Terça-feira, 29 de Maio de 2007
É o emotivismo um relativismo? (Crítica de Manuais Escolares-XXII)

O conceito de emotivismo dentro da axiologia está envolto na névoa da confusão, em particular nos manuais escolares de filosofia.

Um manual de filosofia do 10º ano de escolaridade português, da Santillana-Constância, afirma o seguinte:

 

«O emotivismo

 

«Esta teoria sobre os juízos de valor é, na verdade, um aperfeiçoamento ou radicalização do relativismo. Segundo ela, os juízos de valor nem sequer são verdadeiros juízos. Eles não fazem qualquer afirmação sobre o modo a realidade é, foi ou será. São apenas expressão de sentimentos ou reacções emotivas a certos objectos ou acontecimentos.»

«Por exemplo, o juízo «a pena de morte é injusta» parece uma afirmação sobre a propriedade (negativa) do acto de condenar alguém à pena de morte. Mas, para o emotivista, é algo comparável a um grito de dor ou desgosto, ou ao choro, que exprimem directamente emoções pessoais face ao acto ou ao conceito do acto, mas não afirmam propriamente nada. E expressões de emoção não podem ser verdadeiras nem falsas, mas apenas sinceras ou fingidas

«...Por vezes, defende-se, nesta linha, que  nós projectamos valores para o mundo, não sendo eles, na verdade, nada de natural fora de nós. Seja como for, toda a discussão sobre valores é vã, porque não há nem pode haver maneira de decidir o que é a verdade em matéria de valores.»

 

(in Logos,  de António Lopes e Paulo Ruas, consultor científico: António Pedro Mesquita, Santillana-Constância, Lisboa 2007, pag 93; o negrito é da nossa autoria).

 

Que confusões há aqui?

 

Em primeiro lugar, é erróneo dizer que «as expressões de emoção não podem ser verdadeiras nem falsas». É colocar a verdade exclusivamente ao nível do juízo, da operação intelectual de ligação entre conceitos. As emoções, tal como as sensações visuais, táteis e auditivas, comportam um certo grau de verdade. A emoção faz parte da verdade da vida de cada um e das sociedades em geral, quotidianamente, a cada instante. A verdade estrutura-se não apenas ao nível do juízo, mas também do conceito, e ao nível da percepção empírica e da emoção. Se as expressões de emoção se exprimem vocabularmente por meio de juízos (exemplo: «Detesto esta paisagem de prédios urbanos, comovo-me ao ler os versos que escreves)é óbvio que recebem um valor de verdade ou de falsidade. Ora o emotivismo limita-se a explicar a génese de juízos: a emoção. Mas explicar essa génese irracional não anula a forma racional, susceptível de receber valor de verdade, desses juízos.

 

Em segundo lugar, apresenta-se o emotivismo como uma «radicalização do relativismo», o que é também erróneo. Há um emotivismo (seria melhor dizer: um descritivismo de génese emotiva..) absolutista, não relativista, expresso, por exemplo, neste juízo: «O amor entre cônjugues é um sentimento maravilhoso, desde a mais remota Antiguidade até hoje e sempre assim será».

Presumivelmente, os autores do manual entendem relativismo como cepticismo, impossibilidade de conhecimento, tal como a generalidade dos actuais "filósofos analíticos". Mas relativismo não é isso: é variabilidade de valores ou de um mesmo conceito, segundo as épocas, as classes sociais, os lugares, podendo gerar cepticismo em alguns. O relativismo não é cepticismo. É um chão do qual pode brotar cepticismo.

 

Em terceiro lugar, não é verdade que o emotivismo em geral sustente a tese de que «não pode haver maneira de decidir o que é a verdade em matéria de valores.» Isto só é verdade para o emotivismo subjectivista timbrado de cepticismo, mas não para o emotivismo objectivista (exemplo: «Os primeiros dias após 25 de Abril de 1974, data do derrube do fascismo em Portugal, foram de júbilo para a grande maioria da população, os melhores dias da nossa vida colectiva») nem para o emotivismo subjectivista dogmático (Exemplo deste último: «Na minha opinião, sofre um traumatismo maior a criança de 13 anos abusada por um pedófilo do que a criança de 4 anos abusada pelo mesmo pedófilo, portanto, é mais horrível o primeiro caso do que o segundo»).

 

Emotivismo diz respeito à matéria-prima de que são forjados os valores - as emoções (amor-paixão, ódio, caridade, etc) - mas não significa a validade temporal ou geográfico-cultural limitada dos valores, isto é, o relativismo. São géneros distintos que se intersectam. Há emotivismo relativista e há emotivismo absoluto ou absolutista.

 

O Manual «A arte de Pensar» da Didáctica reza assim:

 

«O emotivismo partilha com o subjectivismo a ideia de que não existem verdades morais independentes dos sujeitos individuais e de que os juízos morais derivam dos sentimentos que cada pessoa possui àcerca de determinado assunto. Todavia, os emotivistas vão mais longe, pois afirmam que, quando usamos a linguagem moral, estamos apenas a expressar emoções e a tentar convencer os outros a agir de uma certa maneira»

 

(Aires Almeida, António Paulo Costa, Célia Teixeira, Desidério Murcho, Paula Mateus, Pedro Galvão, in A Arte de Pensar, Filosofia 10º ano, 1º volume, Didáctica Editora, Lisboa 2003, página 96; o negrito é nosso).

 

Também neste manual se interpreta erroneamente emotivismo como sujectivismo, ignorando que há um emotivismo objectivista, universalizado (exemplo: «É horrível se houver um planeta que choque com a superfície da Terra»; «Foi terrível o tsunami no Pacífico, na Ásia, em 26 de Dezembro de 2004, que matou no mínimo umas 220.000 pessoas»).

 

Aliás os autores da «Arte de Pensar», tributários de alguma filosofia norte-americana analítica, citam um autor da universidade de John Carroll em Cleveland, Harry Gensler, para definir erroneamente emotivismo:

 

«Supõe que dizes «Brrr!» quando tremes de frio. O teu «Brr!» não é literalmente verdadeiro nem falso; seria despropositado responder-lhe dizendo «Isso é verdade». Mas supõe que dizes: «Eu sinto frio». Neste caso, estás a dizer uma coisa verdadeira, uma vez que realmente sentes frio. Um juízo moral é (para o emotivista) como «Brrr!» (que expressa os teus sentimentos) e não como «Eu sinto frio» (que é uma afirmação verdadeira àcerca dos teus sentimentos).»

«Esta distinção permite-nos evitar alguns problemas que o cepticismo enfrenta. Supõe que Hitler, que gosta que se matem judeus, diz «A morte dos judeus é boa». De acordo com o subjectivismo a afirmação de Hitler é verdadeira (uma vez que significa apenas que ele gosta que se matem os judeus). Isto é bizarro. (Os emotivistas pensam) que a afirmação de Hitler é uma exclamação («Urra para a morte dos judeus!») e que por isso não é verdadeira nem falsa. Não se pode dizer que o juízo moral seja falso, mas pelo menos não temos de dizer que é verdadeiro.»  (Harry Gensler, Ethics, 1998, pag. 62, citado in «A arte de pensar, Filosofia 10º ano», volume 1, página 97).

 

A mediocridade de raciocínio de Harry Gensler, e dos seus epígonos,  é notável: classifica o emotivismo ou emocionalismo como um behaviorismo (doutrina da redução da inteligência e dos seus conceitos a respostas automáticas, psicofisiológicas, ante estímulos exteriores) axiologicamente neutro, céptico, esquecendo que há muito mais emocionalismo além dessa modalidade restrita. É de tal forma idiota a argumentação de Gensler que chega ao ponto de considerar que o behaviorismo emotivista (no caso: Urra para a morte dos judeus!) supera o subjectivismo de Hitler ( no exemplo: É bom matar judeus, vamos exterminá-los) só pelo facto de este último receber uma formulação lógica convencional e o primeiro ficar na linguagem emotiva abreviada. É o logicismo estreito de quem entende que «algo só é verdade ou mentira quando formulado como juízo, de forma lógica»...

 

Aliás, quando Gensler diz no texto acima «de acordo com o subjectivismo, a afirmação de Hitler é verdadeira» denota algum magma de confusão: a afirmação de Hitler é verdadeira.. para a subjectividade de Hitler. Há muito sujectivismo contrário ao subjectivismo nazi e anti semita de Hitler pelo que a afirmação de Gensler «de acordo com o sujectivismo, a afirmação de Hitler é verdadeira»  é errónea. Não há, uma noção unívoca de verdade, ainda que as várias noções de verdade possuam algo em comum. A incapacidade de descentrar o subjetivismo em infinitos polos (perspetivismo) é uma característica deste raciocínio de Gensler.

 

O emotivismo ou emocionalismo, formulado na época contemporânea por Stevenson e, antes dele, por  Max Scheler ( Os valores são «qualidades que se nos tornam presentes directamente no nosso "sentir intencional" (intentionales Fuhlen) do mesmo modo que as cores na visão»- Ethik, in Jarhbücher der Philosophie, 2º ano, Berlim, 1914, pag 91) é diferente desta medíocre definição que Gensler e os manuais «Arte de pensar» e «Logos» fornecem aos estudantes de filosofia.

 

O emotivismo não é senão uma das doutrinas àcerca da origem dos valores - o equivalente ao empirismo como doutrina sobre a origem do conhecimento. Contrapõe-se ao intelectualismo, facto que estes manuais que referimos e outros nem sequer se dão conta, falhos que estão de uma sistematização correcta de conceitos.

 

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Quinta-feira, 10 de Maio de 2007
Nega o subjectivismo que haja coisas exteriores com valor em si mesmas? (Crítica de Manuais Escolares, XXI)

Subjectivismo axiológico implica sustentar que não há valores em si mesmos?

Um manual português da Lisboa Editora reza assim:

 

 

«A tese defendida pelo sujectivismo axiológico afirma que como não existe coisa alguma que possua valor em si mesmo, cada um pode dar o valor que quiser a qualquer coisa» (in "Filosofia, 10º ano", de Marcelo Fernandes e Nazaré Barros, consultor científico: Michel Renaud, Lisboa Editora, pag.99).

 

Não é exacta esta definição. Os subjectivistas não negam que haja coisas que possuam valor em si mesmo: simplesmente, sustentam que o criador ou aferidor decisivo dos valores é a subjectividade de cada um.

Exemplo de um subjectivista religioso esotérico: «Reconheço que em todas as religiões existe o valor intersubjectivo de Deus mas nenhuma atinge o verdadeiro Deus, o que só é possível calculando numerologicamente o verdadeiro nome de Deus com uma fórmula que só eu sei». Este subjectivismo não nega a existência do valor objectivo «Deus existe e é amor» mas subjectiviza esse valor, dá-lhe uma coloração individual única.

Um subjectivista político da extrema-esquerda reconhece que a paz é um valor em si mesmo, objectivo, mas entende, no íntimo da sua consciência, que o valor supremo é a guerra ao Capital e aos seus agentes: assim, é adepto de atentados contra banqueiros, industriais e comerciantes ricos.

 

Portanto, a correcta definição de subjectivismo axiológico é: corrente que sustenta que os valores variam de pessoa a pessoa, são escolhidos ou preferidos na interioridade psíquica de cada indivíduo, quer os valores existam objetivamente (realismo axiológico) quer sejam meramente imaginários (irrealismo axiológico).

 

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Terça-feira, 8 de Maio de 2007
O método filosófico é extrínseco aos métodos científicos? ( Crítica de Manuais Escolares - XX)

A grande maioria dos autores de manuais de filosofia e dos filósofos sustenta que o método filosófico é absolutamente distinto do método científico.

Eis um exemplo dessa concepção da filosofia expressa no manual «Pensar é preciso, Filosofia 10º ano» da Lisboa Editora:

 

«O método- Quanto aos procedimentos adoptados, para já, basta dizer que a filosofia é um empreendimento racional: quer compreender, quer compreender através da razão.

«Todavia, falar em razão neste contexto não é falar numa razão empírica que procura as suas provas na experiência, como acontece com as chamadas ciências da natureza que estudam fenómenos susceptíveis de ser observados e manipulados por instrumentos e técnicas laboratoriais.»

«Nem tão-pouco se trata de uma razão demonstrativa, como encontramos nas ciências matemáticas que demonstram, por meio de razões que se impõem pela sua coerência e necessidade lógica, de forma irrefutável, as afirmações que produzem partindo de determinados postulados e axiomas aceites por todos. Assim, por exemplo, na Geometria, as conclusões a que os processos demonstrativos conduzem são universalmente aceites.»

«A razão do filósofo é uma razão mais maleável, mas não deixa de ser razão; ele procura sempre a melhor, ou as melhores razões, que consegue apresentar em apoio das teses que defende, daquilo que hoje se designa por razão argumentativa».

(in «Pensar é preciso, Filosofia 10º ano» de Adília Maia Gaspar, Revisora Científica: Maria Luísa Ribeiro Ferreira, Lisboa Editora, 2007, pags. 9-10; o negrito é de nossa autoria).

 

Ao invés do que sustenta este texto, a filosofia deriva simultaneamente da razão empírica, da razão demonstrativa-teórica (na verdade, a razão empírica também se poderá designar como demonstrativa: demonstra através dos factos empíricos...) da razão argumentativa - e da razão especulativa que impregna subtilmente aquelas três. O texto de Adília Maia Gaspar, em consonância com o horizonte de degradação que a filosofia tem vindo a sofrer nas últimas décadas ao ser reduzida quase só a uma «arte de argumentar racionalmente», destaca, erradamente, como essência da filosofia a razão argumentativa.

 

A filosofia procura, em muitíssimos casos, as suas provas na experiência. A filosofia «hippie» do amor livre, do pacifismo e da recusa do trabalho na sociedade industrial procurou as suas provas na experiência: milhares de jovens abandonaram os seus estudos universitários ou os seus empregos, nos EUA e noutros países, agruparam-se em comunas, onde se fumava haxixe, praticava o amor livre e fazia meditação transcendental. Nunca haveria filosofia «hippie» sem razão empírica, sem experiência. E é nesta que a filosofia «hippie» busca as provas do seu grau de solidez.

 

O que distingue a filosofia da ciência não é aquela estar fora do campo da experiência e a ciência estar imersa no pântano da experiência. Não. Nem sequer se pode dizer que a ciência é mais rigorosa que a filosofia, em termos gerais. O que as distingue é o facto de a filosofia adicionar metafísica, interpretação imaginário-racional à experiência em que participa, e a ciência se limitar a uma racionalidade positiva, adstrita a leis empíricas e a factos de resultados práticos. É evidente que, hoje, há ciências filosóficas como a física cósmica teórica ou cosmologia que concebe o nascimento, ou não, do universo, um espaço a dez ou trinta dimensões, e é especulativa por excelência.

 

A filosofia é como um sol, uma estrela gigante em fusão, a crepitar em labaredas de pensamento vivo (interrogações, especulações) e as diferentes ciências são como que pedaços desse sol que se alienaram dele, arrefeceram e se tornaram planetas de linhas bem definidas, obedecendo ao determinismo da matéria sólida e líquida. Em cada ciência há uma filosofia adormecida, moribunda, que ao acordar ou ressuscitar, convulsiona em maior ou menor grau a solidez dessa ciência. Logo o método filosófico engloba os diversos métodos científicos adicionados do método especulativo, que pode subverter aqueles.

 

 

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Segunda-feira, 7 de Maio de 2007
A indução não é válida? Um Argumento é «óptimo e inválido»? (Crítica de Manuais Escolares- XIX)

Diversos autores da área da lógica proposicional, vinculados a alguma filosofia  analítica, sustentam, de forma errónea, que os argumentos indutivos (que partem de casos particulares para uma lei geral) não são válidos. É certo que há induções inválidas (exemplo: «Passei na Amareleja de automóvel, vi apenas dez pessoas na rua, todas sexagenárias, e induzo que todos os habitantes da Amareleja são da terceira idade») mas há muitas induções, ditas generalizantes ou amplificantes, que não são inválidas porque assentam numa impressionante repetição de dados correlativos, forjando conexões aparentemente necessárias de causa-efeito.

 

Na linha dos que classificam toda a indução como «argumento inválido», o manual de filosofia «Logos, 10º ano», da Santillana-Constância editora, diz o seguinte:

 

«Argumentos não-válidos»

«Vamos agora contrastar estes argumentos com um de outro tipo:

( I ). A Terra sempre girou em volta do Sol

    (Portanto), Amanhã , a Terra girará em volta do Sol.

«Onde está a diferença? Enquanto nos anteriores, se as premissas fossem verdadeiras, era impossível (por mais imaginação que tivéssemos) pensar que a conclusão fosse falsa, aqui, continuando a admitir que a premissa é verdadeira, não podemos ter a certeza da verdade da conclusão: a Terra ou o Sol, ou ambos, podem ser destruídos, a rota da Terra pode alterar-se em virtude de algum acontecimento cósmico súbito, etc.»

«Isto não quer dizer que I não nos conduza, com um elevado grau de força, à sua conclusão. Se I for verdadeira, conforme parece ser o caso, isso confere um altíssimo grau de probabilidade à conclusão. Mas não pode assegurar, acima de qualquer possibilidade contrária, a verdade da conclusão.»

«Este argumento não é, pois, válido. Ainda assim é um óptimo argumento». (in Logos, 10º ano de Filosofia, de António Lopes e Paulo Ruas, Consultor Científico: António Pedro Mesquita, editora Santillana-Constância, 2007, pags 26-27; o negrito é nosso).

 

Estes autores confundem argumento válido com argumento infalível.

 

O que é validade ? É verdade, efectiva ou provável, actual e potencial. Mas estes autores, como outros em lógica, restringem o conceito de válido à verdade indiscutível, universal, ao rigor dedutivo. Pela nossa parte, salientamos que o termo válido sugere o que funciona, que é verdadeiro ou verosímil. É ou não válida a hipótese de, nos próximos anos, a aviação dos EUA ou de Israel bombardear as instalações nucleares da República Islâmica do Irão?  É válida mas não é confirmadamente verdadeira.

 

Válido é, conceptualmente, mais amplo que verdadeiro comprovado: válido é género da espécie verdadeiro e da espécie verosímil (provavelmente/ aparentemente verdadeiro).A dissociação entre os conceitos de válido e de sólido - note-se que um homem válido é um homem vitalmente sólido - está na base deste erro de identificar válido com infalível. Além disso, por que razão haveria de ser mais segura, mais válida, a tese de a soma de os três ângulos internos de um triângulo ser 180 graus do que a tese o sol nasce todos os dias ?

 

Posso garantir que, sob o efeito estufa e da mutação cerebral da espécie humana, a soma dos três ângulos internos não possa ser 182 ou 185 graus e que as verdades matemáticas continuem validamente inalteraveis? De onde vem a infalibilidade matemática? É absolutamente real? Ou é um sistema de verdade relativa à época e à actual configuração do cérebro humano?

 

A indução amplificante ou generalizante é válida - se o não fôr, nenhuma ciência empírica ou empírico-formal (Biologia, Química, Física, Astronomia, etc) é válida, porque se apoia num número quase infinito de regulridades da mesma natureza (exemplo: sempre que misturamos um ácido e uma base, o resultado é um sal mais água). Os sentidos que, como fonte de conhecimento, são tão importantes como a razão garantem-nos a validade dessa indução.

 

Uma contradição flagrante é António Lopes e Paulo Ruas afirmarem que o argumento da repetição das auroras de 24 em 24 horas, ocorrida aparentemente desde há milhares de anos, que fundamenta o «nascer do sol amanhã», ser «óptimo»  mas.. inválido. Óptimo e inválido? Se é inválido, nunca pode ser óptimo... a menos que eles queiram dizer - o inconsciente atraiçoou-os - que é óptimo no campo da validade teórica, da validade probabilística.

 

Em rigor, o que deveriam dizer é: trata-se de um argumento indutivamente válido e dedutivamente inválido. O conceito de válido é dialéctico, recebe modulações diversas, consoante o contexto - empírico (indutivo) ou não empírico a priori (dedutivo) - em que se encontre.

 

 

 

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Domingo, 6 de Maio de 2007
As diversas teorias sobre o livre-arbítrio e a necessidade (Crítica de Manuais Escolares-XVIII)

A posição oficial de diversos teóricos da ética é a de que há quatro posições sobre o livre-arbítrio e determinismo ou necessidade: determinismo radical, determinismo moderado, indeterminismo e libertismo.

Assim no manual  português "A Arte de Pensar, Filosofia 10º ano" plasma-se o seguinte:

 

«...Determinismo radical. Esta posição defende que o livre-arbítrio é incompatível com um mundo regido por leis, onde os acontecimentos (incluindo as acções) se sucedem em cadeias causais tais que da ocorrência de uma certa causa se segue necessariamente a ocorrência de um dado efeito, sem que possamos interferir nessas ocorrências (mesmo que tenhamos consciência delas) e sem que as leis que regem as relações causais  estejam minimamente na nossa dependência. Em resumo: como o determinismo é verdadeiro, não somos livres.»

«...Determinismo moderado. O determinista deste tipo aceita a ideia de que o mundo é regido por leis e a ideia de que os acontecimentos estão causalmente relacionados. No entanto, para ele isto é compatível com o livre-arbítrio humano...»

«...Indeterminismo. O indetermista defende que alguns acontecimentos não têm causas - apenas acontecem e é tudo. ... Se fores indeterminista podes alegar que a tua acção foi aleatória. Mas terás de argumentar que o teu arremesso de pedras a vidros é como um acontecimento quântico, o que não será tarefa fácil e não te salvaguardará de seres responsabilizado pelo que fizeste: é que o mundo até poderá conter ocorrências aleatórias, mas não está demonstrado que a tua acção seja uma delas.»

«...Libertismo. O libertista pensa que o dilema do determinismo que vimos atrás, é um falso dilema: as escolhas dos agentes não são causalmente determinadas nem aleatórias. A alternativa consiste em conceber as nossas acções como produto de deliberações racionais e responsáveis que têm o poder de alterar o curso dos acontecimentos no mundo. O agente pode dar início a cadeias causais novas, o que é suficiente para que seja responsabilizável pelas suas acções.»

(Aires Almeida, António Paulo Costa, Célia Teixeira, Desidério Murcho, Paula Mateus, Pedro Galvão, A arte de pensar, Filosofia, 10º ano, 1º volume, Didáctica Editora, Lisboa, Março de 2003, pags 82,83).

 

Esta divisão, que espelha a posição de John Searle e de outros teóricos da ética, como Simon Blackburn, é, a meu ver, inconsistente, confusa.

Em primeiro lugar, há uma duplicação da mesma definição, segundo a qual há simultaneamente livre-arbítrio e determinismo: ora é classificada de determinismo moderado, ora de libertismo. Isto mostra a falta de clareza dos autores do manual e dos teóricos que os inspiram. O libertismo está oculto na segunda posição baptizada de determinismo moderado, compatível com o livre-arbítrio, e o determinismo está oculto na quarta posição, baptizada de libertismo. Não é verdade que o determinismo moderado coexiste com o livre-arbítrio (libertismo) em que as nossas acções são «um produto de deliberações racionais e responsáveis»?  E não é verdade que o libertismo ou exercício do livre arbítrio " que pode dar início a cadeias causais novas" se compagina com o determinismo (lei infalível da natureza: a sucessão das quatro estações do ano, a transformação da semente de trigo em haste com espiga, o ter sono todas as noites, o acordar todas as manhãs, o sentir fome e sede ao cabo de algumas horas sem alimento, etc)?

 

Em segundo lugar, indetermismo é nebulosamente definido como inexistência de causas: «o indetermista defende que alguns acontecimentos não têm causas - apenas acontecem e é tudo». Ora indetermismo não implica que não haja causas, mas sim que não haja determinismo, isto é, que as mesmas causas não produzam sempre os mesmos efeitos, nas mesmas circunstâncias. A física quântica não negou a noção de causa: singularizou a causa, individualizou-a, como um novo nominalismo neomedieval, sustentou que a espécie de causas A não gera sempre a mesma espécie de efeitos B, está envolta na névoa da imprevisibilidade.

 

Há um indeterminismo causalista (o «caos» dos acontecimentos é gerado pelo livre-arbítrio humano, que é causa livre - isto é, causa não causada - ou pelo «capricho da natureza», que é causa livre, ou por deuses ou outras forças metafísicas, que são causas livres) e há um indeterminismo acausalista (nada é causa de nada, há apenas irrupção sincrónica e diacrónica, fortuita, de entes e acontecimentos). Mas nem o manual «Arte de Pensar» nem o famoso John Searle se terão apercebido desta distinção, ao que parece, interpretando o termo indeterminismo como sendo o que defino como indeterminismo acausalista.

 

Para uma boa divisão, só possível mediante o método dialéctico, há que recorrer à lei da contradição principal: um sistema de múltiplos pólos, contrários parcial ou totalmente entre si, é redutível a uma dualidade.

Eis, em oposição às incongruências de sistematização de John Searle e dos autores de «A arte de pensar»,  uma divisão correcta das teorias sobre livre-arbítrio e determinismo, da nossa autoria : fatalismo determinista, fatalismo indeterminista, determinismo sem livre arbítrio, determinismo com livre-arbítrio, indeterminismo com livre-arbítrio, indeterminismo sem livre arbítrio.

 

A contradição principal desta divisão é fatalismo versus não fatalismo, desdobrando-se este último em determinismo com ou sem livre-arbítrio e indeterminismo com ou sem livre arbítrio. O determinismo, considerado isoladamente, aparece como um termo intermédio: existe, totalitariamente, no polo do fatalismo, e sectorialmente (eles designam-no como determinismo moderado) no polo do não fatalismo.  

Vejamos, pois, a nossa divisão, lógica e clara:

 

1. DOUTRINAS FATALISTAS

 

A) Fatalismo determinista: teoria segundo a qual não existe liberdade alguma no mundo natural e no mundo humano, nem existe acaso, estando tudo predestinado, segundo leis necessárias de causa-efeito, de efeitos calculados ao milímetro. Exemplo: a astrologia determinista integral, segundo a qual as posições dos planetas, do sol e da lua determinam, em absoluto, em dias e horas predestinadas, as vidas individuais e a vida colectiva na Terra, as revoluções políticas, os sismos, os acidentes de avião, de barco, de comboio, de centrais nucleares, etc.

 

B) Fatalismo indeterminista: teoria segundo a qual não existe liberdade alguma no mundo natural, que se desenvolve irregularmente sem determinismos, nem no mundo humano, estando tudo predestinado, segundo impulsos da providência, de uma vontade que não obedece a leis necessárias. Exemplo: a Moira, o destino na concepção clássica trágica grega. Aqui há liberdade, reservada a potências inumanas, sobrenaturais, liberdade que pertence ao «autor» ou «autores» do destino.

 

2. DOUTRINAS NÃO FATALISTAS (LIBERTISTAS OU NÃO)

 

A) Determinismo sem livre-arbítrio: teoria aparentemente fatalista, mas de facto, não fatalista, segundo a qual as leis infaliveis de causa-efeito prevalecem em tudo, não só na natureza biofísica mas até no espírito humano que não tem livre arbítrio. No entanto, os factos não estão rigorosamente predestinados porque o factor acaso existe, no interior ou no exterior da malha do determinismo, e proporciona surpresas. Exemplo: "O aparecimento da vida humana embora propiciado por uma longa cadeia de causas e efeitos a funcionar ao longo de milhões de anos não estava predestinado, resultou do acaso, de uma combinação aleatória de células vivas.»

 

B) Determinismo com livre-arbítrio (ou Libertismo determinista): teoria segundo a qual existe livre-arbítrio, poder de escolher diferentes tipos de acção em dadas circunstâncias, em justaposição com o determinismo do mundo natural. Exemplos: «Sou livre de me alegrar ou entristecer, por sugestão mental, mas o meu corpo envelhece dia a dia inexoravelmente e não sou livre para o conseguir rejuvenescer por dentro»; «sou livre entre escolher ir ao ginásio ao fim da tarde, submeter-me ao determinismo dos aparelhos de musculação, ou ir comer e beber com um grupo de amigos, submetendo-me ao determinismo da mastigação e digestão dos alimentos.».

 

C) Indeterminismo com livre-arbítrio (Libertismo indeterminista): teoria segundo a qual existe livre-arbítrio humamo, que é causa de acções livres, e ao mesmo tempo não há leis necessárias na natureza física e psicofísica. Existe livre-arbítrio e acaso (liberdade na natureza). Exemplo: «Sou livre de me atirar do alto de um edifício ao solo e não é certo que me venha a esmagar ou ferir intensamente pois há indeterminismo geofísico, a lei da gravidade pode deixar de funcionar nesse local e momento.»

 

D) Indeterminismo sem livre-arbítrio : teoria segundo a qual não há liberdade humana mas o determinismo e a predestinação não existem, o presente nasce a cada instante de forma imprevisível, o indeterminismo rege a natureza física do universo e a natureza biológica do ser humano as quais anulam o livre-arbítrio deste. Exemplo: «A minha acção será sempre não livre, fruto das minhas necessidades biológicas e sociais e da evolução do universo em geral e a natureza é imprevisível no seu funcionamento, por exemplo, o azeite misturado com água pode não vir sempre à tona desta e a mistura de um ácido com uma base pode nem sempre gerar um sal».

 

Nesta divisão, o libertismo - existência de livre-arbítrio- assume duas formas: uma determinista, outra indeterminista. O conceito de libertismo não é fixo entre os teóricos da ética: alguns interpretam-no como defini indeterminismo com livre-arbítrio.

 

Esta divisão dialéctica é muito mais racional e clara do que as que construiram John Searle e os autores da «Arte de pensar».

 

 

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Quarta-feira, 2 de Maio de 2007
Da ilusão do carácter «não empírico» da filosofia e da realidade do pensamento único nos manuais (Crítica de Manuais Escolares- XVII)

 


Existe um pensamento único em determinadas áreas, nos manuais de filosofia divulgados no ensino secundário, em Portugal e noutros países, em regra sob a supervisão de mestres e doutorados universitários. Uma das ideias principais desse pensamento único é a tese errónea de que «a filosofia não trata de problemas empíricos».


Eis o que afirma o manual «A arte de pensar» 11º ano, da Didáctica:


«Por um lado, dado que a filosofia não trata de problemas de carácter empírico, não há - ao contrário de ciências como a física e a biologia - provas empíricas para demonstrar que as teorias filosóficas são verdadeiras». (Aires Almeida, Célia Teixeira, Desidério Murcho, Paula Mateus, Pedro Galvão , in A Arte de Pensar, 11º ano, Didáctica Editora, Lisboa, pag 219).


Por sua vez, o manual «Criticamente» sustenta:


«Problemas como os que explicitámos (nota nossa: as modificações da distribuição da riqueza em Portugal no século XIX, o comportamento das pessoas em situações de frustração, etc)  são problemas empíricos. Quando é que nos encontramos perante um problema empírico? Podemos dizer que nos encontramos perante um problema empírico  quando, para o resolver, temos de recorrer a observações, informação factual, manipulação de instrumentos, etc. Os problemas das ciências experimentais, como a física ou a psicologia, são problemas empíricos; mas são igualmente empíricos os problemas de que se ocupam ciências sociais como a história ou a sociologia.»


«Os problemas da filosofia não são empíricos, mas conceptuais» (Artur Polónio, Faustino Vaz, Pedro Madeira, in Criticamente, Filosofia, 10º ano, Porto Editora, 2007, pag 13).


O erro é óbvio: então a sociologia e a história, no seu conteúdo empírico, não estão impregnadas de filosofia? Quando se noticia o facto histórico de que «em 25 de Abril de 1974, as liberdades foram instauradas em Portugal por um golpe militar e , nos 15 meses seguintes, a liberdade deu passos gigantescos com a ocupação de terras e empresas industriais por trabalhadores» não estamos a usar a noção filosófica de «liberdade» num certo sentido empírico e racional?


O manual «Percursos, Filosofia 10º ano» da Areal discorre assim:


«Mas a filosofia, tal como a ciência, parte de problemas e sobre eles coloca questões


«As questões filosóficas são, no entanto, distintas.»


«As questões filosóficas são mais abrangentes. (...)


«Não são questões de facto: Quem inventou a lâmpada? Quantas espécies de aves existem na Terra? Será o sistema cosmológico de Copérnico melhor que o de Ptolomeu?»


(Carlos Amorim, Catarina Pires, «Percursos, Filosofia 10º ano», Areal Editores, pag. 23).


O erro é óbvio: a esmagadora maioria das questões da filosofia são questões de facto fracturadas pela reflexão especulativa. São apreensão de factos sob a luz racional da dúvida, das hipóteses alternativas.


O manual «Filosofia 10º ano» da Plátano, menos desviado da verdade do que as teses de Desidério Murcho, Artur Polónio, Pedro Madeira e outros,  assevera:


«Os problemas da filosofia não têm solução experimental, como os problemas da ciência. » (Luís Rodrigues, Filosofia 10º ano, Plátano Editora, Lisboa, 2003, pag. 16).


Há um erro parcelar neste pensamento: há problemas filosóficos que têm solução experimental e há outros que não têm. Exemplo: o problema filosófico de saber se um homem virá a amar mais a sua esposa se fizer sexo a três, com ela e com outra mulher, resolve-se experimentando.


Poderíamos multiplicar os exemplos de como os manuais de filosofia dissociam, em maior ou menor grau, a filosofia,  do mundo empírico. Nenhum manual de filosofia editado em Portugal (possivelmente no Brasil, Espanha, etc, sucederá o mesmo) para o ensino secundário revela a inteligência suficiente para entender e explicitar esta tese dialéctica tão clara: a filosofia é simultaneamente empírica e meta-empírica (especulativa, metafísica), é simultaneamente ciência e não ciência.


A teoria da evolução das espécies de Darwin é, em grande parte, uma filosofia ou uma ciência biológica de forte componente filosófica. A teoria do materialismo histórico de Marx é, em grande parte, uma filosofia ou uma ciência histórico-económica de forte componente filosófica. A filosofia dirige-se a objectos empíricos: olho uma maçã e interrogo-me se o universo não terá a forma de maçã; contemplo o líquido purulento de uma vacina e interrogo-me sobre se essa porção de vírus irá imunizar ou, pelo contrário, infectar irremediavelmente o sangue e a linfa.


Não há filosofia sem mundo empírico, sem um banho do pensamento nas coisas da experiência, nos factos empíricos - no conforto de uma boa casa, na roupa andrajosa ou na fome de um mendigo, no desespero de quem perdeu um parente querido, na vivência de uma greve geral de trabalhadores desfilando nas ruas e confrontando-se com a polícia, na experiência orgástica, etc.


Filósofos consagrados como Thomas Nagel escrevem:


«A Filosofia é diferente da Ciência e da Matemática. Ao contrário da Ciência, não assenta em experimentações nem na observação mas apenas no pensamento. E, ao contrário da Matemática, não tem métodos formais de prova» (Thomas Nagel, Que Quer Dizer Tudo Isto?)


Se Nagel escreve um absurdo destes, como pode ser um filósofo de renome? Pode, numa sociedade onde a universidade, ao menos na área da filosofia, é um domínio dos eruditos medíocres e medianos - só 5% dos professores catedráticos de filosofia são geniais, a meu ver, o resto é uma corte de epígonos habilidosos na qual Nagel, Johnatan Dancy, Searle e tantos outros se inscrevem.


Há muitos manuais de filosofia editados, com fraco critério de qualidade, por editores e autores que acima de tudo procuram fazer dinheiro e ganhar fama fácil. E para isso não se importam de pisar, sem escrúpulo, a escadaria de mármore dos degraus do pensamento, quebrando alguns destes degraus com as picaretas do raciocínio falacioso!


Assim, por imperativo do lucro capitalista das editoras e da vaidade e ganância de pequenos «filósofos», autores de manuais, que correm aceleradamente para as luzes da ribalta, centenas de milhar de alunos e milhares de professores de filosofia vêem as suas mentes moldadas por um pensamento erróneo, falacioso, único, que está na moda. Este pensamento único, estribado na posse do «saber» da lógica proposicional - a «Sagrada Escritura» do século XXI , segundo a «filosofia da moda» - é veiculado pelos pseudopensadores «analíticos» mediante a retórica tonitroante, muitas vezes falaciosa, do «este é um argumento válido, aquele não é» para eliminar o autêntico pensamento filosófico, dissidente, dialéctico, holístico.


Nota: embora pareça presunção ser juíz em causa própria, direi que quase todas as grandes editoras portuguesas rejeitaram publicar o meu «Dicionário de Filosofia» com dezenas de entradas/ tópicos originais, inabituais nos dicionários de filosofia, rejeição que, a meu ver, se deve a que o dicionário se afasta da «norma» e ousa criticar filósofos consagrados...A política editorial (o editor é, em muitos casos, uma «prostituta moldável» ao dinheiro do leitor) é casuística e joga segundo uma lei de simpatias pessoais e sondagens de mercado: o que está a dar lucro não é aprofundar  temas de filosofia a contracorrente, mas sim fazer «obras acessíveis ao grande público» que forneçam definições simplistas e apresentem um aspecto gráfico sedutor. E de preferência convém, para o êxito do marketing editorial, o autor pertencer a uma associação de filosofia, dar entrevistas a jornais ou à televisão e exibir a todos o título de «doutor» ou «professor doutor»...Há uma verdadeira «mafia» integrada por autores e editores na área da filosofia, em Portugal e noutros países, a impôr-se junto do público das livrarias e dos media. É tudo muito português, povo em cujo comportamento a manha e o ludíbrio ocupam um lugar essencial.


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Relativismo Axiológico é incompatível com Objectivismo? (Crítica de Manuais Escolares -XVI)

Hessen, um erudito alemão nascido em 1889, professor na Universidade de Colónia, autor do tratado «Filosofia dos Valores» que ainda hoje inspira muitos autores de manuais de filosofia, escreveu sobre o relativismo axiológico:

 

«Esta validade dos valores é contudo negada pelo relativismo axiológico. Segundo esta doutrina, todos os valores são relativos. Aquilo que para uns é valor pode ser para outros desvalor. Não há valores objectivos nem absolutos». (Johannes Hessen, Filosofia dos Valores, Arménio Amado Editor, Sucessor, Coimbra 1980, pag. 95).

 

um erro de Hessen nesta definição. Relativismo opõe-se a absolutismo, sem dúvida, mas não se opõe directamente a objectivismo.

Para o relativismo, não há valores absolutos mas há valores objectivos, isto é, valores aceites de forma unânime por uma esmagadora maioria de indivíduos de uma comunidade ou civilização, num dado tempo.

 

O absolutismo estético dirá: «O ideal de beleza feminina é imutável, é o mesmo em todas as épocas, regiões do mundo e comunidades». É uma modalidade de objectivismo estético.

 

O relativismo estético - não interpretado como sujectivismo - dirá: «A loura actriz norte-americana Marilyn Monroe é um modelo de beleza feminina ideal para os homens nascidos no século XX mas não o será, certamente, para os nascidos no século XXI.». É outra modalidade de objectivismo estético - o valor de beleza de Marilyn é objectivo (universal) mas relativo a um tempo e a uma cultura masculina (a segunda metade do século XX).

 

Por conseguinte, há um relativismo axiológico objectivista ( exemplo, extraído  da ideologia democrática não sexista do século XXI: « A mulher e o homem são absolutamente iguais em direitos políticos, jurídicos, económicos, culturais, religiosos, etc, e iguais em competências»)  e há um relativismo axiológico subjectivista ou intersubjectivista (exemplo, extraído da ideologia neonazi: «O holocausto de 6 milhões de judeus pelo nazismo na II Guerra Mundial não existiu, é uma invenção dos historiadores judeo-maçónicos»).

 

O manual português «Logos, Filosofia 10º ano», entre outros, participa do mesmo paralogismo de Hessen ao opor, como contrários absolutos, relativismo e objectivismo:

 

«...há fundamentalmente duas teorias axiológicas:

«O relativismo que defende que não é possível estabelecer uma verdade universalmente aceite para os juízos de valor

«O objectivismo que afirma que deve ser possível, pelo menos em princípio (mesmo que não na prática) atribuir verdade ou falsidade aos juízos de valor» (in Logos, Filosofia 10º ano, de António Lopes e Paulo Ruas, Consultor Científico: António Pedro Mesquita, Santillana-Constância Editora, Lisboa 2007, pag. 92).

 

A confusão é grande nestas definições. Ressalta aliás a vacuidade da definição de objectivismo: «deve ser possível atribuir verdade e falsidade aos juízos de valor». Mas isso faz igualmente o relativismo! Por exemplo, o relativismo atribui ao luto pela morte de alguém de avançada idade na ilha de Madagáscar um valor de alegria e de recompensa divina (os parentes cantam e dançam) e em Portugal um valor de tristeza (os parentes choram).

 

O relativismo deve ser dividido em sincrónico (relativismo espacial, geográfico e cultural no mesmo instante)e diacrónico (relativismo temporal diferido). Se é diacrónico - isto é os valores mudam com o tempo, são relativos a tempos diferentes - nada impede que, no mesmo ano, na mesma década ou século, os valores sejam universais, objectivos. Infelizmente, estas distinções não são feitas pelos manuais de filosofia nem por Hessen e outros teóricos.

 

Universalismo objectivista e relativismo não se contradizem em absoluto pois, neste caso, são duas faces da mesma moeda. Exemplo de relativismo diacrónico universalista e objectivista: «A verdade é relativa às épocas mas objectiva e universal dentro de cada uma. Assim, a revolução francesa de 1789-1795 é universal e objectivamente considerada a mais poderosa transformação social e política no planeta, nas primeiras décadas do século XIX, mas, 100 ou 120 anos depois, a revolução bolchevique de 1917 na Rússia é classificada universal e objectivamente como a mais poderosa transformação social e política na Terra».

 

Relativismo não se opõe a universalismo e a objectivismo. Opõe-se, sim, a absolutismo.

 

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Objectivismo estético e Propriedades do Objecto (Crítica de Manuais Escolares- XV)

O conceito de objectivismo de valores é transmitido de forma confusa em diversos manuais de filosofia. Eis um exemplo, extraído do manual «Pensar Azul», da Texto Editores:

 

«O objectivismo faz depender o juízo estético de critérios objectivos, por isso, quando se trata de apreciar a arte, o que deve ser determinante são as características formais do objecto.»

 

«O objectivismo faz depender a apreciação estética de um conjunto de características existentes no objecto estético.»  

 

«Assim para podermos afirmar que «a Pietá é bela» , teríamos de conhecer as características formais da arte do Renascimento e depois avaliar se a Pietá tinha ou não essas qualidades estéticas e em que grau».

(Fátima Alves, José Arêdes, José Carvalho, «Pensar Azul», Texto Editores, pag.184).

 

Há aqui uma confusão entre objectivismo estético sensorial e objectivismo estético sensório-intelectual. Então não é possível existir objectivismo estético entre os «incultos» e iletrados?  É necessária a teoria, o conhecimento formal-intelectual das propriedades do objecto para se possuir a noção objectiva de belo?

 

Se dezenas de milhar de crianças e adultos contemplam a paisagem marítima e costeira desde a fortaleza de Sagres e emitem o juízo estético «Isto é muito bonito», estamos perante um caso de objectivismo estético que não necessita de teorização, de comparação formal com outras paisagens marítimas, de estudos sobre a coloração do mar e a profundidade do horizonte, etc.

 

Objectivismo é, no essencial, a unanimidade de opinião entre um conjunto muito vasto de indivíduos sobre um mesmo objecto material (exterior) ou ideal («interior»).

 

A imprecisão na definição no manual «Pensar Azul» é óbvia: afirmar que «o objectivismo faz depender a apreciação estética de um conjunto de características existentes no objecto estético» não define objectivismo porque também o subjectivismo «faz depender a apreciação estética de um conjunto de características existentes no objecto estético.» O subjectivista, em regra, não nega características ao objecto exterior, até pode descrevê-las de forma razoavelmente objectiva mas adiciona-lhes o seu gosto pessoal, a sua interpretação íntima ...

 

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Terça-feira, 1 de Maio de 2007
É o Determinismo Compatibilista diferente do Libertarismo? (Crítica de Manuais Escolares-XIV)

O manual «Pensar Azul» da Texto Editores oferece-nos a seguinte síntese sobre as teorias que equacionam o binómio liberdade/ determinismo na acção humana:


«Teorias àcerca do problema do livre-arbítrio:


a) determinismo radical ou incompatibilismo


b) indeterminismo


c) determinismo moderado (compatibilismo)


d) libertarismo.


«Para o incompatibilismo ou determinismo radical o livre-arbítrio é incompatível com a concepção de um mundo regido por leis causais, não tendo os seres humanos livre-arbítrio.»


«Segundo o indeterminismo, alguns acontecimentos, como é o caso dos estados mentais, não têm causa, ou seja, ocorrem aleatoriamente.»


«Para o compatibilismo ou determinismo moderado o mundo é regido por leis causais mas a acção humana é livre por ser determinada mas não constrangida.»


«O libertarismo defende que as escolhas humanas não são nem casualmente determinadas nem aleatórias. São produto da deliberação racional e responsável do agente.»  


(in Filosofia 10º Ano, de Fátima Alves/José Arêdes/ José Carvalho, Revisão Científica de Carlos João Correia, Texto Editores, Lisboa 2007, pag. 62).


A confusão desta classificação é patente a quem meditar nela com lucidez.


Antes de mais a posição nº 3, intitulada compatibilismo ou determinismo moderado, é exactamente a mesma que a nº 4, intitulada libertarismo. Dizer que são diferentes é o mesmo que dizer que a Avenida da Liberdade de Lisboa quando sobe é diferente da mesma Avenida da Liberdade de Lisboa quando desce (no mesmo troço). É apenas uma questão de perspectiva, de terminologia: determinismo associado a livre-arbítrio ou libertismo (livre-arbítrio) associado a determinismo.


Aliás, sobre o libertarismo escrevem Fátima Alves, José Arêdes e José Carvalho:


«Os libertaristas consideram que as nossas acções não são causalmente determinadas nem aleatórias.Partindo do pressuposto dualista de que o mundo material e a acção humana são de natureza diferente, concluem que também se regem por leis diferentes e, por essa razão, as leis (físicas) que regem os fenómenos corporais (mundo material) não se aplicam aos fenómenos mentais. Trata-se de uma posição dualista.» (Pensar Azul, Texto Editores, pag 55).


Classificam como dualista o libertarismo mas, de forma míope, não conseguem ver que o que designam por determinismo moderado ou compatibilismo é, igualmente, um dualismo, visto pressupor leis naturais inflexíveis e vontade livre autónoma...


Se, afinal, o determinismo moderado coexiste com o livre-arbítrio que propicia acções humanas livres e responsáveis e o libertarismo admite que o mundo físico é regido por leis deterministas mas o mundo mental do livre-arbítrio não, onde está a diferença?


Em segundo lugar, a definição fixada na posição nº 2, baptizada de indeterminismo, não possui clareza. O dito «indeterminismo» inclui livre-arbítrio?  Ou não? Porque razão não há-de ser uma modalidade do libertismo/ determinismo moderado, já que é compatível o livre-arbítrio com a erupção de estados mentais irracionais, inesperados ou imprevisíveis?


É esta confusão na hierarquização de conceitos, baseada na hiper-análise (desdobramento de uma mesma definição em várias aparentemente diferentes, semeando o caos intelectual) que os professores e alunos de filosofia em Portugal absorvem de manuais cuja única virtude é a profusão de textos de diversos autores.


Que vale a universidade, na área da filosofia, se é dela que saem tantos pequenos «filósofos» com licenciaturas, mestrados e doutoramentos, que elaboram  manuais escolares deficientes e exames nacionais de filosofia repletos de erros?


O DETERMINISMO NÃO CONSIDERA ILUSÓRIA A LIBERDADE


No Manual português «Percursos, Filosofia 10º Ano» lê-se:


«Para os defensores do livre-arbítrio e do compatibilismo, o ser humano é livre e tem controlo sobre si mesmo.»


«Para o determinismo, a liberdade é uma ilusão. Não temos controlo sobre os nossos actos».


(Carlos Amorim, Catarina Pires, «Percursos, Filosofia 10º ano», revisão científica José A. Ribeiro Graça, Areal Editores, Lisboa 2007, pag. 52)


Para o determinismo a liberdade é uma ilusão?  Eis uma falácia. Em primeiro lugar, o determinismo não pensa: é um sistema objectivo, um princípio segundo o qual nas mesmas circunstâncias, as mesmas causas produzem os mesmos efeitos. Se no entanto, entendermos por determinismo o conjunto dos pensadores deterministas, a frase  continua a ser uma falácia: a generalidade dos pensadores deterministas admite o livre-arbítrio, compatibiliza as leis inflexíveis na natureza física e psicofísica com a liberdade de escolher. A liberdade não existe dentro da malha apertada do determinismo mas existe fora desta, justaposta a ela.


Carlos Amorim, Catarina Pires e José A.Ribeiro Graça confundem determinismo com fatalismo. É óbvio que estas imprecisões de conceitos mergulham alunos e professores num mundo de paralogismos, de equívocos.


Nota: Para obter um quadro geral inovador, que traçamos segundo o método dialéctico,  das teorias referentes ao livre-arbítrio, fatalismo, determinismo e indeterminismo, consultar o artigo de 6 de Maio de 2007 neste blog, intitulado «As diversas teorias sobre o livre-arbítrio e a necessidade (Crítica de Manuais Escolares-XVIII)».


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