Domingo, 1 de Setembro de 2013
Nicolai Hartmann e as duas idealidades

Hartman, um grande filósofo alemão da fenomenologia (20 de Fevereiro de 1852- 9 de Outubro de 1950)  falou em ser em si de ordem ideal independente e de ser em si, de ordem ideal aderente, fisicamente real.

 

«O verdadeiro ser-em-si de ordem ideal aparece de duas formas:


«Pode definir-se a primeira como uma idealidade independente. Isto quer dizer que o ser ideal não se apresenta como inerente a qualquer outra coisa, ou como devendo repousar necessariamente sobre qualquer coisa diferente; por conseguinte, ele não aparece como uma essência pertencente a um ser real. Os objectos desta natureza são sem dúvida irreais e contudo existem em si e ao mesmo tempo, se os encaramos do ponto de vista da esfera a que pertencem, existem por si, quer dizer que são independentes, autónomos; não têm necessidade de se apoiar numa realidade que não seja de ordem ideal.»

 

«É uma idealidade deste género que possuem todas as estruturas que constituem a lógica pura e as matemáticas, o direito ideal e a esfera dos valores (pouco importa que se trate de valores vitais, éticos, estéticos ou ainda de outros, se é que existem).  (...)

 

«Gnoseologicamente falando, a idealidade "independente" deve distinguir-se da idealidade "aderente". Como o nome indica, esta só aparece inerente a um real, como essência de um real. Sem dúvida, a teoria pode pode destacá-la, separá-la, «colocá-la entre parenteses». Mas esta separação, trata-se em primeiro lugar de a efectuar: ela nunca é dada completamente feita. (...)

 

«É desta idealidade que relevam as essências, as leis, as relações essenciais descobertas pela fenomenologia, pouco importando, ademais, o seu conteúdo. A diferença entre "as essências de actos" e as "essências de objectos" é aqui secundária. (...) O físico e o psíquico são igualmente reais; pertencem um e outro a uma esfera comum, a esfera da realidade ôntica. Só as suas estruturas categoriais são diferentes. (...)

«Há ainda muitas outras coisas a ter em conta na idealidade "aderente".»

 

(Nicolai Hartmann, Les principes d´une Métahysique de la Connaissance, Tome II, pag 198,199, 200 Aubier, Editions Montagne, Paris; o destaque a negrito é da minha autoria.)


Hartmann revela-se, neste texto, um platónico: a ordem ideal dos valores (o Bem, o Belo, a Sabedoria, etc) e do ser (o Uno, o Círculo, o Triângulo, o Número, etc) existe em si mesma, autonomamente, fora da realidade material. Esta última é a realidade ideal aderente, dado que adere, imita, dentro das limitadas possibilidades da matéria, as formas perfeitas da idealidade independente.


Mas ao dizer que o físico e o psíquico são igualmente reais - típica posição da fenomenologia - Hartman parece não levar em conta que é o psíquico, a inteligência, que permite aceder à idealidade superior ou autónoma e captá-la, inteligi-la, ao passo que o físico permanece em baixo, como puro suporte da inteligência. Serão reais em igual grau?

 

 

 

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f.limpo.queiroz@sapo.pt

 

© (Direitos de autor para Francisco Limpo de Faria Queiroz)



publicado por Francisco Limpo Queiroz às 19:09
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