Terça-feira, 2 de Fevereiro de 2010
A amálgama do eu psíquico e do eu físico no conceito de Dasein no «Ser e Tempo» de Heidegger

Em Ser e Tempo, Heidegger prolongou o construtivismo ontológico que Kant, um grande arquitecto do idealismo ontológico no século XVIII, desenvolvera, subjectivizando o espaço, o tempo e os corpos materiais (fenómenos, na linguagem de Kant). Heidegger desvia o curso do rio da gnoseologia do leito do idealismo («a matéria é mera percepção empírica “fora de mim»)  para o leito da fenomenologia (“a matéria é real, exterior a mim, mas correlata de mim e talvez não autosubsistente ) e prossegue a contestação ao realismo natural.

Diz, por exemplo, que o mundo só existe para os seres humanos – é uma percepção global do todo dos entes só própria do homem -  e que dois objectos visíveis nunca se tocam embora pareçam tocar-se: por exemplo, a mão que pousas no tampo da mesa nunca chega a tocar a mesa mas sim o campo magnético da mesa, tese que a física contemporânea pode perfeitamente defender.

 

 

«O ser junto ao mundo em sentido existenciário nunca significa nada semelhante ao “ser diante dos olhos juntas” coisas que vêm a estar diante dentro do mundo. Não há nada semelhante a uma contiguidade de um ente chamado “ser aí” (Dasein) a outro ente chamado “mundo”. É certo que exprimimos o estar juntas duas coisas “diante dos olhos” dizendo por vezes, por exemplo, “ a mesa está junto à porta, a cadeira toca a parede”. Mas não pode tratar-se de um tocar rigorosamente considerado, e não porque ao cabo de um exame más exacto sempre se ache um espaço intermédio entre a cadeira e a parede, mas porque a cadeira não pode, de raiz e ainda que o espaço intermédio fosse igual a zero, tocar a parede. Condição indispensável seria que a parede pudesse estar diante da cadeira. Um ente só pode tocar outro diante dos olhos dentro do mundo, se tem em si mesmo a forma do ser do “ser em”, se o seu simples ser aí descobre algo semelhante a um mundo, a partir do qual certos entes possam fazer-se patentes mediante o contacto, para tornar-se assim acessíveis no seu “ser diante dos olhos”. »

«Dois entes que “estão diante dos olhos” dentro do mundo e por cima são em si mesmo carentes de mundo, não podem tocar-se nunca, não podem “ser” um “junto do” outro. » (Heidegger, El Ser y el Tiempo, Fondo de Cultura Económica, Pág. 67-68; a letra negrita é posta por mim).

 

Ao postular que a parede não está diante da cadeira quando os nossos olhos nos revelam o inverso, Heidegger está a pressupor uma realidade completamente diferente da que os nossos órgãos dos sentidos nos oferecem. Seriam as nossas estruturas cognoscitivas a priori – e isto é perfeitamente kantiano – que espaciariam, isto é, estruturariam o espaço com as determinações do «estar diante de», «estar por cima de», «estar debaixo de», «estar encostado a», etc. Heidegger retirou realidade ao tocar ou encostar, isto é, à contiguidade entre dois corpos materiais da realidade objectiva, e transformou o “tocar” numa propriedade do ser-aí: o homem poderia tocar a parede ou a mesa porque só ele “tem mundo” - percepção global e significativa das coisas -  mas a jarra pousada na mesa «não tocaria» nesta e a mesa encostada à parede «não tocaria» esta.

“Tocar” deixa de ser uma propriedade  das coisas físicas situadas no espaço: a ave ou a maçã que caem no solo «não tocam» o solo. Esta visão mágica e poética de Heidegger – o mundo como iluminação ou foco de luz de lanterna manejada pelo homem sobre o caos ou «quarto escuro» onde se amontoavam as coisas físicas - seduziu centenas de milhar de leitores de «Ser e Tempo» que não contestaram e consideraram isto um «notável progresso» gnoseológico.

 

 

O erro de Heidegger consiste em conceber o espaço somente como uma realidade intersubjectiva, uma construção de todos os Dasein (ser- aí, isto, é cada homem) e, neste ponto, o pensamento de Heidegger deriva directamente do idealismo ontológico de Kant. Sem dúvida, um espaço intersubjectivo existe – há leis psicológicas expostas pela Gestalpsicologia que influenciam Heidegger – mas há um espaço que existe objectivamente, independentemente da existência de humanidade.

 

O DISCURSO AMBÍGUO: O MAIS PRÓXIMO (FISICAMENTE) É O MAIS DISTANTE (PSICOLOGICAMENTE)

 

Heidegger distingue em “Ser e Tempo” dois conceitos: o ôntico, isto é, a realidade aparente dos seres diante dos olhos (exemplos: «o céu é azul e está por cima de mim»,«o mundo está ali, fora de mim, inclui os oceanos, as cidades e campos e os céus, entre outros»); o ontológico, isto é, a realidade profunda interpretada a partir da estrutura do ser aí (exemplo: «o mundo não existe em si mesmo, eu é que ligo os diversos objectos físicos num todo de significações que passa a ser mundo»).

 

«O onticamente mais próximo e conhecido é ontologicamente o mais distante desconhecido e constantemente passado por alto na sua significação ontológica.» ( Heidegger, El Ser y el Tiempo, Fondo de Cultura Económica, Pág. 55-56).

«O orientar-se primaria e até exclusivamente pelas lonjuras tomadas como distâncias medidas encobre a espacialidade originária do “ser em”. O presumivelmente “mais próximo” não é em absoluto o que está à mínima distância de nós. (…) É o que se passa também com a rua, o útil para andar. Ao andar toca-se nela a cada passo, e parece ser o mais real de todo o “ao alcance da mão”, desenvolvendo-se, por assim dizer, em contacto directo com determinadas partes do corpo, as plantas dos pés. E, sem embargo, está muito mais longe do que o conhecido com quem o andar assim tropeça à distância de vinte passos.» ( Heidegger, El Ser y el Tiempo, Fondo de Cultura Económica, Pág. 111; a letra negrita é posta por mim).

 

 O passeio está mais distante de nós, que o pisamos, do que o amigo que vemos aproximar a vinte metros de distância! Eis o aparente paradoxo. A espacialidade originária seria, pois, psíquica e não física: é a psique e não a geografia quem estabelece as distâncias. Está por demonstrar esta tese idealista.

Isto aplica-se ao espaço psíquico onde a proximidade é directamente proporcional à intensidade afectiva mas não ao espaço físico dominado por leis objectivas. A minha mãe que está no Porto está mais perto de mim, psiquicamente falando, do que um meu amigo de Beja, estando, eu por hipótese, em Évora. É verdadeiro, num sentido, mas falso, em outro.

 

Ao falar de «próximo» e «distante» em relação ao «ser aí» (cada homem),  Heidegger não distingue dois níveis do ser aí contrários entre si: não distingue explicitamente o eu psíquico – cujo centro de gravidade se encontra necessariamente fora do sujeito corporal, a meu ver – do eu físico – cujo centro de gravidade está no interior do corpo. Isto gera um discurso ambíguo.

 www.filosofar.blogs.sapo.pt

f.limpo.queiroz@sapo.pt

© (Direitos de autor para Francisco Limpo de Faria Queiroz)



publicado por Francisco Limpo Queiroz às 10:41
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