Quarta-feira, 11 de Setembro de 2013
José Reis e a «refutação» da teoria da potência, de Aristóteles

No seu livro «Nova Filosofia», José Reis, um catedrático de filosofia da universidade de Coimbra, tentou refutar a teoria do acto e da potência de Aristóteles. 

É sabido que Aristóteles definiu dois modos de cada ente: o acto , isto é, aquilo que o ente é no presente (por exemplo: este sobreiro é sobreiro desenvolvido em acto); a potência, isto é aquilo  que virá a ser, em princípio, no futuro ( exemplo: a semente de um sobreiro é o sobreiro, como árvore, em potência). José Reis argumenta que a potência já está contida no acto ou realidade presente e não extravasa esta e, por isso, «não existe». Escreve:

 

« E eis o que é a potência: as próprias coisas, que já aí estão , mas não se vêem, porque estão implicitadas nelas mesmas.

 

«§ 19  Destruição da potência

 

E eis porque não há a potência: porque essa implicitude, só é tal, verdadeiramente, quando for o nada.

É muito simples. A potência são as próprias coisas (as coisas que depois vão aparecer), nas suas determinações exactas, nem mais nem menos, não é verdade? Pois bem, então, ou essas determinações estão aí ou não estão. Se não estão, óptimo, não estão e acabou. Se estão, por pequeninas ou vagamente que se lá pensem, isso mesmo já é um acto, já é a explicitude, e não a potência, a implicitude que se queria; esta mesma só, rigorosamente, o nada.

É irremediável. A potência não passa de uma ambiguidade. Dizemos que já lá temos as coisas, mas em absoluto não as podemos ter porque, por minimamente que elas já lá estejam, que elas já lá estejam nas suas próprias determinações, elas já não são a potência, mas o acto. (...) Redondamente,não há potência.» ( José Reis, Nova Filosofia, páginas 47-48, Edições Afrontamento, Porto; o negrito é colocado por mim ).

 

 

Dizer que a potência não existe é negar o processo de transformação do ovo de galináceo em galo. As determinações do galo adulto já estão contidas, embrionariamente, no ovo mas este não é de modo nenhum, o galo adulto. Essa diferença entre ovo e galo adulto, esse processo de desenvolvimento por vir é a potência. As formas em potência estão no futuro. Potência significa forma futura . Dizer que a potência não existe é dizer que o futuro não existe. Isso pode ser um ponto de vista enviesado de filosofia analítica, fragmentadora, mas não é o ponto de vista da dialética, holística: o futuro existe em potência e desfaz-se a cada instante no acto presente.

 

José Reis não refutou em nada a teoria de Aristóteles do acto e da potência. Esta última, a potência, possui um pouco de acto (em todo o Yang há um pouco de Yin, diz a filosofia chinesa do Tao) e o que José Reis fez foi isolar esse aspecto estático de acto esquecendo o aspecto do devir dinâmico, do futuro, que é o aspecto principal da potência. Reis não possui aqui, como em outros domínios, um pensamento dialético, holístico e dinâmico.

 

A POTÊNCIA NÃO É NÚMENO, AO CONTRÁRIO DO QUE DIZ JOSÉ REIS

 

 E escreve ainda José Reis a propósito de haver um pinheirinho minúsculo contido em cada pinhão:

 

«Dirão: a potência não se pode observar. Certo, a potência é um númeno, algo só pensado, e não um fenómeno e, como tal, não se pode observar.Mas deveria poder sê-lo...» .(José Reis, Nova Filosofia, página 49) 

 

José Reis não domina o conceito kantiano de númeno. Não o distingue de conceito empírico. A ideia de pinheiro, só pensada, nunca é um númeno porque tem forma: tronco, ramagem, pinhas, etc. O númeno é um ente imaterial, fora do espaço e do tempo, incognoscível, que não tem forma, como por exemplo, Deus, liberdade, mundo como totalidade. A potência (dynamis, em grego) é um conceito empírico ou uma disposição dinâmica da natureza biofísica  a que corresponde uma sucessão de conceitos empíricos: o sobreiro em potência é um conceito mentalmente visualizado, a expectativa do que virá a ser esta semente de sobreiro que tenho na mão.

 
 

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f.limpo.queiroz@sapo.pt

 

© (Direitos de autor para Francisco Limpo de Faria Queiroz)



publicado por Francisco Limpo Queiroz às 16:08
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