeley a Mach, Duhem e Poincaré, têm em comum é o seguinte: todos eles afirmam que a explicação não é um objectivo da ciência física, dado que esta não pode descobrir “a essência oculta das coisas”. (…)(Karl Popper, Conjecturas e Refutações, Almedina, pag 147-148; o bold é de nossa autoria)

 

«O instrumentalismo pode ser formulado como a tese de que as teorias científicas – as teorias das chamadas ciências “puras” – não são mais do que as regras de computação (ou regras de inferência), que têm, fundamentalmente, o mesmo carácter que as regras de computação das ciências “aplicadas”. (Poderíamos inclusivamente formulá-lo como a tese de que a Ciência “pura” é uma designação imprópria, e que toda a Ciência é “aplicada”). (…)(Karl Popper, Conjecturas e Refutações, Almedina, pag 157; o bold é nosso.)

 

«Poderíamos formular esta “terceira perspectiva” das teorias científicas de forma breve, dizendo que são conjecturas genuínas  suposições altamente informativas acerca do mundo que, apesar de não verificáveis, (isto é, susceptíveis de ser demonstradas como verdadeiras) podem ser submetidas a rigorosos testes críticos. São sérias tentativas de descobrir a verdade. Neste aspecto, as hipóteses científicas são exactamente como a famosa conjectura de Goldbach na teoria dos números. Goldbach pensava que essa conjectura podia ser eventualmente verdadeira. E é efectivamente possível que o seja, ainda que nós não saibamos e possamos talvez, nunca vir a saber se ela é ou não verdadeira.» (…)(Karl Popper, Conjecturas e Refutações, Almedina, pag 162; o bold é nosso)

 

 

Que confusões impregnam Popper?

 

Em primeiro lugar, a imprecisão do conceito de essencialismo. Na verdade, essencialismo não se opõe, como contrário, a instrumentalismo. O que se opõe a este é não instrumentalismo, ou racionalismo especulativo. É óbvio que entendemos o que Popper quer dizer – por essencialismo, ele pretende designar um platonismo epistemológico em que as explicações últimas (essências) ou pelo menos algumas destas não se podem testar – mas pensa confusamente e utiliza um termo inapropriado.

 

Não há um, mas dois essencialismos, pelo menos. A teoria de Platão é um essencialismo transcendente-  as essências estão situadas num mundo inteligível fora da experiência – mas a teoria de Aristóteles é um essencialismo imanente – as essências ou formas comuns estão nos objectos físicos e no  pensamento que as abstrai deles. Assim, há um instrumentalismo essencialista, que reduz as essências a regras procedimentais gerais, a métodos práticos, sem metafísica, e um instrumentalismo não essencialista, isto é, acidentalista.

 

O contrário de instrumentalismo é racionalismo especulativo, não experimental ou não instrumental, e não essencialismo como Popper sustenta equivocamente.

 

 

A TEORIA DAS CONJECTURAS E REFUTAÇÕES É UM ESSENCIALISMO NÃO DOGMÁTICO

 

Por outro lado, a incapacidade de Popper manejar habilmente o princípio do terceiro excluído – três ou mais domínios reduzem-se à dualidade A ou não-A – é visível. Aplicando este princípio, infere-se que, sob certa óptica, as teorias podem dividir-se em : essencialistas e não essencialistas. É lógica aristotélica inultrapassável, que Popper não aplica.

 

Escreveu:

 

«O essencialismo olha para o nosso mundo quotidiano como uma mera aparência, por detrás da qual descobre o mundo real. Esta perspectiva tem de ser abandonada assim que tomamos consciência do facto de que cada uma das nossas teorias pode ser, por seu turno, explicado por outros mundos, que são descritos por outras teorias – teorias de um mais elevado nível de abstracção, universabilidade e testabilidade. A doutrina de uma realidade essencial ou última desmorona-se juntamente com a doutrina da explicação última.»

 

«Na medida em que, de acordo com a nossa terceira perspectiva, as novas teorias científicas são, à semelhança das antigas, verdadeiras conjecturas, elas constituem verdadeiras tentativas de descrever esses outros mundos. Somos assim levados a tomar todos esses mundos, incluindo o nosso mundo quotidiano, como igualmente reais; ou talvez, melhor dizendo, como aspectos ou estratos igualmente reais no mundo real.» (…)(Karl Popper, Conjecturas e Refutações, Almedina, pag 162-163; o bold é nosso)

 

 

Em primeiro lugar, não é verdade que todo o essencialismo olhe para o nosso mundo quotidiano como mera aparência: só algum essencialismo - o de Platão, o de Kant, por exemplo o faz. O próprio Galileu, que Popper classifica como essencialista, vê o mundo como um sistema de fenómenos e coisas reais, considerando apenas as cores, sons, cheiros e sabores como aparências.

 

Em segundo lugar, Popper admite que as novas teorias científicas as suas, em especial -  são, à semelhança das antigas, que eram essencialistas, verdadeiras conjecturas, isto é, essências teóricas, especulativas, verosímeis. Que é a conjectura, senão um conjunto de essências indemonstráveis ou não demonstradas até agora?

 

 

Assim, a teoria das conjecturas e refutações de Popper integra-se no dualismo essencialismo- não essencialismo (instrumentalista ou não) que o princípio do terceiro excluído impõe: o conjecturalismo de Popper é um essencialismo não dogmático, mutabilista, que se distingue do essencialismo dogmático de Galileu, Newton e outros e se opõe ao não essencialismo instrumentalista.

 

A divisão triádica feita por Popper essencialismo, instrumentalismo, teoria das conjecturas e refutações popperiana subsiste, pois, na névoa de confusão.

 

www.filosofar.blogs.sapo.pt

 

f.limpo.queiroz@sapo.pt

 

© (Direitos de autor para Francisco Limpo de Faria Queiroz)

 



publicado por Francisco Limpo Queiroz às 17:16
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