Sábado, 30 de Janeiro de 2010
A mesa é homogénea e o homem é heterogéneo com o lugar em que estão, como dizia Ortega?
  Ortega y Gasset sustentou, de forma pouco fundamentada, que o lugar da mesa não é heterogéneo à essência desta – ambos têm a mesma essência geral – e que, ao invés, o lugar que o homem ocupa é heterogéneo à essência deste:

 «Tendremos entonces: vivir es ejecutar mi esencia o lo que yo soy, fuera de mí; fuera de mí, se entiende, fuera de mi esencia, en lo que no es mi esencia, en un elemento extraño a mi ser. El elemento en que esta mesa ejecuta, efectúa su esencia, no es extraño a ésta. El lugar en que la mesa actúa su ser, lo ejecuta, no es heterogéneo a ella. Su esencia es una combinación de átomos: su contorno, la circunstancia donde ella existe – esta habitación, el planeta, etc. – se compone también de átomos. (…) En rigor, pues, la esencia de la mesa es la misma que la de su alrededor o circunstancia. Para la mesa existir no será, pues, ejecutarse fuera de sí, ya que lo que hay fuera de ella es lo mismo que hay en ella.»


«Pero el caso de nuestra vida es lo contrario de esto. Yo soy único, mi esencia es sólo mía, y tiene que ejecutarse en lo otro. Así, pues, el existir no coincide con la esencia, con el ser.» (Ortega y Gasset, Unas lecciones de metafísica, Revista de Occidente en Alianza Editorial, Pág. 69-70; a letra negrita é posta por mim).


A primeira objecção minha a este texto é: "fora de mim" não coincide necessariamente com "fora da minha essência", ao contrário do que Ortega faz supor. Uma parte do que está fora de mim, fisicamente falando, é ainda parte da minha essência: o ar que respiro, as correntes telúricas que me atravessam, a paisagem de praia ou campo que tanto gosto de visitar, as mulheres belas que vejo, os amigos, são parte da minha essência psico-social que se compagina com a minha essência física e vai além dela. Ortega não delimita, com clareza,  o eu físico do eu psico-social que transcende o primeiro. Parte da circunstância externa faz parte do eu periférico, psico-social. É a zona em que interior e exterior se confundem.


A segunda objecção é: a essência da mesa, que se compõe de átomos organizados de forma especial, não é a mesma que a essência do espaço que a rodeia, que a essência das paredes e tecto da sala ou que a essência da maçã que sobre o seu tampo pousa. De facto, a maçã aí colocada corrompe-se ao fim de semanas de exposição ao ar – perde a sua essência física como fruto são -  ao passo que a mesa permanece inalterável, salvo a fina camada de pó que se vai depositando nela. Se um pintor pintar as paredes e o tecto da sala mudará, parcialmente, a essência destas partes, mas a essência da mesa permanece inalterável. Em sentido universal, podemos dizer que mesa, paredes da sala e maçã possuem a mesma essência geral – matéria, átomos – mas em concreto, não é assim.


A terceira objecção é: em sentido muito genérico, a essência do homem é a mesma que a do seu contorno ou ambiente envolvente, porque o homem nutre-se de vida que lhe chega através do oxigénio e de luz solar presentes no meio ambiente  e de alimentos biológicos com proteínas, hidratos de carbono, gorduras, vitaminas, sais minerais que vêm juntar-se aos constituintes do organismo.


www.filosofar.blogs.sapo.pt


f.limpo.queiroz@sapo.pt


© (Direitos de autor para Francisco Limpo de Faria Queiroz)


 



publicado por Francisco Limpo Queiroz às 16:36
link do post | comentar | favorito
|

mais sobre mim
pesquisar
 
Outubro 2017
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6
7

8
9
10
11
12
13

15
16
17
18
19
20
21

22
24
25
26
27
28

29
30
31


posts recentes

Teologia cátaro-bogomila:...

Teologia cátaro-bogomila:...

Teologia cátaro-bogomila:...

Ponto 23º 7´/23º 15´de qu...

Erros na tradução portugu...

O sublime moral para Scho...

Seísmos en México en Astr...

Área 9º-10º do signo de T...

Neocátaros versus budismo...

Teologia neocátara: sem j...

arquivos

Outubro 2017

Setembro 2017

Agosto 2017

Julho 2017

Junho 2017

Maio 2017

Abril 2017

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Agosto 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Setembro 2006

Agosto 2006

Julho 2006

Maio 2006

Abril 2006

Março 2006

Fevereiro 2006

tags

todas as tags

favoritos

Teste de filosofia do 11º...

Pequenas reflexões de Ab...

Suicídios de pilotos de a...

David Icke: a sexualidade...

links
Fazer olhinhos
blogs SAPO
subscrever feeds