Quinta-feira, 26 de Novembro de 2009
Sofismas no diálogo «Parménides ou das Ideias», de Platão - I

O diálogo de Platão «Parménides ou Das Ideias» é um modelo na arte da sofística ou falsificação da investigação filosófica autêntica. Todos os parafilósofos e pseudofilósofos que cavalgam hoje cátedras universitárias, redacções de revistas e sociedades de filosofia, gabinetes editoriais, são, como é óbvio, sofistas do século XXI e alguns, em especial os que se acoitam sob a tenda da "filosofia da linguagem" e das "lógicas", rever-se-ão nesta personagem Parménides deste diálogo que utiliza o mesmo termo com sentidos distintos. No excerto seguinte, Platão fabricou conscientemente uma argumentação muito hábil em torno dos conceitos do "mesmo" e do "outro", visando provar que este último nunca pode residir no «mesmo».

 

«PARMÉNIDES

Portanto, o uno é diferente das outras coisas.

 

ARISTÓTELES

Exacto.

 

PARMÉNIDES

Diz-me agora, se «o mesmo»e «o outro»   não serão contrários.

 

ARISTÓTELES

São, sem dúvida.

 

PARMÉNIDES

E será possível que «o mesmo» resida no «outro» e o «outro» no «mesmo»?

 

ARISTÓTELES

Não, não é possível.

 

PARMÉNIDES

Pois se o «outro» não pode nunca residir no «mesmo», não há nenhum ser em que o «outro» exista durante algum tempo. Com efeito, se estivesse nele durante algum tempo, o »utro”, durante esse tempo, estaria no «mesmo». Não te parece?

 

ARISTÓTELES

Sim.

 

PARMÉNIDES

Desde que o «outro» não se encontra nunca no «mesmo», também nunca se encontrará em nenhum ser.

 

ARISTÓTELES

É certo.

 

PARMÉNIDES

O «outro», portanto, não existirá nem no que não é uno, nem no que o é.

 

ARISTÓTELES

Certamente que não.

 

PARMÉNIDES

Portanto, não será, pelo «outro» que o uno difere do que não é uno, e o que não é uno difere do uno.

 

ARISTÓTELES

Não.

 

PARMÉNIDES

Também não será, por si mesmos, que o uno e o que não é uno são reciprocamente diferentes, se nenhum deles participa do diferente.»

 

(Platão, Parménides ou Das Ideias, pag 74-75; nas frases o negrito é de nossa autoria ).

 

O principal truque sofístico desta peça retórica reside no duplo sentido da palavra mesmo: por um lado, representa substância, algo idêntico a si, propriedade inerente a todas as coisas, inclusive às outras coisas; por outro lado, é categoria de relação, o pólo do «isto»/«mesmo» que se opõe ao pólo do «outro»/«aquilo». Nesta segunda acepção, o outro é contrário exclusivo de o mesmo, e de facto não podem coexistir, mas na primeira acepção não, ou seja, podem coexistir.

 

O «mesmo» e o «outro» não são contrários excludentes (que se repelem como água e fogo) quando se tratam de substância e acidente desta. Assim uma árvore é um mesmo em relação a si e um outro em relação a um cão e um cão é outro em relação à árvore mas um mesmo em relação a si. Logo o ´«outro» pode coexistir com o «mesmo» no mesmo ente- coexistência dialéctica, respeitando o princípio da não contradição.

 

Ao dizer «O outro”», portanto, não existirá nem no que não é uno, nem no que o é» a personagem Parménides comete um erro profundo. O «outro» é uma noção relacional e qualifica algo que é uno ou que não é uno.

 

www.filosofar.blogs.sapo.pt

f.limpo.queiroz@sapo.pt

© (Direitos de autor para Francisco Limpo de Faria Queiroz)



publicado por Francisco Limpo Queiroz às 15:21
link do post | comentar | favorito
|

mais sobre mim
pesquisar
 
Setembro 2017
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2

3
4
5
6
7
8
9

10
12
13
14
15
16

17
18
19
20
21
22
23

25
26
27
28
29
30


posts recentes

Erros na tradução portugu...

O sublime moral para Scho...

Seísmos en México en Astr...

Área 9º-10º do signo de T...

Neocátaros versus budismo...

Teologia neocátara: sem j...

Herbert Marcuse: o caráct...

Breves reflexões de Agost...

Area 15º-20º de Cancer y ...

Posições de Júpiter em Ma...

arquivos

Setembro 2017

Agosto 2017

Julho 2017

Junho 2017

Maio 2017

Abril 2017

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Agosto 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Setembro 2006

Agosto 2006

Julho 2006

Maio 2006

Abril 2006

Março 2006

Fevereiro 2006

tags

todas as tags

favoritos

Teste de filosofia do 11º...

Pequenas reflexões de Ab...

Suicídios de pilotos de a...

David Icke: a sexualidade...

links
Fazer olhinhos
blogs SAPO
subscrever feeds