Terça-feira, 23 de Junho de 2009
O sofisma de Cirne Lima: Refutar o princípio da não-contradição de Aristóteles
Carlos Cirne Lima, professor na Pontifícia Universidade do Rio Grande do Sul, Brasil, anunciou há mais de uma década «ter refutado o princípio da não contradição enunciado por Aristóteles» :

 «O princípio da não contradição foi formulado por Aristóteles na seguinte maneira: «É impossível predicar e não predicar o mesmo predicado do mesmo sujeito sob o mesmo aspecto e ao mesmo tempo». Este é o primeiro princípio do pensar e do falar que, quando negado, ressurge das próprias cinzas e se reafirma de novo. (…)»


«Descobri algo importante e fundamental, mas que é muito simples, quase óbvio, e que nunca é dito por ninguém: Aristóteles errou ao formular o princípio da não-contradição. O grande inventor da lógica formal,  o descobridor do sistema de silogismos, o primeiro autor de uma tabela de operadores modais, errou ao dizer que a contradição é impossível, adynaton. A contradição é algo errado, é algo indevido, é algo irracional; a contradição é uma bobagem, pois quem se diz e desdiz é um tolo. Mas impossível no sentido estrito, adynaton, a contradição não é. Prova? Basta escrever “p e não-p” e aí temos uma contradição: ela existe, ela está aí, escrita. Mas ela é um erro, uma bobagem, um non-sense, um atentado contra a racionalidade. Certos. Mas erros, bobagens, atentados contra a racionalidade, assim como contradições, de vez em quando existem. E o que existe não é impossível. O impossível não existe nem nunca pode existir, como é o caso de um círculo real que nunca seja quadrado. Escrevemos sim a contradição “círculo quadrado” (trata-se de uma contradictio in adjecto); este tipo de contradição existe no mundo do pensar e do falar, mas um círculo existente no mundo real, por exemplo na ponta de um poste ou mesmo em um desenho real, jamais é quadrado. O círculo quadrado como contradição falada e escrita existe e é possível, mas como realidade realmente existente, não. A contradição às vezes, muitas vezes, existe. Mas, objectar-se-á com toda a razão, ela é uma tolice, ela fere a racionalidade, ela é um grande erro, ela é indevida e imprópria. (…) Ora o que existe não é impossível. Logo, a contradição não é impossível. O operador modal “é impossível” foi aqui usado por Aristóteles com impropriedade. O que Aristóteles queria dizer tem que ser expresso pelo operador modal deôntico, não se deve, em grego me dei, que é uma necessidade mais fraca, uma necessidade que comanda, sim, mas não impossibilita contrafactos.»


(Carlos Cirne Lima, Ética de coerência dialéctica, in Manfredo A.Oliveira, organizador, Correntes fundamentais da Ética Contemporânea, Editora Vozes, pag 216; o bold é nosso) 


Importa distinguir um duplo sentido da palavra contradição: há a contradição lógica, ou verdade (dialéctica e lógica) como, por exemplo, o juízo «sou bom e mau ao mesmo tempo, bom como jogador de xadrez e mau como mecânico de automóveis»; e a contradição ilógica ou erro, como por exemplo o juízo «sou certo e errado ao mesmo tempo ao calcular o resultado de uma soma simples». A primeira contradição, de contrários não exclusivos, constitui a textura da dialéctica da realidade. A segunda contradição constitui a textura da fantasia, da irrealidade.


Cirne Lima não distingue este duplo sentido da palavra «contradição» e constrói, nessa nebulosidade, o seu sofisma de que «refutou» o princípio da não contradição de Aristóteles.


Carlos Cirne Lima desenha aqui um sofisma em torno de dois sentidos da palavra existir. No reino das essências, entendidas como as formas gerais, o erro não existe – nesse sentido a contradição-erro é impossível.


Não é impossível dizer que «o amarelo é azul» mas o juízo «o amarelo é azul» é, na sua essência, impossível. Por isso Aristóteles disse que a contradição violadora do princípio da identidade é impossível – azul é azul e amarelo é amarelo. Escreveu o filósofo grego:


«Assim, pois, a respeito das coisas que são uma essência, e que são actos, não é possível errar, senão captá-las ou não.» (Aristóteles, Metafísica, Livro IX, 1051b; o bold é nosso).


Cirne Lima confunde a essência do erro – impossibilidade necessária– com a existência deste – possibilidade, realidade factual. Confunde o nível modal da essência – que comporta forma e necessidade – com o nível modal da existência – que comporta contingência, contradição ilógica. Confunde o interior com o exterior.


Engana-se ao dizer que «Escrevemos sim a contradição “círculo quadrado” (trata-se de uma contradictio in adjecto); este tipo de contradição existe no mundo do pensar e do falar» . Não. Tal contradição não existe no mundo do pensar. Não é possível pensar um círculo quadrado, ainda que seja possível escrever esta expressão "círculo quadrado".. É possível pensar um círculo a transformar-se, de forma sequencial, em um quadrado, o que é coisa diferente. Também não é possível pensar um triângulo cúbico nem um tom laranja de côr verde - mas sim é possível pensar um tom laranja adjacente a um tom verde ou um tom laranja a transformar-se num tom verde, não havendo aqui incoerência.


Ao dizer «o que existe não é impossível»  Cirne Lima revela-se um pequeno pensador unilateral, antidialéctico: na verdade, o que existe não é impossível no plano da existência mas pode sê-lo no plano da essência. O juízo erróneo «2+9=17»   é possível num teste de matemática inspirado na imaginação confusa mas é impossível na matemática enquanto ciência de essências quantitativas (os números).


Ao contrário do que sustenta Cirne Lima, o operador modal «impossível» não foi usado erroneamente por Aristóteles ao sustentar que A e não-A são incompatíveis ao mesmo tempo e no mesmo aspecto do mesmo fenómeno ou ente.


 Ridícula é a pretensão de Cirne Lima de ter feito uma descoberta única na história da filosofia:


«Só que a formulação errónea do grande Aristóteles, que usou um operador modal forte demais, prevaleceu e isso obnubilou as mentes de todos nós por dois mil e quatrocentos anos.» (…)


«A não-contradição é um princípio ético. O primeiro princípio de todo o pensar e falar, de toda a racionalidade, segundo Aristóteles, só possui validade universal e só está correctamente formulado, se é formulado com o operador modal deôntico: dever-ser.» (Carlos Cirne Lima, Ética de coerência dialéctica, in Manfredo A.Oliveira, organizador, Correntes fundamentais da Ética Contemporânea, Editora Vozes, pag 216; o bold é nosso)


A não contradição é só válida universalmente como um princípio ético?  E porque não há-de ser um princípio universal da matemática (exemplo: o número dois não pode ser par e ímpar) ou da química ( exemplo: um electrão tem carga negativa e não positiva)? Dizer que a não contradição é um princípio ético é similar a dizer que «o resultado dez, da soma cinco mais cinco, é um resultado ético».


Sobrepor o dever-ser ao ser é inverter a ordem ontológica real. O princípio da não contradição é (onto)lógico e não deontológico, ainda que se aplique na ética. Cirne Lima navega no pântano da confusão antidialéctica ao não distinguir o existir essencial, real, que impossibilita o erro, do existir inessencial, onde habita o erro. A contradição-erro ou paradoxo é impossível existir no seio do círculo da verdade - Aristóteles tinha, de facto razão.


www.filosofar.blogs.sapo.pt


f.limpo.queiroz@sapo.pt


© (Direitos de autor para Francisco Limpo de Faria Queiroz)




 



publicado por Francisco Limpo Queiroz às 18:53
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