Domingo, 5 de Julho de 2009
São Tomás de Aquino: O entendimento prático move a vontade

Na Suma de Teologia, uma das grandes obras da filosofia de todos os tempos, São Tomás de Aquino coloca milhares de questões e responde a elas, entre as quais a da relação entre a vontade e o entendimento.


No texto seguinte, deparamos com dois sentidos da palavra potência: capacidade actual, poder actual (exemplo: a razão é uma potência da alma); possibilidade de vir a ser ou capacidade futura (exemplo: estar em potência para ; nesse sentido, a semente é uma árvore em potência).


 


«Ora bem, detecta-se que uma potência da alma está em potência para coisas diversas de dois modos: um enquanto ao fazer e não fazer; o outro, enquanto ao fazer isto ou aquilo. Por exemplo, a vista umas vezes vê em acto e outras vezes não vê; e umas vezes vê branco e outras vezes vê negro. Por conseguinte, necessita-se de algo que se mova para duas coisas: para o exercício e uso do acto e para a determinação do acto. A primeira procede do sujeito, que umas vezes se encontra a operar e outras a não operar; a outra procede do objecto, e por ela se especifica o acto.


«Pois bem, a moção do sujeito procede de algum agente. E como todo o agente opera por um fim, como se demonstrou (questão 1, artigo 2), o princípio de esta moção procede do fim. Por isso, a arte a que pertence o fim move com os seus ditames a arte a que pertence o que é para o fim: Como a arte de navegar dita a de construção, segundo se diz em II Física (Aristóteles). Ora bem, o objecto da vontade é o bem comum, que tem razão de fim. » (…)


 


«Por sua parte, o objecto move determinando o acto, como um princípio formal, que especifica a acção em coisas naturais, de igual modo como o calor ao aquecer. Ora bem, o primeiro princípio formal é o ente e o verdadeiro universal, que é o objecto do entendimento. Logo, com este tipo de moção, o entendimento move a vontade, apresentando-lhe o seu objecto. (…)»


 


«Do mesmo modo que a imaginação de uma forma não move a vontade sem a estimação de conveniente ou nocivo, tampouco a apreensão do verdadeiro move sem a razão de bom e apetecível. Por isso, o entendimento especulativo não move, mas sim o entendimento prático, como se diz em III De anima


 


(Santo Tomas de Aquino, Suma de Teologia II, Parte I-II, pags 124-126, Cuestion 9, Artículo 1, Biblioteca de Autores Cristianos, Madrid, 2006; o bold é nosso)


 


Assim, o motivo, isto é, a força que move a vontade é o entendimento prático, não o entendimento especulativo ou filosófico. Este entendimento prático tem, obviamente, participação das sensações, dos sentimentos. É uma função intelectual que se banha no mundo sensorial.


 


Mas também o objecto é motivo, isto é, move, como causa final, a vontade e o entendimento prático que a precede no acto.


 


Assim, segundo São Tomás, os motivos da acção residem em dois pólos: o motivo ou motor interno, isto é, o par entendimento prático-vontade; o motivo ou motor externo, o objecto, que actua como causa final e confere especificidade à acção (exemplo: a maçã que desejamos comer; a mulher que desejamos beijar).


 


Que quer dizer São Tomás com a frase «o primeiro princípio formal é o ente e o verdadeiro universal, que é o objecto do entendimento»? O objecto (como por exemplo: maçã, moeda de oiro) é o ente?  Ou este é o sujeito cognoscente e actuante? Ou são ambos, o objecto do lado de fora, e o entendimento do lado de dentro, em simultâneo, o primeiro princípio formal da acção, sendo a vontade um meio para a concretizar?


 


A palavra ente, que designa «o que é»,  é polissémica no vocabulário de São Tomás e de diversos filósofos.


 


«Como en los ejemplos aducidos, también el ente se predica de diversas maneras. Sin embargo, todo ente se dice por orden a uno primero. Pero esto primero no es el fin ni la causa eficiente, como en los ejemplos citados, sino el sujeto. Pues unos se dicen entes o que son porque tienen el ser por sí, como las sustancias, que se dicen entes principal y primariamente. Otros, porque son pasiones o propiedades de la sustancia, como los acidentes propios de cada sustancia. Algunos se dicen entes porque son vía para la sustancia, como las generaciones y los movimientos. Otros se dizen entes porque son corrupciones de la sustancia» (Santo Tomás de Aquino, Comentario a la «Metafísica» de Aristóteles, in Clemente Fernandez S.I., Los filósofos medievales, II, Biblioteca de Autores Cristianos, Madrid, pag 726; o bold é nosso).


 


Assim cadeira e homem são entes, mas côres branca e azul, quente e frio, alegria e tristeza, nascimento e morte, ascensão e descida são também entes.  Há diversos graus de entidade: o ente em grau supremo é Deus, porque é eterno, incriado, imóvel, pensamento puro, incorruptível, autosuficiente, acto puro, sem magnitude física. Em todos os outros entes, na medida em que há mistura de não ser, há um défice de entidade real. A tristeza, por exemplo, é um ente de razão porque consiste na privação ou défice da alegria.


 


«Es de saber, con todo, que esos modos de ser se pueden reducir a cuatro. Uno de ellos, que es el más exiguo, existe sólo en la razón, y es la negación y la privación, de las cuales decimos que son, porque la razón las trata como si fuesen unos entes, al afirmar o negar algo de ellas. » (Santo Tomás, ibid, pag 727; o bold é nosso).


 


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f.limpo.queiroz@sapo.pt


© (Direitos de autor para Francisco Limpo de Faria Queiroz)


 



publicado por Francisco Limpo Queiroz às 15:51
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2 comentários:
De f.limpo a 7 de Julho de 2009 às 08:13

Não sei se é questão de oráculo, Beatriz. Decerto, a minha imperfeição como hermeneuta do tomismo adicionada à multiplicidade de sentidos do termo ente deixam as interrogações acima.


De bmal a 5 de Julho de 2009 às 17:03
Oráculo contra Tiro e Sidon.


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