Domingo, 28 de Junho de 2009
R.M.Hare se equivoca sobre los sentidos que Platón atribuyó a «Es»

Richard M.Hare atribuye a Platón una incapacidad de distinguir entre el «es» que significa existencia y el «es» que significa predicación, es decir, pertenencia a una esencia.

 

«El falso objecto de creencia "no es" lo que pretende ser; y Platón, debido a que no distinguió en un principio entre el "es" que significa lo mismo que "existe" (como en «el Imperio Britanico ya no es») y el «es» que expresa predicación (la cópula, como «él es alto») se encuentra en un aprieto de si cuando tenemos falsas creencias, estamos viendo o captando lo que “no es”, y por consiguiente si, cuando hacemos esto, no tenemos en absoluto cosa alguna en la mente. Pero si no tenemos nada delante de la mente, ¿cómo podemos estar creyendo algo? El resultado parece ser paradójico, que no podemos tener falsa creencia.» (, R.M.Hare, Platón, Alianza Editorial, pag 61; el bold es nuestro).

 

En la República de Platon se aborda el enunciado verdadero como el que designa lo que es:

«Sócrates- ¿No existirá, pues, un enunciado verdadero y un enunciado falso?

Hermógenes- Desde luego.

Sócrates-¿ Y no sería verdadero el que designa las realidades como son y falso el que las designa como no son?

Hermógenes- Sí.

Sócrates- ¿ Es portanto posible decir en un enunciado lo que es y lo que no es?

Hermógenes- Ciertamente.

(Platón, Crátilo, in Apologia de Sócrates, Ménon, Crátilo, Alianza Editorial, pag 130) 

 

Designar las realidades como son es función de los verbos ser, pertenecer y otros («es», «fue», «será», «pertenece a», etc) que predican, exprimen una relación entre el sujeto y un otro objecto o calidad, exprimen un como - el «es» aqui tiene sin duda, un significado de cópula, que une el sujeto a una otra entidad, especie o género. Y la cópula el el eje de la verdad de la proposición.

 Decir lo que es, es decir la verdad. Verdadero es decir lo que es. Y esto es esencia y existencia.

 Para Platón, el «es» designa la forma estable, sin movimiento - esencia que existe al máximo grado - y la pertenencia a esa esencia (género o especie). Y el «no es» designa el movimiento y la no pertenencia a la forma inmutable.

 

En La República, Platón escribió:

 

«-Luego si la ciencia tiene por objecto el ser, y la ignorancia el no-ser, es preciso buscar, respecto a lo que ocupa el medio entre el ser y el no-ser, una manera de conocer que sea intermediaria entre la ciencia y la ignorancia, suponiendo que la haya.

- Sin duda.

- ¿ Sostendremos que hay algo llamado opinión?

- Y ¿como no?

- ¿ Es una facultad distinta de la ciencia, o bien la misma?

- Es distinta.

(...)

-La ciencia, ¿no tiene por objecto lo que existe para conorcelo como existe?

-Sí.»

(Platón, La República o El Estado, 477-478, Austral, pag 250-251; el bold es nuestro)

 

Que es el ser, de que Platón habla? Es lo que es, lo que existe. Es esencia o forma en su existencia suprasensible ( el Bien, el Bello, el Triangulo, el Justo, el Círculo, etc).

 

En el fondo, ser significa forma y no-ser significa sin forma. La ignorancia es lo que no tiene forma, el no ser. Por eso, la ignorancia «no es»: se traduce en una existencia negativa sin esencia, un movimiento de los sentidos, de la sin razón. El hecho de que el error «no es» no significa que no exista error - porque el error está en la opinión - sino que no existe en la region de la verdad, el suprasensible, el contenido que vehicula. En el ser, la esencia-forma pesa más que la existencia-lugar, es decir, «el es» menta más la forma que el lugar, aunque abarca ambos. En el no-ser, la existencia-lugar pesa más que lo sin forma, es decir, el no ser expresa más el lugar que la no forma, aunque se compone de ambos. Son contradictorios.

 

Sin duda, al revés de lo que postula R.M.Hare, Platón distinguió entre «es» (predicación, inclusión o exclusión de A en B) y «lo que es» (ser, existencia de formas). Imposible que no lo hiciera. Además, Pármenides había ya hecho esa distinción:  «El ser es...no fue en el pasado, y no será, pues es ahora todo a la vez, uno, continuo » , postulado ontológico-existencial puro. Y atribuye forma esférica al ser (postulado esencial) :«Pero, puesto que su límite es el último, es completo por doquier, semejante a la masa de una esfera bien redonda, igual em fuerza a partir del centro por todas partes » (Fragmento 8, v.42, Simplício, Fís 146, 15). Entonces «es» significa, para Parménides, dos cosas distintas, la primeira un verbo, la segunda un sustantivo:

 

1) Existe.

2) Esfera llena, continua, inmóvil, no generada, inmutable, indestructible, inteligible.

 

Si la ciencia tiene por objecto lo que existe, - «lo que es» - para conocerlo «cómo existe» - «cómo es» -  este modo supone el «es» predicado. El cómo necesita el puente del «es» entre la substancia individual y su espécie o género. El sustantivo necesita el verbo. Platón conocia los dos sentidos del término «es».

 

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Quinta-feira, 25 de Junho de 2009
A ética de Cirne-Lima supera as de Habermas e Apel?

Cirne-Lima oferece uma definição insubstancial, formal, de Bem e de Mal na sua «ética da coerência dialéctica» que não é, senão, uma cópia retocada das éticas procedimentalistas de Habermas e Apel.

 

«Qual é o critério que deve reger nossas decisões livres? Evidentemente aquele que é expresso pelo princípio da coerência universal. Bom é tudo aquilo que é coerente consigo mesmo, com o seu meio ambiente imediato - os outros homens -  e mediato - a natureza -  e, em última instância, com todo o universo. Mau é aquilo que é incoerente em qualquer dos níveis citados. Tanto o bem como o mal se constituem através da coerência ou da incoerência, ambas entendidas em seu sentido pleno, que do individual vai para o universal, e deste retorna àquele, num movimento de vai-e-vem que caracteriza e constitui tanto o indivíduo em seu bom sentido como o universal concreto que é o universo. Mas, em casos do dia-a-dia, como saber se uma decisão é coerente em todos esses níveis? Aí é preciso, primeiro, conversar consigo mesmo, para ver se há coerência interna. Logo depois, conversar com os homens ao meu redor, de minha família e de minha sociedade, para ver se minha decisão pode ser por eles aceite sem prejudicá-los. A seguir, devo ampliar essa conversa real, feita na roda do discurso do meu mundo real, de maneira que ela se transforme numa conversa na roda ideal do discurso, roda esta que abrange todos os homens, mais, todos os seres do universo. A decisão é boa se e quando ela pode ser inserida harmoniosamente na rede de relações que constituem o universo. A acção é eticamente boa se e enquanto ela possui, dentro de si, coerência universal. Má, se e quando não há coerência universal.»

«Vemos, de imediato, a semelhança entre a teoria proposta e a ética do discurso de Apel e Habermas. Certo, correctíssimo. Meu princípio de coerência, quando aplicado ao espírito, é uma formulação do imperativo categórico de Kant, do princípio U de Apel e Habermas. Só que minha proposta explica coisas que eles não conseguem explicar, como, por exemplo, as regras do bem-viver (dês guten Lebens), que eles confessam não poder fundamentar e que eu fundamento de maneira bem simples através da coerência consigo mesmo, pensada – é claro – como etapa que leva do eu individual ao eu que se sabe o universo. Apel e Habermas não conseguem fundamentar a eticidade só com os princípios D e U, e dizem expressamente que tem de haver no discurso Gründe, razões, que são decisivas. Isso não obstante, não introduzem um terceiro princípio, um princípio G (Gründe), sem o qual a ética do discurso não subsiste, por recair no formalismo vazio. (Carlos Cirne Lima, Ética de coerência dialéctica, in Manfredo A.Oliveira, organizador, Correntes fundamentais da Ética Contemporânea, Editora Vozes, pag 226-227; o bold é nosso) 

 

O coerentismo ético de Cirne-Lima, segundo o qual o bem é coerência consigo mesmo, com os outros e com o universo, é um formalismo. Não é uma ética substancialista como a de Aristóteles, Nietzschze ou Marx que indicam, expressamente, o que é o bem e o que é o mal em dadas circunstâncias. Na verdade, Cirne-Lima não nos diz nada em concreto sobre o conteúdo sensível-ideal do bem e do mal. Por isso, é uma ética formalista-procedimentalista, uma cópia das de Apel e Habermas,  a que se adiciona a palavra «coerência».

 

A coerência é um princípio insuficiente para discernir o bem do mal. Imaginemos um carrasco ao serviço da Inquisição ou um membro da Santa Vehm, organização antijudia existente na Alemanha já no século XIV, que assassina homens ou mulheres à traição porque são judeus ou ricos detestados pela população da zona e se sente bem consigo mesmo após cada homicídio (coerência consigo mesmo). Suponhamos que a própria população do bairro ou da aldeia aplaude os crimes (coerência com os outros) uma vez que participa do mesmo espírito sanguinário colectivo. Suponhamos ainda que abutres ou outras aves de rapina vêm devorar os cadáveres das vítimas (coerência com o universo: reciclagem natural de resíduos). Segundo o princípio da coerência de Cirne-Lima estes homicídios de judeus ou outros, cometidos por gente sem remorsos (em coerência consigo mesma) com o consentimento da larga maioria ou da totalidade da população em redor e em harmonia com o universo, são, necessariamente, actos bons.

 

A VACUIDADE ÉTICA DO «UNIVERSAL CONCRETO» DE CIRNE LIMA

 

«O erro cometido por Kant e pelos kantianos, por Apel e Habermas, consiste, a meu ver, em pensar o princípio da universalização como um universal abstracto como todos nós, depois do nominalismo de Ockham, o fazemos. O universal, pensado assim, é uma classe e, ao contrário das ideias platónicas e das formas aristotélicas, é um construto linguístico, um fruto da criação colectiva, e é, por isso, algo arbitrário. Hoje sabemos que um conceito universal, neste sentido contemporâneo do termo, possui sentido conforme seu uso; o uso define, assim, o universal. O princípio da universalização, entendido desta forma, como universal abstracto, não leva a um critério universal do dever-ser que seja defensável, porque universal tomado nesse sentido significa sempre algo de particular, histórico, contingente, pertencente a uma determinada cultura.»

(Carlos Cirne Lima, Ética de coerência dialéctica, in Manfredo A.Oliveira, organizador, Correntes fundamentais da Ética Contemporânea, Editora Vozes, pag 228; o bold é nosso)

 

A primeira frase do excerto acima é paradoxal: então os teoremas e as operações matemáticas, concebidas ou repensadas após Ockham, são arbitrárias pelo facto de serem universais? Em que é que o nominalismo de Ockam, que afirmou a irrealidade dos universais, mudou a posterior maneira de pensar os universais pela grande maioria dos pensadores pós Ockham?

 Não consta que todos nós pensemos, desde Ockham, o universal como um constructo linguístico, algo arbitrário.  

Vejamos como Cirne-Lima caracteriza o «universal concreto» que a sua ética veicularia, e que, segundo ele, «não existe nas éticas de Habermas e Apel»:  

 

«O panorama muda completamente se tomamos o princípio de universalização e/ou imperativo categórico não como um universal abstracto mas como o universal concreto. O universal concreto, termo típico da filosofia de Hegel mas já prefigurado em toda a tradição neoplatónica, significa não um pigmento da mente, mas algo existente no mundo real e concreto. Assim - exemplos de Hegel - a família, a sociedade e o Estado são formas de universal concreto. Eu acrescentaria: a linguagem falada por um povo é um universal concreto; uma passeata de grevistas protestando contra o fechamento de uma fábrica e gritando, em uníssono, palavras de ordem, os hinos cantados em cantochão pelos monges de uma abadia medieval, os movimentos de ordem unida exibidos por um grupo de elite de fuzileiros, tudo isso são universais concretos, nos quais o indivíduo como que desaparece, ficando no primeiro plano aquele todo maior, real, existente, concreto, visível, ordenado. O universal concreto em seu sentido pleno é, nisso sigo fielmente Hegel, o universo. » (…)

«Este sim, é o critério último da eticidade: a universalização, entendida como possibilidade de inserção harmoniosa na totalidade, camada por camada, através de todas as mediações, até chegar ao universal concreto que é o universo. Este é o terceiro princípio do meu projecto de sistema, o princípio da coerência universal. Ele difere do imperativo categórico de Kant e do princípio U de Habermas porque o universal nele não é abstracto mas sim concreto.»  

(Carlos Cirne Lima, Ética de coerência dialéctica, in Manfredo A.Oliveira, organizador, Correntes fundamentais da Ética Contemporânea, Editora Vozes, pag 228-229; o bold é nosso)

 

Esta universalização entendida como encaixe harmonioso das peças da máquina mundi e da societas umas nas outras continua a ser formalismo ético, ainda que Cirne Lima tente fazer parecer que não.

 

Desçamos ao concreto, dividamos cada universal concreto em dois ou mais pólos, o que Cirne-Lima não faz. Se se tratar de movimentos de uma elite de fuzileiros (um universal concreto) reprimindo uma manifestação de grevistas (outro universal concreto), como discernir o bem do mal? De que lado nos devemos colocar? Cirne Lima não responde a isto. Se a coerência for fruto da revolução, aplaudirá os grevistas? Se a coerência nascer da repressão executada pelas forças da ordem, aplaudirá as balas disparadas pelos fuzileiros? Que nos ensina a «ética da coerência dialéctica» sobre a revolução popular democrática que toma forma nas ruas de Teerão em Junho de 2009?

Devemos unir-nos aos conservadores de Amadinejad, à polícia, e preservar a harmonia da sociedade islâmica tradicional? Ou devemos apoiar os revolucionários que querem harmonizar-se com o modelo pluralista das sociedades ocidentais capitalistas? Ou manter-nos neutrais?

 

Coerência é um termo vago ou formal demais para ser suporte de ética não formalista. E Cirne-Lima petende que a sua ética é não formalista. De facto, é formalista regional, ao passo que a de Kant é formalista universal.  Ao contrário de Aristóteles, de São Tomás de Aquino, de Karl Marx, de Max Scheller e de muitos outros filósofos que veiculam éticas materiais, Cirne Lima deixa-nos a flutuar no formalismo e arma-nos com a espada abstracta da «coerência dialéctica» pretendendo superar Kant, Habermas e Apel. Mas acaso Habermas ao preconizar a ética do diálogo/discurso para consensuar valores éticos não está a unir o universal formal ao substancial particular de cada grupo social? Acaso isso não é coerência dialéctica, o mesmo que preconiza Cirne Lima?

A pretensão de Cirne Lima em superiorizar-se a Habermas e Apel é apenas um sofisma, alardeando o valor mágico da palavra «coerência» sem lhe determinar a substância concreta em cada caso.

 

Além disso, esta noção de eticidade orgânica expressa por Cirne Lima acaba por anular a liberdade individual, a dissidência do singular face ao colectivo: ele mesmo o reconhece ao dizer que «tudo isso são universais concretos, nos quais o indivíduo como que desaparece, ficando no primeiro plano aquele todo maior, real, existente, concreto, visível, ordenado.» O fascismo, o estalinismo, as sociedades imperiais e outros modelos sociais encontrariam justificação no «princípio da coerência ética»: afinal, o indivíduo é apenas um elo da cadeia harmónica.

 

Comparado com este organicismo ético não dialéctico - os pilares da ética são o carácter dos grupos sociais, incluídos os povos, e o carácter da natureza biofísica, numa harmonia universal - o formalismo de Kant é muito mais revolucionário porque coloca o centro de gravidade da decisão ética em cada indivíduo.

 

A pretensão de Cirne Lima de ter sido «pioneiro» em estender a ética ao todo é visível no seguinte texto:

 

«Minha divergência está no facto de que a coerência universal, como a penso, perpassa todo um sistema, lógica, natureza e espírito; isso Apel e Habermas não aceitam de maneira alguma. Habermas disse, com muita elegância, que meu projecto é por demais ambicioso (zu ehrgeizig).

«Em compensação, exactamente por ser ambicioso, por ser abrangente, o projecto aqui apresentado consegue dar uma fundamentação sólida à ecologia, o que é um desideratum que praticamente ninguém consegue satisfazer.»

(Carlos Cirne Lima, Ética de coerência dialéctica, in Manfredo A.Oliveira, organizador, Correntes fundamentais da Ética Contemporânea, Editora Vozes, pag 229; o bold é nosso)

 

Antes de Cirne-Lima, Hans Jonas teorizou uma ética de responsabilidade que envolve o respeito pela natureza biofísica. E antes de Hans Jonas, muitos povos primitivos, mágicos, alquimistas e filósofos diversos preconizaram a religião da natureza com a correspondente ética ecológica.

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Quarta-feira, 24 de Junho de 2009
Incoerências na «Coerência Dialéctica» de Cirne-Lima

Carlos Cirne Lima, professor na Pontifícia Universidade do Rio Grande do Sul, Brasil, apresenta-se,equivocamente, como um pensador dialéctico, fundador da «Ética de Coerência Dialéctica» mas, como sucede com a generalidade dos pensadores da ética, desliza no gêlo de incoerências lógicas e ontológicas. Escreveu:

  

«Aristóteles e nós com ele afirmamos que o primeiro princípio tanto do pensar como do ser é o princípio de não-contradição. Esta afirmação está correcta, mas neste enfoque muito abstracto o tema, que em si já é difícil, fica por demais complexo. Por isso, ao invés de falar de um único princípio, o de não-contradição, como Aristóteles, façamos como Platão e falemos de dois princípios, o uno e a díade, tò hén e aóristos dyás. Ou, de forma mais didáctica ainda - mas sempre dizendo, no fundo, a mesma coisa que Platão - falemos de três primeiros princípios do pensar e do ser, sabendo que o primeiro e o segundo deles, que são tese e antítese, se fundem e unificam no terceiro, que é a síntese. O primeiro princípio é o da identidade, o segundo o da diferença, o terceiro é o da coerência. Estes três princípios, no fundo, são um só princípio, o da coerência universal, pois a síntese contém em si, superadas e guardadas, tanto tese como antítese.» (Carlos Cirne Lima, Ética de coerência dialéctica, in Manfredo A.Oliveira, organizador, Correntes fundamentais da Ética Contemporânea, Editora Vozes, pag 219; o bold é nosso)

 

Ao identificar diferença com antítese, Cirne-Lima equivoca-se. A antítese é uma diferença face à tese mas não é uma diferença qualquer. É uma diferença de contrariedade, isto é, negação, e aí se joga o princípio da não contradição. Exemplo: Se a tese é fogo, a antítese é água: fogo e água excluem-se mutuamente. Afinal, a síntese é também diferença e unidade face à tese e face à antítese. Se a síntese fôr ar, neste exemplo, é diferença em relação ao fogo e em relação à água.

 

A síntese, ao contrário do que postula Cirne-Lima, exprime, sobretudo, o princípio do terceiro excluído - uma coisa é A ou não A, não havendo meio termo; a síntese de fogo-água é fogo ou não fogo sendo necessariamente este último caso, por exemplo ar- e, secundariamente, exprime o princípio da não contradição - exemplo: o ar  pode conter ao mesmo tempo chama, matéria ígnea, e vapor de água, desde que em regiões diferentes. Note-se que só o princípio do terceiro excluído fornece plenamente a ideia de que tudo é uno e redutível a uma díade.

 

O princípio da coerência dialéctica entendido como síntese, tal como postula Cirne-Lima, não corresponde, pois, em rigor ao princípio da não contradição, ao contrário do que sustenta Cirne-Lima.

 

Por outro lado, Cirne-Lima confunde os géneros ao dizer que Platão estabeleceu como princípios o Uno e a Díade - género ontológico - e Aristóteles tomou como base o princípio da não contradição – género lógico. Na verdade, ao contrário do que diz o nosso catedrático da Pontifícia,  Aristóteles coloca Deus, o pensamento perfeito e acto puro e não o princípio da não contradição - como o princípio de tudo:

 

«Seria desde logo surpreendente que aquilo que é Primeiro, Eterno e maximamente autárquico não tivesse isto primeiro, a autarquia e a autosubsistência a título de Bem. Ora bem, não é incorruptível e autárquico por outra coisa que por ser Perfeito: logo é razoavelmente verdadeiro afirmar que o Princípio é tal. Não obstante, que se identifique com o uno, ou em todo o caso, se se identifica com ele, que seja elemento, e elemento dos números, isso é algo impossível.» (Metafísica, Livro XIX, 1091b).

 

Não se confunda, pois, o ontológico com o lógico.

 

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Terça-feira, 23 de Junho de 2009
O sofisma de Cirne Lima: Refutar o princípio da não-contradição de Aristóteles
Carlos Cirne Lima, professor na Pontifícia Universidade do Rio Grande do Sul, Brasil, anunciou há mais de uma década «ter refutado o princípio da não contradição enunciado por Aristóteles» :

 «O princípio da não contradição foi formulado por Aristóteles na seguinte maneira: «É impossível predicar e não predicar o mesmo predicado do mesmo sujeito sob o mesmo aspecto e ao mesmo tempo». Este é o primeiro princípio do pensar e do falar que, quando negado, ressurge das próprias cinzas e se reafirma de novo. (…)»


«Descobri algo importante e fundamental, mas que é muito simples, quase óbvio, e que nunca é dito por ninguém: Aristóteles errou ao formular o princípio da não-contradição. O grande inventor da lógica formal,  o descobridor do sistema de silogismos, o primeiro autor de uma tabela de operadores modais, errou ao dizer que a contradição é impossível, adynaton. A contradição é algo errado, é algo indevido, é algo irracional; a contradição é uma bobagem, pois quem se diz e desdiz é um tolo. Mas impossível no sentido estrito, adynaton, a contradição não é. Prova? Basta escrever “p e não-p” e aí temos uma contradição: ela existe, ela está aí, escrita. Mas ela é um erro, uma bobagem, um non-sense, um atentado contra a racionalidade. Certos. Mas erros, bobagens, atentados contra a racionalidade, assim como contradições, de vez em quando existem. E o que existe não é impossível. O impossível não existe nem nunca pode existir, como é o caso de um círculo real que nunca seja quadrado. Escrevemos sim a contradição “círculo quadrado” (trata-se de uma contradictio in adjecto); este tipo de contradição existe no mundo do pensar e do falar, mas um círculo existente no mundo real, por exemplo na ponta de um poste ou mesmo em um desenho real, jamais é quadrado. O círculo quadrado como contradição falada e escrita existe e é possível, mas como realidade realmente existente, não. A contradição às vezes, muitas vezes, existe. Mas, objectar-se-á com toda a razão, ela é uma tolice, ela fere a racionalidade, ela é um grande erro, ela é indevida e imprópria. (…) Ora o que existe não é impossível. Logo, a contradição não é impossível. O operador modal “é impossível” foi aqui usado por Aristóteles com impropriedade. O que Aristóteles queria dizer tem que ser expresso pelo operador modal deôntico, não se deve, em grego me dei, que é uma necessidade mais fraca, uma necessidade que comanda, sim, mas não impossibilita contrafactos.»


(Carlos Cirne Lima, Ética de coerência dialéctica, in Manfredo A.Oliveira, organizador, Correntes fundamentais da Ética Contemporânea, Editora Vozes, pag 216; o bold é nosso) 


Importa distinguir um duplo sentido da palavra contradição: há a contradição lógica, ou verdade (dialéctica e lógica) como, por exemplo, o juízo «sou bom e mau ao mesmo tempo, bom como jogador de xadrez e mau como mecânico de automóveis»; e a contradição ilógica ou erro, como por exemplo o juízo «sou certo e errado ao mesmo tempo ao calcular o resultado de uma soma simples». A primeira contradição, de contrários não exclusivos, constitui a textura da dialéctica da realidade. A segunda contradição constitui a textura da fantasia, da irrealidade.


Cirne Lima não distingue este duplo sentido da palavra «contradição» e constrói, nessa nebulosidade, o seu sofisma de que «refutou» o princípio da não contradição de Aristóteles.


Carlos Cirne Lima desenha aqui um sofisma em torno de dois sentidos da palavra existir. No reino das essências, entendidas como as formas gerais, o erro não existe – nesse sentido a contradição-erro é impossível.


Não é impossível dizer que «o amarelo é azul» mas o juízo «o amarelo é azul» é, na sua essência, impossível. Por isso Aristóteles disse que a contradição violadora do princípio da identidade é impossível – azul é azul e amarelo é amarelo. Escreveu o filósofo grego:


«Assim, pois, a respeito das coisas que são uma essência, e que são actos, não é possível errar, senão captá-las ou não.» (Aristóteles, Metafísica, Livro IX, 1051b; o bold é nosso).


Cirne Lima confunde a essência do erro – impossibilidade necessária– com a existência deste – possibilidade, realidade factual. Confunde o nível modal da essência – que comporta forma e necessidade – com o nível modal da existência – que comporta contingência, contradição ilógica. Confunde o interior com o exterior.


Engana-se ao dizer que «Escrevemos sim a contradição “círculo quadrado” (trata-se de uma contradictio in adjecto); este tipo de contradição existe no mundo do pensar e do falar» . Não. Tal contradição não existe no mundo do pensar. Não é possível pensar um círculo quadrado, ainda que seja possível escrever esta expressão "círculo quadrado".. É possível pensar um círculo a transformar-se, de forma sequencial, em um quadrado, o que é coisa diferente. Também não é possível pensar um triângulo cúbico nem um tom laranja de côr verde - mas sim é possível pensar um tom laranja adjacente a um tom verde ou um tom laranja a transformar-se num tom verde, não havendo aqui incoerência.


Ao dizer «o que existe não é impossível»  Cirne Lima revela-se um pequeno pensador unilateral, antidialéctico: na verdade, o que existe não é impossível no plano da existência mas pode sê-lo no plano da essência. O juízo erróneo «2+9=17»   é possível num teste de matemática inspirado na imaginação confusa mas é impossível na matemática enquanto ciência de essências quantitativas (os números).


Ao contrário do que sustenta Cirne Lima, o operador modal «impossível» não foi usado erroneamente por Aristóteles ao sustentar que A e não-A são incompatíveis ao mesmo tempo e no mesmo aspecto do mesmo fenómeno ou ente.


 Ridícula é a pretensão de Cirne Lima de ter feito uma descoberta única na história da filosofia:


«Só que a formulação errónea do grande Aristóteles, que usou um operador modal forte demais, prevaleceu e isso obnubilou as mentes de todos nós por dois mil e quatrocentos anos.» (…)


«A não-contradição é um princípio ético. O primeiro princípio de todo o pensar e falar, de toda a racionalidade, segundo Aristóteles, só possui validade universal e só está correctamente formulado, se é formulado com o operador modal deôntico: dever-ser.» (Carlos Cirne Lima, Ética de coerência dialéctica, in Manfredo A.Oliveira, organizador, Correntes fundamentais da Ética Contemporânea, Editora Vozes, pag 216; o bold é nosso)


A não contradição é só válida universalmente como um princípio ético?  E porque não há-de ser um princípio universal da matemática (exemplo: o número dois não pode ser par e ímpar) ou da química ( exemplo: um electrão tem carga negativa e não positiva)? Dizer que a não contradição é um princípio ético é similar a dizer que «o resultado dez, da soma cinco mais cinco, é um resultado ético».


Sobrepor o dever-ser ao ser é inverter a ordem ontológica real. O princípio da não contradição é (onto)lógico e não deontológico, ainda que se aplique na ética. Cirne Lima navega no pântano da confusão antidialéctica ao não distinguir o existir essencial, real, que impossibilita o erro, do existir inessencial, onde habita o erro. A contradição-erro ou paradoxo é impossível existir no seio do círculo da verdade - Aristóteles tinha, de facto razão.


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Domingo, 21 de Junho de 2009
Relativo e absoluto na religião, em Hegel

Em Hegel, o relativo e o absoluto coexistem no mesmo conceito, no mesmo ente real. É assim com a religião. Todas as religiões se igualam porque possuem em si a ideia de um princípio superior, vital ou espiritual. Isto é absolutismo holístico.


Mas todas as religiões se distinguem entre si e tomam graus diversos na apreensão da verdade. Isto é relativismo: a verdade varia de religião a religião, as distâncias de cada uma destas à verdade são relativas, umas mais próximas, outras mais longínquas.


Nesta passagem Hegel superioriza o cristianismo aos cultos pagãos – que interpretavam a natureza física como má ou desprezível – e coloca o protestantismo como religião superior ao catolicismo:


«Os deuses felizes dos pagãos representaram-se como num além; graças a Cristo, a realidade efectiva comum, esta própria baixeza, que não é desprezível, foi santificada.(…) O Reino de Deus é, antes de mais, a Igreja invisível, que engloba todas as regiões e as diferentes religiões; em seguida, a Igreja exterior


«Na Igreja Católica, a comunidade cinde-se em sacerdotes e leigos. Aqueles são os plenipotenciários e exercem a força. A reconciliação com Deus torna-se, em parte, externa; domina sobretudo, entre os católicos uma realidade não espiritual da religião. Entre os protestantes, os sacerdotes são apenas mestres. Na comunidade, todos são iguais perante Deus como espírito presente da comunidade.» (Hegel, Propedêutica Filosófica, Edições 70, pag 84).


Relativismo, segundo Hegel: há diferentes graus de verdade, diferentes distâncias, em relação ao centro, das diversas correntes (espécies) dentro do género religião. Não tem nada a ver com a definição de relativismo dada por teóricos da ética como Peter Singer, Michael Smith e outros segundo a qual «no relativismo, todas as teorias são iguais em grau de certeza, isto é, incognoscíveis no seu valor de verdade e portanto equivalem-se umas às outras».


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Quinta-feira, 18 de Junho de 2009
A teoria do Big Bang: uma manifestação do misticismo ou do racionalismo criacionista?

A teoria do Big Bang é uma teoria não materialista, isto é, não postula ser a matéria a essência originária do universo. É aceite pela Igreja Católica e por correntes religiosas que advogam que o mundo de matéria foi criado do nada por Deus ou deuses. Por isso, é contestada pelo materialismo dialéctico, ateu,  que tem no livro de Alan Woods e Ted Grant «Reason in Revolt. Marxist Philosophy and modern Science» (1991)  um castelo teórico relevante.


O Big Bang é descrito da seguinte maneira por Luca Fraioli:


«Toda a matéria nasceu há 15 mil milhões de anos, fruto de uma gigantesca explosão a que os cientistas chamam Big Bang. Decorrido apenas um décimo de segundo, já o universo devia estar a ser invadido por uma mistura de partículas em contínua colisão entre si. A temperatura era tão elevada (trinta milhões de graus), que neutrões e protões estavam impedidos de se unirem para formar os núcleos atómicos. »


«Após cerca de 14 segundos, a temperatura desceu para 3 mil milhões de graus, permitindo o nascimento dos primeiros núcleos de hélio, formados por dois protões e dois neutrões. Só 700 000 anos depois, electrões e núcleos conseguiram unir-se para formar os átomos.»


«No início, o Universo era essencialmente constituído por hidrogénio e hélio, dado que as condições físicas especiais dessa época impediam a formação de elementos mais pesados. »


«Foi necessário esperar pelo nascimento das estrelas para ter átomos » ( Luca Fraioli, A Matéria, ASA, Porto, 2000, pag. 32; o bold é nosso).


Os argumentos contra a teoria do Big Bang expendidos por Alan Woods e Ted Grant são de vária ordem. Cito alguns:


1º- DE TIPO OBSERVACIONAL-RACIONAL REFERENTE AOS SUPERCÚMULOS


“Segundo esta teoria, nada no universo pode ter mais de 15.000  milhões de anos. Mas há provas que contradizem esta afirmação. Em 1986, Brent Tully, da Universidade de Hawai, descobriu enormes aglomerações de galáxias (“supercúmulos”) de 1.000 milhões de anos-luz de comprimento, 300 milhões de largura e 1.000 milhões de espessura. Para que se pudessem ter formado objectos deste tamanho necessitar-se-ia entre 80.000 e 100.000 milhões de anos-luz, quer dizer, entre quatro e cinco vezes mais do que o permitido pelos defensores do Big Bang. Desde então tem havido outros resultados que tendem a confirmar estas observações.” (Alan Woods e Ted Grant, Razón y Revolución, Filosofia Marxista y ciência Moderna, Fundación Frederico Engels, Madrid, 2002, pag 215; o bold é nosso)


 2º- DE TIPO OBSERVACIONAL –RACIONAL REFERENTE À MATÉRIA ESCURA


«Cada vez que a teoria do Big Bang passa por dificuldades, em lugar de abandoná-la, os seus seguidores simplesmente movem os postes, introduzindo assunções novas e inclusive mais arbitrárias, para escorá-la. Por exemplo, a teoria necessita de uma certa quantidade de matéria no universo. Se o universo se criou há 15.000 milhões de anos, como prediz o modelo, simplesmente não houve tempo suficiente para que toda a matéria que observamos se tenha congelado em galáxias como a Via Láctea sem a ajuda de uma invisível matéria escura. Segundo os cosmólogos do Big Bang, para que nele se formassem galáxias, tem que haver suficiente matéria no universo para que, pela lei da gravidade, se chegue a deter a sua expansão. Isso significaria uma densidade de aproximadamente dez átomos por metro cúbico de espaço. Na realidade, a quantidade de matéria presente no universo observável é de aproximadamente um átomo por cada dez metros cúbicos, cem vezes menos que a quantidade predita pela teoria. (…) Para ser exactos, a matéria real é só 1% da necessária.»


«Daí provém a noção de matéria escura. É importante dar-se conta de que ninguém nunca viu tal coisa. A sua existência estabeleceu-se há uns dez anos para preencher um embaraçoso buraco na teoria.»


(Alan Woods e Ted Grant, Razón y Revolución, Filosofia Marxista y ciência Moderna, Fundación Frederico Engels, Madrid, 2002, pag 208-209; o bold é nosso)


3º DE TIPO RACIONAL-TRADICIONAL BASEADO NA TEORIA DA RELATIVIDADE DE EINSTEIN


«De facto, nos seus escritos (de Einstein) não há nem uma única referência ao Big Bang, aos buracos negros e demais. O próprio Einstein, apesar de que inicialmente tendia para o idealismo filosófico, opôs-se implacavelmente ao misticismo na ciência. Passou as últimas décadas da sua vida lutando contra o idealismo subjectivo de Bohr e Heisenberg, e decerto aproximou-se bastante de uma posição materialista.» (Alan Woods e Ted Grant, Razón y Revolución, Filosofia Marxista y ciência Moderna, Fundación Frederico Engels, Madrid, 2002, pag 228; o bold é nosso)


4º DE TIPO RACIONAL-METAFÍSICO ANTICRIACIONISTA


«A teoria do Big Bang realmente é um mito da Criação, como o primeiro livro do Génesis. Estabelece que o universo apareceu há 15.000 milhões de anos. Antes não existia universo, nem matéria, nem espaço, nem tempo. Toda a matéria do universo estava concentrada supostamente em um único ponto. Então, esse ponto invisível, conhecido pelos aficionados ao Big Bang como singularidade, explodiu com tal força que instantaneamente encheu todo o universo que desde aquele instante continua a expandir-se. Ah, por certo, este foi o momento em que “começou o tempo”. Se te perguntas se isto é uma brincadeira, esquece. É precisamente o que estabelece a teoria do Big Bang, na qual crê a imensa maioria dos professores universitários com largos títulos atrás dos seus nomes. É a mostra mais clara da deriva para o misticismo de um sector da comunidade científica.» (Alan Woods e Ted Grant, Razón y Revolución, Filosofia Marxista y ciência Moderna, Fundación Frederico Engels, Madrid, 2002, pag 202; o bold é nosso)


Vemos, pois, que na cosmologia ou astrofísica, teorias como a do Big Bang assentam na especulação e não em suficientes factos empíricos. Não pode, pois, nunca, a filosofia deixar a ciência entregue a si mesma, pois qualquer ciência, para além do campo observacional empírico, se deixa infiltrar por fantasias e devaneios. O materialismo dialéctico defendido por Woods e Grant, na linha de Frederico Engels, sustenta que a matéria é eterna, incriada e indestrutível, embora convertível em energia, e que o modo de ser da matéria  é o movimento, o espaço e o tempo.


Mesmo esta tese materialista comporta uma certa dimensão metafísica, dado que ninguém filmou ou possui registos absolutamente fiáveis da existência e do modo de ser do  universo de há 15.000 ou 500.000 milhões de anos.


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Quarta-feira, 17 de Junho de 2009
Uma tautologia: A proposição «O conhecimento é uma crença verdadeira justificada»

A conhecida asserção, de filósofos analíticos, «O conhecimento é a crença verdadeira justificada» é uma tautologia.


Na verdade o que é uma crença verdadeira? É um conhecimento. Uma coincidência ou um canal de comunicação entre uma essência ideal, cognoscente, e uma existência cognoscível.


Se digo «O conhecimento do átomo é uma crença verdadeira justificada no átomo»,  ao dizer “crença verdadeira” estou a dizer “conhecimento”. Porque o verdadeiro é: ou o real em si, sem conhecimento por parte de ninguém, ou o real em si conhecido por alguém (verdadeiro para outrem ou para nós). E este último corresponde à «crença verdadeira». O verdadeiro reside quer no desconhecido quer no conhecido ontológico e, portanto, a tese de que «a verdade está na proposição» é redutora.


Assim, a frase inicial acima, corolário de alguma filosofia analítica, significa o seguinte: «O conhecimento é o conhecimento («crença verdadeira») fundado em provas («justificado»).» Trata-se, pois, de uma tautologia, isto é, de um juízo em que há uma repetição das características do sujeito no predicado, uma frase do tipo «Um homem é um ser humano comprovado».


Dizer «O conhecimento é uma crença justificada» é mais correcto do que dizer «O conhecimento é uma crença verdadeira justificada», ainda que não seja a definição perfeita.


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Sábado, 6 de Junho de 2009
São inválidos os raciocínios sobre classes vazias? (Crítica de Manuais Escolares- XXXVII)

No manual português de Filosofia do 11º ano «A arte de pensar» afirma-se que não se pode usar a lógica silogística para raciocinar sobre classes vazias, isto é, classes sem elementos - ainda que se afirme também o contrário, em certa passagem. Diz o referido manual:

«Todos os A são B.

Logo, Alguns A são B

«Se eliminarmos as classes vazias, não encontraremos argumentos com esta forma que tenham premissas verdadeiras e conclusão falsa. Assim, a maneira de aceitar que esta forma argumentativa é válida é excluir as classes vazias. E era isso que se fazia na lógica silogística tradicional.»

«Mas o que é uma classe vazia?»

«Uma classe vazia é uma classe sem elementos.»

«Por exemplo, as classes das fadas, dos marcianos, dos selenitas ou dos seres humanos de mais de duzentos metros de altura são vazias.»

«Se não excluirmos classes vazias, a lógica silogística irá considerar válidos argumentos que de facto são inválidos. Assim, não poderíamos usar esta lógica para raciocinar sobre classes que não sabemos se são vazias ou não. Por exemplo, não a poderíamos usar para raciocinar sobre anjos, pois não sabemos se há tal coisa.»

«Contudo, hoje em dia não é necessário aceitar a exclusão de classes vazias. Podemos usar a lógica silogística de um modo que nos permite raciocinar validamente sobre classes vazias.»

(Aires Almeida, Célia Teixeira, Desidério Murcho, Paula Mateus, Pedro Galvão, A arte de pensar, Didáctica Editora, pag 62; o bold é nosso)

 

Crítica : Em primeiro lugar, a noção de classe vazia é paradoxal. A classe vazia é uma classe com essência mas sem existência. Ora, a essência, que é forma, existe de uma maneira especial, a priori, e por si mesma, como sustentava Aristóteles. Se pensamos em classe, isso supõe um conjunto de elementos similares, em certa medida, entre si. Portanto, originalmente, não há classes vazias: para ter estrutura, uma classe tem que estar preenchida por elementos, mesmo que estes sejam puras ideias ou percepções imaginárias. Há sim classes que, em certas circunstâncias, se esvaziaram. Nenhuma classe é vazia de per si.

Em segundo lugar, os autores de a «Arte de pensar» confundem o raciocínio dedutivo com o raciocínio indutivo. O problema das classes vazias não se coloca ao nível da dedução pura: aqui o raciocínio opera-se segundo leis necessárias, com entidades ideais, essências, que podem ou não ter tradução na existência material (plano da indução).

O que determina que uma classe seja vazia ou não? A indução, isto é, o conhecimento empírico de tal ou tais casos particulares, com tendência generalizante. E aqui está o nó do erro: transferir para o plano da indução aquilo que deveria decorrer, de forma lógica e necessária, no plano da dedução.

Aliás é curioso que o manual «A arte de pensar» considere vazias as classes das fadas e dos marcianos e duvide de que a classe dos anjos seja vazia. Não são as fadas anjos, numa certa versão mitológica?  Porque há-de ser vazia a classe dos marcianos? É ilógico e impossível que vivam em galerias no interior do planeta vermelho?

 

Considere-se , por exemplo, o silogismo:

As fadas são seres do mundo invisível.

Ariana é uma fada.

Ariana é um ser do mundo invisível.

 

É um silogismo válido, isto é, verdadeiro num plano abstracto  - e não inválido como sustentam os autores de «A arte de pensar».

Portanto, os argumentos dedutivos sobre classes vazias podem ser perfeitamente válidos: operam num plano ideal, distinto da indução. O que importa é a sua coerência interna, isto é, a conexão lógica entre as suas proposições e respectivos termos. Declará-los à partida inválidos é atirar-lhes nuvens de poeira vinda do plano empírico.

 

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Quinta-feira, 4 de Junho de 2009
Um erro de «A arte de pensar»: Basear a «invalidade» de um silogismo num acidente da existência material (Crítica de Manuais Escolares-XXXVI)

No manual português de Filosofia do 11º ano «A arte de pensar» lê-se o seguinte:

«Classes vazias»

«Considere-se o seguinte argumento:

Todas as fadas são simpáticas.  

 Logo há fadas simpáticas .

«Como vimos a premissa é verdadeira, embora não o pareça. Mas a conclusão é evidentemente falsa. Logo o argumento é inválido (Aires Almeida, Célia Teixeira, Desidério Murcho, Paula Mateus, Pedro Galvão, A arte de pensar, Didáctica Editora, pag 62; o bold é nosso).

 

Crítica: Depois de ter postulado que «um argumento dedutivo é válido quando é impossível ter premissas verdadeiras e conclusão falsa» (pag 14), este manual contradiz-se. Como é que, sendo verdadeira a premissa «Todas as fadas são simpáticas» pode ser falsa a conclusão «Logo há fadas simpáticas» ( ou : «Logo algumas fadas são simpáticas»)?

 

Não pode. Assim, o argumento (silogismo) é necessariamente válido. O que sucede é que os autores do manual «A arte de pensar» descem a escada obscura de um raciocínio falacioso: saltam da essência para a existência, isto é, passam do raciocínio dedutivo - plano da validade ou verdade formal do pensamento - para a indução que lhes  sugere, pelo testemunho dos sentidos, que não existem fadas - plano da verdade material. Violam as próprias regras da lógica dedutiva que proclamaram, recorrendo ao argumento indutivo da «classe vazia» (uma classe sem elementos: não há fadas, logo a classe das fadas é vazia…) Passam do essencial ao acidental que o contradiz e produzem um raciocínio que é uma amálgama, uma incoerência.

E são estes autores que repetem incansavelmente que «validade e invalidade nada têm a ver com verdade e não verdade…» ! Mas como, se para negarem a validade a este silogismo, tiveram de descer ao plano da verdade material perceptível? Afinal, acabam por declarar a invalidade com base na não verdade (inexistência) material. O que equivale a dizer o que sempre postulamos: em lógica, inválido é não verdadeiro no plano abstracto do raciocínio;  e válido é verdadeiro, em termos abstractos de regras do pensamento (Exemplo: a regra válida "a>b, então b<a " é verdadeira). O válido é uma espécie dentro do género verdadeiro.

 

Ignorantes da dialéctica, que hierarquiza os conceitos em géneros e espécies de forma holística e discriminada, os autores de «A arte de pensar» nem se dão conta do erro que cometem ao proclamar a dissociação entre válido e verdadeiro. Isto é mais um exemplo de como a lógica, inserida no programa de 11º ano de Filosofia no ensino secundário em Portugal, é mal explicada nos manuais em voga, repletos de confusões.

 

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