Sábado, 16 de Janeiro de 2010
Sobre os sentidos da palavra "ser" e a interpretação de Heidegger neste tema

 

Há pelo menos quatro sentidos da palavra ser:

1)      Existência ou existir. Exemplo: «Os homens são (existem)».

2)      Essência. Exemplo: «O ser é uno, imóvel, esférico.» A definição clássica de Parménides é simultaneamente essencialista («O ser é uno, imóvel, imutável, contínuo») e existencialista («O ser é»).

3)      Conexão de Essências. Exemplo: «O coelho é um ser vivo». As essências são «coelho» e «ser vivo». O ser traduz-se aqui na partícula de ligação «é», componente do predicado.

4)      Coisa ou unidade de determinações essenciais e inessenciais. Exemplo: «Este coelho branco, de focinho sujo» As determinações essenciais são «coelho branco» e «focinho» e as inessenciais são «sujo».

 

Destes sentidos do vocábulo «ser» e das flexões verbais «foi»/ «foram», «era»/«eram», «é»/ «são», «será»/ «serão», etc há dois que são nitidamente quiditativos, isto é, determinativos do quid ou quê de algo: a essência e a coisa. Os outros dois, existência não é quiditativo e conexão ou relação é um misto de quiditativo e entitativo.

Heidegger usou a palavra ser, preferencialmente, no sentido de essência – não a existência visível diante dos olhos como nos oferece o realismo natural (exemplo: «aquela árvore está ali, fora de mim, e vejo-a tal como é») mas a ex-sistência apriorística, as estruturas, o travejamento do «eu» (Ser-aí, Dasein) e dos entes que preenchem o mundo que só o Dasein possui– e da conexão de essências e preferiu chamar «ente» à coisa, dotada de essência .

 

 

O SER COMO PRESENÇA CONSTANTE

 

Antes de mais, Heidegger – honra lhe seja feita – reportou a palavra ser (em grego: verbo einai) à etimologia grega.

 

«Para os gregos, “ser” quer dizer o mesmo que presença constante. Constância e presente são, porém, caracteres do tempo. Ente é para os gregos aquilo que permanece, o permanente nas coisas que existem, o que, na nudança do estado das coisas (por exemplo, tornar-se maior ou menor) resiste na mudança das qualidades. (Martin Heidegger, Lógica, A pergunta pela essência da linguagem, Fundação Calouste Gulbenkian, Pág. 218).

 

Há uma imprecisão ou incompletude de Heidegger nestas linhas acima. Constância e presente são tanto caracteres do tempo como do ser. Constância de quê? Presença de quê?  A resposta é: constância, presença de ser ou de entes – coisas que são – que transportam em si o ser. É impossível perceber o tempo – a presença vazia, a constância sem conteúdo - sem ser por referência ao ser. O tempo é invisível mas o ser concebido como dimensão material é visível, palpável. O tempo é um ou cada um dos momentos do ser no seu desdobramento.

 

Heidegger interpreta o existir (ex-sistir) do homem como a essência do homem emergente da essência do ser, isto é, o estar ligado umbilicalmente à verdade do ser e aqui o conceito de «ser» representa uma essência transcendente e originária, não o corpo humano nem o psiquismo susceptível de inflectir e errar:

 

«O homem porém, não é apenas um ser vivo, pois, ao lado de outras faculdades, também possui a linguagem. Ao contrário, a linguagem é a casa do ser; nela morando, o homem ex-siste enquanto pertence à verdade do ser, protegendo-a.»

«Assim, o que importa na determinação da humanidade do homem enquanto ex-sistência é que o homem não é o essencial, mas o ser enquanto dimensão do elemento ex-stático da ex-sistência.» (Heidegger, Carta sobre o humanismo, Guimarães Editores, Págs. 71-72; a letra negrita é posta por mim.)

 

Se o homem não é o essencial, onde é que este se encontra? No ser. Aqui ser é concebido como um destino – um destino ou, à maneira de Platão, um conjunto de arquétipos, essências ou formas imóveis e eternas que não são Deus – uma essência fixa da qual a natureza de cada homem emana, como o ramo da árvore sai do tronco ou, melhor, como a folha sai do galho.

A linguagem não é de forma nenhuma arbitrária: ela vem do ser, o homem tem de se adaptar a ela, de a veicular íntegra e não a adulterar ou reinventar.

 

O SER É O SENHOR DOS DEUSES, DO ENTE MUNDANO E DO HOMEM, ESSE SER-ENTE

 

Sem dúvida, Heidegger distingue o «é» do «ser»: o «é» surge como uma propriedade essencial do ser que talvez nem exista nos entes, isto é, nas árvores, animais, nuvens, montanhas, casas, etc. De facto, já Platão dissera que estas são e não são, pois se transformam sem cessar sob a lei do devir.

«Contudo, já Parménides afirma nos primórdios do pensamento: estin gar einai, «É a saber, o ser.» Nesta palavra, esconde-se o mistério originário para todo o pensar. Talvez o “é” só possa ser dito de maneira adequada, apenas do ser, de maneira tal, que todo ente jamais propriamente “é”. (Heidegger, Carta sobre o humanismo, Guimarães Editores, Págs. 73).

 

O ser é superior a Deus e aos deuses. Eis uma hierarquia traçada por Heidegger de cima para baixo: o ser, no alto; o sagrado, no degrau imediatamente inferior; a divindade, um degrau mais abaixo:

 

«Somente a partir da verdade do ser se deixa pensar a essência do sagrado. E somente a partir da essência do sagrado deve ser pensada a essência da divindade. E, finalmente, somente na luz da essência da divindade, pode ser pensado e dito o que deve nomear a palavra “ Deus”». (Heidegger, Carta sobre o humanismo, Guimarães Editores, Págs. 101-102).

 

Isto significa que Deus não é o princípio de todas as coisas – pode, talvez, sê-lo das coisas materiais e biológicas mas não da essência transcendente que constitui o ser, ante a qual a divindade se verga. Heidegger não é espiritualista, nem biologista/ vitalista, nem materialista: é ontologista, ontólogo. Por tudo isto se percebe que o ser é conexão de essências, enquanto necessidade, lei obrigatória e infalível, mas é, sobretudo, essência ou arbusto de essências, enquanto arquétipos, formas substanciais primeiras.

Assim poderá pensar-se, por hipótese, que a obediência dos filhos aos pais na infância e adolescência é uma essência constituinte do ser, o antropos eterno, e que quando Heidegger se referia ao “esquecimento da verdade do ser” pudesse estar a referir-se, por exemplo, a uma educação demasiado permissiva, em que os filhos não admitem receber uma advertência ou uma palmada correctiva dos pais, perdem o respeito e a obediência a estes e se convertem em «pequenos delinquentes». O homem tem o poder de afastar-se da verdade do ser e isso traduz-se na corrupção da linguagem.

 

O HOMEM É O PASTOR DO SER

 

Assim, o destino proposto por Heidegger ao homem é ser o «pastor do ser»:

 

«Pelo contrário, o homem é «atirado» pelo próprio ser na verdade do ser, para que, ex-sistindo, desta maneira, guarde a verdade do ser, para que na luz do ser, o ente se manifeste como o ente que efectivamente é. Se e como o ente aparece, se e como o Deus e os deuses, a história e a natureza penetram na clareira do ser, como se presentam e ausentam, não decide o homem. O advento do ente repousa no destino do ser. Para o homem, porém, permanece a questão de saber se ele acha a conveniência adequada à sua essência, que corresponde a este destino; pois de acordo com ele, o homem é o pastor do ser. É somente nesta direcção que Ser e Tempo pensa quando é experimentada a existência ex-stática como "o cuidado"...»(Heidegger, Carta sobre o humanismo, Guimarães Editores, Págs. 66-67; a letra negrita é posta por mim).

 

 

O pastor do ser caracteriza-se pelo cuidado ou cura (Sorge), atitude que tem um duplo sentido: o cuidado teórico-prático, intencional, em cumprir as directivas do ser – que aqui é o pólo activo, o patrão do pastor, o dono das ovelhas – e o cuidado prático de vigiar as ovelhas e reconduzi-las do prado ao redil – aqui as ovelhas são também o ser, visto de forma passiva. Interpretações plausíveis do homem como pastor do ser: o praticante de ioga ou de reiki é "pastor do ser" considerando este como a energia cósmica que desce do alto e percorre a kundalini do ser humano; o professor de literatura, o escritor ou o filósofo são pastores do ser na medida em que fazem vir este, enquanto ideação, à tona de uma linguagem cuidada; o agricultor que respeita os ritmos biológicos da terra e a harmonia da paisagem pastoreia o "ser" entendido como bioesfera, como mundo da natureza vegetal e mineral...

 

A CONTRADIÇÃO ENTRE AS DEFINIÇÕES DE SER COMO TRANSCENDENTAL E DE SER COMO TRANSCENDENTE

 

 

Aparentemente, Heidegger filia-se em Aristóteles, ao considerar o ser como o  o mais comum, o mais universal de todos os predicados, e em Platão, ao considerar o ser como o transcendente . Mas há uma contradição entre estas duas posições: o ser como o mais comum e universal, existente em todas as coisas, é imanência e transcendência, não é o transcendente pura e simplesmente. Portanto, Heidegger toma o ser pelo menos em dois sentidos distintos: como o transcendental (universal) e como o transcendente (supremo e exterior a, acima do comum).

 

E contradiz-se ao dizer que o ser não é género de todos os entes:

«El ser, tema fundamental de la filosofía, no es género de ningún ente, y sin embargo toca a todo ente. Hay que buscar más alto su “universalidad”. El ser y su estructura están por encima de todo ente  y toda posible determinación  de un ente que sea ella misma ente. El ser es lo transcendens pura y simplemente. La trascendencia del “ser ahí” es una señalada trascendencia, en cuanto que implica la posibilidad y la necesidad de la más radical individuación. Todo abrir el ser en cuanto transcendens es conocimiento trascendental. La verdad fenomenológica (“estado de abierto” del ser) es veritas trascendentales

(Martin Heidegger, El Ser y el Tiempo, Fondo de Cultura Económico, pag 48).

 

Como pode o ser tocar em todos os entes sem os englobar? Só se for conexão de essências ( exemplo: a amendoeira é da essência árvore, o homem é da essência ente racional, os deuses são da essência supra-física) mas esta conexão não é transcendência pura e isso contraria a outra definição do ser como «o transcendente pura e simplesmente.»

 

O SER É ESSÊNCIA GERAL E CONEXÃO DE ESSÊNCIAS, O QUE HEIDEGGER NÃO EXPLICITA

 

 

Vemos ainda Heidegger insistir na interpretação parmenídia do ser como o eterno, que não foi nem será, - mas não na quididade ou talidade do ser, isto é, na sua essência concreta (por exemplo: se é uma esfera circular que possui as propriedades do bem, do mal, do belo, do feio, as cores do arco-íris, o espírito e a matéria, etc).

 

«Mas o ser- que é o ser? Ser é o que é mesmo. Experimentar isto e dizê-lo é a aprendizagem pelo qual deve passar o pensar futuro – não é Deus, nem um fundamento do mundo. O ser é mais longínquo do que qualquer ente e está mais próximo do homem do que qualquer ente, seja este uma rocha, um animal, uma obra de arte, uma máquina, seja um anjo de Deus. O ser é o mais próximo. E contudo, a proximidade permanece, para o homem, a mais distante. O homem atém-se primeiro e para sempre apenas ao ente.» (Heidegger, Carta sobre o humanismo, Guimarães Editores, Págs. 67; a letra a negrito é colocada por mim).

 

Ao dizer «ser é o que é mesmo» Heidegger repete Parménides. O ser é o mais próximo porque constitui o «cimento» e os «tijolos» do homem – tanto no plano do eu psíquico como do eu físico – e é o mais longínquo porque integra o universo, os outros homens, a transcendência. Heidegger, tal como Parménides, não diz explicitamente que o ser é essência e conexão de essências: frutos (essências) da árvore (ser em geral) ligados pelos ramos (conexão).

A existência é uma propriedade da essência – à essência do homem chama Heidegger ex-sistência, isto é, excrescência do ser -  não de todas as essências, mas de muitas. O tempo é uma forma da existência.

 

Não há qualquer dúvida de que, na doutrina de Heidegger, o ser é prévio ao agir – e isto é, como aliás salientou Heidegger, completamente contrário à tese existencialista de Sartre de que «o homem é aquilo que faz» - e isso exprime-se na seguinte passagem em que o mal é definido como integrando a essência do ódio e só posteriormente é caracterizado como componente da acção má:

 

«Como o salutar – o bom – particularmente  se manifesta, na clareira do ser, o mal. A essência do mal não consiste na simples maldade do agir humano, mas reside na ruindade do ódio. Ambos, o bom e o ódio, somente podem desdobrar o seu ser, no seio do ser, na medida em que o próprio ser é o que está em conflito. Nisto se esconde a origem essencial do nadificar. »(Heidegger, Carta sobre o Humanismo, pag. 114) 

 

PRECISÕES SOBRE O SER E O TEMPO QUE TALVEZ HEIDEGGER NÃO TENHA FEITO

 

O O tempo faz parte do ser entendido como existência e é exterior ao ser entendido como essência. Na verdade, o tempo existe mas não tem essência material. Ele é, por assim dizer, a essência negativa ou inessência do espaço, dos corpos materiais e dos corpos psíquicos. O tempo desmaterializa aqui e materializa acolá. É, pois, um movimento incessante e quase sempre invisível: é o devir, um misto de ser-essência e não ser-essência ou nada. À primeira vista, somos inclinados a pensar que possa ser  a camada periférica da esfera do ser, sendo esta imóvel no seu centro. Dizer que a essência do tempo é passado-presente-futuro é definir a essência a partir de outras essências: forma dos objectos físicos e transformações internas destes, posição de alguns destes (exemplo: o sol e os planetas). O tempo presente é invisível, tal como o passado e o futuro. É apenas um «lugar» onde o ser se mostra nas suas dimensões materiais, psíquicas e espirituais. O presente é a transparência do ser. Ora a transparência não tem essência: é o deixar ver total, sem opacidade.

 

Assim, o tempo é uma propriedade do espaço e das coisas – não exactamente o devir delas porque, como Platão supõe no Timeu, pode conceber-se um movimento eterno das coisas imutáveis e perenes, dos arquétipos, sem que isso seja tempo. O tempo só é o devir das coisas físicas na medida em que estas se transformam e degradam irreversivelmente. A «essência» íntima do tempo não pode, pois, consistir na circularidade pura, no movimento circular perfeito, mas sim na linha recta – ou no segmento de recta a prolongar-se  - que se vai traçando de forma irreversível. Em «O Ser e o tempo» Heidegger, sob a influência de Kant, faz o espírito do homem produzir o tempo:

 

«El “espíritu” no cae en el tiempo, sino que existe como temporación original de la temporalidad. Ésta temporacia el tiempo mundano, en cuyo horizonte puede “aparecer” la “historia” como un gestarse intratemporacial. El “espíritu” no cae en el tiempo, sino que la existencia fáctica “cae”, en la “caída”, desde la temporalidad original y propia». (Martin Heidegger, El Ser y el tiempo, Fondo de Cultura Económica, Pág. 469).

 

Esta autonomização do tempo face ao ser ignora que o tempo é ser. Heidegger absorveu de  Hegel o carácter principial e ontogenético do ser - no começo de tudo está o ser, o pensamento vazio - e de Kant o carácter modelador e ontogenético do tempo - o tempo como forma a priori da sensibilidade que participa na construção dos fenómenos ou objectos reais para os sentidos. Combinou o ser de Hegel, anterior ao ser humano (Dasein ou ser-aí em Heidegger)  com o tempo de Kant, subjectivo, interior à sensibilidade do "eu" humano, anterior aos objectos físicos e co-criador destes e à sua história, fazendo do tempo originário intersubjectivo um foco temporalizador, gerador do tempo histórico objectivo. E não conseguiu encontrar a conexão entre o ser e o tempo como dá a entender nas palavras  finais de Ser e Tempo:

 

«Qual é a exegese de este modo de temporalização da temporalidade? Há  algum caminho desde o tempo original até ao sentido do ser? Revela-se também o tempo horizonte do ser?» (Martin Heidegger, O Ser e o Tempo, pág 471, edição espanhola).

 

O tempo, ao contrário do que sustenta Heidegger, é subjectivo e objectivo.

 

«O tempo" não está "diante dos olhos" nem no "sujeito", nem no "objecto", nem "dentro", nem "fora" e "é" anterior a toda a subjectividade e objectividade, porque representa a própria condição de possibilidade desse "anterior". Tem em geral um ser? E se não, é um fantasma ou é mais que todo o possível ente?» (Heidegger, Ser e Tempo, Pág 452, edição espanhola).

 

O tempo é apresentado aqui com um carácter genérico, proto-ontólgico - ou melhor: proto-ôntico, no sentido heideggeriano - transcendente, quase coincidindo com o ser. Que lhe falta para se tornar «ser», na óptica heideggeriana?  Provavelmente o carácter destinador, a concrecção ou talidade do ser, dado que o tempo é vazio, como a transparência do vidro da janela que vai mostrando o interior da «casa do ser». Não é o tempo que destina ou projecta o destino. O tempo executa o destino dos entes (homens, paisagens, cidades, aviões, computadores, etc) projectado e ordenado pelo ser. O tempo é, pois, na minha óptica, o artífice que põe em prática a ideação levada a cabo pelo ser, «arquitecto geral». O tempo é uma dimensão móvel do ser. Não são extrínsecos: o ser contém o tempo mas este não contém a totalidade do ser. Heidegger não tem razão ao acusar a ontologia tradicional de confundir o ser com o tempo e orientar-se para definições de ser como tempo e na base do tempo: o tempo é a existência, em particular a actualitas (o que cada coisa «é» no presente), e não é possível determinar o ser (as noções de coisa, essência, substância, acidente, etc) sem a inerente noção do tempo. O ser-essência está sempre no tempo e quando se diz que o ser está na eternidade, «fora do tempo», está-se a dizer que está no tempo infinito do passado ou do futuro.

 

A meu ver, aquilo que se parece mais com o tempo é a luz. O tempo é o foco de luz que vai iluminando gradualmente as paredes do imenso convento do ser, mergulhado na escuridão do não ser.

 

 

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f.limpo.queiroz@sapo.pt

© (Direitos de autor para Francisco Limpo de Faria Queiroz)



publicado por Francisco Limpo Queiroz às 16:37
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