Terça-feira, 23 de Março de 2010
A ambígua interpretação de Nietzsche sobre o ser de Parménides

Nietzsche abordou a filosofia de Parménides de um modo algo equívoco, sem o suficiente grau de análise, isto é, sem apreender todas as faces do poliedro gerado pela palavra grega ser (einai). Escreveu:

 

«Na filosofia de Parménides, preanuncia-se o tema da ontologia. A experiência não lhe ofereceu em lado algum um ser, como ele o imaginava, mas, em virtude de o ter podido pensar, concluiu que podia existir: conclusão esta que se baseia no pressuposto de que nós temos um órgão de conhecimento que penetra na essência das coisas e é independente da experiência. Segundo Parménides, a matéria do nosso pensamento nem sequer se encontra na intuição, mas é trazida de outro lado, de um mundo extra-sensível, ao qual temos directamente acesso pelo pensamento. Só que Aristóteles, contra todas as conclusões idênticas, já realçara que a existência nunca faz parte da essência, que a existência nunca pertence à natureza das coisas. «Por isso, não se pode deduzir do conceito de “ser” – cuja essentia é precisamente o ser – a existentia do ser. A verdade lógica dessa antinomia do “ser” e do “não-ser” é absolutamente vazia, quando não pode ser dado o objecto que serve de fundamento, a intuição, a partir do qual esta antinomia é deduzida por abstracção; (…)

«Mas logo que se busca o conteúdo da verdade lógica da oposição – “o que é, é; o que não é, não é! – não se encontra, de facto, uma única realidade que seja estritamente conforme a essa oposição; posso muito bem dizer de uma árvore “ela é”, quando a comparo com todas as outras coisas, que “chega a ser” quando a comparo com ela mesma num outro momento, ou que “ela não é”, por exemplo, “ainda não é uma árvore” quando a observo em estado de arbusto. As palavras não passam de símbolos para as relações das coisas entre si e connosco, nunca afloram algures a verdade absoluta; e a palavra “ser” só designa a relação mais geral que liga todas as coisas entre si, como a palavra “não-ser”. Mas se é impossível demonstrar até a existência das coisas, a relação das coisas entre si, o que se designa por “ser” e por “não-ser”, não pode sequer fazer-nos avançar um passo para a região da verdade.» (…)

«É absolutamente impossível ao sujeito pretender ver ou conhecer algo para além de si mesmo, tão impossível que o conhecimento e o ser são as duas esferas que mais se opõem.» (Nietzsche, A filosofia na idade trágica dos gregos, Edições 70, Págs 70-71; a letra negrita é posta por mim).

 

Quando, ao referir-se ao ser, escreve que «a existência nunca pertence à natureza das coisas. Por isso, não se pode deduzir do conceito de “ser” – cuja essentia é precisamente o ser – a existentia do ser»  Nietzsche equivoca-se: a essência do ser não é "o ser" mas sim um objecto uno, imóvel, ingénito, imutável, esférico, homogéneo, eterno, como se deprende de um texto abaixo.  A palavra ser tem o duplo significado de existência, enquanto verbo, e de essência, enquanto substantivo.

Ao dizer que «a verdade lógica dessa antinomia do “ser” e do “não-ser” é absolutamente vazia, quando não pode ser dado o objecto que serve de fundamento, a intuição, a partir do qual esta antinomia é deduzida por abstracção» Nietzsche está a copiar Hegel que sustentou que no modo mais abstracto, sem possuir qualidade nenhuma  (exemplo: espírito, matéria, natureza física, humanidade, etc,) o ser é tão vago que se confunde com o não ser. É o ser como existência abstracta, não o ser como essência. Nietzshze ignora aqui a definição essencialista de ser dada por Parménides como algo de "uno, imóvel, imutável, eterno, esférico" a qual, obviamente, é oposta à de não-ser, como algo de "múltiplo, móvel, mutável, perecível, não esférico". Dispara, pois, sem acertar no alvo.

 

Não é também verdade em toda a sua extensão a frase de Nietzschze «As palavras não passam de símbolos para as relações das coisas entre si e connosco, nunca afloram algures a verdade absoluta». Há palavras que são mais que símbolos: são portas de contacto imediato, toques na "pele" do ser das coisas, são partes fonéticas ou gráficas, pseudópodes dos próprios seres. As palavras «Portugal» e «Brasil», por exemplo, são, para os respectivos povos, nomeação do ser, motores afectivos e cognitivos, não símbolos, mas «carne» de seres colectivos.

Há, pois, uma interpretação existencial do termo ser e uma interpretação essencial do mesmo termo – distinção que Nietzsche não faz, com clareza, optando por esta última interpretação, essencialista.

Nietzschze comete, no início do texto acima, um erro ao considerar que o “ser” em Parménides só pode ser interpretado como essência, como objecto.

 

Parménides escreveu dando um sentido diferente à palavra ser, isto é, o sentido de existir, constituir realidade:

«O que pode dizer-se e pensar-se deve ser (einai). Isto é o que te ordeno que consideres. Afasto-te, pois, desta primeira via de investigaçãoe depois daquela pela qual os homens ignorantes vagueiam bicéfalos; pois a impotência guia no seu peito o pensamento vacilante; são arrastados, cegos e surdos simultâneo, estupefactos, pessoas sem juízo, para quem o ser e o não ser são considerados como o mesmo e não o mesmo e para quem o caminho de todas as coisas é regressivo.

«Pois nunca se provará que sejam os não-entes (mé éonta). (Parménides in Simplício, Física 117, 4, fragmento 6).

 

 

Neste texto, Parménides faz coincidir o pensamento e a linguagem com o ser (existir) isto é, a essência, pensada e dizível, deve possuir existência, opõe a existência à não existência e critica os dialécticos, como Heraclito, que proclamam que «as coisas são e não são» e que «há um eterno retorno nas coisas».

 

Em outra passagem, Parménides delineia a essência do ente ou ser como objecto:

«..O ente (éon) é ingénito e imperecível, pois é completo, imóvel e sem fim. Não foi no passado, nem será, pois é agora todo em simultâneo, uno contínuo. » (Parménides in Simplício, Física 145, 1, fragmento 8).

«Mas porque o seu limite é o último, é completo em toda a parter, semelhante à massa de uma esfera bem redonda, igual em força a partir do centro por todas as partes; pois não é necessário que seja maior nem menor aqui ou ali.» (Parménides in Simplício, Física 146, 15, fragmento 8).

 

Para Parménides, o ser como ente – algo que é - é a totalidade das essências, das coisas, o invólucro que tudo abarca e interpenetra- daí o facto de possuir esfericidade. Não está num mundo aparte – de onde se infere isso? – mas é a unidade subjacente à multiplicidade do mundo das aparências, dos fenómenos, que é mistura de ser (o uno, o imóvel, o contínuo, o imutável) e de não-ser (o múltiplo, o móvel, o descontínuo, o mutável). O ente é o próprio cosmos sob o aspecto da unidade e da eternidade.

 

Nietzchze não distingue, pois, de forma explícita e cristalina, as duas interpretações de ser em Parménides:

1)      Como existência geral: é.

2)      Como essência geral do cosmos: uno, ingénito, imperecível, imóvel, contínuo, esférico.

O facto de o ser se deixar apreender pelo pensamento não significa, ao contrário do que sugere Nietzshze, que o ser seja ideia, pensamento, essência metafísica, Deus ou númeno. Não. O ser poderá constituir o invólucro físico uno e imóvel de todos os entes que se agitam e compõem o cosmos. Seria então o lado formal-global, indiviso, do cosmos.

 

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f.limpo.queiroz@sapo.pt

© (Direitos de autor para Francisco Limpo de Faria Queiroz)



publicado por Francisco Limpo Queiroz às 17:14
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