Sexta-feira, 20 de Setembro de 2013
Questionar Eckhart Tolle e a função do "eu" racional

 

O budismo zen está em expansão no Ocidente desde há décadas. Parece ser a solução dos problemas do homem mas, na sociedade post-industrial de hoje é um paliativo para o nível alto de stress.  Eckart Tolle, o filósofo alemão budista zen escreveu:

 

«Sempre que uma morte acontece, sempre que uma forma de vida se extingue, Deus, que não tem forma, nem se manifesta na matéria, brilha através da brecha deixada pelo ser que desaparece. É por isso que a morte é a coisa mais sagrada da vida. É por isso que a paz de Deus pode tocá-lo por meio da contemplação e da aceitação da morte ». (Eckhart Tolle, A voz da serenidade, pag 115, Pergaminho).

 

A objecção a este pensamento é de carácter formal: a morte está fora da vida, logo não pode ser a coisa mais sagrada desta.

 

SÓ A INFELICIDADE NECESSITA DE UM EU?

 

 

O combate ao "eu" que alimenta a mente racional é uma direção estratégica desta filosofia.

 

«A infelicidade necessita de um "eu", construído pela mente, que tenha uma história, uma identidade conceptual. Precisa do tempo - do passado e do futuro. E o que é que sobra quando excluímos o passado e o futuro da nossa infelicidade? Sobra o momento "que é", simplesmente. (Eckhart Tolle, A voz da serenidade, pag 125, Pergaminho).

 

Um dos dogmas desta visão ´do mundo é a de que centrar-se no passado ou no futuro faz as pessoas infelizes, ou por desespero de factos negativos ocorridos ou por ansiedade do futuro. E isto é fruto da mente racional, que tudo quer definir e prever. Objecção: é verdade que a infelicidade necessita de um "eu" com história mas a felicidade também necessita. Pois não dá felicidade a uma pessoa quando ela recorda o que o seu "eu" experimentou e acumulou como bens, uma vida honesta de trabalho que teve, as viagens ao estrangeiro que fez, os amores que teve, o conforto de uma casa que adquiriu? É óbvio que dá.

 

Abandonar o "eu" é possível e pode levar a relaxamento agradável, a ser momentamente feliz, mas o situar-se no "eu" é também fonte de felicidade desde que essa fixação não seja absoluta e doentia. Se uma mãe cuida dos filhos, cuida do seu "eu", ainda que, em simultâneo, possa subalternizá-lo aos "eus"  de cada um dos filhos. O amor à família é um "eu colectivo". E isso é causa de infelicidade ou de felicidade?  De ambas as coisas mas, em condições normais, é mais causa de felicidade do que de infelicidade: é bom ter avòs, pai, mãe,irmão, esposa ou marido, filhos, tios, primos...São, em regra, as pessoas que nos socorrem, com maior probabilidade, em caso de a desgraça económica ou física nos atingir.

 

A MENTE RACIONAL É UM MAL EM SI MESMA?

 

 

 Eckart Tolle opõe a mente racional, estreita e centrada no "eu",  à consciência (cósmica) que tudo abarca e, vivendo em nós, é descentrada. Só esta última permitirá viver plenamente o presente.

 

«Grande parte do sofrimento e da infelicidade surge quando aceita cada pensamento que lhe vem à cabeça como sendo verdadeiro. Não são as situações que o fazem infeliz. Podem causar-lhe dor física mas não o tornam infeliz. São os seus próprios pensamentos que o tornam infeliz. São as interpretações que faz, as histórias que conta a si mesmo» (Eckhart Tolle, A voz da serenidade, pag 126, Pergaminho).

 

«Qual é o erro básico? A identificação com o pensamento racional. » (Eckhart Tolle, A voz da serenidade, pag 29, Pergaminho).

 

 

Objeção: nem todos os pensamentos nos tornam infeliz, nem tudo o que a mente racional gera (exemplo: o estudo da astronomia, da matemática, da química, etc) é mau, a ciência, a cultura em geral  distraem-nos do vazio, do tédio absoluto. A mente racional não é um mal. Mal é a sua hiper-actividade, a sua dominância muito nítida, o seu sobredimensionamento em relação à consciência, ao lado irracional, metafísico-criativo da mente, que repousa na ordem da natureza.

 

«O pensamento que não se fundamenta na consciência torna-se disfuncional e egoísta. A inteligência destituída de sabedoria é extremamente perigosa e destrutiva.» (ibid, pag 32).

 

«Qualquer tipo de preconceito significa identificação com a mente racional. Significa que já não consegue ver o outro ser humano como ele é, mas apenas o seu conceito pessoal desse ser humano. » (ibid, pag 31).

 

Objeção: há preconceitos bons. Os índios dos Estados Unidos da América, depois de verem a civilização do homem branco devastar-lhes as pradarias, liquidar-lhes a caça, difundir as bebidas alcoólicas e as indústrias modernas, formaram o preconceito de que «o homem branco é um predador, destrói os bosques só para ter madeira e construir cidades, não respeita o Grande Espírito da Natureza, o silêncio, a voz dos pássaros».

 

 

OS DOGMAS SÃO PRISÕES DA MENTE E, POR ISSO, SÃO NECESSARIAMENTE MAUS?

 

«Os dogmas - religiosos, políticos ou científicos - surgem da crença errada de que o pensamento pode enclausurar a realidade ou a verdade. Os dogmas são prisões conceptuais colectivas. E o mais estranho é que as pessoas adoram as suas celas, porque elas lhes oferecem uma sensação de segurança e uma falsa impressão de que "sabem". Não há nada que tenha infligido mais sofrimento à humanidade do que os dogmas.» (Eckhart Tolle, ibid, pag 28-29; o destaque a negrito é colocado por mim).

 

Toda a vida humana assenta em dogmas. Por exemplo, centenas de milhões de pessoas acreditam no dogma de que o casamento heterossexual proporciona a felicidade e a estabilidade emocional aos cônjugues e seus descendentes. Seriam mais felizes se abolissem esse dogma? Os casamentos desapareceriam o que, numa certa perspectiva anarquista, libertária, até seria benéfico pois «ninguém é propriedade de ninguém» e «a fidelidade conjugal é uma atitude egoísta». Biliões de pessoas acreditam que há um ou vários deuses, veículos da bondade universal e da salvação, terrena ou não,  de cada indivíduo.

 

Se esses biliões de pessoas deixassem de acreditar e as igrejas, as mesquitas, as sinagogas, os templos budistas e hinduístas ficassem vazios, ao abandono, e as orações às divindades cessassem por todo o mundo, seriam aquelas pessoas mais felizes? Certamente, libertariam das amarras certos desejos corporais: comer de tudo, praticar sexo de forma libertina, não dar esmola, agredir o próximo quando lhes apetecesse, etc. Não, os dogmas não são todos maus. O dogma de que «matar pessoas é, salvo raras excepções, um mal» e o dogma de que «devemos respeitar a liberdade de consciência e de expressão de cada um» são dogmas bons.

 

Quamto aos dogmas políticos como, por exemplo, «a democracia liberal é superior ao fascismo e ao comunismo estalinista, porque preza as liberdades do indivíduo», deverão ser abandonados?

 

O ataque aos dogmas em abstracto é falacioso.

 

 

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f.limpo.queiroz@sapo.pt

 

© (Direitos de autor para Francisco Limpo de Faria Queiroz)



publicado por Francisco Limpo Queiroz às 15:43
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4 comentários:
De Anando a 18 de Maio de 2014 às 19:20
Boa tarde!Opnião é sempre uma ferramenta.Se boa ou ruim,depende de quem as interpreta.O grande mestre Tolle fala a partir de princípios orientais.Portanto,a sua linguagem é bem diferente da ocidental,embora ele também seja um ocidental.Os termos que ele usa,expressões,tudo tem uma conotação própria.Um espiritualista não se preocupa com filosofia.Ele procura guiar as pessoas que queiram a uma maior liberdade e paz interior.Não vejo o que ele ensina e ozen budismo como um paliativo não.Vejo como libertação da mente egóica.Do ativismo e da alienação na qual a nora sociedade está mergulhada.E,quem desperta jamais faria libertinagem.Jamais um filósofo vai entender estas coisas a não ser qudm aja um despertamento espiritual.E,quanto a religião...Bem,se um homem precisa de religião com seus dogmas para ser bom,esse homem não é bom.Ele é um cão adestrado.A verdade meu amigo é que pessoas iluminadas como ele incomoda muita gente.Esvazie a sua mente,silencie e experimentarás o que nenhum raciocio lógico pode lhe oferecer.
Namastê


De Francisco Limpo Queiroz a 18 de Maio de 2014 às 23:22
Esvaziar a mente é para quem tem a barriga cheia, uma situação material confortável. Se você não tiver emprego, nem comida, nem amigos ou familiares que lhe dêem apoio e abrigo, de pouco ou nada lhe servirão os ensinamentos de mestre Eckhart Tolle. Estes só funcionam dentro de certos limites porque o mundo da matéria é tão poderoso quanto o do espírito. O socialismo faz mais a favor da humanidade do que o espiritualismo zen.


De Anando a 19 de Maio de 2014 às 00:46
O socialismo fez e faz sim.A Venezuela,Cuba entre outros o que diga!Esse é um dos problemas do socialismo:ativismo,fazer,ter.Mas antes,o negócio é Ser.Se vc acredita que o socialismo é o salvador do mundo,é com vc e ninguém tem nada a ver com isso.Agora,se vc é tão convicto de suas crenças,por que tem que criticar,julgar os outros que pensam e agem diferente de vc?Isso lhe incomoda?A dúvida é tão cruel assim?Ou vc tem medo do profundidade do que mestre Tolle diz?Td o que fazemos ou dizemos não é por acaso.Boa noite!


De Francisco Limpo Queiroz a 19 de Maio de 2014 às 03:12
Quando me refiro a socialismo, não me limito ao comunismo, refiro-me ao sindicalismo democrático que defende os trabalhadores empregados e desempregados, refiro-me aos sociais-democratas que defendem que o Estado social e as cooperativas devem TER na sua mão meios de produção (Fábricas, Terras) que permitam aos pobres SER gente humana. Você separa mecanicamente o SER do TER com a sobranceria dos ricos que ganham 5000 euros ao mês e seguem cursos de mestre Exckart Thole. Lula da Silva e o movimento dos sem terra fizeram mais a favor de milhões de brasileiros do que qualquer pensador Zen. Antes da meditação, está o feijão e a sopa de vegetais que permitem nutrir o corpo. E isto sim é profundidade: o espírito radica na profundidade do corpo físico.


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