Terça-feira, 20 de Abril de 2010
O mobilismo antidialéctico na distinção ciência-filosofia, de Deleuze e Guattari

Félix Guattari e Giles Deleuze delinearam, do seguinte modo, a distinção entre ciência e filosofia:


«A ciência não tem por objecto conceitos, mas funções que se apresentam como proposições em sistemas discursivos. Os elementos das funções chamam-se functivos (fonctifs, no original francês). Uma noção científica é determinada não por conceitos, mas por funções ou proposições. É uma ideia muito variada, muito complexa, como se pode ver já no uso que dela fazem já respectivamente as matemáticas e a biologia; é, contudo, esta ideia de função que permite às ciências reflectir e comunicar. A ciência não tem nenhuma necessidade da filosofia para estas tarefas. Em contrapartida, quando um objecto é cientificamente construído por funções, por exemplo, um espaço geométrico, falta procurar nele o conceito filosófico que não está de modo nenhum dado na função. Mais exactamente, um conceito pode tomar, por componentes, functivos de toda a função possível, sem ter minimamente o menor valor científico, mas com o objectivo de marcar diferenças de natureza entre conceitos e funções.»


«Nestas condições, a primeira diferença está na atitude respectiva da ciência e da filosofia em relação ao caos. Define-se menos o caos pela sua desordem que pela velocidade infinita com a qual se dissipa toda a forma que aí se esboça. É um vazio que não é um nada, mas um virtual, contendo todas as partículas possíveis e extraindo todas as formas possíveis para desaparecem brevemente, sem consistência nem referência, sem consequência. É uma velocidade infinita de nascimento e de esvanecimento. Ora a filosofia pergunta como guardar as velocidades infinitas ganhando sempre consistência, dando uma consistência própria ao virtual. O crivo filosófico, como plano de imanência que recorta o caos, selecciona movimentos infinitos do pensamento e mobila-se com conceitos formados como partículas consistentes viajando tão rápidas como o pensamento. A ciência tem toda uma outra maneira de abordar o caos, quase inversa: ela renuncia ao infinito, à velocidade infinita, para ganhar uma referência capaz de actualizar o virtual. Guardando o infinito, a filosofia dá uma consistência ao virtual por conceitos; renunciando ao infinito, a ciência dá ao virtual uma referência que o actualiza, por funções. A filosofia procede com um plano de imanência ou de consistência; a ciência, com um plano de referência. No caso da ciência, é como uma paragem da imagem. É um fantástico abrandamento de velocidade, e é por este abrandamento que a matéria se actualiza, mas também o pensamento científico capaz de a penetrar por proposições. Uma função é uma Marcha lenta


(Gilles Deleuze e Félix Guatari, Qu est-ce que la philosophie?, Les Éditions de Minuit, Pág 111-112; a letra negrita é posta por mim)


 


Ao dizer que «Uma noção científica é determinada não por conceitos, mas por funções ou proposições» e  que «o conceito filosófico que não está de modo nenhum dado na função» Deleuze e Guattari equivocam-se. As funções ou proposições incluem conceitos ou baseiam-se neles – exemplo: a curva designada por parábola é uma função, um movimento descrito segundo determinada equação matemática, mas conserva, simultaneamente, o conceito de curva tangencial a uma recta. A função não exclui o conceito, é o conceito ou rede de conceitos em movimento, em transmutação, do mesmo modo que o filme não exclui a fotografia. Opor o conceito filosófico à função científica é um erro antidialéctico, tal como o é opor liminarmente a palavra à proposição. A palavra está contida na proposição, não se opõe extrínseca e frontalmente a esta, do mesmo modo que a filosofia está contida em cada ciência. Em outro sentido, potencial, a proposição está contida na palavra, como a árvore está contida na semente ou na raiz que cresce e como a ciência está contida na filosofia.


As funções salientam o aspecto dinâmico da vida e da matéria, os conceitos privilegiam o aspecto estático da vida e da matéria. Sem estática não há dinâmica e vice-versa. São os conceitos, que Deleuze e Guattari, vinculam à filosofia mais velozes que as funções, que estes autores remetem para a ciência? Parece-me que não. Em todo o caso, estes autores deveriam fundamentar com exemplos a sua tese. Por exemplo o conceito filosófico de "ser" é mais veloz que o conceito científico de "electrão"?  Porquê? Em que medida é ou não é? Nada disto é claro na vasta citação que coloquei acima. Há pois um mobilismo antidialéctico nesta distinção: a filosofia seria, para Deleuze e Guattari, puro movimento, quase absoluto, e a ciência o movimento lento, fotográfico, para captar tal ou tal zona da realidade. Isto contrasta com a ideia tradicional de o filósofo como contemplativo, imobilizando o fluxo do real para nele penetrar pela intuição e o raciocínio.


Deleuze e Guattari proclamam que a ciência renuncia ao infinito, ao contrário da filosofia. Mas como renuncia ao infinito, se os físicos teóricos especulam hoje sobre as 30 ou 40 possíveis dimensões do espaço e se o universo é considerado espacialmente infinito? E como é que a ciência matemática renuncia ao infinito se “menos infinito” e ao “mais infinito” constituem horizontes da série de números? A ciência não se debruça menos sobre a janela do infinito do que a filosofia. A diferença entre ambas reside no facto de a filosofia abarcar no seu seio várias perspectivas de ciência contrárias ou contraditórias entre si, estando simultaneamente dentro – como núcleo especulativo, não testado ou não testável – e fora de cada ciência. A filosofia articula finito e infinito, uno e múltiplo,  tal como a ciência o faz.


Opor a filosofia e a ciência como se opõem a imanência e a referência é um discurso ambíguo. Por que não há de a ciência representar a imanência – ao contrário do que defendem Guattari e Deleuze – e a filosofia a referência – conceito que tanto pode indicar transcendência como imanência?


www.filosofar.blogs.sapo.pt


f.limpo.queiroz@sapo.pt


© (Direitos de autor para Francisco Limpo de Faria Queiroz)


 



publicado por Francisco Limpo Queiroz às 16:28
link do post | comentar | favorito
|

mais sobre mim
pesquisar
 
Setembro 2017
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2

3
4
5
6
7
8
9

10
12
13
14
15
16

17
18
19
20
21
22
23

25
26
27
28
29
30


posts recentes

Erros na tradução portugu...

O sublime moral para Scho...

Seísmos en México en Astr...

Área 9º-10º do signo de T...

Neocátaros versus budismo...

Teologia neocátara: sem j...

Herbert Marcuse: o caráct...

Breves reflexões de Agost...

Area 15º-20º de Cancer y ...

Posições de Júpiter em Ma...

arquivos

Setembro 2017

Agosto 2017

Julho 2017

Junho 2017

Maio 2017

Abril 2017

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Agosto 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Setembro 2006

Agosto 2006

Julho 2006

Maio 2006

Abril 2006

Março 2006

Fevereiro 2006

tags

todas as tags

favoritos

Teste de filosofia do 11º...

Pequenas reflexões de Ab...

Suicídios de pilotos de a...

David Icke: a sexualidade...

links
Fazer olhinhos
blogs SAPO
subscrever feeds