Quinta-feira, 9 de Janeiro de 2014
Questionar Miguel Real e a «Nova Teoria do Mal»: a instabilidade é o mal?

 Escrito nos comboios da linha de Sintra por quem se indigna com a corrupção da classe política "democrática" portuguesa, ao serviço da oligarquia, foi lançado, em Fevereiro de 2012, o  livro «Nova Teoria do Mal» de Miguel Real que, no prefácio,  afirmava desconhecer «em absoluto a qualidade e as consequências na mente do leitor» desta obra. O livro tem os seus méritos ou não fosse Miguel Real um filósofo do Portugal de hoje, superior a muitos catedráticos de filosofia que são apenas epígonos de filósofos consagrados, intelectuais de segunda ou terceira categoria.

 

O MAL É A INSTABILIDADE?

 

Consideremos as teses basilares de Miguel Real sobre a natureza e o papel do mal e do bem:

 

«1.1.3 - O mal é o princípio da destruição de um ser, da sua identidade, biológica, física ou moral, da sua quididade ou essência - a ameaça de escassez que lhe reduz o desejo de posse, a supervalorização do poder dos outros, que lhe reduz e humilha o desejo de domínio, a incapacidade de ver a sua imagem como a de um ser física, social e moralmente realizado.

 

1.1.4 - O sentimento de felicidade emerge na consciência quando as quatro faces primitivas do mal são figuradas como ameaça longínqua: a escassez, a dor física, o sofrimento psíquico e a morte.

 

1.1.6. - Assim concebido, o mal é o que de mais extenso existe na natureza, o mal é profundamente democrático e o bem aristocrático, o mal convive connosco e o bem só de vez em quando, em momentos de harmonia (biológica, psíquica e social).

 

1.2. - Ontologicamente, o mal é essencial, e o bem, preservando a identidade essencial de um ser (um ser vivente), acidental, provisório, não raro fruto das circunstâncias, isto é, do cruzamento de uma pluralidade de acasos.

 

1.1.2 - O bem reflecte apenas equilíbrios instáveis no seio de uma ininterrupta instabilidade. O mal é a instabilidade

 

(Miguel ReaL, Nova Teoria do Mal, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 2012, páginas 102-104; o destaque a negrito é posto por mim)

 

Discordo desta definição de mal como instabilidade.

A instabilidade é um ingrediente de dupla face, não é necessariamente má. O Don Juan, o homem conquistador de mulheres, necessita de instabilidade para se sentir feliz: é um mal para ele estar durante meses ou anos preso a uma só mulher, necessita de variar. O cinéfilo aprecia ver todas as semanas filmes diferentes: essa instabilidade visual e ideática fá-lo feliz. Todos precisamos de alguma instabilidade alimentar - a fome, a semi saciedade, a variação de sabores e comidas - para ser felizes. O nadador em piscina ou no mar está num estado de instabilidade ao dar braçadas e avançar rompendo a resistência da água: essa instabilidade é o bem.

 

Ao contrário do que sustenta Miguel Real, o bem é tão ontológico quanto o mal. É uma visão antidialética e errónea, a meu ver, identificar o mal com o permanente e o bem com o acidental, o ocasional. Nessa perspectiva a sucessão das quatro estações do ano, permanente, seria o mal e os dias floridos, com harmonia corporal, seriam o bem.

 

O equilíbrio harmónico de um ser vivo que, segundo Miguel Real, é o bem, é feito de instabilidades, sejam elas de mudança gradual, a conta-gotas, ou de mudança brusca. Nem o equilíbrio é necessariamente o bem nem a instabilidade é necessariamente o mal. Pensemos no equilibrio de uma escrava que tem, a cada passo de conter-se, e manter uma atitude humilde ante as humilhações e a violência que o senhor exerce sobre ela, sob pena de ser morta ou torturada fisicamente caso resista. Esse equilíbrio é um mal sustentado sobre o bem da preservação da vida física da escrava.  

 

Se estamos vivos e procuramos o triunfo sobre o mal - a doença, a velhice, a guerra civil, a carência de amor e sexo, o desemprego, a fome e a miséria - é porque o bem é superior ou, pelo menos igual, em intensidade, à malignidade das condições biofísicas e sócio-políticas da existência.

 

Note-se que às quatro faces do mal apontadas por Miguel Real - escassez (termo que designa falta de alimentos e bens materiais), dor física, sofrimento psíquico e morte - haveria que adicionar outras faces: a fealdade (escassez de beleza), a opressão física e política (escassez de liberdade individual e social) a ignorância (escassez de sabedoria).

 

A FINITUDE É CONSEQUÊNCIA DO MAL?

Miguel Real postula ser  o finito um resultado do mal que seria o princípio ontológico da vida e de todas as coisas. Escreve:

 

«1.3.2   Enquanto temporalidade, o mal estabelece os limites provisórios e finitos do ser.

«1.3.3    Porém, a finitude não se constitui como princípio ontológico do mal, mas a sua consequência. A finitude é uma consequência do mal, não seu elemento constitutivo.

«1.3.4.  A finitude reside na incapacidade de um ser ultrapassar as características identitárias que o definem. A finitude delimita o espaço e o tempo ontológicos de um ser, demarcando-lhe o campo de possibilidades, negando-lhe a superação deste.»

 (Miguel ReaL, Nova Teoria do Mal, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 2012, páginas 105-106; o destaque a negrito é posto por mim)

 

Por que razão a finitude não será uma expressão e consequência do bem? Ao contrário do que postula Miguel Real, muita da finitude é componente ou consequência do bem. Outra é componente e consequência do mal.

A finitude do apetite estomacal é um bem: se o apetite fosse infinito durante a refeição não se interromperia a ingestão de alimentos e a indigestão, a doença ou a morte atingiriam a pessoa.

A dor física é finita e a sua finitude é um bem ainda que, em si mesma, a dor seja um mal. Portanto, o finito possui ambivalência: é um bem quando faz cessar o mal e é um mal quando faz cessar o bem. A força física e a violência de um criminoso é finita, finitude que constitui um bem.

 

Portanto, a finitude é tanto consequência do bem como do mal. A forma de cada pessoa é finita - e isso é consequência do mal ou do bem que constitui um organismo humano perfeito? A finitude de uma maçã, as suas reduzidas dimensões, são um mal ou uma consequência do mal? Ou será antes um bem por haver adequação entre o tamanho e a textura da maçã e os dentes humanos que a mastigam?

 

O BEM NÃO É O CONTRÁRIO DO MAL?

 

Miguel Real sustenta que o bem não é o contrário do mal:

 

«3.1.1.  O bem não é o contrário do mal. Existe uma tensão essencial entre mal e bem. O primeiro assume o centro e o segundo a periferia, enquanto limite daquele.

 

3.3. Assim:

a) O mal é substancial, o bem é acidental;

b) O mal é um estado permanente, o bem é um estado provisório;

c) O mal é ontológico, o bem é ôntico;

d) O mal é ético, fonte da ética; o bem, da moral;

e) O mal é a acção natural, o bem uma reacção, um artifício para aplacar e controlar o mal.»

 

(Miguel ReaL, Nova Teoria do Mal, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 2012, páginas 105-106; o destaque a negrito é posto por mim).

 

Se bem e mal não são contrários entre si, o que são? É uma visão anti dialéctica, porque bem e mal são efectivamente contrários como alto e baixo,  quente e frio, yang e yin. O facto de o mal ser o polo dominante da contrariedade não retira ao bem o seu carácter de contrário do mal.

 

UMA ARTIFICIAL OPOSIÇÃO DA ÉTICA, ONDE O BEM ESTÁ AUSENTE,  À MORAL

 

Miguel Real dissocia por completo ética de moral: a ética expandiria o eu, fazendo o mal, a moral reprimiria o eu, criando o bem, equilíbrio provisório, força reactiva ao mal. Mesmo admitindo legitimidade na distinção entre ética - bem e mal no estado puro, prático - e moral - bem e mal teorizados pela sociedade, de forma supra-individual - é anti dialéctico postular que o carácter natural do homem individual, o ethos, só alberga o mal. Escreve Real:

 

«2.4 A moral é, assim, um travesti da ética, uma máscara, uma alteridade, um flato de voz, sem existência ontológica própria, ou seja um avatar. O homem natural não tem moral, só ética - a ética da luta, da violência, da posse e da apropriação, da vida e da morte, da sobrevivência, isto é, da maledicidade. Por esta, deve expandir as possibilidades, contidas no seu campo ontológico, ou retraí-las, isto é exercer a sua liberdade segundo o grau proporcional à existência da comunidade em que se insere.»

 

«2.9  Porém, se a moral é relativa, a ética não o é, fundada no mal ontológico, universal e permanente.»

 

(Miguel ReaL, Nova Teoria do Mal, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 2012, página 154-157; o destaque a negrito é posto por mim).

 

Se o bem não existisse no plano ético, natural, ainda que ocupando um lugar secundário face ao mal, a moral nem sequer existiria. Bem e mal existem no interior da ética, na profundidade ontológica do ser humano. O que se manifesta exteriormente, socialmente, como bem - exemplo: «não roubarás, não escravizarás ninguém» - para conter o mal intrínseco a cada ego não é meramente exterior, possui residência no coração e na razão de cada homem. Há uma tendência ética para fazer o bem, patente, por exemplo, na escolha de amigos e familiares e lealdade para com estes e na prestação de solidariedade a desconhecidos, a par da tendência ética para fazer o mal, patente, por exemplo, na exploração dos outros, na agressão física, no sequestro ou no assassinato, na maledicência, na chantagem  e no exercício egoísta do poder político-social ou familiar.

 

A NOVA RELIGIÃO HUMANISTA, SEM TEMPLOS NEM RITOS

 

A influência de Nietzschze na crítica ao cristianismo é visível em Miguel Real que propõe a extinção da ideia de Deus, já que esta deforma e antropomorfiza essa possível entidade que nunca se cruza com a vida humana e com a vida do universo:

 

«1.6.4  Deus, tal como a Europa o tem pensado nos últimos 2000 anos, é uma invenção humana. Foi inventado pelo homem como a única entidade que escapa ao mal. Foi (é) uma reacção infantil contra o mal. Uma reacção fundada na pretensão, no orgulho, alimentada pelo medo e rebeldia contra as faces do mal, a dor, o sofrimento psíquico, a morte e a escassez. Deus é, sempre, a última defesa contra o mal. Deus, com os atributos que o temos pensado, tornou-se o protector do homem, vestido humanamente de pai. »

 

«1.11 O deus humano retirar-se-á definitivamente da consciência dos homens, deixando emergir, em seu lugar, puro, vibrante e intenso, o sentimento de sagrado, o mesmo que se ora se encontra recalcado pelo discurso teológico e pelos preceitos institucionais das igrejas.»

 

«1.12  Porém, o sentimento do sagrado permanecerá vazio, sem objecto, sem religião, sem templo, sem livro ou ensinamento sagrado. Será apenas um sentimento -o sentimento que une cada homem a cada homem e cada ente ao ser e todos a todos, ou tudo a tudo. Deus, vazio, constituir-se-á como o laço ontológico dessa união, o vínculo substancial e sentimental, espiritual e metafísico, mental e social dessa aliança. Cada homem será a sua religião, cada homem será o seu deus  e cada partícula de espaço um templo, sem doutrina e sem liturgia, sem sacerdote nem teólogo, muito menos hierarquias, sempre indecentemente humanas.»

 

(Miguel ReaL, Nova Teoria do Mal, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 2012, páginas 84-87; o destaque a negrito é posto por mim).

 

Mas se o mal é o grande e único princípio ontológico, como sustenta Miguel Real, como poderá o sentimento que une cada homem a cada homem estabelecer um sentimento do sagrado que supere os teísmos, as teologias tradicionais? Se o homem inveja, odeia, potencial ou realmente, o seu semelhante, o esvaziamento da ideia de Deus ou deuses transcendentes que contêm a promessa de salvação beatífica ( o Paraíso, o Nirvana, etc) ou de castigo post-mortem ( os Infernos, o karma pesado de futuras reencarnações) só poderá piorar as relações humanas. O mal é o permanente, o universal substancial - diz Miguel Real. Como então transmutá-lo em bem? É impossível.

 

As novas gerações de adolescentes, parcialmente descristianizadas, já revelam, no comportamento, a "fase adulta da humanidade" que Miguel Real teoriza para o século XXI, sem deus ou deuses antropomórficos: hoje, há adolescentes que são deuses de si mesmos e não se coibem de agredir, oprimir ou roubar os semelhantes, sem os travões que a moral cristã, judaica, islâmica ou budista colocava, normativamente, aos seus pais, avós ou bisavós.

 

As ideias de Nietzschze do super-homem, que não venera nenhum deus além de si mesmo, são o puro regresso à barbárie de onde as religiões da equidade das almas (judaísmo, gnose neoplatónica, cristianismo, budismo, etc) retiraram, com maior ou menor eficácia, o homem. Não creio que o mundo sem deuses venha a ser uma realidade definitiva e irreversível, nem julgo que isso seja a melhor solução para uma vida humanamente digna e saudável. A crença em deuses espíritos, transcendentes à natureza biofísica ou imanotranscendentes a esta, subsistirá sempre.

 

 

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f.limpo.queiroz@sapo.pt

 

 

 

© (Direitos de autor para Francisco Limpo de Faria Queiroz)



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