Sábado, 20 de Novembro de 2010
Crítica de Louis Althusser ao PCF na revolução de Maio-Junho de 1968 e o marxismo hoje em Portugal

Em «L ´Avenir dure Longtemps», publicado em 1992, o filósofo francês marxista Louis Althusser criticou o Partido Comunista Francês pela sua posição retrógrada, de travão da contestação popular, durante a revolução estudantil-operária de Maio-Junho de 1968:

 

«Ora, em Maio-Junho de 1968, numerosos operários em numerosas fábricas julgavam a revolução efectiva, esperavam-na, e só aguardavam para a fazerem uma palavra de ordem do Partido. Toda a gente sabe o que se passou. O Partido, como sempre com vários comboios de atraso e aterrorizado pelos movimentos de massas argumentando que estes estavam nas mãos dos esquerdistas (mas por culpa de quem?) fez tudo o que era possível para impedir a junção, durante os combates muito violentos que ocorreram, dos grupos estudantis e do ardor das massas operárias que realizavam então a mais longa greve de massas da história mundial, chegando para isso ao ponto de organizar manifestações separadas. O Partido organizou de facto a derrota do movimento de massas forçando a CGT (que para dizer a verdade não teve que violentar, dados os laços orgânicos que mantinha com ela) a sentar-se à tranquila mesa das negociações económicas e, não as tendo os operários da Renault aprovado, adiando-as para mais tarde, ao mesmo tempo que recusava também qualquer contacto com Mendès em Charléty, numa altura em que o poder gaullista estava praticamente vacante, com os ministros a abandonar os ministérios e a burguesia a fugir das grandes cidades para o estrangeiro levando consigo os seus bens.» (Louis Althusser, "O futuro é muito tempo", Edições Asa, pag 243; o negrito é colocado por nós).

 

O PCF intitulava-se "marxista-leninista" mas subverteu a doutrina leninista ao recuar ante o poder da burguesia gaulista e desmobilizar uma situação revolucionária. Era pois, nesse momento, um partido dominado pela pequena burguesia jacobina que não quer avançar para a destruição do capitalismo mas apenas cortar algumas cabeças da hidra do capital monopolista. Um partido que dispunha de uma forte base operária.

 

Se considerarmos a situação em Portugal, que poderá em 2011 evoluir para um patamar revolucionário devido ao desemprego elevado e à redução brutal dos salários reais dos trabalhadores, somos obrigados a reflectir sobre a natureza de partidos "anti capitalistas" como o PCP e o Bloco de Esquerda: ambos têm grupo parlamentar e nenhum se propõe  derrubar a democracia parlamentar capitalista e instaurar a ditadura do proletariado. Sabe-se que a vida parlamentar corrompe os deputados com as suas benesses.

 

Por isso, pese embora o carácter minúsculo de grupos anarquistas e marxistas revolucionários, à esquerda do PCP e do BE, é naqueles movimentos ultra esquerdistas - e também em grupos de extrema direita nacionalista - que reside, ao menos potencialmente, o fermento da violência revolucionária de massas. O PCP tem muitos anos de reformismo centrista, isto é, reformismo dotado de linguagem revolucionária, foi o aliado preferencial em Portugal da URSS estalinista e brejnevista, nunca denunciou o "goulag" e contemporizou com a burguesia vencedora do golpe militar de 25 de Novembro de 1975. Foi o principal partido que impulsionou a greve geral de 24 de Novembro de 2010 e é a coluna vertebral, com a CGTP, das lutas económicas contra o capital em Portugal. Partido de resistência, que sabe utilizar a legislação, os mecanismos do parlamentarismo e as alavancas do movimento sindical e cultural  associativo com grande mestria, o PCP é indispensável às massas trabalhadoras. Contudo, a sua matriz, estalinista mais do que leninista,  impele-o a aliar-se à ala esquerda da social-democracia (PS) e a promover a contenção do movimento popular em limites aceitáveis para a burguesia. Ainda recentemente, em 2007-2009, o PCP de Mário Nogueira apoiou, até certo ponto, e sabotou a luta dos professores portugueses que, em 8 de Março e 8 de Novembro de 2008, encheram as ruas do centro de Lisboa em protesto contra a burocratização do ensino e das carreiras profissionais. Os partidos comunistas ocidentais, com décadas de vida sob democracias capitalistas, e uma influência política entre 5% e 30%  do eleitorado, são aparelhos pesados, que disciplinam, retardam, impulsionam e sabotam as lutas políticas revolucionárias.

 

A análise da estratégia do PCP de Álvaro Cunhal e Jerónimo de Sousa foi feita, com certa acuidade, pelo histórico dissidente Francisco Martins Rodrigues, natural de Moura, falecido em 22 de Abril de 2008. Contudo, não conseguiu formular uma plataforma leninista, por ser assumidamente ultra esquerdista e não perceber duas coisas:

 

1) A importância do jogo parlamentar, farsa montada pelos capitalistas que controlam a presidência da República, o PS, o PSD e o CDS, jogo que não está politicamente ultrapassado e exige participar nas eleições nacionais e autárquicas para propagandear a revolução socialista. Assim o grupo de Francisco Rodrigues, "Política Operária", ficou à margem da corrente popular, salvo intervenções pontuais. Devia procurar acordos com o PCP ou o BE, ou concorrer isolado, para ter visibilidade e influência de massas.

 

2) A preponderância da contradição capital multinacional- nação portuguesa sobre a contradição proletariado-burguesia, isto é, o facto de a dominação do capitalismo multinacional em Portugal colocar na ordem do dia a palavra de ordem «Portugal fora da União Europeia» e «Portugal fora da NATO». Isto supõe a estratégia da frente patriótica de libertação nacional, uma etapa anti imperialista, que exige a aliança da classe operária com a burguesia nacional e o campesinato, contra a burguesia compradora, agente directa do capital estrangeiro, e o imperialismo. Deve notar-se que, a haver uma revolução socialista em Portugal, ela degenerará em capitalismo de estado totalitário se for conduzida pela corrente leninista-estalinista. Para não degenerar, facto bastante improvável, deverá assentar no pluralismo extensivo, no mínimo, a três correntes: socialistas de esquerda, comunistas leninistas e anarquistas.

 

 www.filosofar.blogs.sapo.pt
f.limpo.queiroz@sapo.pt

 

© (Direitos de autor para Francisco Limpo de Faria Queiroz)

 


 

 

  

 



publicado por Francisco Limpo Queiroz às 17:37
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