Domingo, 29 de Setembro de 2013
Hegel: a matéria é um universal, é lei e não coisa

 

Na sua obra fundamental «Fenomenologia do espírito», Hegel define a matéria como um princípio universal, semi indeterminado. A forma seria então o factor de individualização.  

 

Isto parece opor-se a Aristóteles e a Tomás de Aquino que sustentaram ser a matéria o princípio de individuação, aquilo que deforma, ao aplicar-se à matéria, uma mesma essência ou forma específica (eidos) e cria este e aquele indivíduo singular (Sócrates e Heráclito teriam a mesma essência ou forma específica, que é homem, mas a matéria de cada um deles estabeleceu as singularidades, o nariz achatado de Sócrates diferente do de Heráclito, etc).  Escreveu Hegel:


«E assim também a relação entre ácido e base e o seu movimento mútuo constituem uma lei, na qual estas contraposições se manifestam como corpos. Sem embargo, estas coisas separadas não têm nenhuma realidade; a força que as dissocia não pode impedi-las de entrar de novo em um processo, já que não são senão esta relação. Não podem, como um dente ou uma garra, permanecer para si e mostrar-se de este modo. O facto de que a sua essência consista em passar de um modo imediato a um produto neutro é o que faz do seu ser um ser superado em si ou um universal; e o ácido e a base só possuem verdade como universais. Assim, pois, do mesmo modo que o vidro e a resina podem ser tanto electricidade positiva como negativa, o ácido e a base não se acham vinculados como propriedade a esta ou àquela realidade, mas que cada coisa só é ácida ou básica relativamente; o que parece ser decididamente ácido ou base adquire nas chamadas "sinsomatías" a significação contraposta relativamente a outro. Deste modo, o resultado das experiências  supera os momentos ou as animações como propriedades das coisas determinadas e liberta os predicados dos seus sujeitos. Estes predicados devêm, como de verdade o são, encontrados somente como universais; em razão de esta independência recebem, portanto, o nome de matérias, que não são nem corpos nem propriedades, e há que guardar-se muito, com efeito, de chamar corpos ao oxigénio, etc, à electricidade positiva e negativa, ao calor, etc. »

 

«A matéria, pelo contrário,  não é uma coisa que é, mas o ser como universal ou em modo de conceito. A razão que é ainda instinto estabelece esta atinada diferença sem a consciência de que , ao experimentar a lei em todo o ser sensível supera precisamente, assim, o seu ser somente sensível e de que ao apreender os seus momentos, como matérias, a sua essencialidade converte-se para ela em algo universal e enuncia-se, nesta expressão, como algo sensível não sensível, como um ser incorpóreo e, sem embargo, objectivo».

 

(Hegel,Fenomenología del espíritu, pag 155-156, Fondo de Cultura Económica, México; o destaque a negrito é posto por mim).

 

Esta é uma grande passagem de Hegel, de grande profundidade, sobre a dialética: o ser das coisas é transitório e aguenta-se ou firma-se no seu contrário, com o qual dá o salto para um novo estado; a matéria não é uma coisa que é mas o ser como universal, dado que é o substrato de todas as transformações ou mudanças de forma de cada ente concreto. .

 

Cada um dos contrários é susceptível de passar ao outro ou a um estado intermédio: o ácido e a base, que são termos relativos, produzem um sal ou neutro. A matéria é lei e não coisa, com a ressalva de que a lei atravessa a coisa, todas as coisas. E a matéria aparece definida em dois planos: como ser universal, sensível (exemplo: o ar que há por toda a parte, a terra que pisamos e cheiramos) e como conceito (exemplo: o ar concebido como mistura de oxigénio, azoto, hidrogénio, gases raros, etc). Como sempre, a dialética do ser e do conceito ou reflexão do ser.

 

É notável ainda a tese de Hegel de que há um instinto da razão que leva esta, por exemplo, a generalizar que todas as pedras caem para a Terra ao serem largadas no ar, uma vez que nos limitamos a fazer esse tipo de experiências 100, 1000 ou 50 000 vezes e a generalização que daí parte é por instinto ou intuição da razão. Assim a indução (amplificante) não é cem por cento lógica, racional, mas tem a sua quota parte de pressentimento, instinto.

 

Karl Popper e Heidegger, entre outros, atacaram a dialética sem a compreender verdadeiramente: nenhum deles possuía a profundidade de Hegel que foi, talvez, o Aristóteles dos nossos dias.

 

Os filósofos analíticos, com as suas divisões intelectualmente imperfeitas - por exemplo, Simon Blackburn com a sua divisão das correntes metaéticas em determinismo duro/ determinismo moderado/ libertismo/ indeterminismo, sem conseguir encaixar o "libertismo" no determinismo nem no indeterminismo... - também se revelaram incapazes de pensar de forma genuinamente dialetica.  Thomas Nagel, Kripke ou Peter Singer não foram nem são capazes da profundidade e da riqueza conceptual de Hegel.

 

 

www.filosofar.blogs.sapo.pt
f.limpo.queiroz@sapo.pt

 

© (Direitos de autor para Francisco Limpo de Faria Queiroz)



publicado por Francisco Limpo Queiroz às 14:23
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