Sábado, 23 de Dezembro de 2006
Mito e Sofisma em torno da Lógica Proposicional Simbólica

Está, hoje, na moda,  o pensamento superficial de que «a lógica proposicional é o eixo principal do pensamento filosófico e de que, sem ela, este não é possível».

 

No entanto, os pequenos pensadores adeptos desta lógica - em Portugal, com destaque para Desidério Murcho e o seu grupo antifilosófico de «filósofos» mediáticos que influenciam o Ministério da Educação - nunca souberam explicar a razão pela qual Marx, Freud, Nietzschze ou Heidegger desconheciam ou não utilizavam essa lógica e pensavam, no entanto, muito melhor do que Desidério e muitos dos «analíticos.» 

 

É que Marx, Freud, Nietzsche e Heidegger raciocinavam segundo uma lógica ideal, informal, noção desconhecida, pelo menos aparentemente, para a lógica interproposicional e prévia a esta.

A lógica proposicional bivalente, simbólica é uma tabuada que nem sequer cobre o espectro completo do pensamento. Com ela, ainda que se domine os operadores de verdade ou verofuncionais- meros nexos lógicos entre as proposições - pode-se errar na delimitação dos conceitos entre si, na sua correlação, que é prévia à formação do juízo.

 

Por exemplo, o problema de saber se  «a filosofia é exterior ou interior à ontologia» não pode resolver-se através da lógica proposicional. Porque esta é destituída de intuição substancial, é um conjunto de regras, um aparelho formal. Exemplo:  o raciocínio «Se chover, levo guarda-chuva»  representa-se nesta lógica por p -> q, sendo p =chover e q=levo o guarda-chuva. Simplificação, útil nalguns casos e deformante noutros.

 

É pela lógica ideal ou material, também chamada lógica informal - que principia com a noologia ou delimitação e caracterização dos conceitos, anterior a qualquer regra - que se responde ou se resolve o dito problema. Uns dirão que a ontologia é um domínio da filosofia, sendo portanto interior a esta. Outros dirão que a ontologia é exterior, em parte ou na totalidade, à filosofia, isto é engloba esta e outros domínios ou é completamente alheia à filosofia.

 

Desidério Murcho, repetindo o positivismo lógico, sustenta que «a questão do ser é um pseudoproblema filosófico». Trata-se de um sofisma deste professor radicado no Brasil em 2011. Quanta superficialidade sofística naquela frase! Há diversas acepções da palavra ser. E uma delas, o ser como relação predicativa, de pertença ou exclusão de A em relação a B, inclui a lógica proposicional simbólica. Se o ser é um pseudoproblema, então a lógica proposicional simbólica também o é, dado que esta é uma vertente conceptual do ser.

 

Os apologistas da lógica proposicional bivalente como «a grande, a verdadeira arte de pensar, sem a qual não existe autêntica filosofia» equivalem, de facto, aos ritualistas dentro do catolicismo, aos defensores da missa em latim como «o verdadeiro sacrifício oferecido a Deus, ao contrário da missa em vernáculo, sem valor»- como se a forma fosse mais importante do que o conteúdo e valesse a pena, aos olhos da divindade, rezar em latim no templo e ter, ao mesmo tempo, uma atitude de banditismo e fraude no plano económico-social e político, prejudicando outras pessoas, com absoluto egoísmo!

 

Agradaria a Deus , supondo que este existe, que um torturador e assassino, funcionário da ditadura chilena de Pinochet, frequentasse a missa em latim, diariamente, no intervalo das sessões de tortura de opositores que promovia? Decerto que não, do mesmo modo que não agradam à fecundidade do pensamento filosófico os formalistas analíticos que sabem de cor as tabelas de verdade mas pensam mal...

 

Aquilo que se denomina correntemente "filosofia analítica" não é senão, em larga medido, a expressão da ideologia da burguesia nesta época da globalização, a expressão formalista das relações económicas capitalistas em que o valor de verdade se mede pela capacidade de fazer dinheiro - o dinheiro é em si mesmo um símbolo - e a ideologia política é «posta de lado», aparentemente, como sendo um «pseudoproblema». Neste sentido, os Desidérios, de Portugal e de outros países, são apenas comissários políticos de uma classe social privilegiada, eurocratas, metafísicos em sentido negativo que, totalitariamente, reservam à filosofia um destino de marginalização.

 

É contra estes tecnocratas medíocres do pensamento, estes carcereiros das ideias atrás das grades do formalismo, que disfarçam a sua ausência de ideias criativas e de racionalidade holística com a memorização da tabuada das regras, e contra o seu mito/sofisma da pretensa «superioridade da lógica proposicional» que temos de defender o galeão da filosofia, carregado de ouro de teorias, nos mares agitados da cultura mediática.

 

f.limpo.queiroz@sapo.pt

(Direitos de autor reservados para Francisco Limpo de Faria Queiroz)

 

 

 



publicado por Francisco Limpo Queiroz às 17:37
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Sexta-feira, 1 de Dezembro de 2006
A falácia ad hominem é divisível em «ofensivo» e «circunstancial»? (Crítica de Manuais Escolares -IX)

 

A hiper-análise é a criação de divisões artificiais e mal estruturadas entre conceitos e conteúdos do pensamento.

 

Eis um exemplo. A propósito da falácia ad hominem - um erro ou vício de raciocínio que inclui um ataque pessoal ao contraditor, denegrindo-o ou desprestigiando-o, a fim de refutar as suas teses - escreve J.Neves Vicente no manual português de filosofia do 11º ano «Razão e Diálogo»:

 

«Falácia ad hominem

Exemplo 1-ad hominem ofensivo

O Senhor A afirma que o Estado é rico.

O Senhor A é um corrupto que foge aos impostos.

Logo, o Estado não é rico.

  

Exemplo 2- ad hominem circunstancial

Sousa Cintra defende que os portugueses bebem pouca água mineral.

Sousa Cintra é o maior proprietário das explorações de águas minerais em Portugal.

Logo, é falso que os portugueses bebem pouca água mineral»

(J.Neves Vicente, «Razão e Diálogo» Porto Editora, pag 117).

 

A imperfeição destas definições ressalta: se é aceitável que à primeira se chame falácia ad hominen ofensivo, não se adequa chamar à segunda, circunstancial. Afinal o circunstancial não se opõe ao ofensivo, não constituem ramos distintos da mesma árvore: há um circunstancial ofensivo e um circunstancial não ofensivo. O termo circunstância designa tempo e o termo ofensivo designa uma certa qualidade na relação interpessoal. Colocá-los ao mesmo nível numa classificação dentro de um mesmo tipo de falácia é um erro.

 

f.limpo.queiroz@sapo.pt
(Direitos de autor para Francisco Limpo de Faria Queiroz)

 



publicado por Francisco Limpo Queiroz às 15:36
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