Terça-feira, 28 de Julho de 2009
Sobre o termo «reflexão» em Hegel

Um dos termos mais usados por Hegel na sua ontologia é reflexão (Reflexion, Überlegung, em alemão; über designa sobre e legen designa pôr, colocar, pelo que reflexão pode exprimir-se em alemão, entre outros sentidos, como colocar sobre ou colocar-se sobre). Em filosofia, reflexão designa habitualmente o movimento do pensamento que se detém nas coisas ou em si mesmo e se aprofunda mas, em física, reflexão é o acto pelo qual uma radiação embate numa superfície e volta para trás, não penetrando nela. Há diferença entre estes dois últimos conceitos ainda que se possa considerar a reflexão consciente como um movimento da consciência ir às coisas exteriores embater nelas e voltar a si, portanto muito similar à noção científica de reflexão. Qual ou quais dos três sentidos da palavra reflexão - sobreposição, ir e voltar da radiação devolvida, concentração do pensamento - é o predominante no discurso de Hegel?


 


Vejamos o uso do termo reflexão em um excerto da Lógica:


 


«CXXXVIII- El lado interior es la razón de ser en cuanto simples forma, de uno de los lados del fenómeno y de la relación absoluta; es la forma vacía de la reflexión sobre sí enfrente de lo cual se hall la existência en cuanto forma también del outro lado de la relación, con la determinación vacía de la reflexión sobre lo otro en cuanto lado exterior. Su identidad es el contenido, es la unidad acabada de la reflexión sobre sí y de la reflexión sobre lo otro realizada por el movimiento de la fuerza. Forman así un solo y mismo todo y esta unidad constituye el contenido.»


(Georg W.F. Hegel, Lógica II y III, Editora Folio, Barcelona, pags 49-50; o bold é nosso).



 


Temos, pois, a forma como reflexão interior – a forma como reflexão sobre si, a colocação sobre si mesma, o fundamento; atrevo-me a dar um exemplo: a forma microscópica e interior de um ovo, que se reflecte em si mesma, base do ovo macroscópico – e a forma como existência material exterior, reflexão sobre o outro, colocação sobre outro  – o ovo visível e palpável, que é reflexão sobre o exterior, a paisagem, o olho humano, etc.


Ora a forma por si só não pensa– embora seja um pensamento divino, na teoria de Hegel – por isso a sua reflexão sobre o outro – o mundo exterior, a matéria (?) – não é um pensamento dela mesma mas uma projecção de figura, de linhas, volumes, superfícies, uma exteriorização, resultante de um prévio embate da forma em si mesma enquanto interioridade. A reflexão é como que o acto objectivo de construção (colocação sobre algo) das «paredes» e «abóbadas» da «catedral» da coisa - seja esta uma árvore, um corpo humano, um automóvel ou qualquer outro objecto físico.


 


Hegel escreveu, numa passagem clara em que distingue um primeiro momento, imediato do ser, de um segundo momento, mediato ou posto, da essência, que é reflexão:


 


«El punto de vista de la esencia es el de la reflexión. La expresión «reflexión» es primeramente empleada para la luz que, en su marcha rectilinea, encuentra una superficie reflejante y es devuelta por ella. Tenemos aquí un doble momento, primero un momento inmediato o que es y en segundo lugar el mismo momento, pero mediatizado o puesto. Esto es también lo que ocurre cuando reflexionamos o, como también se dice, volvemos por el pensamiento sobre un objecto, porque aquí el objecto no nos satisface en su estado inmediato y le queremos conocer en cuanto mediatizado. Se asigna también ordinariamente a la filosofía por tarea o por fin el conocimiento de la esencia de las cosas y por esto se entiende precisamente que no hay que percibir las cosas bajo su forma inmediata, sino que hay que demostrarlas como mediatizadas por otro principio, o como teniendo en él su fundamento.»


(Georg W.F. Hegel, Lógica II y III, Editora Folio, Barcelona, pag 6; o bold é nosso).


 


Deste modo, o termo reflexão em Hegel parece, a nosso ver, designar em primeiro lugar um movimento físico de radiação que se projecta e regressa – reflexão no sentido da Física - e um movimento de colocação por cima de algo, de sobreposição, e só em segundo lugar parece designar a consciência profunda de algo – reflexão no sentido da Filosofia em geral - patente noutros excertos de obras hegelianas.


www.filosofar.blogs.sapo.pt


f.limpo.queiroz@sapo.pt


© (Direitos de autor para Francisco Limpo de Faria Queiroz)


 


 



publicado por Francisco Limpo Queiroz às 11:41
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