Sexta-feira, 11 de Dezembro de 2009
Sofismas no diálogo «Parménides ou das Ideias» de Platão-II

O diálogo platónico «Parménides ou das Ideias» é uma das obras mais importantes de Platão como modelo do discurso sofístico em que Platão embarca, até certo ponto, inconscientemente. Desmontemos alguns trechos desse diálogo:

 

 

 

O UNO NÃO SE DIVIDE AO APLICAR-SE A MUITAS COISAS E É SEPARÁVEL DO SER, AO INVÉS DO QUE DIZ PLATÃO

 

 

 

Depois de assegurar a Aristóteles que «o uno está ligado a todas as partes do ser», a personagem Parménides prossegue assim o diálogo:  

 

 

 

PARMÉNIDES

 

Mas, sendo uno, encontrar-se-á integralmente em muitas coisas? Reflecte bem.

 

 

 

ARISTÓTELES

 

Já reflecti e vejo que é impossível.

 

 

 

PARMÉNIDES

 

Se não se encontra nelas integralmente, encontra-se dividido, pois não pode estar presente ao mesmo tempo, em todas as partes do ser, senão dividindo-se.

 

 

 

ARISTÓTELES

 

Claro.

 

 

 

PARMÉNIDES

 

Além disso, o que está dividido forma, necessariamente, tantos seres quantas as partes que contém.

 

 

 

ARISTÓTELES

 

Necessariamente.

 

 

 

PARMÉNIDES

 

«Enganámo-nos, portanto, quando há pouco dissemos que o ser está repartido numa infinidade de partes, pois não pode repartir-se em maior número de partes que o uno, mas sim em tantas partes como ele, porque o ser não pode separar-se do uno, nem o uno do ser, e ambos andam sempre a par.

 

 

 

ARISTÓTELES

 

Claríssimo.

 

 

 

PARMÉNIDES

 

Portanto, o uno, repartido pelo ser, é também múltiplo e infinito em número.

 

 

 

ARISTÓTELES

 

Evidentemente.

 

 

 

PARMÉNIDES

 

Portanto, não é apenas o «ser uno» que é múltiplo, mas também o é, necessariamente, o «uno», dividido pelo «ser». (Platão, Parménides ou Das Ideias, Editorial Inquérito; a letra negrita é posta por nós).

 

 

 

 

Em todo este diálogo, Platão joga com uma falácia anfibológica: usa o termo «uno» com dois sentidos diferentes, ora como essência pura, isto é adjectivo, ora como substantivo adjectivado, isto é, «ser uno». Portanto, o ser uno é múltiplo, mas o uno, qualidade pura, nunca é múltiplo, senão deixaria de ser uno.

 

Ao afirmar que «o uno, repartido pelo ser, é também múltiplo e infinito em número» a personagem Parménides sofisma a questão: o «uno repartido pelo ser» não é o uno puro, a qualidade uno em si mesma, mas é, sim, o ser uno - ou seja, um mosaico de partes -  e este “ser uno”, de facto, é múltiplo e poderá ser infinito em número de partes .

 

  

 

Ao dizer que «o ser não pode separar-se do uno, nem o uno do ser, e ambos andam sempre a par» Platão produz realmente um sofisma de que nem o filósofo real Aristóteles – não a personagem deste diálogo – se conseguiu libertar na sua «Metafísica».

 

Então o uno não pode separar-se do ser? Que falsidade!  O não-ser é uno e está relativamente separado do ser por um «contorno». Este uno que envolve o não ser está fora do ser. Uno é uma forma englobante e ser é um conteúdo englobado ou um misto forma-conteúdo. São distintos, em certa medida.

 

 

 

O UNO PODE DAR-SE INTEGRALMENTE AO MESMO TEMPO EM MUITAS COISAS, AO INVÉS DO QUE DIZ “PARMÉNIDES”

 

 

 

Outro ponto relevante do diálogo é o seguinte:

 

 

 

PARMÉNIDES

 

«Mas, sendo uno, encontrar-se-á integralmente ao mesmo tempo em muitas coisas? Reflecte bem.

 

 

 

ARISTÓTELES

 

Já reflecti e vejo que é impossível.

 

 

 

PARMÉNIDES

 

Se não se encontra nela integralmente, encontra-se dividido, pois não pode estar presente, ao mesmo tempo, em todas as partes do ser, senão dividindo-se.» (Platão, Parménides ou Das Ideias, pag 67-68; a letra negrita é acrescentada por nós).

 

 

 

Isto é pura sofística. Desmontemo-la: há três termos em questão, o uno, o seu contrário, isto é, o múltiplo, e o intermédio, isto é, o ser, onde se dão os dois primeiros em simultâneo. Portanto, o uno não pode dar-se ao mesmo tempo no múltiplo mas pode dar-se ao mesmo tempo que o múltiplo num aglomerado ou multidão de coisas, isto é, no ser. Sendo o uno uma qualidade, não espacial, e não uma substância extensa, pode multiplicar-se e existir em milhões de coisas em simultâneo: é como Deus, goza do dom da ubiquidade sem se dividir nem diminuir de intensidade.

 

www.filosofar.blogs.sapo.pt

 

f.limpo.queiroz@sapo.pt

 

© (Direitos de autor para Francisco Limpo de Faria Queiroz)

 

 

 



publicado por Francisco Limpo Queiroz às 15:16
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