Domingo, 7 de Março de 2010
Duas concepções de Deus: Supremo Arquitecto do Universo versus Pai Ingénito com Cristo e outros Éons do Pleroma

Quando um sacerdote ou bispo católico diz que «Deus não é o autor de catástrofes como as do Haiti, da Madeira, do Chile e outras, mas permite-as»  parece-me que confunde duas concepções de deus: o Supremo Arquitecto do Universo, ou autor do determinismo ou do destino, absolutamente inflexível com o seu compasso planetário, o fio de prumo e o esquadro, predestinando ao milímetro os acontecimentos; o Deus ingénito, com os seus filhos Éons, entre os quais Cristo, omipotente no plano do espírito, mas talvez não no plano da matéria. Quem permite, ou melhor, desencadeia as catástrofes é o Supremo Arquitecto, seja este o Determinismo Biofísico que deixa algum campo ao livre-arbítrio humano seja ele o autor de Destino que transforma o livre-arbítrio em mera aparência ilusória; Cristo ou os Éons que, na  visão gnóstica, vivem acima das esferas planetárias e estelares são impotentes para travar as catástrofes, as mortes, e a degenerescência vital e física ou apenas o conseguem em escassa medida – os milagres existem – porque, como dizia Max Scheler, o espírito é impotente face à vida.


Quando os maçons celebram a glória do Grande Arquitecto do Universo, celebram o Determinismo (Semi Destino) ou o Destino – a máquina do determinismo biofísico que é um destino incompleto e o suplemento de predestinação absoluta que se inscreve sobre essa máquina -, celebram a ciência, a vida biofísica. Em aparente paradoxo, os maçons batem-se pela liberdade do homem no plano material, vital e social: as liberdades de imprensa, de greve, de manifestação de rua, de partidos políticos e acção política, de religião e de ateísmo, de concepção artística, médica, cultural, científica, etc. Liberdade e destino conciliam-se?  Sem dúvida: a liberdade abriga-se sob a árvore da predestinação, é tão real quanto a sombra desta, ou seja, a liberdade é projectada pelo tronco da predestinação e só aparentemente é distinta deste.


A eficácia crescente da Maçonaria face à Igreja Católica e ao Islão reside no facto de impulsionar o conjunto das ciências profanas (matemática, informática, cibernética, física, biologia, medicina alopática, química, ecologia, astronáutica, astronomia, astrologia, etc) e as tecnologias inerentes (engenharia genética, urbanismo, cirurgia laser, Internet, aviação, automobilismo, etc), ciências que interpretam e dominam, em boa medida, a vida e a matéria.


Não se pode, no entanto, circunscrever o deísmo maçónico ao culto do Supremo Arquitecto do Universo entendido como o demiurgo ou criador do mundo material. A Maçonaria é herdeira da gnose. Os maçons que crêem num Deus espírito, o inominado, o Ain Sof da Kaballah, que estará para além do arquitecto universal e de Cristo, serão gnósticos.


Se alguém apelar a Cristo – seja este uma energia divina transcendente ou uma força anímica do inconsciente colectivo ou individual – pode obter a cura de um cancro ou de outra grave enfermidade do plano vital, mas não pode rejuvenescer 5, 10 ou 20 anos e ver desaparecer as rugas do rosto por milagre, porque Cristo não interfere no mundo da matéria mas apenas, em alguma medida, no plano vital. Assim a omnipotência do Deus espírito é no domínio do espírito e não se aplica à matéria. Sobre esta e sobre o plano vital que lhe é imediatamente superior reina o Supremo Arquitecto do Universo, a lei inflexível material-vital.


 


A GNOSE DE VALENTIM COMO EXPLICAÇÃO VEROSÍMIL DOS DOIS DEUSES, O PAI E O DEMIURGO


 


Segundo Hipólito de Roma, a gnose do neopitagórico Valentim, postula a existência de três mundos: um inteligível, onde reina o Pai ou Mónada primordial, mundo do Pleroma onde há 22 ou 30 Éons ou arquétipos (Intelecto, Verdade,  Logos, Vida, etc); outro inteligível-sensível, mas fora do Pleroma, a Ogdóada, que é a Jerusalém celeste; o terceiro, sensível, engendrado por ignorância do éon Sabedoria, como um aborto ou deficiência e expulsado do Pleroma, consiste na Hebdómada  ou região dos planetas regida por Demiurgo, o «falso deus das Escrituras Bíblicas», e na Terra cuja substância material é diabólica porque impregnada de paixões.


«Assim o próprio Pai quando estava só emitiu e engendrou Intelecto e Verdade, quer dizer, uma díada, que foi senhora, princípio e mãe de todos os eóns que enumeram dentro do Pleroma...»


«Quis ela (Sabedoria) imitar o Pai e engendrar para si sozinha, aparte do cônjugue, para produzir uma obra em nada inferior à do Pai, ignorando que o Ingénito, por ser princípio de todas as coisas e raíz, profundidade e abismo, pode engendrar só, enquanto que Sabedoria, por ser engendrada e criada depois de muitos outros, não podia deter a potência do Ingénito.» (...)


«Coincidiram todos os eóns numa unânime súplica ao Pai para que desse repouso à sofredora Sabedoria, pois esta chorava e lamentava-se do aborto que havia engendrado - que assim o designam. O Padre apiedou-se das lágrimas de Sabedoria e atendeu a súplica dos eóns e ordenou que se fizesse outra emissão. Pois não ele mesmo, dizem, mas o Intelecto e a Verdade, emitiram Cristo e o Espírito Santo em ordem à formação e diferenciação do aborto, e para consolo e tranquilidade de Sabedoria em seus lamentos.» (...)


«E para que de nenhuma maneira aparecesse ante os éons perfeitos a disformidade do aborto, o Pai emitiu ainda um novo éon único, a Cruz... emitido para guarda e defesa dos eóns, foi o Limite do Pleroma, guardando no seu interior todo o conjunto dos trinta eóns - pois este é o número dos emitidos.»


«Designa-se Limite, porque separa o Pleroma da Deficiência; Partícipe, porque participa também da Deficiência; Cruz porque está fixo, sem declinação nem movimento, para que nada da Deficiência possa aproximar-se dos éons que estão dentro do Pleroma.»  (...)


«O Demiurgo procede do temor. Isto é o que diz, segundo eles, a Escritura: "Princípio da Sabedoria é o temor do Senhor". Pois este é o princípio das paixões da Sabedoria: temeu, logo sentiu tristeza, depois perplexidade e assim desembocou na prece e na súplica.» (...)


«Existe, segundo Valentim, a Tétrade, "fonte da natureza eterna que tem raízes", e Sabedoria, da qual procede a criação psíquica e material. Sabedoria chama-se Espírito, o Demiurgo chama-se alma, o diabo, príncipe deste mundo, Beelzebul, príncipe dos demónios.» (...)


«Também o Demiurgo emitiu almas, e nisto consiste a substância das almas: Aquele é, segundo eles, Abraão, e estes são os seus filhos. Da substância material e diabólica fez o Demiurgo os corpos para as almas.»


(Hipólito de Roma, Refutação de todas as heresias, in Los Gnósticos II, Págs. 142-150, Editorial Gredos, Madrid; a letra negrita é colocada por mim)


 


Muito antes de Saramago, já os gnósticos do século II depois de Cristo questionaram a natureza da Bíblia e do deus que ela nomeia e exalta. «Tudo isto é metafísica, pura literatura religiosa – dirão agnósticos e ateus – e constitui um desvio da investigação filosófica». Responderei que o ateísmo e a religiosidade possuem o mesmo valor gnoseológico de um ponto de vista positivista porque não é possível demonstrar irrefutavelmente a existência de Deus nem a sua inexistência. Portanto, esta especulação possui o seu valor, porque conduzida sob a batuta da razão, ainda que Schopenhauer tenha dito que a gnose foi uma tentativa de pôr Deus (o Pai e os Éons) a salvo da acusação de ter criado um mundo imperfeito, onde o mal prepondera.


A submissão à vontade de Deus no mal e na decrepitude que nos acontece é a submissão à lei do Supremo Arquitecto do Universo e a igreja católica considera-a necessária para propiciar a ascensão do fragmento do espírito em cada um ao mundo do espírito universal supramaterial. Mas a maçonaria e os diversos socialismos – social-democrata, nacionalista terceiro-mundista, marxista-leninista, anarquista - não se conformam com a aceitação do destino e crêem que o humanismo activo e solidário é um motor integrado no destino que permite cumprir este. A visão ateia ou indiferentista do cosmos e da vida, excluindo o culto a divindades, é implicitamente um culto ao deus terrestre e planetário, o Supremo Arquitecto, às suas leis inflexíveis. Exclui, contudo, o mundo do espírito extraplanetário, o único onde existe o livre-arbítrio verdadeiro, o Cristo e os Éons de que fala a gnose valentiniana. Ora este mundo intervém episódica e fragmentariamente no mundo vital-material. Ser ateu ou agnóstico significa, em princípio, dar culto, objectiva e inconscientemente, a uma das duas metades de Deus, ao deus arquitecto, ao Adão Kadmon ou criador que a gnose apontou como deus da matéria e do mal, senhor dos corpos e dos instintos vitais, do nascimento e da corrupção e morte. Ser crente no Deus uno e trino dos católicos, na trindade hindu, no Deus uno do Islão deveria ser, em princípio, prestar um culto simultâneo às duas metades de deus, ao supremo Arquitecto e aos eóns superiores. Mas para os gnósticos o corpo não é o templo da alma mas sim o cárcere da alma, feito de paixões impuras e inferiores - a epitimia de que já Platão falava. O catolicismo, o islamismo, o budismo, o hinduísmo e outras religiões são, para a gnose, um culto híbrido ou mesmo um culto absolutamente equivocado dado que centrado no Supremo Arquitecto. Para os valentinianos, os gnósticos ou pneumáticos não pecam, estão além dos parâmetros de bem e de mal definidos pelos homens da igreja ou psíquicos, que adoram o Demiurgo e não o Pai Ingénito.


A via gnóstica bifurca-se: uma corrente gnóstica é absolutamente libertina, desliga o uso do corpo da noção de pecado, desenvolve os prazeres corporais até à perversão (caso do satanismo de Alester Crowley, dos klistis de Rasputine no século XX que praticavam o acto sexual selvagem); outra corrente é ascética (caso da Fraternidade Branca Universal de Omran Aivanov, dos perfeitos cátaros da Idade Média) pela simples razão de que, sendo o corpo a fonte e o recipiente do mal, não dever ser estimulado e conservado através da luxúria ou da gula. .


www.filosofar.blogs.sapo.pt


f.limpo.queiroz@sapo.pt


© (Direitos de autor para Francisco Limpo de Faria Queiroz)



publicado por Francisco Limpo Queiroz às 09:22
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