Terça-feira, 14 de Julho de 2009
Uno é ser e múltiplo é não ser, como sustentava Aristóteles?

Aristóteles procedeu à seguinte Divisão de contrários em duas colunas, num escrito perdido, que se supõe denominando Peri enantiön na lista de Diógenes Laercio:

 

O que é                                                                          O que não é

Unidade                                                                           Pluralidade

Mesmo                                                                             Diverso

Semelhante                                                                      Dissemelhante

Igual                                                                                  Desigual

Repouso                                                                          Movimento

 

 Escreveu o Estagirita:

«Además, la segunda columna de los contrários es privación y todos ellos se reducen a Lo que es y Lo que no es, Unidad y Pluralidad, por ejemplo, el Reposo pertenece a la Unidad y el Movimiento a la Pluralidad. » (Aristóteles, Metafísica, Libro IV, 1004b, Editorial Gredos, Madrid, pag 169).

«Como expusimos gráficamente en la División de los contrarios, a lo Uno pertenecen lo Mismo, lo Semejante y lo Igual, mientras que lo Diverso, lo Desemejante y lo Desigual pertenecen a la Pluralidad.» (Aristóteles, Metafísica, Libro X, 1054a, Editorial Gredos, Madrid, pag 402).

 

 

A primeira coluna corresponde ao ser – o que é, o uno, na concepção de Aristóteles – a segunda coluna corresponde ao não ser – o que não é, o múltiplo, na visão do filósofo grego.

 

 

«Ora bem, se certas coisas estão sempre unidas e não podem separar-se, enquanto que outras estão sempre separadas e não podem dar-se unidas, e enfim, outras podem dar-se de estes dois modos contrários, «ser» consiste em dar-se unido, enquanto que «não ser» consiste em não se dar unido, mas sim em ser uma pluralidade. E a respeito das coisas que têm esta (dupla) possibilidade, a mesma opinião e o mesmo enunciado vem a ser verdadeiro ou falso, quer dizer, pode às vezes dizer a verdade, e às vezes uma falsidade.»(Aristóteles, Metafísica, Livro IX, 1051b; o bold é nosso).

 

 

Por que razão o ser é o uno e não o múltiplo e este é o não ser, como pretende Aristóteles? Em que é que o uno possui mais ser do que o múltiplo?  Uma esfera feita de peças diferentes, cada uma de sua cor, simbolizando o múltiplo, tem menos ser do que uma esfera idêntica no tamanho feita de uma só peça e de uma só cor, simbolizando o uno?

 

Aristóteles, crítico de Parménides, desliza para a concepção ontológica deste: concebe o uno como ser homogéneo, contínuo, sem fissuras; e o múltiplo como não ser, heterogéneo, descontínuo. É um pensamento anti dialéctico neste ponto: de facto, o uno não pode dar-se sem o múltiplo, não preexiste a este, são coetâneos, «nasceram» – se assim é possível exprimir-nos – ao mesmo tempo. Parménides opõe o ser ao não ser de forma não dialéctica, como géneros, extrínsecos entre si, sem lhes reconhecer a unidade mútua. Acha o não ser impensável - o que só é verdade do ponto de vista da essência (exemplo: É impensável um círculo não circular, um círculo-quadrado).

 

Mas, na dialéctica, os contrários primigénios são espécies do mesmo género, isto é, são pólos internos da mesma contradição. Por exemplo: bem e mal são espécies do género ética, pólos da mesma contradição interna; ser e não ser são espécies do género supremo ontologia, pólos da mesma contradição interna ao Todo e a cada coisa.

Uno e múltiplo são universais mas subordinam-se à dualidade ser-não ser: há o ser, uno e múltiplo; há o não-ser, uno e múltiplo. O ser é uno e múltiplo. O não ser é uno e múltiplo. Não é pela unidade e pela multiplicidade que se distingue o ser do não ser : é pela realidade ou existência e pela irrealidade ou inexistência.

 

"O QUE É" DIFERE DE "UNO", AO CONTRÁRIO DA TESE DE ARISTÓTELES

 

Está errado o  pensamento aristotélico, que atravessa a Metafísica, de que «”o que é” e “uno” são o mesmo e uma natureza na medida em que entre ambos se dá a mesma correlação que entre causa e princípio (…): com efeito, «um homem», «alguém que é homem», e «homem» significam o mesmo, e nada distinto se dá a conhecer reduplicando a expressão «um homem» e «um que é homem» (é evidente que não se dão separados nem ao gerar-se nem ao destruir-se); e o mesmo no caso de "uno".»

(Aristóteles, Metafísica, Livro IV, 1003b; o bold é nosso).

 

Não: o uno é um princípio formal, um contorno com conteúdo indeterminado, e o é ou o ser algo é um princípio conteudal, determinante do género, da espécie, do indivíduo-substância , do acidente.

 

 

Está errado Aristóteles porque “um homem” designa, prioritariamente, o uno como número um mas “homem” designa uno e múltiplo como essência. O uno de “um”, meramente quantitativo, é diferente do uno da essência homem, qualitativo. Uno designa um ente formal mas algo que é designa uno e múltiplo, um género, uma essência, uma substância individual. Assim a expressão «um homem»  designa duplamente o uno - como um e como homem - mas o substantivo «homem» indica "uno" apenas  uma vez, como essência ou espécie. Aristóteles confundiu uno e ser, não entendendo que o primeiro subordina-se ao segundo. Não podem hierarquizar-se no mesmo plano. Inversamente confundiu múltiplo e não ser - apesar de na citação inicial acima dizer que «não ser consiste em..ser pluralidade» ignorando que a multiplicidade possui o mesmo grau de realidade (ser) que a unidade.

 

Razão tinha Heraclito de Éfeso, o «pai» da dialéctica – entendida como ontologia, não como retórica – ao postular:

 

«As coisas em conjunto são todo e não todo, idêntico e não idêntico, harmónico e não harmónico, o uno nasce do todo e do uno nascem todas as coisas.» (Fragmento 10, Aristóteles, De mundo 5, 396 b20, citado em Kirk y Raven, Los filósofos presocráticos, Editorial Gredos, Madrid, pag 271; o bold é nosso

 

Dizer que o uno nasce do todo é dizer que nasce do múltiplo e dizer que do uno nascem todas as coisas é sustentar o inverso, que o múltiplo nasce do uno.

 

«Deus é dia-noite, inverno-verão, guerra-paz, fartura-fome (todos os opostos, este é o seu significado); muda como o fogo ao qual, quando se  mistura com perfumes, denomina-se de acordo com a fragância de cada um deles.» (Fragmento 67, Hipólito, Ref IX 10, 8 citado em Kirk y Raven, Los filósofos presocráticos, Editorial Gredos, Madrid, pag 271; o bold é nosso).

 

Ao contrário de Aristóteles, que identificava o ser com o uno e o não ser com o múltiplo, Heráclito identificou o ser e o não-ser com o uno e o ser e o não-ser com o múltiplo e afirmou a identidade diacrónica de ser e não ser - convertem-se um no outro, infinitas vezes, no rio do tempo.

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f.limpo.queiroz@sapo.pt

© (Direitos de autor para Francisco Limpo de Faria Queiroz)

 



publicado por Francisco Limpo Queiroz às 10:37
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2 comentários:
De f.limpo a 14 de Julho de 2009 às 20:15
A minha posição está expressa neste artigo: o ser é uno e múltiplo, o não ser é uno e múltiplo. Ser é realidade, não ser é irrealidade. Uno e múltiplo não distinguem, por si sós, o ser do não ser.


De bmal a 14 de Julho de 2009 às 18:45
Boa tarde,jovem. Esta pergunta já a fiz a dois manos ( Gonçalo; Fernando ).Não me deram resposta, ficava surpresa e aprendia muito se os 3 dessem o seu parecer.


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