Terça-feira, 31 de Janeiro de 2012
Misconceptions of George Edward Moore about Good and Hedonism

 

George Moore theorized the "naturalistic fallacy", that is, the explanation linking the notion of good to things empirically good, agreable. He argued that Good is indefinable. Unlike Plato, did not admit the participation of the Good  in good things. He wrote:

 

«The theories I propose to discuss may be conveniently divided into two groups.The naturalistic fallacy always implies that when we think "This is good" what we are thinking  is that the thing in question bears a definite relation to some one other thing. But this one thing, by reference to which good is defined, may be either when I may call a natural object - something of which the existence is admittedly an object of experience - or else it may be an object which is only inferred to exist in a supersensible real world. These two types of ethical theory I propose to treat separately».( G.E.Moore, Principia Ethica, pag. 38-39, Cambridge University Press, 1971; the bold emphasis is put by me).

 

 

George Moore equivocates: good is not indefinable. Good is pleasure: physical pleasure, like eating chocolat or grapes, or moral pleasure, like feeling justice in a society or in a family or like seeing our friend recover health after an accident, or intelectual pleasure, like geting a sense of historical cycles or like understanding  Plato's theory of archetypes.

 

 

 Moore wrote yet:

 

«By Hedonism, then, I mean the doctrine that pleasure alone is good as an end - "good" in the sense which I had tried to point out as indefinable. The doctrine that pleasure, among other things, is good as an end, is not Hedonism; and I shall not dispute its truth. Nor again is the doctrine that other things, besides pleasure, are good as means, at all inconsistent with Hedonism: the Hedonist is not bound to maintain that "Pleasure alone is good", if under good he includes, as we generally do, what is good as means to an end, as well as the end itself.» ( Moore, ibid, page 62; the bold emphasis is put by me).

 

The position of Moore about hedonism is as absurd as saying that oxygen is only  oxygen if there is pure no mixing with other gases. In fact, the search of pleasure as the aim of an acction is enough to define hedonism:  the climber who cut his arm stuck in a rock at the Grand Canyon and was able to survive made a hedonist act despite of mutilating himself. Mutilation is pain, is contrary to hedonism, but in this case was an anti hedonistic practic subject to an order, the preservation of life, a hedonistic commitement. So, pleasure is mixed with the pain and whether imposes his quality in final stage of the action these one is hedonistic. Against Moore, I sustain that Hedonism is the doctrine that pleasure, alone or mixed with pain or other things, is the main goal of action, the supreme value.  

 

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Schopenhauer compreendeu bem Kant

 

Ao contrário da generalidade dos académicos de hoje, que interpretam Kant como um realista crítico ou realista fenomenológico (exemplificando como interpretam Kant: há fora de mim uma árvore material que é númeno, incognoscível, e a árvore que eu vejo é fenómeno, representação) Schopenhauer compreendeu muito bem o sentido da expressão "realismo empírico" em Kant. Escreveu:

 

«Sem embargo, o idealismo transcendental não disputa de maneira alguma ao mundo existente a sua realidade empírica, mas diz unicamente que esta não é incondicional, posto que tem por condição as nossas funções cerebrais das quais resultam as formas de percepção, quer dizer, tempo, espaço e causalidade; que por conseguinte, essa mesma realidade empírica não é mais que a realidade de um fenómeno.» (Arthur Schopenhauer, Historia de la filosofía (de los Presocraticos a Hegel) , pag 65, Editorial Quadrata).

 

E escreveu ainda:

 

« Vemos pois que Locke desconta da qualidade das coisas em si que recebemos de fora, o que é ação dos nervos dos sentidos; este é princípio simples, compreensível e indiscutível. Mas neste caminho deu Kant, mais tarde, o grande passo gigantesco  descontando também o que é ação do nosso cérebro (de essa massa nervosa relativamente muito maior) pelo qual se reduziram então todas as supostas propriedades primárias a secundárias, e as supostas coisas em si, a simples fenómenos, mas ficando então a verdadeira coisa em si despojada de aquelas propriedades e como uma quantidade completamente incógnita, como um verdadeiro x.» (Schopenhauer, ibid, pag 118; o destaque a negrito é de mimha autoria).

 

Ao falar da redução das qualidades primárias (forma, tamanho, movimento, extensão, substância indefinida)  a qualidades secundárias (as que só existem na nossa percepção, na nossa mente) Schopenhauer acentua bem o idealismo de Kant, em que a matéria é interna ao espírito humano. No entanto, é de assinalar que Kant manteve, na esfera idealista do espírito,  a distinção das qualidades primárias- que no seu sistema são intersubjetivas, apenas empiricamente reais (realismo empírico) - e das qualidades secundárias - cor, cheiro, sabor, calor e frio, grau de dureza, etc, - que no seu sistema são subjetivas, absolutamente irreais.  

 

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Sexta-feira, 27 de Janeiro de 2012
Valores ético-políticos: uma síntese de sete correntes para estudantes de filosofia do secundário

 

Coloquemos sete correntes políticas em análise: três de esquerda (anarquistas, comunistas, sociais-democratas), uma de centro (centristas), três de direita (liberais, conservadores e fascistas/ absolutistas monárquicos). Como caraterizar, de forma sumária, a diferença entre esquerdas e direitas? 
 
As esquerdas desconfiam dos muito ricos e dos ricos e pretendem limitá-los e reduzi-los com elevados impostos (caso da esquerda social-democrata ou socialista reformista) ou eliminá-los enquanto classe social (caso dos comunistas marxistas-leninistas, dos trotskistas e dos anarquistas) visto que entendem que quanto mais ricos houver mais pobres haverá. As direitas apoiam os muito ricos e os ricos e defendem o direito a cada um enriquecer através do trabalho próprio e alheio, dizendo que os capitalistas são o motor da economia próspera e da sociedade livre e plural já que dão emprego a milhões de trabalhadores e promovem a diversidade (a direita fascista exerce um controlo estatal sobre os capitalistas não permitindo o livre funcionamento do mercado de capitais e bens em toda a sua extensão). 
 
ANARQUISMO (EXTREMA-ESQUERDA)
 
Ideia geral: O capitalismo (existência de empresários e assalariados, com os primeiros a apropriarem-se da MAIS-VALIA ou MAIS-VALOR que os operários criam) é um mau regime e o Estado, mesmo que tenha eleições livres e multipartidarismo (caso do Estado de direito democrático), é uma ditadura dos capitalistas ou dos aristocratas ou dos burocratas estalinistas sobre os trabalhadores, que são explorados. No capitalismo social-democrata (PS) ou neoliberal (PSD) e conservador (CDS), o parlamento e as eleições multipartidárias são uma farsa: ganham os partidos que gastam milhões na propaganda escrita e televisiva , nos comícios e campanhas de rua e depois os deputados eleitos não prestam contas ao povo e vivem como burgueses ricos. O marxismo-leninismo é uma má ideologia porque faz os operários cair sob a ditadura comunista-estalinista (Cuba, Coreia do Norte, etc).  Os anarquistas defendem a AÇÂO DIRETA – a luta de rua com a polícia que defende a burguesia – e alguns defendem o ATENTADO TERRORISTA SELETIVO. Há que suprimir o Estado (exército, polícia, tribunais, parlamento, etc) e instaurar a AUTOGESTÃO ou DEMOCRACIA DE BASE SEM PATRÕES anticapitalista: cada fábrica é gerida pela assembleia de operários e engenheiros, cada bairrro por uma assembleia de todos os moradores, as terras são geridas por cooperativas de trabalhadores, etc.. A economia é coletivista e pode haver pequenos negócios individuais (se um barbeiro não quer juntar-se à cooperativa local exerce sozinho, sem empregados): o povo governa e tem armas em casa (milícia popular), o aborto é livre, não há vacinas obrigatórias, gays e lésbicas são livres, a prostituição é proibida («o amor não se compra»), o ensino é gratuito e as escolas fazem os seus programas, as prisões quase não existem, há liberdade de viajar pelo mundo inteiro, as pessoas ganham mais ou menos o mesmo, não há desemprego.
 
 COMUNISMO MARXISTA-LENINISTA (VULGO: ESTALINISMO, ESQUERDA AUTORITÁRIA)
  
Ideia geral: O Estado, no capitalismo (regime da propriedade privada dos meios de produção – fábricas, terras, mar – e troca – hipermercados, bancos, etc) é uma ditadura da classe burguesa sobre o proletariado. Por isso os comunistas estão nos sindicatos, nas fábricas, nas ruas incentivando lutas contra a descida dos salários e a alta de preços nos transportes, na alimentação, etc. No capitalismo europeu e outro, os comunistas concorrem às eleições livres para eleger deputados no parlamento – ao contrário dos anarquistas – mas dizem que as eleições não são isentas porque os muito ricos financiam os partidos maiores, da burguesia, (PSD, CDS e PS, no caso português) e enganam ou alienam os trabalhadores. Quando o partido leninista se apoderar do Estado este passará a ser um instrumento dos trabalhadores. A economia «comunista» é coletivista e centralizada: as minas, a eletricidade, hipermercados, siderurgia, fábricas em geral são nacionalizadas, dirigidas pelo partido comunista, que não permite despedimentos e não autoriza greves nas suas empresas e na sociedade que ele domina. O aborto é permitido, os partidos de direita e centro-esquerda (socialistas) e os grupos anarquistas e trotskistas de extrema-esquerda são proibidos, a televisão e os jornais sofrem a censura (caso de Cuba, China e Coreia do Norte), as eleições são de lista única, em princípio. O estalinismo é a ditadura comunista incarnada num chefe (Estaline na URSS de 1922 a 1953) venerado e temido como um semi-deus. O objetivo último do comunismo é a sociedade sem classes à escala mundial, desaparecendo teoricamente os aparelhos de Estado (governo, parlamento, forças armadas, etc).
 
 
SOCIALISMO REFORMISTA OU SOCIAL-DEMOCRACIA (ESQUERDA CAPITALISTA-SOCIAL)
 
Ideia geral: uma vez que a anarquia é utópica e o comunismo leninista é uma ditadura sufocante, há que criar um capitalismo vincadamente social, dito de esquerda reformista, uma social-democracia, em que ao lado das empresas privadas, - cujos capitalistas pagam grandes impostos a fim de financiar o subsídio de desemprego universal, o ensino público gratuito, o sistema de saúde gratuito – existem as cooperativas e empresas em cogestão ( patrões e operários dividem lucros e direção da empresa) . Sustenta que nem tudo deve ser privatizado, algumas empresas estratégicas devem ficar na mão do Estado que faz preços mais baixos que os privados: a siderurgia, o transporte ferroviário, os autocarros urbanos, a rede nacional de eletricidade, um canal de televisão, os correios, etc. São permitidas as liberdades de imprensa, greve, manifestação de rua, sexual (uniões de gays e lésbicas), religião e ateísmo, aborto, eutanásia, ensino, ação de partidos políticos e sindicatos – tudo isto ideais da maçonaria que tem muitos políticos e intelectuais socialistas. A social-democracia defende a união europeia e a globalização capitalista mas põe reservas à desregulamentação desta. Deixa entrar na Europa os imigrantes vindos da Ásia, América Latina, África. Em Portugal, o PS e a ala direita do BE representam o socialismo reformista ou democrático.
 
 CENTRISMO SOCIAL-LIBERAL (JOHN RAWLS) OU CRISTÃO-DEMOCRATA
 
Ideia geral: o socialismo em qualquer uma das formas (anarquista, comunista leninista ou socialista democrático) é paralisante da economia porque tem demasiado coletivismo ou demasiado Estado na economia, o liberalismo, o conservadorismo e o fascismo são políticas que servem o egoísmo dos muito ricos e criam injustiça social. Assim há que lançar um meio termo: o centro social-liberal ou democrata-cristão. Não exige nacionalizar empresas – ao contrário das esquerdas – mas impõe impostos progressivos sobre os capitalistas (os destes que ganharem 1 milhão de euros ao mês pagarão, por exemplo, 50% de imposto). Defende a subsidiaridade (apoios aos mais pobres). Em Portugal, a ala direita do PS (Sócrates, etc) e ala esquerda do PSD e CDS representam o centrismo.
 
 
LIBERALISMO E NEOLIBERALISMO (DIREITA CAPITALISTA)
 
Ideia geral: o socialismo em qualquer uma das formas (anarquista, comunista leninista ou socialista democrático) é paralisante da economia porque tem demasiado coletivismo ou demasiado Estado na economia, assim o motor desta devem ser as empresas privadas porque os patrões é que sabem desenvolver investimentos e lucros e dar emprego. São permitidas as liberdades de imprensa, greve, manifestação de rua, sexual (uniões de gays e lésbicas), religião e ateísmo, aborto, eutanásia, ensino, ação de partidos políticos e sindicatos – tudo isto ideais da maçonaria que tem muitos políticos e intelectuais liberais e neoliberais . Os despedimentos devem ser fáceis, com pequenas ou nenhumas indemnizações aos operários, a liberdade económica (liberalismo) deve imperar, hospitais, serviços de eletricidade e águas municipais, escolas podem ser privatizados e o Estado deve emagrecer. Deixe-se enriquecer os muitos ricos, que paguem poucos ou nenhuns impostos, porque são eles que movimentam a economia, compram os automóveis, jóias e vestuário de luxo, etc. Os capitais devem circular livremente, apoia-se a União Europeia e a globalização. Em Portugal, o PSD representa esta corrente, ainda que haja uma minoria de centristas e sociais-democratas no PSD.

 
CONSERVADORISMO (DIREITA CAPITALISTA)
 
Ideia geral: o capitalismo (existência de patrões e assalariados) é o melhor regime possível, as esquerdas são negativas porque ameaçam os donos do capital privado, os poderes do Estado e da polícia devem ser fortes para reprimir os extremistas de esquerda e os desordeiros dos sindicatos, as igrejas (protestante ou católica ou outra) devem ser apoiadas porque são contra o aborto livre, o adultério e a promiscuidade sexual, e contra os casamentos de gays e lésbicas, o consumo livre de certas drogas, etc. Defende as privatizações das empresas estatais – a eletricidade, as águas, os transportes públicos urbanos, muitos hospitais e escolas devem sair das mãos do Estado e ser vendidos a capitalistas e acionistas privados- e a extinção do rendimento mínimo garantido a fim de obrigar «os que não trabalham a procurar emprego». O conservadorismo apoia uma certa democracia pluralista (o parlamento, as eleições livres) mas, é fortemente anticomunista e antianarquista e, em certos casos, pode exigir a ilegalização dos partidos comunistas. Quer alguma distância face ao federalismo europeu. Em Portugal, o CDS é o partido conservador.
 
FASCISMO OU ABSOLUTISMO MONÁRQUICO (EXTREMA-DIREITA)
 Ideia geral: O anarquismo e o comunismo são o mal maior porque suprimem a iniciativa privada, mas a social-democracia (centro-esquerda) e o liberalismo e conservadorismo (direitas) são más políticas porque promovem a democracia liberal ou parlamentar, governo dos muito ricos e da imoralidade. Há que expulsar imigrantes e manter a raça portuguesa livre de “contaminação”, fazendo Portugal sair da União Europeia. Há que proibir a pornografia na televisão e cinema, desenvolver as ideias de «Deus, pátria, família e honra militar», perseguir ou neutralizar gays e lésbicas, proibir os partidos políticos e as eleições livres, acabar com os sindicatos, as greves e manifestações de protesto, militarizar a sociedade e estabelecer uma paz autoritária em que as pessoas obedeçam ao chefe sem contestar. Nas escolas, deve haver separação de sexos. Haverá restrições ao uso da internet e a polícia política poderá prender a qualquer momento os subversivos. Ditadura de um partido único anticomunista e tradicionalista é a solução. Há que promover um capitalismo nacional, fortemente controlado pelo Estado, baseado no corporativismo que impede a luta de classes: os patrões ficam proibidos de despedir operários e estes impedidos de fazer greve e propaganda política contra o Estado Nacional.
 
ALGUMAS QUESTÕES PARA ESTUDANTES
 
 
1) Destas 7 correntes políticas há 4 que aceitam a democracia parlamentar/ liberal como um fim em si mesma, como o regime mais perfeito. Quais são?
 
Resposta: São os socialistas reformistas ou sociais-democratas, os centristas, os liberais e neoliberais e os conservadores.
 
2) Destas 7 correntes há 3 que, embora usando o Estado de direito democrático, o querem substituir a longo prazo. Quais são? Quais os seus argumentos?
 
Resposta: As três correntes que desdenham da democracia liberal capitalista e pretendem substitui-la são: anarquistas, comunistas leninistas e fascistas. Os anarquistas dizem que todo o Estado, inclusive o de regime parlamentar democrático, é uma ditadura da burguesia sobre o proletariado e, por isso, não concorrem sequer às eleições legislativas, querem a revolução social. Os comunistas leninistas também consideram o Estado capitalista democrático um orgão de opressão dos trabalhadores e advogam a instauração de um Estado operário comunista centralizado em que suprimem as liberdades burguesas de formação de partidos políticos, de imprensa, etc. Os fascistas dizem que a democracia liberal coloca os plutocratas, os muito ricos, e a imoralidade no poder e desnacionaliza a pátria, pelo que defendem a ditadura nacionalista de direita.
 
 
3) Onde há maior participação dos trabalhadores: na empresa nacionalizada, na empresa em autogestão ou na empresa privada?
 
Resposta: Teoricamente, a maior participação dos trabalhadores é na empresa em autogestão visto que nesta há assembleias deliberativas de todos os trabalhadores, operários, engenheiros, contabilistas.
 
4) Em que medida reflete a democracia liberal ou parlamentar as éticas de Kant e de Stuart Mill?
 
Resposta: A ética de Kant com o imperativo categórico obriga a estender universalmente a todos os indivíduos aquilo que achamos justo fazer e desfrutar. Assim se eu desejo influenciar o poder político, desejo o mesmo para todas as pessoas - e daí surge o direito universal ao voto, a exprimir-se livremente nas ruas, a formar partidos políticos, sindicatos, empresas, etc.
A ética de Mill defende a maximização do prazer, isto é, estendê-lo à maioria das pessoas. Ora a democracia liberal manda que governe o partido da maioria.
 
5) Há três correntes que se reclamam do “socialismo”. Distinga esses três conceitos de socialismo.
 
Resposta: O socialismo reformista é um capitalismo social, reformado, uma combinação entre o capitalismo de estado (exemplo: as grandes empresas de transportes, a siderurgia, a rede elétrica, a universidade, os grandes hospitais, etc, ficam na mão do Estado) e o capitalismo privado, de tal modo que a sociedade capitalista fica um pouco «socializada» com o serviço nacional de saúde e o ensino gratuitos, o rendimento social de inserção, os impostos progressivos,etc. Respeita os patrões e acha-os necessários.
O socialismo marxista-leninista é um capitalismo de estado, ou seja, coloca a economia toda ou quase toda nas mãos do Estado dirigido pelo partido comunista que garante emprego a todos e reduzidas diferenças salariais, ainda que coarctando as liberdades individuais e de classe ( Estado totalitário de esquerda),
O socialismo anarquista é o poder directo dos proletários sobre os meios de produção (fábricas, terras, etc) e implica a desaparição do Estado central, do exército e da polícia e do parlamentarismo.

 

 

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Ontologia e ética do taoísmo

 

Quais os traços da ontologia e da ética do taoísmo, tal como são expressos no «Livro do caminho» de Lao Tsé?
 
A Ontologia ou teoria do ser e do ente, base da ética, resume-se assim: o Tao, mistura de Não-Ser e Ser, é o fundo sem forma e o movimento estruturador das formas do universo, e traduz-se em uma onda com duas partes ou momentos, Yin (escuridão, frio, contração, azul, baixo, feminino, interior, matéria) e Yang (luz, calor,dilatação, vermelho, alto, masculino, exterior, espírito).
 
A ética do taoísmo resume-se assim: praticar o não agir ou quietismo- exemplo: um país grande não deve lançar guerras contra os outros, em particular contra os pequenos; uma pessoa não deve contrair empréstimos para fazer investimentos de risco nem ambicionar mais do que a sua situação natural lhe oferece - esconder do povo os negócios secretos do Estado, levar uma vida simples de camponês ou ecologista ligado ao ritmo natural do universo (Tao), ser astucioso com os inimigos fortes, adulando-os e fortalecendo-os, de modo a derrubá-los em momento posterior, desconfiar do ensino livresco que busca honras e afasta do Tao e praticar o ensino sem palavras 
 
Eis alguns poemas e excertos de poemas de Lao Tsé que demonstram isso:
 
 
XXXVII
«O Tao propriamente dito não age
 «e, no entanto, tudo se faz por seu intermédio.» (...)
«A profundidade sem nome
 é o que não tem desejo.
«É pelo sem desejo e pela quietude
«que o universo se rege por si próprio.»
(Lao Tsé, Tao Te King, Editorial Estampa, pag 49)
 
 XLVIII
«Aquele que se dedica ao estudo
cresce de dia para dia.
Aquele que consagra ao Tao
diminui de dia para dia. »
 
«Vai diminuindo sempre,
para chegar ao não-agir.  
Pelo não-agir,
nada há que se não faça.
 
«É pelo não fazer
que se ganha o universo.
Aquele que que quer fazer
não pode ganhar o universo.» (ibid, pag. 61)
 
 XLVII
 
«Sem passar a soleira da sua porta,
conhece-se o universo.
Sem olhar pela sua janela,
percebe-se a via do céu. »
 
«Quanto mais se caminha,
menos se conhece.»
 
«O santo conhece sem viajar,
«compreende sem olhar,
realiza sem agir.»  (ibid, pag. 60).
 
 
XXXVI
«Quem quer humilhar alguém
deve primeiro engrandecê-lo.
Quem quer enfraquecer alguém,
deve primeiro fortalecê-lo.
 
Quem quer eliminar alguém,
deve primeiro exaltá-lo.
Quem quer suplantar alguém
deve primeiro fazer-lhe concessões.
Tal é a visão subtil do mundo.» (ibid, pag 48)
 
 
XIX
«Rejeita a sabedoria e o conhecimento,
o povo tirará cem vezes mais proveito.
 
«Rejeita a bondade e a justiça,
o povo voltará à piedade filial e ao amor paternal.
«Rejeita a indústria e o seu lucro,
os ladrões desaparecerão.»
 
«Se estes três preceitos não forem suficientes,
ordena o que se segue:
«Distingue o simples e abraça o natural,
reduz o teu egoísmo
e refreia os teus desejos».
 
 XXXVIII
«A virtude suprema é sem virtude,
é por isso que ela é a virtude.
A virtude inferior não se afasta das virtudes,
é por isso que não é a virtude.
 
«Quem possui a virtude superior não age
e não tem objetivos.
Quem só possui a virtude inferior age
 e tem um objetivo.
 
«Depois da perda do Tao, vem a virtude.
Depois da perda da virtude, vem a bondade.
Depois da perda da bondade, vem a justiça.
Depois da perda da justiça vem o rito.
O rito é a aparência da fidelidade e da confiança,
mas é também a fonte da desordem.» (ibid, página 50)
 
«O Tao que se procura alcançar não é o próprio Tao;
o nome que se lhe quer dar não é o seu nome adequado.»
 
«Sem nome, representa a origem do universo;
com um nome, torna-se a mãe de todos os seres.
Pelo não-ser, atinjamos o seu segredo;
pelo ser, abordemos o seu acesso.
Não-Ser e Ser saindo de um fundo único só se diferenciam pelos seus nomes.
Esse fundo único chama-se Obscuridade.
Obscurecer esta obscuridade, eis a porta de toda a maravilha.»  (ibid, pag 13)
 
II
«Todos consideram o belo como belo,
é nisso que reside a sua fealdade.
Todos consideram o bem como bem,
é nisso que reside o seu mal.
 
«Porque o ser e o nada engendram-se.
O fácil e o difícil completam-se.
O antes e o depois sucedem-se».
 
«Por isso, o santo adota
a tática do não-agir,
e pratica o ensino sem palavra.
Todas as coisas do mundo surgem
sem que seja ele o autor. »
 
«Produz sem se apropriar,
age sem nada esperar,
acabada a sua obra, a ela não se prende,
e porque a ela não se prende,
a sua obra permanecerá.» (ibid, pag 14)
 

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Quarta-feira, 25 de Janeiro de 2012
Kant confundiu-se sobre a causalidade natural e o incondicionado

 

Kant mergulhou, por vezes, no magma da incoerência. Escreveu:

 

«.. A causalidade incondicionada da causa no fenómeno denomina-se liberdade; a causalidade condicionada recebe o nome de causa natural no sentido mais estrito. O condicionado na existência em geral designa-se por contingente e o incondicionado por necessário. À necessidade incondicionada dos fenómenos pode chamar-se necessidade natural.» (Kant, Crítica da Razão Pura, páginas 387-388, Fundação Calouste Gulbenkian; o destaque a negrito é de minha autoria).

 

Kant equivoca-se: por que motivo o condicionado na existência se designa por contingente e o incondicionado por necessário? A gestação de um bebé e o subsequente parto é uma sucessão de factos condicionados, como elos de uma cadeia de causas e efeitos, e é uma necessidade natural, uma lei vigente em todas as mulheres grávidas, lei que pode ter variações de pormenor. Como pode Kant chamar a esta necessidade (lei de causa-efeito uniforme, fixa) natural uma necessidade incondicionada dos fenómenos, se incondicionado significa livre? Percebe-se que Kant deseja exprimir que as leis da natureza apresentam falhas, excepções, e para esse efeito coloca a palavra incondicionada junto da palavra natureza. No entanto, os fenómenos não são livres na natureza, uma vez que são condicionados pelas categorias de necessidade e de causa-efeito do entendimento, na ontognosiologia kantiana.

 

Se à causa natural chama «causalidade condicionada» como pode, duas linhas abaixo, chamar-lhe «necessidade incondicionada dos fenómenos»?  É o mesmo que dizer: o movimento de rotação da Terra em torno do seu eixo é causalidade condicionada e... causalidade necessária livre. Não bate a bota com a perdigota.

 

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Sexta-feira, 20 de Janeiro de 2012
Heidegger inverteu o conceito tradicional de fenómeno

 

Heidegger inverteu o sentido tradicional da palavra fenómeno (phainomenon= o que aparece, o visível, audível e palpável, em grego).  :

 

« O conceito fenomenológico de fenómeno entende por "o que se mostra" o ser dos entes, o seu sentido, suas modificações e derivados. E o mostrar-se não é um mostrar qualquer, nem muito menos o que se diz "aparecer". O ser dos entes é o que menos pode ser algo atrás do qual esteja algo que não apareça.»

«"Atrás" dos fenómenos da fenomenologia, não está essencialmente nenhuma coisa, mas sim, pode estar, oculto o que pode tornar-se fenómeno. E precisamente porque os fenómenos não estão dados imediata e regularmente, é necessária a fenomenologia. Encobrimento é o conceito contrário de "fenómeno". 

«A forma na qual os fenómenos podem estar encobertos é variada. Em primeira instância, pode estar encoberto um fenómeno no sentido de estar ainda não descoberto. (...)»

«"Fenoménico" chama-se ao que se dá e é explanável na forma peculiar de enfrentar o fenómeno, daqui o falar-se de estruturas fenoménicas. "Fenomenológico" diz-se de tudo o que entra na forma de mostrar e explanar e o que constitui os conceitos requeridos nesta disciplina.»

« Fenómeno em sentido fenomenológico é só aquilo que é ser, mas ser é sempre ser de um ente: daqui que quando se visa libertar o ser, seja necessário fazer comparecer o ente na forma apropriada.» (Martin Heidegger, El Ser y el tiempo, páginas 46-47)

 

 

Kant já havia distinguido fenónemo de aparência - exemplo: o vinho é um fenómeno, mas a cor e o sabor do vinho são aparências - de tal modo que se poderia dizer que o fenómeno é um objeto ilusório ou semi-real, acidental, algo inaparente. Se em Kant o fenómeno é "o objeto indeterminado de uma intuição empírica" e se situa na sensibilidade, no espaço ou sentido externo, em Heidegger o fenómeno - não falamos do fenómeno psíquico mas dos fenómenos janela, casa, Estado, etc - situa-se no mundo, fronteira do eu com os objetos reais - «janela» entre o eu e os objetos exteriores, já que o cão e a abelha não têm mundo, só o homem possui mundo - ou é o conjunto de objetos intemporais e transmundanos equivalentes aos númenos em Kant e aos arquétipos em Platão.

 

A inversão do conceito tradicional de fenómeno feita por Heidegger é paralela a outras inversões terminológicas operadas por este pensador alemão : com Heidegger, existência deixa de ser o ato ontológico (o estar, a presença indeterminada) de qualquer essência e passa a ser a essência de cada ente, a forma fundamental, o ser plasmado no ente determinado. Heidegger quis notabilizar-se mudando, se não as regras do jogo do pensar filosófico, ao menos as fichas, a terminologia. Estava no direito de o fazer. Mas não foi transparente ao explicar estas mudanças terminológicas e isso rendeu-lhe uma aura suplementar de veneração junto do público que gosta do que é misterioso e admira o que não entende.  

 

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Quinta-feira, 19 de Janeiro de 2012
Heidegger acusa, sem razão, a ontologia tradicional de confundir ser e tempo

Heidegger acusa, sem razão, a ontologia tradicional de confundir o ser com o tempo:.

 

«O tempo funciona há muito tempo como critério ontológico, ou mais precisamente ôntico, de distinção ingénua das diversas regiões de entes. Deslindam-se os entes “temporais” (os processos da natureza e as gestas da história) dos entes “intemporais” (as relações espaciais e numéricas).(...) Encontra-se, ademais, um abismo entre o ente "temporal" e o eterno "supratemporal" e intenta-se franqueá-lo. "Temporal" aqui quer sempre dizer tanto como sendo "no tempo", uma determinação que, por sua vez, é, sem dúvida, obscura. Mas o facto é este: o tempo, no sentido de "ser no tempo", funciona como critério de distinção das regiões do ser» (Heidegger, El Ser y el tiempo, Fondo de Cultura Económica, pag 28).

 

Pergunta-se: é possível estudar o ser desligando-o do tempo? Não. O ser, na teoria de Tales de Mileto, é a água e a determinação desta como ser deve-se à sua forma omnipresente (espacialidade, materialidade) e à permanência eterna (na sucessão infinita de caos e cosmos, composta de tempos, de ciclos temporais, em que tudo é água).

 

O ser, na teoria de Platão, é o mundo inteligível, imóvel, supraceleste, o uno, múltiplo na variedade dos seus arquétipos: o Bem, o Belo, o Justo, o Triângulo, o Número Um, etc. Os arquétipos (ser) não se confundem com o tempo, porque estão na eternidade, fora do devir próprio do tempo.

 

O tempo não é o único critério ontológico mas é um indispensável critério ontológico.


 

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Domingo, 15 de Janeiro de 2012
Schopenhauer: as diferenças entre o homem e a mulher e como o Eros manipula o génio protetor de cada indivíduo

 

Arthur Schopenhauer (22 de Fevereiro de 1788- 21 de Setembro de 1860) foi um representante do idealismo volitivo, uma corrente que sustenta que o mundo material é meramente mental, é projeção da vontade (volição) associada à mente e é imanência a esta. Foi um dos raros filósofos que compreenderam integralmente a doutrina de Kant - ao contrário de Russell, Sartre, Heidegger e a generalidade dos académicos de hoje -  e foi um crítico implacável de Hegel.

 

Porém, na análise psicológica dos sexos e do amor, adotou uma teoria similar à da astúcia da razão engendrada por Hegel (os estadistas e outros atores da história como regicidas, generais, etc, executam nas ações que levam a cabo por impulso ou «livre-arbítrio», sem se darem conta, a vontade da razão universal) ao teorizar o génio da espécie. Este  é a força do instinto de Eros, impessoal, que domina e manipula os indivíduos como marionetas. Antes de tudo, como um pilar da sua antropologia, Schopenhauer sustentou que o amor do homem é, por natureza, polígamo e o da mulher, por natureza, monógamo: 

 

«Em primeiro lugar, deve notar-se que o homem é, por temperamento, propenso à inconstância no amor e a mulher à fidelidade. O amor de um homem declina de um modo sensível, a partir do instante em que foi satisfeito; parece que todas as mulheres têm mais atrativos do que a possui; aspira à mudança. O amor da mulher, pelo contrário, aumenta a partir desse momento. É essa uma consequência do fim da natureza, dirigido para a conservação e, por conseguinte, para o aumento, o mais considerável possível, da espécie. O homem, de facto, pode facilmente gerar mais de cem filhos num ano, se tiver outras tantas mulheres à disposição; a mulher, pelo contrário, ainda que tivesse o mesmo número de maridos não podia dar à luz mais do que um filho por ano,  excetuando os gémeos. Por isso, o homem anda sempre à procura de outras mulheres, enquanto a mulher se conserva fielmente dedicada a um só homem, porque a natureza a impele instintivamente e sem reflexão a conservar junto de si aquele que deve alimentar e proteger a pequena família futura. Daí resulta que a fidelidade no casamento é artificial para o homem e natural na mulher, e portanto o adultério da mulher por virtude das consequências que acarreta, e por ser contra a natureza, é muito mais imperdoável que o do homem.»(Schopenhauer, Metafísica do amor, páginas 38-39, Inquérito; o negrito é posto por mim. )

 

Esta concepção, que é a da tradição esotérica - o homem é Yang, movimento, luz, exterioridade, dilatação, fogo e ar; a mulher é Yin, repouso, sombra, interioridade, contração, água e terra - é rejeitada pelos movimentos feministas e pelo igualitarismo sexual hoje dominante no mundo.

 

A FINALIDADE DA ATRAÇÃO ERÓTICA E DO CASAMENTO É A PROCRIAÇÃO

 

 

É o instinto genésico, instinto da espécie que atravessa o indivíduo,  o guia na atração sexual, diz Schopenhauer. E por isso as mulheres preferem os homens de 30 a 35 anos aos rapazes de 20:

 

«Não podemos naturalmente enumerar com tanta exatidão as considerações inconscientes às quais se liga a inclinação das mulheres. Eis o que se pode afirmar de um modo geral. É a idade dos 30 aos 35 anos que elas preferem a qualquer outra, mesmo à dos jovens, que contudo representam a flor da beleza feminina. A causa é serem dirigidas não pelo gosto, mas pelo instinto, que reconhece nesses anos o apogeu da força geradora. Em geral, dão pouca importância à beleza, principalmente à do rosto; como se elas se encarregassem, por si sós, de a transmitirem à criança. É acima de tudo a coragem e a força do homem que lhes conquista o coração, porque estas qualidades são penhor duma geração de crianças robustas, e parecem assegurar-lhes, no futuro, um protetor corajoso.»

 

««A estupidez não prejudica os homens junto das mulheres; o espírito superior, ou mesmo o génio, pela sua desproporção, têm muitas vezes um efeito desfavorável. Vê-se frequentemente um homem feio, estúpido e grosseiro suplantar junto das mulheres um outro bem feito, espirituoso, delicado. Vêem-se igualmente casamentos de inclinação entre pessoas tão diferentes quanto é possível no ponto de vista do espírito: ele por exemplo, brutal, robusto e estúpido; ela, meiga, impressionável, pensando delicadamente, instruída, requintada, etc; ou, então, ele muito sábio, cheio de talento, e ela, uma pateta (...)» «A razão disso é que as considerações que predominam aqui nada têm de intelectual e dizem respeito ao instinto. No casamento, o que se tem em vista não é um colóquio cheio de espírito, é a criação dos filhos; o casamento é um laço dos corações e não das cabeças. Quando uma mulher afirma que está enamorada do espírito de um homem, é uma pretensão vã e ridícula, ou a exaltação de um ser degenerado. Os homens, por sua vez, no amor instintivo, não são determinados pelas qualidades de caráter da mulher.» (Schopenhauer, páginas 41-44, ibid; o negrito é acentuado por mim).

 

Assim, a procriação é a finalidade inconsciente da união erótica entre homem e mulher e do casamento. O instinto da espécie é uma inteligência animal que perpassa em todos os exemplares do género humano.

 

AMAR AQUILO QUE FALTA, POR ORDEM DO GÉNIO DA ESPÉCIE

 

A visão de Schopenhauer é dialética, baseada no mais alto grau da contradição - que não é a colatarealidade, nem a relatividade posicional mas a contrariedade.

 

«Todos amam precisamente o que lhes falta. (..) É assim que o homem mais viril procurará a mulher mais feminina, e vice-versa. (..) Há casos excecionais em que um homem se pode apaixonar por uma mulher decididamente feia: de acordo com a lei da concordância dos sexos, isto dá-se quando o conjunto dos defeitos e das irregularidades físicas da mulher são, justamente, a antítese e, por conseguinte, o corretivo dos do homem. Neste caso, a paixão atinge geralmente um grau extraordinário.»

«O indivíduo obedece em tudo isto, sem que o perceba, a uma ordem superior, à da espécie: daí a importância que liga a certas coisas que, como indivíduo, poderiam e deveriam ser-lhe indiferentes. » (Schopenhauer, Metafísica do Amor, páginas 44-49; o negrito é posto por mim)

 

Schopenhauer põe em relevo a luta entre o manipulador génio da espécie, o Cupido que atinge solteiros e casados e faz e desfaz relações amorosas e sociais, e o génio protetor de cada indivíduo:

 

«O génio da espécie está  sempre em guerra com os génios protetores os indivíduos, é o seu perseguidor e inimigo, sempre pronto a destruir sem piedade a felicidade pessoal, para alcançar os seus fins(...)

 

«Os casamentos de amor são concluídos no interesse da espécie e não em proveito do indivíduo. Os indivíduos imaginam, é certo, que trabalham para a própria felicidade; mas o verdadeiro fim é-lhes estranho, visto que não é outro senão a procriação dum ser que só é possível por meio deles. Obedecendo ambos ao mesmo impulso, devem naturalmente procurar entender-se o melhor possível.» (Schopenhauer, Ibid, pág. 62)

 A VONTADE DE VIVER

 

A vontade de viver, imortalmente no seio da espécie, vontade comum a religiosos, agnósticos e ateus, é, segundo Schopenhauer, a chave do comportamento humano, em particular no campo do amor sexual e do casamento. Não é apenas uma vontade de viver num mundo que nos é dado de fora: essa vontade é a criadora do mundo, mundo este que é um conjunto de representações e ilusões. As árvores só existem porque nós as projetamos e não são independentes de nós, a beleza daquela mulher ou a fealdade de outra é criação da vontade de viver que anima o nosso ser.

 

 

«O homem prova assim que a espécie lhe importa mais do que o indivíduo, e que vive mais diretamente naquela do que neste. Porque é então que o enamorado fica suspenso, num absoluto abandono, dos olhos daquela a quem escolheu? Porque está pronto a fazer por ela todos os sacrifícios? - Porque é a parte imortal do seu ser que suspira por ela, enquanto todos os seus outros desejos só se referem ao ser fugidio e mortal. Esta aspiração viva, fervorosa, dirigida para uma certa mulher, é pois um penhor da indestrutibilidade da essência do nosso ser e da sua continuidade na espécie». (..)

«Essa essência oculta é justamente o que está no fundo da nossa consciência e lhe forma o nódulo central, o que é mesmo mais imediato que essa consciência; e, na sua qualidade de "coisa em si", liberta do "principium individuationis", essa essência é absolutamente idêntica em todos os indivíduos, quer existam simultaneamente, quer se sucedam. É a isso que eu chamo, por outras palavras, "vontade de viver", isto é, essa aspiração premente à vida e à duração.»

 (Schopenhauer, ibid, pág. 65-66).

 

Aparentemente muito distante de Hegel, Schopenhauer não escapa ao traço nivelador do século XIX quando admite que a essência de cada homem é, principalmente, o princípio da espécie, a vontade de viver coletiva, e não o princípio da individuação que é fonte do egoísmo pessoal.

 

 

A INTELIGÊNCIA ABSTRATA DO HOMEM E A INTELIGÊNCIA CONCRETA E IMEDIATISTA DA MULHER

 

 

O senso prático na mulher é mais intenso do que no homem, segundo Schopenhauer. Mas senso prático não significa sempre bom senso. Significa que a mulher está mais atenta aos pormenores visíveis do quotidiano - elas reparam mais nas unhas ou nos sapatos que o homem usa do que nós nos correspondentes adereços delas; e compram, certamente, géneros mais baratos e de melhor qualidade nas lojas do que se fossem os maridos a fazê-lo. A mulher é capaz de gozar mais o momento do que o homem e, por isso, de ser mais alegre.

 

«Quanto mais nobre e perfeita é uma coisa, tanto mais lenta e tardiamente se desenvolve. A razão e a inteligência do homem só atingem pleno desenvolvimento aos vinte e oito anos; na mulher a maturidade do espírito dá-se aos dezoito anos. Por isso, só tem uma razão de dezoito anos, estritamente medida. É esse o motivo por que as mulheres são toda a vida verdadeiras crianças. Só vêem o que têm diante dos olhos, agarram-se ao presente, tomando a aparência pela realidade e preferindo as ninharias às coisas mais importantes.»

«O que distingue o homem do animal é a razão; confinado no presente, lembra-se do passado e pensa no futuro: daí a sua prudência, os seus cuidados, as suas frequentes apreensões. A razão débil da mulher não sofre dessas vantagens nem desses inconvenientes; sofre duma miopia intelectual que lhe permite, ver de uma maneira penetrante as coisas próximas; mas o seu horizonte é limitado, escapa-se-lhe o que está distante. Daí resulta que tudo quanto não é imediato, o passado e o futuro, atuam mais fracamente na mulher do que em nós: daí também a tendência muito mais frequente para a prodigalidade, e que por vezes toca as raias da demência.»

 

«No seu íntimo, as mulheres entendem que os homens são feitos para ganhar dinheiro e elas para o gastar; e se o não podem fazer durante a vida do marido, desforram-se depois da morte dele.» (...)

 

 «Em circunstâncias difíceis é preciso não desdenhar recorrer, como outrora os Germanos, aos conselhos das mulheres, porque elas têm uma maneira de conceber as coisas totalmente diferentes da nossa. ´Vão direitas ao fim, pelo caminho mais curto, porque fixam geralmente os olhares no que têm mais à mão. Nós, pelo contrário, não vemos o que nos salta aos olhos, e vamos procurar muito mais longe; precisamos que nos levem a uma maneira de ver mais simples e mais rápida. Acrescente-se ainda que as mulheres têm decididamente um espírito mais ponderado, e só vêem nas coisas o que nelas há realmente; ao passo que nós, impelidos pelas paixões excitadas, aumentamos os objetos e representamos quimeras.»

«As próprias aptidões naturais explicam a piedade, a humanidade, a simpatia que as mulheres testemunham aos desgraçados, ao passo que são inferiores aos homens no que respeita à equidade, à retidão e à escrupulosa probidade. Devido à fraqueza da sua razão, tudo o que é presente, visível e imediato, exerce sobre elas um domínio contra o qual não conseguiriam estabelecer as abstrações, nem as máximas estabelecidas, nem as resoluções enérgicas, nem consideração alguma do passado ou do futuro, do que está afastado ou ausente. Possuem da virtude as primeiras e principais qualidades, mas faltam-lhe as secundárias e acessórias...

 «Assim a injustiça é o defeito capital dos temperamentos femininos. Isto resulta da falta de bom senso e de reflexão que apontamos; e o que agrava ainda este defeito, é que a natureza, recusando-lhes a força, deu-lhes a astúcia para lhes proteger a fraqueza; daí a sua instintiva velhacaria e a invencível tendência para a mentira.» (...)

«Deste defeito fundamental nascem a falsidade, a infidelidade, a traição, a ingratidão, etc.»

(Schopenhauer, Ensaio acerca das mulheres, in Metafísica do amor, páginas 74-77; o negrito é posto por mim).

 

Este texto de Schopenhauer, extraordinariamente interessante e polémico, faz estremecer de indignação o universo feminino libertário e demo-liberal atual que faz passar as ideias de que «as mulheres são mais inteligentes do que os homens» e de que «quase não houve mulheres filósofas consagradas nos séculos que transcorreram porque a educação literária e a escolaridade eram praticamente só reservadas aos homens.»

 

 

 

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Quarta-feira, 11 de Janeiro de 2012
Luís Rodrigues e Luís Gottschalk não compreendem o idealismo de Kant (Crítica de Manuais Escolares- XL)

 

No seu manual para o ensino secundário, adotado em dezenas ou mesmo centenas de escolas em Portugal, Luís Rodrigues demonstra, à semelhança de Karl Popper, de Bertrand Russell e dos professores universitários portugueses e estrangeiros em geral, uma incompreensão fundamental da ontognosiologia de Kant. Escreve Rodrigues:

 

«Assim todo o conhecimento começa com a intuição sensível, ou seja, com a recepção de dados ou impressões sensíveis mediante duas formas com as quais a sensibilidade está equipada: o espaço e o tempo. Intuir é, portanto, receber dados empíricos, espacializando-os e temporalizando-os.»

 

«Exemplificando:

 

«Um automóvel passa frente à minha casa ao meio-dia, fazendo muito barulho e buzinando constantemente. O automóvel provoca em mim uma determinada impressão sensível. Eu recebo esta impressão sensível de uma determinada forma, isto é, espacializo-a e temporalizo-a porque me refiro ao barulho do automóvel como verificando-se em frente à minha casa (espacialização) e a uma determinada hora (temporalização). Assim, vê-se que a intuição sensível consiste em estabelecer uma relação espácio-temporal entre as impressões sensíveis (sensações) provenientes das coisas (por exemplo, do automóvel).» (Luís Rodrigues, Filosofia 11º ano, Plátano Editora, página 198, consultor, Luís Gottschalk; a letra a negrito é um sublinhado meu).

 

O erro de Luís Rodrigues é não perceber que o automóvel não é uma coisa exterior ao espírito humano mas uma construção dentro deste, um fenómeno cuja consistência é ideal-sensorial, ou seja, é um conjunto de intuições empíricas geradas no espaço que constitui a «mente exterior do sujeito». Rodrigues e Gottschalk interpretam Kant como se este fosse um realista ontológico - no caso: como se o automóvel existisse fora do espírito do sujeito e circulasse por uma rua exterior ao espírito humano- quando Kant é um idealista ontológico ou idealista transcendental, isto é, alguém que diz que os objetos materiais são conjuntos de sensações ou ideias forjadas na parte da minha mente que extravasa o meu corpo físico e engloba o universo inteiro.

 

Que diz Kant sobre a matéria que compreende, no caso que estamos a considerar, a chapa, o volante, o motor, os estofos, os pneus do automóvel? Que a matéria é uma simples representação, um conjunto de imagens e conceitos no nosso espírito:

 

«Com efeito, a matéria cuja unidade com a alma levanta tão grandes dificuldades não é outra coisa que uma simples forma ou um simples modo de representação de um objeto desconhecido, formado por aquela intuição que designamos por sentido externo. Deve, portanto, haver algo fora de nós a que corresponde esse fenómeno que chamamos matéria.» (Immanuel Kant, Crítica da razão pura, páginas 361-362, nota de rodapé, Fundação Calouste Gulbenkian; a letra a negrito é colocada por mim).

 

A matéria não é um «em si». Não é algo que exista independente de nós. O fenómeno (automóvel, casa, gato, etc) não está fora de nós, do nosso eu-espírito-cosmos: está somente fora do nosso corpo físico. Mas Rodrigues e Gottschalk apresentam-nos o automóvel, que é matéria, como coisa em si, independente de nós. É ainda um erro falar nas «impressões sensíveis (sensações) provenientes das coisas (por exemplo: o automóvel) », coisas estas que estariam fora de nós. Os objetos fora de nós (númenos) não nos enviam sensações: estas são produzidas na nossa sensibilidade, dentro de nós, sob o influxo de uma desconhecida excitação exterior emanada dos númenos, o que é diferente.

 

Este equívoco de supor que segundo a gnosiologia de Kant, há um objeto material fora de nós é geral no meio dos professores universitários e leva-me a interrogar: há verdadeiros filósofos nas cátedras universitárias de hoje ou apenas reprodutores, algo inábeis porque deformantes, da tradição filosófica?  

 

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Terça-feira, 10 de Janeiro de 2012
Questionar Kant,: por que razão a categoria de causa-efeito não está no mesmo grupo que a de necessidade-contingência?

 

Kant definiu, de modo  imperfeito,doze categorias ou conceitos puros do entendimento que permitem moldar e pensar os fenómenos. Como categorias da  relação colocou:

 

Inerência e subsistência

(substantia et accidens)

 

Causalidade e dependência

(causa e efeito)

 

Comunidade

(acção recíproca entre

o agente e o paciente)
 

(Kant, Crítica da Razão Pura, página 111, Fundação Calouste Gulbenkian).

 

E como categorias da modalidade Kant definiu as seguintes:

 

Possibilidade-Impossibilidade

Existência - Não-existência

Necessidade-Contingência.

 

Por que razão sendo a necessidade a lei de causa-efeito uniforme e infalível não figura nas categorias da relação, junto da causa-efeito, mas sim nas da modalidade? A causa-efeito é género e a necessidade - as mesmas causas produzem sempre os mesmos efeitos nas mesmas circunstâncias - é uma sua espécie. Outra espécie deste género causa-efeito é a contingencialismo ou indeterminismo - nas mesmas circunstâncias, as mesmas causas não produzem sempre os mesmos efeitos.

 

Era pois mais lógico que Kant tivesse enunciado umas categorias da regularidade ou da causalidade que seriam:

 

Causa-efeito.

Causa-efeito uniforme e infalível (necessidade),

Causa-efeito falível (contingência).

 

Kant não possuía um pensamento completamente dialético em matéria de categorias do entendimento que permitisse arrumar estas de forma perfeitamente racional..  

 

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