Domingo, 8 de Dezembro de 2013
Teste de filosofia do 11º ano, turma B, Dezembro de 2013

 

Eis um teste de filosofia sem perguntas de resposta múltipla que exigem responder com cruzes e não desenvolvem a capacidade discursiva escrita do aluno.

Agrupamento de Escolas nº 1 de Beja
Escola Secundária Diogo de Gouveia , Beja
TESTE DE FILOSOFIA, 11º ANO TURMA B
4 de Dezembro de 2013. Professor: Francisco Queiroz

 

I

1) Considere o seguinte silogismo:

 

«Nenhum urso é animal marinho».
«Esta foca é um animal marinho».
«Nenhuma foca é urso».

 

A) Indique, concretamente, duas regras da construção formalmente válida do silogismo que foram infringidas no silogismo acima.

 

B) Indique o modo e a figura do silogisno.

 

 

II

David Hume escreveu: «Aquela acção da imaginação pela qual consideramos o objecto ininterrupto e invariável ...» e Parménides escreveu: «Ser e pensar são um e o mesmo».

 

2) Interprete estes pensamentos conexionando-os com idealismo, realismo, empirismo e racionalismo.

 

 

3) Relacione, justificando:

 

A) A lei do salto qualitativo e os quatro passos gnosiológicos de Descartes desde a dúvida hiperbólica à demonstração do mundo.

 

B)  As sete relações filosóficas segundo Hume e lei da contradição principal.

 

C) As três formas de conhecimento, segundo Bertrand Russel, e princípio do terceiro excluído

 

D) Retórica, sofística e democracia.

 

 

 

CORRECÇÃO DO TESTE, COTADO PARA 20 VALORES

 

1) A) Eis duas regras de validade infringidas no silogismo acima: a conclusão segue sempre a parte mais fraca, se uma premissa é particular a conclusão tem de ser particular (ora isso não sucede, porque a premissa «Esta foca...» é particular e a conclusão «Nenhuma foca...» é universal); nenhum termo pode ter na conclusão maior extensão do que nas premissas (ora o termo "foca" é particular na premissa e universal na conclusão). (VALE DOIS VALORES).

 

1) B) O modo do silogismo é EIE (E= proposição universal negativa; I= proposição particular afirmativa). A figura do silogismo é a 2ª : PP (termo médio como predicado em ambas as premissas). (VALE UM VALOR)

 

2) Hume quer dizer as percepções empíricas são como que fotos desligadas umas das outras, não são contínuas e é a imaginação que fornece a ideia de continuidade dos objectos, a invariabilidade, o filme das percepções. Assim não há a alma, nem o eu, nem a casa, nem a árvore, nem a montanha - são ideias da imaginação formadas a partir de percepções cuja origem se desconhece. Isto é idealismo: a matéria passa a ser um conjunto de percepções empíricas. Nesta medida, pode atribuir-se a Hume um certo racionalismo, pois o idealismo é um racionalismo: através do raciocínio deixa de se acreditar na existência independente do mundo de matéria. Em Parménides dá-se algo inverso e algo análogo a Hume: o inverso é o facto de que não há descontinuidades, a percepção empírica é ilusão, o pensar está a todo o instante centrado no ser uno, imóvel, invisível, esférico, eterno; o análogo é que a percepção sensorial não nos fornece o "ser". Ao empirismo de Hume (" as ideias nascem das impressões sensíveis e da imaginação") contrapõe-se o racionalismo de Parménides (" Só o pensar, o raciocínio e a intuição inteligível captam o ser"). São dois idealismos, numa certa interpretação; mas em Parménides pode tratar-se ainda, ao invés, de um realismo crítico, porque apesar de cores, sons, cheiros, formas mutáveis serem ilusões, a esfera do ser pode ter carácter material, pode ser formada por uma matéria imperceptível aos sentidos. (VALE QUATRO VALORES).

 

3) A) Os quatro passos do raciocínio de Descartes são pautados pelo racionalismo, doutrina que afirma que a verdade procede do raciocínio, das ideias da razão e não dos sentidos:

Dúvida hiperbólica ou Cepticismo Absoluto( «Uma vez que quando sonho tudo me parece real, como se estivesse acordado, e afinal os sentidos me enganam, duvido da existência do mundo, das verdades da ciência, de Deus e até de mim mesmo »).

Idealismo solipsista («No meio deste oceano de dúvidas, atinjo uma certeza fundamental: «Penso, logo existo» como mente, ainda que o meu corpo e todo o resto do mundo sejam falsos»). 

Idealismo não solipsista («Se penso tem de haver alguém mais perfeito que eu que me deu a perfeição do pensar, logo Deus existe). 4º 4º Realismo crítico («Se Deus existe, não consentirá que eu me engane em tudo o que vejo, sinto e ouço, logo o mundo de matéria, feito só de qualidades primárias, objetivas, isto é, de existe fora de mim»). Realismo crítico é a teoria gnosiológica segundo a qual há um mundo de matéria exterior ao espírito humano e este não capta esse mundo como é. Descartes, realista crítico, sustentava que as qualidades secundárias, isto é, as cores, os cheiros, os sons, sabores, o quente e o frio só existem no interior da mente, do organismo do sujeito, pois resultam de movimentos vibratórios exteriores e que o mundo exterior é apenas composto de formas, movimentos e tamanhos.

A passagem de um a outro destes quatro passos confirma a lei do salto qualitativo que se enuncia assim: a acumulação, lenta e gradual, quantitativa, de um certo factor num fenómeno origina, em dado instante, um brusco salto de qualidade nesse fenómeno. Neste caso o acumular de reflexões levou Descartes a demonstrar Deus (salto qualitativo) e, a partir deste, o mundo exterior (novo salto qualitativo). (VALE QUATRO VALORES).

 

 

3) B) As sete relações filosóficas são capacidades da nossa mente, modos de interpretar as coisas, não existem no mundo exterior: semelhança, identidade, relações de tempo e lugar, proporção de quantidade ou número, graus de qualidade, contrariedade e causação. Por exemplo, água e fogo não são contrários entre si fora da mente humana, real e objectivamente, mas são apenas contrários dentro desta que as coloca numa relação de contrariedade. A lei da contradição principal sustenta que um sistema de muitas contradições se pode reduzir a uma só grande contradição , a principal, composta de dois grandes blocos, deixando eventualmente na zona neutra uma ou outra contradição secundária. Neste caso posso aplicar assim, entre outros modos possíveis, a contradição principal: de um lado, as relações de tempo e lugar, que contextualizam o ente de modo especial, e do outro lado, todas as outras. (VALE TRÊS VALORES).

 

3) C) Os três tipos de conhecimento segundo Bertrand Russell são: o saber-fazer, que é um conhecimento empírico-técnico, como andar de bicicleta, nadar, jogar futebol; o conhecimento por contacto, isto é, empírico directo, como ver uma planície alentejana, ouvir uma música dos Bubedanas, saborear gaspacho; o conhecimento proposicional, isto é, racional ou empírico-racional, como por exemplo, «A soma dos três ângulos internos de um triângulo é 180º», «Portugal entrou na Comunidade Económica Europeia em 1 de Janeiro de 1986». O princípio do terceiro excluído estabelece o seguinte: uma coisa ou qualidade ou pertence ao grupo A ou ao grupo não-A, não havendo terceira hipótese. Apliquemo-lo: o conhecimento  é proposicional ou é não proposicional, e nesta segunda hipótese inclluem-se o saber-fazer e o conhecimento por contacto (VALE TRÊS VALORES).

 

 

3) D) A retórica é a arte de bem discursar oralmente - ou por escrito, de forma derivada - a um auditório, no sentido de impressionar e persuadir. Bem discursar não significa estar isento de sofismas (erros voluntários de raciocínio) e paralogismos (erros involuntários de raciocínio). A sofística é a filosofia e a retórica dos sofistas, pensadores gregos anti essencialistas que ensinavam retórica, direito, política, etc, com remuneração. Assentava no cepticismo, que duvida de tudo o que fôr além das percepções empíricas, no relativismo que diz que a verdade varia com os povos, as classes e grupos sociais, no subjectivismo que postula que a verdade varia de pessoa a pessoa, no pragmatismo, que prefere os resultados práticos, a utilidade da situação real aos ideais "inúteis" e metafísicos. A democracia, entendida como autogoverno do povo através do debate livre nas ruas e em assembleias populares, de uma das quais emerge um governo votado pelos cidadãos, implica retórica: uns agentes políticos discursarão explicando por que se deve nacionalizar ou municipalizar certos bens, outros discursarão por que se deve privatizar esses bens. No meio destes discursos, existe a sofística, a arte de convencer o auditório com "habilidades" discursivas. (VALE TRÊS VALORES).

 

 

www.filosofar.blogs.sapo.pt

f.limpo.queiroz@sapo.pt

 

 

 

© (Direitos de autor para Francisco Limpo de Faria Queiroz)



publicado por Francisco Limpo Queiroz às 10:26
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