Sexta-feira, 30 de Março de 2012
Questionar Irene Borges-Duarte: em Kant, o "quê" da acção está fora da ética?

 

Citando  a fórmula do imperativo categórico de Kant «Age de tal modo que a máxima da tua vontade possa sempre valer ao mesmo tempo como princípio de uma legislação universal.», Irene Borges-Duarte, professora da Universidade de Évora, tece as seguintes considerações:

 

 «Pode haver maior "formalismo" que o que este princípio ético, aqui reproduzido na fórmula crítica mais pregnante, enuncia? (...)

«Em primeiro lugar: a forma verbal do imperativo obriga a um compromisso. Estranho compromisso com...coisa nenhuma. Nesta formulação, parece faltar toda a matéria a que se aplique, toda a referência a objetos, a situações, a qualquer tipo de mediações com a realidade da vida. Não é uma norma de prudência, de justiça ou de equidade ante uma solicitação ou causa prévia. Não deixa supor que a acção, de que é nela questão, tenha um qualquer motivo, que a peça ou impulse. O compromisso que é exigido não é, com efeito, o de um "quê", mas de um "como" (so, dass...) "de tal modo que..". Ao deixar em aberto a questão do "quê" , a lei geral de todo o agir, a que qualquer máxima subjetiva deve subordinar-se formalmente, parece abandonar o agente a uma real desorientação na esfera do fáctico e vivencial. Na verdade, nem se indica uma meta a perseguir, nem se codifica o que deva ser feito, nem se desenha uma doutrina, cujos claros ditames possam ser seguidos. »

 

( Irene Borges-Duarte, O homem como fim em si? De Kant a Heidegger e Jonas, in Revista Portuguesa de Filosofia, volume 61, pág. 844-845; o destaque a negrito é posto por mim).

 

Compromisso com coisa nenhuma? Não. Discordo de Irene Borges-Duarte.  Há, de facto, um compromisso não explícito na fórmula do imperativo categórico acima explanada, um compromisso duplo: compromisso com a máxima, ou seja, com o princípio moral concreto, subjetivo, que norteia cada pessoa; compromisso com a humanidade em geral, através da equidade (universalizar a regra de tratar os outros, por exemplo: não favorecer os filhos dos ricos em relação aos filhos dos pobres, mas tratar todos por igual, no premiar ou no castigar).

 

Também não é fundado sustentar que o imperativo categórico "não é uma norma de prudência, de justiça ou de equidade ante uma solicitação ou causa prévia". O imperativo categórico é, devido à sua circularidade formal - o sujeito como centro da circunferência composta por todos os outros membros da humanidade - uma norma de justiça e de equidade ante a causa prévia que é a existência de uma máxima em cada sujeito (exemplos: «A minha máxima é produzir filmes sobre espécies animais em risco e mostrá-los aos alunos», «A minha máxima é procurar informar-me e informar alguns sobre a emigração») e de um público universal, que é o alvo e paciente do imperativo categórico. 

 

Não é também defensável dizer que no imperativo kantiano «nem se indica uma meta a perseguir, nem se codifica o que deva ser feito». A meta é a humanidade, o reino dos fins, que é o conjunto de todos os seres humanos postos numa base igualitária de direitos e deveres. O código é: universalizar a máxima ou lei moral subjetiva, fazê-la incidir sobre todos os homens do mesmo modo que sobre si mesmo.

 

Escreveu ainda a catedrática da Universidade de Évora:

 

«Voltamos, pois, ao já dito: "ética" é a forma, não a matéria da ação, é o "como", não o "quê".  (Irene Borges-Duarte, O homem como fim em si? De Kant a Heidegger e Jonas, in Revista Portuguesa de Filosofia, volume 61, pág. 847).

 

Não é uma formulação correcta, dialéctica, esta que Irene Borges-Duarte explana. Dialética significa: um divide-se em dois. Para Kant, a ética é a forma universalista do imperativo categórico adicionada do conteúdo material de cada máxima pessoal. Por exemplo, a ética do indivíduo A é: «Defendo que todas as pessoas devem ter o direito a usar uma arma de fogo de defesa pessoal, já que a minha máxima sempre foi essa, a de ter uma arma em casa.». A ética do indivíduo B é: «Defendo que todos os cidadãos comuns, não membros dos corpos militares e policiais, não devem ter direito a possuir armas de fogo de defesa pessoal, do mesmo modo que eu não possuo estas.»

 

Se a ética não englobasse a matéria da acção, seria a mesma em todos os indivíduos e o imperativo categórico perderia o seu carácter autónomo, variável de pessoa a pessoa autora da lei moral. A máxima, isto é, a peculiaridade de cada um nos valores e ideias directrizes da acção (causa formal, na perspectiva aristotélica), é um dos ingredientes da ética kantiana, é uma das torres do imperativo categórico, sendo as outras duas torres a universalização equitativa (causa eficiente) e a humanidade em geral (causa final, no sentido aristotélico). 

 

A FALÁCIA DO "TEM DE SER" DIFERENTE DO "DEVO FAZER" 

 

Irene Borges Duarte salienta ainda uma suposta diferença entre "dever" ou "devo fazer» e "ter de ser" como se este último fosse extrínseco ao "dever", o que é uma falácia:

 

«A segunda questão a atender consiste, justamente, em que Kant vai investir a expressão do "dever" imperativo, anteriormente enunciado, e que ele próprio no contexto pragmático das máximas de uso quotidiano, considera ser habitualmente "hipotético", num categórico ter de, cuja obrigatoriedade parece mais próxima de determinismo natural - a necessária sequência de tal efeito a tal causa - que da livre intervenção da vontade. (...) A mesma força constringente da "natureza" da nossa razão ordena e obriga, num caso, a agir (domínio práxico), no outro a conhecer (domínio teórico) algo como objecto da experiência. Mas em ambos casos, tem de ser assim!»

«.. O dever-ser torna-se de assertórico em categórico. " Tem de se poder querer que uma máxima da nossa acção se torne uma lei universal: tal é o canon para julgar moralmente em geral, o critério do juízo moral (...)

«O dever obriga pois como um ter de ser: converte-se num " não poder não querer" o fim adequado à pura racionalidade. Só desse modo, a razão pura se afirma, assim, como intrinsecamente prática.» (Irene Borges-Duarte, O homem como fim em si? De Kant a Heidegger e Jonas, in Revista Portuguesa de Filosofia, volume 61, pág. 846-847; o destaque a negrito é posto por mim).

 

Em todo o dever há um ter de ser, que é o seu aspecto imperativo ou prescritivo, e um "ser quê", que é o seu aspecto descritivo ou conteudal. Separar o "dever" do "ter de ser" só pode ser feito neste sentido de separar a ordem dada, do conteúdo informativo dessa ordem. É isso que Irene Borges-Duarte não clarifica. O dever não se converte num "não poder não querer": ele já é, na sua génese, um "não poder não querer".

Na verdade, dizer, por exemplo, ao ver uma situação de atropelamento «Tens de ligar já ao 112 para vir buscar aquele ferido que está ali na estada, caído e inanimado» é o mesmo que dizer «Deves ligar já ao 112 para vir buscar aquele ferido que está ali na estada, caído e inanimado». Não há diferença entre o ter de e o deves, enquanto imperativo.

 

Não me parece correcta a asserção acima explanada: «A mesma força constringente da "natureza" da nossa razão ordena e obriga, num caso, a agir (domínio práxico), no outro a conhecer (domínio teórico) algo como objecto da experiência. Mas em ambos casos, tem de ser assim!» ». O conhecer, como objecto da experiência, não é um mecanismo formal necessário, é uma apreensão da máxima isto é do princípio subjectivo moral existente em cada indivíduo. Ora este princípio é contingente, é variável de pessoa a pessoa e repousa no sentimento ou na racionalidade senciente - tese que Kant não perfilha nem desenvolve, o que põe em evidência a fraqueza da sua doutrina, como muito bem apontou no século XX Max Scheler, o grande teórico alemão da ética material de valores a priori. Por conseguinte, em ambos os casos não tem que ser assim, ao contrário do que diz Irene Borges-Duarte. A razão não prescreve a máxima, recebe-a e universaliza-a. A máxima não tem que ser assim, é uma escolha (sentimental) de cada indivíduo.

 

Por outro lado, - aspecto que Irene Borges-Duarte não aborda - o "tem de ser" não é exclusivo do imperativo categórico: está presente no imperativo hipotético, ao qual subjaz o determinismo natural que condiciona o corpo e o conforto material de que necessita. Exemplo do imperativo hipotético do vendedor de enciclopédias: «Tens de vender o maior número de enciclopédias possível às pessoas porque tens as prestações da casa e do carro e a alimentação a pagar, para sobreviveres, e tens de persuadir as pessoas de que necessitam de comprar essas enciclopédias, mesmo que o conteúdo destas não ofereça a qualidade necessária e de nada sirva aos compradores, que são para ti meios de enriqueceres e sobreviveres.»

 


 

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Quarta-feira, 28 de Março de 2012
Heidegger acusou, sem base, Kant de encobrir o «ser no mundo» do sujeito

 

«O Ser e o Tempo», essa "bíblia" da fenomenologia, escrita por Heidegger, é um livro de dupla face: nele, ideias e raciocínios brilhantes juntam-se a paralogismos e equívocos de que o grande público, e mesmos os especialistas em Heidegger, não se dão conta. Escreveu Heidegger:

 

« Antes de tudo, há que advertir que Kant usa o termo "existência" para designar a forma de ser que na presente investigação se chama "ser diante dos olhos". (...)

«O simples facto de que Kant peça uma prova da "existência das coisas fora de mim" mostra que põe o ponto de apoio do problema no sujeito, no "em mim". Consequentemente, desenvolve-se a própria prova partindo da mudança dada empíricamente em mim. »

«Pois só em mim é experimentado o tempo que suporta a prova. O tempo é quem dá o apoio para o salto demonstrativo do "fora de mim". (...)

«O que prova Kant - concedida a legitimidade da prova e da sua base - é o necessário "ser diante dos olhos juntamente" um ente mutável e um ente permanente. Mas a coordenação dos entes "diante dos olhos" nem sequer quer dizer já "o ser diante dos olhos juntamente" um sujeito e um objeto. E uma vez provado isto, continuaria encoberto o ontologicamente decisivo: a estrutura fundamental do "sujeito", do "ser aí"  como "ser no mundo". O "ser diante dos olhos juntamente" o físico e o psíquico é ôntica e ontologicamente em toda a linha distinto do fenómeno do "ser no mundo"».

(Heidegger, El Ser y el tiempo, pag. 224-225, Fondo de Cultura Económica) 

 

Contrariamente ao que Heidegger afirma, Kant não ocultou a estrutura do sujeito como "ser no mundo". Kant sustentou que o sujeito é o criador ou co-criador do mundo fenoménico, das paisagens terrestres e celestes e seus objetos materiais, e que não existe um dualismo ontológico rigoroso entre sujeito e objeto fenoménico:

 

«Esta hipótese de união entre duas substâncias, a pensante e a extensa, tem por fundamento um dualismo grosseiro e transforma estas substâncias, que são meras representações do sujeito pensante, em coisas subsistindo por si. Pode-se, pois, demolir a falsa concepção da influência física, mostrando que o fundamento da sua prova é nulo e fictício.»

«O famoso problema do que pensa e do que é extenso acabaria assim, se fizermos abstração de tudo o que é imaginário, simplesmente em saber como é possível num sujeito pensante em geral, uma intuição externa, ou seja, a intuição do espaço ( do que o preenche, a figura e o movimento). A esta questão não é possível a homem algum encontrar uma resposta e nunca se poderá preencher essa lacuna do nosso saber, mas somente indicar que se atribuem os fenómenos externos a um objeto transcendental...» (Kant, Crítica da Razão Pura, páginas 367-368, nota de rodapé, Fundação Calouste Gulbenkian; o destaque a negrito é posto por mim).

 

Como este excerto denota, Kant não considerou o sujeito como um espectador do mundo entendido como "ser diante dos olhos" (concepção realista, dualista) mas antes como um criador do mundo, um "ser no mundo" em sentido heideggeriano.

 

Também não parece que a existência da mudança - da sucessão e dos seus correlatos duração e da simultaneidade, características do tempo, segundo Kant - constituissem, para Kant, meios de prova de um mundo exterior, como sustenta Heidegger. O facto de, na concepção de Kant, o tempo ser o sentido interno e o espaço o sentido externo não faz com que o tempo seja o trampolim de prova do "mundo exterior". Este, como mundo exterior ao corpo físico - distinção que Heidegger, Russel e outros não fazem, o que prova a  inépcia destes ao estudar a gnosiologia de Kant - está dado automaticamente na intuição pura de espaço e não carece de prova. Quanto ao verdadeiro mundo exterior ao espaço e ao espírito humano em geral, é impossível de demonstrar a sua existência ainda que a razão o idealize composto de númenos (Deus, alma imortal, mundo como totalidade).

 

Heidegger nunca compreendeu integralmente Kant, tal como a generalidade dos filósofos contemporâneos. Excetuarei Hegel e Schopenhauer e algum outro. Nem Heidegger, nem Bertrand Russel, nem Witgenstein, nem os catedráticos que hoje lecionam nas universidades mais prestigiadas entenderam, a fundo, o pensamento kantiano. Nenhum destes, nem mesmo Heidegger, clarificou o duplo sentido que Kant atribui às expressões análogas "fora de nós"  e "mundo exterior":

 

1) O espaço está fora do nosso corpo mas dentro do nosso espírito, do vasto sector deste denominado sensibilidade, um «salão» imenso onde cabe a natureza visível, audível e palpável, feita de montanhas, céus, árvores, corpos de animais e humanos, isto é, fenómenos.

 

2) Os númenos ou coisas em si estão, presumivelmente, fora do nosso corpo e do nosso espírito envolvente e constituem o verdadeiro mundo exterior. ,

 

O «Ser e o Tempo» de Heidegger é, por conseguinte, um livro com erros importantes no plano da ontognosiologia, em especial da ontognosiologia de Kant, mas o estilo retórico e emaranhado de Heidegger, sem embargo da originalidade intelectual deste, subjuga o público vulgar e os académicos, que, mais ou menos acríticos,  fingem compreender os paralogismos do grande filósofo alemão do século XX. Sou, presumivelmente, um dos únicos a gritar:«O rei (Heidegger), supostamente vestido com um fato invisível (de sapiência retórica), vai nú!».

   

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Terça-feira, 27 de Março de 2012
Refutação do paradoxo de König (fragilidades da filosofia analítica anglo-saxónica- VI)

 

O "paradoxo de König" é um argumento aceite como válido pela filosofia analítica anglo-saxónica. Blackburn relata-o assim:

 

«Paradoxo de König - Também conhecido por paradoxo de Zermelo-König. Há uma pluralidade não numerável de números reais, mas só uma pluralidade numerável deles são definíveis por métodos finitos. Dada a demonstração de Zermelo segundo a qual os reais podem ser bem ordenados, o conjunto dos reais que não são definíveis por meios finitos tem de ter um membro que seja o primeiro. Mas isto é, em si mesmo, uma definição finita desse real. O paradoxo é similar ao paradoxo de Richard e ao paradoxo de Berry, apesar de o próprio König ter pensado que ele constituía afinal a demonstração de que os reais não podem ser bem ordenados.»

(Simon Blackburn, Dicionário de Filosofia, pag 318, Gradiva, 2007; o destaque a negrito é posto por mim).

 

Trata-se de um pseudo paradoxo. A pluralidade não numerável de números reais, isto é, o infinito matemático dos números reais, só existe em potência. Não existe em acto, na realidade presente, física e cosmológica. O infinito é, na verdade, uma sucessão de números reais finitos que só existe porque paramos a contagem, a seriação dos números reais - existe em pensamento, mas não na realidade físico-matemática. Não há portanto nenhum conjunto de números reais não definíveis por métodos finitos. Todos os números, como, por exemplo, os números 1 000 000 000 001 ou  5 000 000 000 000 000 000 000 001 são definíveis por métodos finitos, logo não é possível haver um primeiro número do conjunto dos números reais não definíveis por métodos finitos.  

 

O suposto paradoxo é afinal a oposição excludente entre um conjunto real de números reais e um conjunto fantasma - o conjunto de números reais não definíveis por métodos finitos.

 

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Segunda-feira, 19 de Março de 2012
Teste de filosofia do 11º ano de escolaridade em Portugal (final do 2º período)

 

Eis um teste de filosofia de 11º ano de escolaridade que trata com substancialidade e razão dialética a temática " O conhecimento e a racionalidade científico-tecnológica".

 

Escola Secundária Diogo de Gouveia com 3º Ciclo, Beja

 

TESTE DE FILOSOFIA, 11º ANO TURMA A

 

Março de 2012            Professor: Francisco Queiroz   

 

I

 

«Chamamos a estas faculdades entendimento e razão; esta última, sobretudo, distingue-se propriamente e, sobremodo, de todas as forças empiricamente condicionadas, porque examina os seus objetos segundo ideias, determinando, a partir daí o entendimento ».

 

 (Kant , Crítica da Razão Pura», pag. 471)

 

 

 

1-1) Explique a frase do texto acima.

 

1-2) Explique, segundo a gnosiologia de Kant, o que é e “onde” existe o númeno e onde e como se forma o fenómeno sobreiro.

 

1-3) Explique onde e como se forma o juízo empírico «os sobreiros estão na planície».

 

 

 

II

 

 

2) Relacione, justificando:

 

 

 

A)  Os quatro passos do percurso gnosiológico de Descartes desde a dúvida hiperbólica,  e ser em si e ser para si na teoria de Hegel.

 

B) Anarquismo epistemológico de Paul Feyerabend e conjeturas na ciência em Popper.

 

C) Finalidade dos diversos tipos de movimentos dos entes no cosmos segundo Aristóteles e Vontade em Schopenhauer.

 

D)  Realismo crítico em Descartes e idealismo em David Hume.

 

E)  Verificacionismo/ Corroboracionismo segundo Karl Popper e o positivismo lógico e  causação /necessidade em David Hume.

 

F)  Ciências hermenêuticas/ Ciências empírico-formais, por um lado, e método hipotético-dedutivo, por outro lado.

  

 

 

 CORREÇÃO DO TESTE (COTADO PARA 20 VALORES)

 

 

1-1) A razão é a faculdade das ideias, conceitos metafísicos, incondicionados, e é a faculdade dos princípios: pensa os númenos e a estrutura do entendimento a priori. O entendimento é a faculdade dos conceitos, a priori (exemplo: número dois, unidade) ou a posteriori (exemplo: átomo, cão), e a faculdade dos juízos, puros ou empíricos: pensa os fenómenos mas não sente. O entendimento recebe os dados empíricos da sensibilidade, a razão não. As forças empíricamente condicionadas, isto é, sujeitas a leis da natureza ou do espírito são a sensibilidade com os fenómenos e o entendimento com as suas formas a priori, categorias e juízos puros. Estão, pois fora da razão que é incondicionada, livre. (VALE DOIS VALORES).

 

 

1-2) O númeno, objeto metafísico incognoscível, como Deus e mundo (como totalidade), está, em princípio, fora do espírito humano que se compõe de três níveis essenciais, a sensibilidade, o entendimento e a razão. O fenómeno está dentro da sensibilidade, no espaço ou sentido externo, no caso de fenómenos físicos como árvores, casas, rios. O fenómeno sobreiro forma-se deste modo: do exterior ao espírito, o númeno afeta a sensibilidade e cria nesta um caos de matéria, de intuições, a que o espaço e o tempo, como formas a priori da sensibilidade, vão dar forma e enquadramento temporal e assim surge o sobreiro. (VALE TRÊS VALORES)

 

 

1-3) O juízo empírico "os sobreiros estão na planície"  forma-se no entendimento do seguinte modo: em primeiro lugar, a imaginação reprodutora transporta para o entendimento as intuições empíricas de sobreiro e de planície que são transformadas em conceitos empíricos pelas categorias de unidade, pluralidade, realidade, etc. Estes conceitos acedem à tábua de juízos puros e aqui são unidos em forma de juízo afirmativo «S é P». (VALE DOIS VALORES).

 

 

2-A) Os quatro passos do raciocínio de Descartes são pautados pelo racionalismo, doutrina que afirma que a verdade procede do raciocínio, das ideias da razão e não dos sentidos: 1º Dúvida hiperbólica ( «Duvido da existência do mundo, das verdades da ciência, de Deus e até de mim mesmo uma vez que quando sonho tudo me parece real»); 2º Idealismo solipsista («Penso, logo existo» como mente); 3º Idealismo não solipsista («Se penso tem de haver alguém mais perfeito que eu que me deu a perfeição do pensar, logo Deus existe); 4º Realismo crítico («Se Deus existe, não consentirá que eu me engane em tudo o que vejo, sinto e ouço, logo o mundo de matéria, feito só de qualidades primárias, objetivas, existe fora de mim»). Podemos dizer que o segundo passo («Existe a minha mente») conjugado com o quarto passo («Existe o meu corpo e o mundo físico») formam o ser-para-si da doutrina de Hegel, que significa a humanidade, o homem, que é a Ideia absoluta voltando a si mesma. E o terceiro passo («Existe Deus») significa o ser em si, a Ideia absoluta antes de criar o universo. (VALE TRÊS VALORES).

 

2- B) O realismo crítico em Descartes é a doutrina segundo a qual existe um mundo de matéria real em si mesmo fora das mentes humanas destituído de qualidades secundárias (cores, sons, cheiros, sabores, calor, frio, prazer, dor), consistindo apenas em qualidades primárias ou geométricas. Assim, por as árvores não são duras nem moles, não têm cor, só têm qualidades primárias: figura, matéria impenetrável indeterminada, número, movimento. O idealismo de David Hume vai mais longe do que o idealismo parcelar de Descartes, uma vez que afirma que os objetos materiais são apenas ideias confirmáveis por impressões de sensação, isto é, existem na nossa perceção, mas não necessariamente no mundo exterior cujo conteúdo é incognoscível para nós. Hume insiste, ademais, na impermanência das coisas, no caráter fictício de substância, objeto permanente: é a nossa imaginação que atribui a continuidade a um mesmo objeto em tempos diferentes. (VALE DOIS VALORES)

 

2- C) No mundo sub-lunar de Aristóteles, a finalidade do movimento dos corpos, que nunca é circular, é o regresso à origem do seu constituinte fundamental: assim, a pedra lançada na esfera do ar cai em direção à esfera da Terra, que é a sua origem, porque as pedras integram a terra. No mundo celeste, estrelas e planetas giram em círculos agarrados às suas esferas de cristal com o objetivo de tentar alcançar Deus, o pensamento puro que está fora do universo e funciona como motor imóvel. A vontade em Schopenhauer é a força criadora do universo material e podemos, nesta complexa comparação com o universo de Aristóteles, identificá-la quer com as esferas do mundo sub-lunar, alvos do movimento dos corpos e de certo modo "criadoras" destes movimentos, quer com Deus, que não criou o mundo mas desperta o movimento das esferas celestes. (VALE DOIS VALORES)

 

2-D) O anarquismo epistemológico de Paul Feyerabend é a teoria segundo a qual o motivo de haver ciências universitárias proeminentes que excluem ciências antigas (medicina natural, astrologia, etc) ou práticas religiosas e mágicas é o interesse egoísta dos "cientistas" e académicos e industriais do setor em auferirem de prestígio e grandes financiamentos por parte dos Estados e a visão filosófica deficiente desses cientistas e académicos. Assim, o anarquismo de Feyerabend defende a pluralidade de métodos e a improvisação ad hoc de novos métodos e exige que todas as ciências e rituais não científicos de comprovada utilidade sejam postos em plano de igualdade e sujeitas a testes, a controlos, que eliminem a ideologia dominante. Popper, por sua vez, reconhece que todas as ciências de base empírica são conjuntos de conjeturas ou suposições mas aceita hierarquizá-las, provisoriamente, dizendo que são melhores as que resistiram aos testes de falsificabilidade, e não põe em causa a medicina oficial alopática, classifica a astrologia como "superstição" e afasta a acusação de «má intenção e abuso de poder» que Feyerabend faz aos círculos científicos e tecnocráticos dominantes hoje. (VALE DOIS VALORES)

 

2- E) O verificacionismo é, segundo Popper, impossível de comprovar porque estende, por indução amplificante, alguns casos empíricos (uma amostra) a todos os casos . Assim, verificacionismo e indução amplificante são sinónimos na perspetiva do positivismo lógico: por exemplo, observar 1000 pedaços de quartzo e constatar que em todos  há uma estrutura cristalina trigonal composta de tetraedros de sílica autoriza proclamar que em todo o quartzo existente no mundo há uma estrutura trigonal. Popper discorda desta indução amplificante e prefere dizer que o estudo dos 1000 pedaços de quartzo corroborou ou confirmou nesses casos e só nesses (corroboracionismo) a estrutura trigonal do quartzo, mas não verificou esta.

David Hume é um percursor de Popper ao teorizar que o princípio do determinismo, segundo o qual nas mesmas circunstâncias, as mesmas causas produzem sempre os mesmos efeitos, denominado causação, não é real na natureza porque há muitas excepções ou porque é impossível verificar a totalidade dos casos da lei, mas é apenas uma construção da nossa mente, uma das sete relações filosóficas. (VALE DOIS VALORES)

 

2-F) As ciências hermenêuticas ou sociais são aquelas que não assentam num rigoroso determinismo, quantificável, mas sim em teses mais ou menos metafísicas, desdobrando-se em várias interpretações ( hermenêutica, arte da (boa) interpretação de textos e símbolos diversos) sobre um mesmo tema. A psicanálise, por exemplo, é uma dessas ciências: a hipótese de os meninos de 3 a 5 anos de idade sentirem o complexo de Édipo (desejo de matar ou afastar o pai e casar com a mãe) não se verifica em todas as sociedades, segundo Margaret Mead, logo não é universalmente induzível. De um modo geral, estas ciências hermenêuticas não utilizam o método hipotético-dedutivo que comporta quatro fases: a observação, a hipótese (e sua matematização numa fórmula), a dedução da fórmula (para casos concretos) e a experimentação. Ao contrário, às ciências empírico-formais, isto é, construções racionais matematizadas a partir de uma infinidade de dados sensoriais, aplica-se perfeitamente o método hipotético-dedutivo.  (VALE DOIS VALORES)

 

 

Nota para a correção: nas perguntas de relacionação entre dois ou mais conceitos, a cotação para cada resposta dada deve obedecer a um princípio de premiar o aluno que estuda e sabe as definições separadamente: assim deverá receber 50% a 60% da cotação da pergunta desde que defina correctamente os conceitos, embora não consiga interligá-los.

 

 

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David Hume considerava a matemática um conhecimento a priori? (Crítica de manuais escolares - XLI)

 

Diversas imprecisões sobre David Hume são veiculadas nos manuais de filosofia para o ensino secundário. Um exemplo é o do manual «A arte de pensar» da Didáctica Editora, no qual se lê que «David Hume reconhece que há conhecimento a priori»:

 

 

«A priori e a posteriori»

 

«Os exemplos mais óbvios de verdades necessárias são as verdades matemáticas, as quais se limitam a exprimir relações de ideias. Mas são também conhecidas a priori, pois basta-nos usar o conhecimento para conhecê-las ou o raciocínio dedutivo para demonstrá-las. Por sua vez as verdades sobre questões de facto são contingentes e são conhecidas a posteriori, defende Hume. Mas o que significa tudo isto? »

«Significa que o conhecimento a priori, apesar de absolutamente certo, não é acerca do mundo, pois a sua verdade é independente de qualquer observação do mundo. Portanto, Hume reconhece que há conhecimento a priori, mas acrescenta que este conhecimento não é substancial, no sentido em que nada nos diz sobre o que existe fora do pensamento, nem nos diz como são as coisas no mundo. Isso só a posteriori podemos sabê-lo. » (Aires Almeida, Célia Teixeira, Desidério Murcho, Paula Mateus, Pedro Galvão, A arte de pensar, Filosofia 11º ano, pag. 158, Didáctica Editora; o destaque a negrito é posto por mim).

 

Ora, David Hume disse exatamente o oposto: em matemática, não há conhecimentos a priori. Vejamos o que escreveu:

 

«Geralmente, os matemáticos alegam que as ideias que lhes servem de objeto são de natureza tão refinada e tão espiritual que não entram na concepção da imaginação, mas devem ser compreendidas por uma visão pura e intelectual, de que só as faculdades da alma são capazes. A mesma opinião anda espalhada pela maior parte da filosofia e é principalmente utilizada para explicar as nossas ideias abstratas e para formar a ideia de um triângulo que, por exemplo, não seja nem isósceles, nem escaleno, nem se restrinja a um determinado comprimento e proporção dos lados. É fácil de ver por que é que os filósofos gostam tanto desta teoria das percepções espirituais e refinadas: é que por este meio encobrem muitos dos seus absurdos e podem recusar submeter-se ao juízo das ideias claras, recorrendo a ideias obscuras e incertas. Porém, para destruir este artifício não temos senão que refletir no princípio tantas vezes repetido de que todas as nossas ideias são cópias das nossas impressões.»( David Hume, Tratado da natureza humana, pags 106-107, Fundação Calouste Gulbenkian; o destaque a negrito é colocado por mim).

 

 

Hume diz que é um absurdo pretender, como o fazem muitos matemáticos e filósofos, que as ideias abstratas são obtidas por uma visão pura e intelectual, que não derivam de dados empíricos, isto é, que são obtidas a priori. Para Hume, esta teoria das percepções espirituais ou refinadas, a priori, esquece que as ideias são sempre singulares e a ideia de triângulo isósceles é cópia de impressões sensíveis de um triângulo isósceles determinado. Não há, segundo Hume, ideias nem cálculos matemáticos a priori, ao contrário do que acima afirmam os autores de «A arte de pensar».

 

HUME É CÉTICO OU NÃO?

Escreve ainda a «Arte de pensar»:

 

 

«Cepticismo moderado»

 

«Apesar das suas conclusões céticas, Hume não é um cético. Isto porque, ao contrário dos céticos, Hume defende que não devemos abandonar as nossas crenças intuitivas na existência do mundo exterior ou na existência de relações causais reais. Isto porque abandonar as nossas crenças tornaria a nossa vida impossível e poria em causa o nosso instinto de sobrevivência.» (Aires Almeida, Célia Teixeira, Desidério Murcho, Paula Mateus, Pedro Galvão, A arte de pensar, Filosofia 11º ano, pag. 163, Didáctica Editora; o destaque a negrito é posto por mim).

 

 

Assim, segundo este texto, Hume produz conclusões céticas mas não é um cético. É cético e não é cético, diz a «Arte de pensar». É um pouco confuso, convenhamos...Quererão os autores dizer que Hume é cético em algumas áreas e dogmático noutras? É preciso ser claro. Em quais? É realista? É idealista? Sobre isto, a «Arte de Pensar» é omissa. Basta dizer que é cético? Não, porque, pelos vistos, o nevoeiro do ceticismo não cobre a totalidade das afirmações de Hume.  

 

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Quarta-feira, 14 de Março de 2012
Dois testes de filosofia do 10º ano de escolaridade em Portugal (final do 2º período)

 

Eis dois testes de filosofia do 10º ano de escolaridade em Portugal, nos moldes que preconizo para desenvolver a capacidade filosófica dos alunos, fazer deles seres cultos e raciocinantes. Não tem perguntas de resposta quádrupla em cruz que, normalmente, abundam nos testes dos professores de filosofia de nível mediano ou medíocre que se recusam a pensar ou são incapazes de pôr os seus alunos a pensar em profundidade. Respostas de cruz a perguntas de escolha múltipla em testes de filosofia é sinal de anti-filosofia ou pseudofilosofia, unidimensionalidade do pensamento, em regra.

 

 Escola Secundária com 3º ciclo Diogo de Gouveia, Beja

 

TESTE DE FILOSOFIA, 10º ANO TURMA D

 

Março de 2012,   Professor: Francisco Queiroz              

 

I

 

“A filosofia hermética dos construtores aplicava, na construção das catedrais da idade média, o princípio do microcosmos- macrocosmos que é, de certo modo, um princípio metafísico. A ascese em Platão, a noese e a dianóia ligam-se ao racionalismo mas a epithimia liga-se ao empirismo. A epochê dos estóicos visa atingir a ataraxia e tem semelhanças com a ética do taoísmo. Thomas Hobbes tinha uma visão do estado de natureza diferente daquela que tinha John Locke, e por isso o contratualismo de Hobbes é distinto do de John Locke e um destes dois liga-se ao iluminismo».

 

 

 

1) Explique, concretamente, cada uma destas frases.

 

 

 

2) Relacione, justificando:

 

 

 

A) Valores ético-políticos das esquerdas e das direitas, liberdade e igualdade económica.

 

B) Determinismo com livre-arbítrio e fatalismo.

 

C) Princípio da maior felicidade em Stuart Mill e empirismo.

 

D) Propriedade privada das empresas e autogestão operária, por um lado, e liberalismo, comunismo leninista e anarquismo, por outro lado.

 

E) Imperativo categórico e imperativo hipotético em Kant e dualismo antropológico no estoicismo.

 

F) Uno e múltiplo, por um lado, conceito e percepção empírica, por outro.

 

  

 

CORREÇÃO DO TESTE ( COTADO PARA 20 VALORES)

 

1) A filosofia hermética, isto é, esotérica, inspirada em princípios metafísicos secretos atribuídos a Hermes Trimegistus, dos arquitetos das catedrais medievais incluía o princípio de que o microcosmos (pequeno universo; por exemplo, uma montanha, uma igreja) era o espelho do macrocosmos (grande universo: o céu com as estrelas, as galáxias). Assim, os templários erguiam os seus castelos de modo a que a planta arquitetónica destes imitasse o desenho da constelação do Boeiro ou de outras constelações celestes. A catedral medieval - como vimos na visita de estudo a Sevilha - é um microcosmos que imita o imaginário corpo cósmico de Cristo de braços abertos: a abside representava a cabeça de Cristo e deveria estar voltada a Oriente, onde nasce o Sol, símbolo de Cristo; o transepto representava os braços abertos de Cristo e o altar o coração; as naves, central e lateral, o tronco e as pernas de Cristo. O princípio da correspondência entre o superior e o inferior é metafísico porque se apreende por intuição noética, não pelos orgãos sensoriais (ESTAS QUATRO FRASES ANTERIORES VALEM DOIS VALORES). A ascese em Platão, ou seja, ascensão da alma racional ao inteligível, mediante a filosofia, a matemática e a música, desligando-se da matéria, a noese ou apreensão direta dos arquétipos de Bem, Belo e outros e a dianóia ou raciocínio demonstrativo são formas de racionalismo, doutrina que diz que a razão e os seus raciocínios é a fonte do conhecimento e da verdade, negando ou desvalorizando as sensações, ao passo que a epithimia ou parte inferior da alma localizada no ventre e baixo-ventre (desejos de comer, beber, possuir riquezas materiais, etc) se liga ao empirismo, doutrina que afirma que a grande fonte dos nossos conhecimentos é a experiência sensorial, o que vemos, cheiramos, saboreamos e tocamos (VALE DOIS VALORES). A epochê dos estóicos é a suspensão do juízo de valor ( exemplo: «Dizem-te que a tua casa ardeu, faz epochê, não consideres isso uma tragédia») e visa atingir a ataraxia, isto é, a calma absoluta e é semelhante à ética quietista do taoísmo porque esta preconiza «não ter ambições, não agir, não procurar desvendar os segredos do Estado». (VALE DOIS VALORES). Thomas Hobbes achava que o estado de natureza, isto é, a sociedade sem leis, nem Estado, era perigosa e nela «o homem é o lobo do homem» e preconizava um contratualismo absolutista, ou seja, um acordo de milhares ou milhões de homens para, a troco da sua segurança, entregar o poder a um rei absoluto, um ditador ao passo que John Locke via aspetos positivos no estado de natureza e sustentava o contratualismo liberal, ou seja, o acordo de milhões de homens para a criação de um Estado liberal, que garantisse a propriedade privada e liberdades individuais políticas, dotado de um parlamento livremente eleito, residindo a soberania no povo. É Locke quem se inspira nos princípios iluministas consagrados depois dele: liberdade, igualdade e fraternidade, os homens nascem livres e iguais por direito natural e devem pensar e agir autonomamente, de forma racional (VALE DOIS VALORES).

 

2) A) Os valores ético-políticos das esquerdas (anarquistas, comunistas leninistas, socialistas ou sociais-democratas) são: limitar ou aniquilar o poder dos muitos ricos, da alta burguesia, e promover uma moderada ou radical igualdade económica ( os socialistas, através de impostos progressivos sobre as grandes fortunas, os comunistas nacionalizando estas, os anarquistas impondo a autogestão operária nas empresas), dando liberdade aos sindicatos e correntes de esquerda (excetuando as ditaduras comunistas neoestalinistas onde a liberdade é letra morta). Os valores ético-políticos das direitas (liberais e neoliberais, conservadores e fascistas) são: fazer crescer o poder dos ricos e dos muito ricos, privatizar muitas empresas estatais, na convição de que o capitalismo de concorrência é o melhor sistema possível que dá emprego a quase toda a gente, combatendo o igualitarismo económico dos comunistas e anarquistas e defendendo a democracia liberal capitalista (exceção feita aos fascistas, que desejam uma ditadura direitista). (VALE DOIS VALORES)

 

2) B) Determinismo com livre-arbítrio, chamado no manuais determinismo moderado, é a corrente segundo a qual a natureza se compõe de leis necessárias, infalíveis ( nas mesmas circunstâncias, as mesmas causas produzem sempre os mesmos efeitos) e o homem dispõe da capacidade de escolher,livremente, mediante a reflexão, esta ou aquela cadeia determinista, realizar ou não certo ato, certo valor. O fatalismo é diferente uma vez que sustenta que tudo está predestinado e não há livre-arbítrio humano. (VALE DOIS VALORES)

 

2) C)  O princípio da maior felicidade de Stuart Mill sustenta que a acção moral deve ser altruísta, visar a felicidade de uma maioria das pessoas envolvidas, ainda que com prejuízo de uma minoria de pessoas ou do próprio agente da ação. O empirismo sustenta que quase todas as nossas ideias derivam das sensações, das perceções sensoriais. Assim, por exemplo, a noção de maior felicidade para os alunos de uma dada escola no ultimo dia de aulas exige uma visão empírica ou empirista: se a maioria dos alunos se acumula com prazer no ginásio grande da escola a ouvir música dos «Feedback Line», dos «Contraluz» ou de outro grupo musical adolescente aí está a prova da ligação entre a felicidade da maioria e a apreensão empírica dela. (VALE DOIS VALORES)

 

2) D) A propriedade privada das empresas é o facto de as fábricas, lojas, supermercados, herdades agrícolas, transportadoras aéreas, fluviais ou terrestres, etc, serem, juridicamente, pertença de um ou vários capitalistas ( os acionistas). É defendida pelo liberalismo como sendo a base do progresso e da liberdade mas é combatida por comunistas leninistas - que numa fase inicial defendem as pequenas empresas - e por anarquistas. Estes últimos são os grandes defensores da autogestão operária, isto é, a doutrina da expropriação e expulsão dos patrões das empresas que ficam a funcionar sob o comando da assembleia geral de todos os operários, engenheiros e contabilistas. Os marxistas-leninistas apoiam algumas empresas em autogestão mas preferem as empresas nacionalizadas sob governo comunista porque isso lhes permite centralizar a economia e dirigi-la. ( VALE DOIS VALORES)

 

2) E) O imperativo categórico em Kant é a verdadeira lei moral que se enuncia assim: «Age como se quisesses que a tua ação fosse a lei universal da natureza, aplicando a tua máxima a todos por igual, sem distinções e sem egoísmo.» Brota do eu numénico ou racional. Corresponde às máximas estóicas do tipo «Actua com benevolência em relação a todos os seres humanos, mesmo em relação aos que te ofendem, porque a razão universal é uma só e uma só é a tua linhagem, a espécie humana»  geradas no eu interior ou racional. O imperativo hipotético em Kant, lei amoral ou de falsa moral, diz o seguinte: «Age por interesse egoísta, de modo a beneficiares primeiro que tudo a ti mesmo ou a ti e aos teus familiares e amigos, prejudicando ou desprezando outras pessoas ou a humanidade em geral». Brota do eu fenoménico ou empírico e corresponde, no estoicismo, ao "eu exterior" ou corpo físico de cada um. Assim se correspondem os dois dualismos, sendo designados de dualismo antropológico porque dividem o homem em dois pólos, o racional e o físico-empírico. (VALE DOIS VALORES)

 

2) F) Uno é o Um e múltiplo é o dois, três, quatro e assim infinitamente. O conceito parece ser uno em relação às percepções empíricas similares que são múltiplas. Exemplo:o conceito ou ideia de sobreiro é um só e corresponde às muitas imagens (percepções empíricas) de sobreiros que estou, neste momento, a ver neste campo do Alentejo. (VALE DOIS VALORES) .

 

Nota para a correção: nas perguntas de relacionação entre dois ou mais conceitos, a cotação para cada resposta dada deve obedecer a um princípio de premiar o aluno que estuda e sabe as definições separadamente: assim deverá receber 50% a 60% da cotação da pergunta desde que defina correctamente os conceitos, embora não consiga interligá-los.

 

Vejamos um segundo teste de filosofia.

 

NOTA: A esmagadora maioria dos professores de filosofia, centrados na lógica proposicional clássica - que, no 11º ano mergulha os alunos nos inspetores de circunstâncias, nos operadores verofuncionais, nos silogismos disjuntivos, hipotéticos e dilemas, na «avaliação de argumentos», na negação do condicional, do bicondicional, das leis de Morgan, conhecimentos de lógica inúteis para o verdadeiro filosofare centrados em conteúdos mais ou menos confusos, infetados pelo desprezo da ontologia dos clássicos (Platão, Aristóteles. Leibniz, Hegel, etc), desprezo que os manuais de 10º ano editados veiculam, não pode nem sabe dar testes da qualidade dos que aqui apresento: dá testes superficiais, sem amplitude filosófica autêntica, insubstanciais. E, no entanto, quanta arrogância nesta geração de licenciados, mestres e doutorandos (entre os 25 e os 50 anos de idade) de faculdades de filosofia! Estas estão instrumentalizadas por catedráticos destituídos de visão holística que, entre outras asneiras, declaram que «a astrologia histórica é uma superstição anticientífica» sem, como é óbvio, terem investigado minimamente o assunto! Nenhum dos famosos "vinte e cinco melhores pensadores do mundo" segundo o «Nouvel Observateur», entre eles José Gil, consegue conceber que o destino das pessoas e sociedades é determinado pelas movimentações do Sol, da Lua e dos planetas no Zodíaco. São, cosmologicamente, néscios. A filosofia universitária bloqueia, a partir das cátedras, a aletheia, a desocultação da verdade.

 

 Escola Secundária com 3º ciclo Diogo de Gouveia, Beja

 

TESTE DE FILOSOFIA, 10º ANO TURMA A

 

 Março de 2012         Professor: Francisco Queiroz           

 

I

 

“A filosofia hermética dos construtores aplicava, na arquitectura das catedrais da idade média, o princípio do microcosmos- macrocosmos que é, de certo modo, um princípio metafísico. A substituição do Estado social pelo Estado liberal é uma expressão da luta entre as direitas e as esquerdas no quadro do capitalismo e do Estado de direito democrático inspirado no iluminismo. Thomas Hobbes tinha uma visão diferente da de Rousseau sobre o estado de natureza e, por isso, preconizava um contratualismo diferente do de John Locke e do de John Rawls, o último dos quais se opunha explicitamente ao socialismo autoritário.”

 

 

 

1) Explique, concretamente, cada uma destas frases.

 

                                                        II

 

2) Relacione, justificando:

 

 

 

A) Princípio da maior felicidade em Stuart Mill e imperativo categórico em Kant.

 

B) Essência, acidente e reminiscência em Platão.

 

C) Realismo ontológico, idealismo ontológico e objetividade.

 

D) Ética do taoísmo e ética do estoicismo.

 

E) Relativismo e teoria do acto e da potência em Aristóteles.

 

F) Indeterminismo biofísico  com livre-arbítrio (libertismo) e fatalismo.

 

 

 

CORREÇÃO DO TESTE (COTADO PARA 20 VALORES)

 

1) A filosofia hermética, isto é, esotérica, inspirada em princípios metafísicos secretos atribuídos a Hermes Trimegistus, dos arquitetos das catedrais medievais incluía o princípio de que o microcosmos (pequeno universo; por exemplo, uma montanha, uma igreja) era o espelho do macrocosmos (grande universo: o céu com as estrelas, as galáxias). Assim, os templários erguiam os seus castelos de modo a que a planta arquitetónica destes imitasse o desenho da constelação do Boeiro ou de outras constelações celestes. A catedral medieval - como vimos na visita de estudo a Sevilha - é um microcosmos que imita o imaginário corpo cósmico de Cristo de braços abertos: a abside representava a cabeça de Cristo e deveria estar voltada a Oriente, onde nasce o Sol, símbolo de Cristo; o transepto representava os braços abertos de Cristo e o altar o coração; as naves, central e lateral, o tronco e as pernas de Cristo. O princípio da correspondência entre o superior e o inferior é metafísico porque se apreende por intuição noética, não pelos orgãos sensoriais (ESTAS QUATRO FRASES ANTERIORES VALEM DOIS VALORES). A substituição do Estado social, isto é, do Estado social-democrata, - um Estado capitalista de centro-esquerda, que oferece saúde e ensino gratuitos ou quase gratuitos a toda a população, subsídio de desemprego, rendimento de inserção social e pensões diversas aos desfavorecidos à custa de impostos progressivos sobre os ricos - pelo Estado liberal - um Estado mínimo capitalista, que reduziu ou aboliu a gratuidade do ensino e dós cuidados de saúde, reduziu ao mínimo a segurança social, deixando milhões de desempregados entregues à sorte -  reflete a luta entre a direita (liberais, conservadores e fascistas), adepta das privatizações de empresas,  e as esquerdas (socialistas ou sociais-democratas, comunistas e anarquistas) adeptas da nacionalização de empresas estratégicas ou mesmo da autogestão operária. As esquerdas querem manter, no imediato, o Estado social e as direitas fazem-no emagrecer transformando-o em Estado liberal, não intervencionista na economia, quase reduzido só aos corpos militares e policiais, fiscais, judiciais e político-parlamentares. Ambos - Estado Social e Estado Liberal - são formas do Estado de direito democrático, isto é, um Estado baseado numa constituição que consagra a tripartição de poderes (legislativo, executivo e judicial) e que consiste numa democracia multipartidária, com eleições periódicas de um parlamento nacional e parlamentos locais, liberdade de imprensa, greve operária, propriedade privada de empresas, manifestação de rua e reunião, associação sindical e política, culto religioso e ateísmo, etc, de acordo com os princípios do iluminismo, filosofia da liberdade, igualdade e fraternidade entre todos os homens, que nascem livre e iguais em direitos e deveres e devem pensar e agir autonomamente, de forma racional. (ESTAS FRASES ANTERIORES VALEM TRÊS VALORES NO CONJUNTO). Thomas Hobbes achava que o estado de natureza, isto é, a sociedade sem leis, nem Estado, era perigosa e nela «o homem é o lobo do homem» e preconizava um contratualismo absolutista, ou seja, um acordo de milhares ou milhões de homens para, a troco da sua segurança, entregar o poder a um rei absoluto, um ditador ao passo que Rousseau via o estado de natureza de forma positiva, uma sociedade de homens livres em estado selvagem, cada um alimentando-se dos frutos de árvores à sua disposição, sem impor escravidão ou servidão a outros (doutrina do bom selvagem). John Locke,  e mais tarde, no século XX, John Rawls, sustentavam o contratualismo liberal-democrático, ou seja, o acordo de milhões de homens para a criação de um Estado liberal, que garantisse a propriedade privada e liberdades individuais políticas, dotado de um parlamento livremente eleito, residindo a soberania no povo. Rawls defendia que os cidadãos deveriam votar as leis a coberto de um véu de ignorância sobre a riqueza e o poder de cada um e rejeitava o socialismo autoritário, isto é, a ditadura comunista marxista-leninista que expropria a burguesia tradicional (VALE DOIS VALORES). 

 

2) O princípio da maior felicidade de Stuart Mill sustenta que a acção moral deve ser altruísta, visar a felicidade de uma maioria das pessoas envolvidas, ainda que com prejuízo de uma minoria de pessoas ou do próprio agente da ação.  O imperativo categórico em Kant, a verdadeira lei moral segundo este,  enuncia-se assim: «Age como se quisesses que a tua ação fosse a lei universal da natureza, aplicando a tua máxima a todos por igual, sem distinções e sem egoísmo e trata cada ser humano como um fim em si e não um meio .» Brota do eu numénico ou racional. Stuart Mill contenta-se com a felicidade de uma maioria mas Kant deseja a felicidade ou a infelicidade de todos, uma vez que o seu objetivo é a equidade universal da ação emanada de um mesmo sujeito. (VALE DOIS VALORES).

 

2- B) Em Platão, as essências são os arquétipos do mundo inteligível, as formas imóveis e eternas do Bem, do Belo, do Justo, do Dois, do Quatro, etc. A reminiscência é a lembrança vaga desses arquétipos que a alma na sua descida ao mundo material ou sensível conserva, depois de quase tudo esquecer no rio Letes. O acidente é um traço ou acontecimento fortuito que não existe no arquétipo em si mas no modo como a alma se comporta ante ele: há almas que não contemplam o arquétipo de Justo ou de Sábio e isso é por acidente. (VALE DOIS VALORES).

 

2-C) Realismo ontológico: o mundo material subsiste por si mesmo, fora das mentes humanas. Idealismo ontológico: o mundo material está dentro da imensa mente humana de cada um. Objetividade é o caráter de objeto, coisa ou situação visível para todos ou compreensível para todos mediante uma razão comum. Aparentemente, o realismo ontológico é «mais objetivo» que o idealismo. Mas... (VALE DOIS VALORES).

 

2-D) A ética do taoísmo preconiza o não agir, o refrear os desejos, aceitar uma vida calma e trabalhosa como a de um camponês sedentário, desconfiado dos estudos e dos políticos, astuto, que estuda o seu inimigo elogiando-o, até um dia o poder derrubar. A ética do estoicismo preconiza a aceitação do destino, o autodomínio obtido mediante o eu racional, o «guia interior», a benevolência face a todos os seres humanos, a epoché ou suspensão do juízo de valor («Falam mal de ti? Não consideres isso mau nem bom. Suspende o juízo») visando a ataraxia ou impassibilidade da alma. Tanto o taoísmo como o estoicismo recomendam contenção dos desejos, autodomínio. (VALE DOIS VALORES)

 

2-E) Relativismo é a doutrina segundo a qual as coisas e suas propriedades, os valores, mudam conforme o tempo, o lugar, as sociedades, as culturas. Ato é a realidade presente de algo, potência é a capacidade de esse algo se transformar no futuro e o resultado previsível dessa transformação. Exemplo: a semente é semente em ato e árvore em potência. O relativismo exprime-se na dualidade ato potência: as coisas são algo em ato e são algo diferente em potência, o seu ser é relativo ao tempo em que se encontra. (VALE DOIS VALORES)

 

2-F) Indeterminismo biofísico com livre-arbítrio é a doutrina segundo a qual não há leis fixas, necessárias, de causa-efeito na natureza (exemplo: nem todos os seres humanos envelhecem, nem todos se alimentam de sólidos e sobrevivem) e há livre-arbítrio, possibilidade de deliberar racionalmente sobre as ações. Fatalismo é o oposto, sob certo aspeto: não há livre-arbítrio, todos os acontecimentos estão rigorosamente predestinados. (VALE DOIS VALORES). 

 

 

Nota para a correção: nas perguntas de relacionação entre dois ou mais conceitos, a cotação para cada resposta dada deve obedecer a um princípio de premiar o aluno que estuda e sabe as definições separadamente: assim deverá receber 50% a 60% da cotação da pergunta desde que defina correctamente os conceitos, embora não consiga interligá-los.

 

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Quinta-feira, 8 de Março de 2012
O pseudoparadoxo de Burali-Forti (fragilidades da filosofia analítica anglo-saxónica- V)

 

O "paradoxo de Burali-Forti" é um argumento da teoria dos conjuntos considerado verdadeiro pela filosofia analítica anglo-saxónica. Blackburn  enuncia-o assim:

 

«Paradoxo de Burali-Forti - O primeiro paradoxo a ser descoberto na teoria dos conjuntos. A todos os conjuntos bem ordenados é atribuído um número ordinal. Estes ordinais podem ser comparados: de quaisquer dois se pode dizer que são iguais, ou que um é mais pequeno e o outro maior. Eles formam, por sua vez, um conjunto bem ordenado. O ordinal deste conjunto tem de ser maior do que qualquer ordinal que pertença ao conjunto. Seja C o conjunto de todos os ordinais. Uma vez que é um conjunto bem ordenado, tem um número ordinal, w, que tem de ser maior do que qualquer elemento do conjunto. Mas C era o conjunto de todos os ordinais e tem de incluir w

(Simon Blackburn, Dicionário de Filosofia, pag 316, Gradiva, 2007; o destaque a negrito é posto por mim).

 

Trata-se de um pseudoparadoxo. Exemplifiquemos. Apliquemos este problema da teoria dos conjuntos aos 10 países latinos que existem na Europa, partindo do princípio que cada país é um conjunto de habitantes, atribuindo um número a cada um : a San Marino (cerca de  30 000 habitantes) o número 1, ao Mónaco (cerca de 32 000 habitantes) o número 2,  a Andorra (cerca de 78 000 habitantes) o número 3, à  Suíça (cerca de 7,8 milhões de habitantes) o número 4,  à Bélgica (cerca de 10,4 milhões de habitantes) que tem a Valónia, região de língua francesa, o numero 5, a Portugal cerca de 10,5 milhões de habitantes) o numero 6, à  Roménia (cerca de 22,2 milhões de habitantes) o número 7, a Espanha (cerca de 46 milhões de habitantes) o número 8, a Itália (cerca de 60,3 milhões de habitantes) o número 9, a França (cerca de 65,4 milhões de habitantes) o número 10.

 

Assim C é o conjunto de todos estes ordinais (1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10) e tem de ter um número w - seja por exemplo 11 - maior do que qualquer elemento do conjunto.

E Blackburn escreve acima, delineando o dito paradoxo: «Mas C era o conjunto de todos os ordinais e tem de incluir w

Perguntamos: por que carga de água C tem de incluir w?  O conjunto [1,2,3...10] tem de incluir o número 11? É absurdo. É evidente que C não se inclui a si mesmo enquanto número 11 (w) ao lado dos números de escalão inferior que são os seus elementos. O erro aqui é similar ao do paradoxo de Russel que rebaixa a espécie - um conjunto de entes similares - à condição de elemento ou parte de si mesma.

 

Os matemáticos não são fiáveis,  no plano da especulação, não se inserem, em regra, no raciocínio multidimensional que caracteriza a verdadeira filosofia. É muito simples desmascarar este pseudoparadoxo da teoria dos conjuntos mas, pelos vistos, nem Russel, nem Wittgenstein, nem Quine, nem Samuel Kripke, nem Nagel, nem Blackburn, nem Anthony Kenny, nem João Branquinho, nem José Gil, nem a generalidade dos académicos actuais e do século passado o fizeram. Teremos que nos curvar e calar ante uma universidade de obnóxios doutorados em filosofia que veneram pseudoraciocínios de aparência matemática?  

 

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Sexta-feira, 2 de Março de 2012
O pseudo paradoxo dos grãos de milho (fragilidades da filosofia analítica anglo-saxónica- IV)

 

O "paradoxo dos grãos de milho" é um argumento aceite como válido pela filosofia analítica anglo-saxónica. Blackburn enuncia-o assim:

 

«Paradoxo dos grãos de milho - Uma das versões do paradoxo sorites ainda que esteja associada ao paradoxo de Zenão, visto que diz respeito à criação de uma quantidade finita a partir de exemplos suficientes de "nada". Um único grão de milho não faz qualquer ruido quando cai; e para qualquer número n, nx0= 0. Mas a queda de um número finito de grãos de milho, ou por outras palavras, uma  multiplicação destes ruídos zero, provoca um ruído finito discernível».

(Simon Blackburn, Dicionário de Filosofia, pag 321-322, Gradiva, 2007; o destaque a negrito é posto por mim).

 

Trata-se de um pseudoparadoxo: parte de uma premissa errada, a de que a queda de um grão de milho não provoca ruído nenhum. É falso. Essa queda gera um ruído que está abaixo do limiar auditivo do ouvido humano normal e, por isso, é inaudível mas não é um ruído zero. A acumulação de pequenas quantidades  de ruído dos muitos grãos de milho ao cair, a sua junção irrompendo num dado instante, gera um ruído de que o ouvido humano se apercebe. É a lei dialética do salto qualitativo: a adição gradual, em quantidade, é o intermédio, a mediação entre o nada e o tudo, entre uma qualidade e a sua contrária, entre a tese e a antítese.  

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Quinta-feira, 1 de Março de 2012
O paradoxo do mentiroso, um pseudo paradoxo (fragilidades da filosofia analítica anglo-saxónica- III)

 

O "paradoxo do mentiroso" é um argumento aceite como válido pela filosofia analítica anglo-saxónica. Blackburn o enuncia-o assim:

 

«Paradoxo do mentiroso - Paradoxo alegadamente devido a Epiménides. Há um certo número de paradoxos que pertencem à família do mentiroso. O exemplo mais simples é a frase «Esta frase é falsa», que tem de ser falsa se for verdadeira, e verdadeira se for falsa. Uma sugestão de solução é afirmar que a frase nada diz; mas as frases que nada dizem não são, no mínimo, verdadeiras. Nesse caso, consideramos a frase " Esta frase não é verdadeira" que, se nada diz, não é verdadeira e, logo, é verdadeira (a este tipo de raciocínio chama-se por vezes "o paradoxo fortalecido  do mentiroso"). Outras versões do mentiroso, introduzem pares de frases, como uma inscrição na parte da frente de uma camisola que afirma " A frase na parte de trás desta camisola é falsa" e outra na parte de trás que afirma "A frase na parte da frente desta camisola é verdade". É claro que, tomadas isoladamente, ambas as frases são bem formadas, e, se não fosse pelo que a outra afirma, poderiam ter dito algo verdadeiro. Por isso qualquer tentativa para afastar o paradoxo afirmando que as frases envolvidas não têm significado enfrenta problemas.»

(Simon Blackburn, Dicionário de Filosofia, pag 320, Gradiva, 2007; o destaque a negrito é posto por mim).

 

Há aqui uma pura manipulação sofística, um pseudo raciocínio: a frase, dita por um mentiroso, é falsa se for verdadeira, é verdadeira se for falsa. É óbvio que isto é uma impossibilidade lógica: verdadeira, em que sentido? Falsa, em que sentido?  Obrigatoriamente, terá de ser em sentidos diferentes e isso Blackburn e os seus partidários não discernem e não explicam. A dialética é, para eles, estranha. A sua analítica analisa, isto é, decompõe em elementos diversos, menos do que a dialética. Blackburn não pensa dialeticamente: mistura no mesmo plano, verdade e falsidade, o que viola o princípio da não contradição.  Como é que uma frase é falsa sendo verdadeira? Está-se a confundir o fundo com a forma, o conteúdo com o continente, a locução com o locutor.

 

Trata-se de um pseudoparadoxo, o que se descobre pela aplicação do método dialético e do seu princípio «um divide-se em dois». Não existe um só enunciador da frase «Esta frase é falsa» mas dois: o mentiroso em acto e o mentiroso em potência. Se é o mentiroso em acto que diz «esta frase é falsa», a frase seria, logicamente, verdadeira, se tivesse algum conteúdo: o mentiroso em acto está obrigado a mentir. Se é o mentiroso em potência, ou seja, alguèm que no momento presente fala verdade mas que virá ou poderá vir a mentir no futuro, a frase «Esta frase é falsa», se porventura tivesse algum conteúdo, seria igualmente verdadeira, embora com conteúdo concreto diferente da frase dita pelo mentiroso em acto.

 

Quando se diz «esta frase é falsa» não se distingue entre o  triplo sentido da palavra verdade: como essência ideal, ligada a referentes ideais, teoréticos, como essência confirmada no plano da existência material e como existência linguística.

 

 

Blackburn afirma confusamente acima: «Nesse caso, consideramos a frase " Esta frase não é verdadeira" que, se nada diz, não é verdadeira e, logo, é verdadeira (a este tipo de raciocínio chama-se por vezes "o paradoxo fortalecido  do mentiroso").»

Então a frase que nada diz, não verdadeira,  é verdadeira? É pura sofística. É confundir, numa amálgama, planos distintos. Se a frase nada diz,  é falsa enquanto essência mas é verdadeira enquanto existência linguística, construção formal de palavras. A dialética, como ciência do uno, dos géneros e das espécies, impõe distinguir os vários sentidos de um mesmo conceito-termo, as várias ramificações deste, mas não é praticada por estes senhores da filosofia "analítica" que sofrem o fetichismo das palavras, os «efeitos especiais» destas, sem penetrar o sentido mais profundo de cada uma.

 

Ao considerar a frase "esta frase não é verdadeira" não se distingue, em regra, que há duas proposições dentro da mesma frase, uma que funciona como enunciado a outra como enunciador : cada proposição possui o seu domínio próprio mas o pensamento caótico, sofístico, confunde-as . Se a frase interior é falsa como essência, isto é na sua relação com o referente, a frase exterior, englobante e judicativa sobre a primeira, é verdadeira. Não há paradoxo nenhum nisto.

 

Se disser «A frase "o número atómico do oxigénio é 78"  é falsa»,  esta frase é verdadeira enquanto reportando-se a objetos reais, os átomos e os seus constituintes eletrónicos: sabe-se, de acordo com a tabela periódica dos elementos químicos, que o número atómico do oxigénio é 8. O que é falso é a frase dentro da frase ( a que está balizada por aspas: "o número atómico do oxigénio é 78", a que chamo a frase interior )  não a frase como enunciado global. Esta última só pode ser dita por alguém que fala verdade neste momento - o mentiroso em potência - e não pelo mentiroso em acto. Este dirá apenas: "o número atómico do oxigénio é 78".

 

Dizer «esta frase é falsa» pode significar: é falsa no seu conteúdo concreto mas é verdadeira enquanto invólucro externo desse conteúdo. Portanto não há aqui nenhum paradoxo, mas apenas sofisma, confusão do terreno do verdadeiro com o terreno do falso. A palavra frase é tomada, sem que as pessoas se apercebam, em dois sentidos distintos, um anterior-interior e o outro posterior-exterior, este último um juízo de verdade sobre o primeiro. Há duas frases: a primeira é "esta frase"  - uma frase oculta, com aspecto de sujeito, frase de sentido indeterminado, hermeticamente fechada como uma boneca russa dentro da outra - e a segunda é "esta frase é falsa". Ora como pode a boneca russa mais pequena fechada no interior da maior avaliar o aspecto desta? Não pode. E como pode a boneca russa maior avaliar o aspeto, o valor de verdade, da que está fechada no seu interior? Não pode.

 

Quando se diz na parte da frente da camisola " A frase na parte de trás desta camisola é falsa"  e na parte de trás se lê "A frase na parte da frente desta camisola é verdadeira" não há aqui nenhum paradoxo real. Afinal, qual é a frase em questão? É vazia. Ora o paradoxo não actua sobre o nada, só existe quando há conteúdos determinados, como por exemplo, o paradoxo «Deus ama infinitamente todas as pessoas e condena ao sofrimento eterno as que forem malvadas e impenitentes apesar de as amar». Amar e castigar eterna e inflexivelmente são contrários que se excluem no mesmo ente em relação ao mesmo objeto.

 

Diz-se que é um paradoxo o facto de o cretense Epiménides ter dito o seguinte: «Todos os cretenses são mentirosos". Não há paradoxo nenhum, porque Epiménides podia ser mentiroso ocasional - não se mente sempre, em regra - e proferir esta afirmação sendo ela verdadeira

 

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f.limpo.queiroz@sapo.pt

 

© (Direitos de autor para Francisco Limpo de Faria Queiroz)



publicado por Francisco Limpo Queiroz às 11:32
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