Domingo, 9 de Junho de 2013
Incompreensões de António Marques sobre o criticismo de Kant

Em um artigo de sete páginas do «Dicionário do Pensamento Contemporâneo» sobre o Criticismo, o catedrático de filosofia António Marques não demonstra entender, genuinamente, o conceito de criticismo em Kant.

 

Em nenhum parágrafo do artigo António Marques afirma um princípio basilar do criticismo de Kant: o idealismo ou irrealismo da matéria, do mundo dos fenómenos (casas, comboios, árvores, paisagens, etc). É esse princípio que constitui a base da revolução coperniciana do conhecimento que, antes de Kant, já Berkeley e David Hume haviam operado.

 

Marques insiste em falar no sistema da dualidade da filosofia crítica, querendo com isso referir a dualidade entre fenómeno e númeno, sujeito e objecto, razão e entendimento. E opõe a filosofia da identidade de Schelling e Hegel à filosofia crítica de Kant sem perceber que as primeiras são ideal-realismo e esta última é puro idealismo físico como o idealismo de Berkeley. Ademais, a filosofia do absoluto de Hegel do uno englobante de tudo, baseia-se também em dualidades - real e racional, conceito objectivo e conceito subjectivo, finito e infinito, etc - e trinalidades - tese, antítese e síntese, ser em si, ser fora de si e ser para si,etc- o que  retira clareza ao fio do raciocínio de António Marques pois a identidade não exclui a dualidade. Este escreve, referindo-se ao idealismo alemão:

 

«Ainda que, de formas diferentes, os seus autores fundamentais (Fichte, Schelling, Hegel) insistiram na artificialidade, na inconsistência lógica ou nas insuficiências ontológicas do dualismo próprio do criticismo. Pares conceptuais fundamentais como entendimento/ razão, sujeito/ objecto, activo/ passivo, fenómeno/ coisa em si foram objecto de uma crítica que via no dualismo desta filosofia o principal obstáculo à fundação da filosofia do absoluto.» (António Marques, Criticismo, Dicionário do Pensamento Contemporâneo, direcção de Manuel Maria Carrilho, página 62, Círculo de Leitores, 1991).

 

Sublinho que a expressão «idealismo alemão», empregue com excessiva leveza nas histórias e dicionários de filosofia, é profundamente ambígua: o idealismo material de Kant opõe-se ao idealismo formal de Hegel que é um realismo de matriz espiritualista. Como é que Kant caracterizou a filosofia crítica ou criticismo? Do seguinte modo:

 

«Só a crítica pode cortar pela raíz o materialismo, o fatalismo, o ateísmo, a incredulidade dos espíritos fortes, o fanatismo e a superstição, que se podem tornar nocivos a todos e, por último, também o idealismo e cepticismo. (...)

«A crítica não se opõe ao procedimento dogmático da razão no seu conhecimento puro, enquanto ciência (pois esta é sempre dogmática, isto é, estritamente demonstrativa, baseando-se em princípios a priori, seguros) mas sim ao dogmatismo, quer dizer, à presunção de seguir por diante apenas com um conhecimento puro por conceitos (conhecimento filosófico), apoiado em princípios...» (Kant, Crítica da Razão Pura, Prefácio da Segunda Edição (1787), pagina 30, Fundação Calouste Gulbenkian).

 

Não é clara a diferença entre materialismo e ateísmo na frase de Kant acima - a menos que este queira significar por materialismo o que se chama realismo, doutrina da existência de um mundo físico independente das consciências humanas. É paradoxal que Kant use a «crítica» contra o idealismo quando ele mesmo admite ser idealista transcendental - a menos que esteja a visar como idealismo apenas a doutrina de Berkeley.

 

 Marques escreveu:

 

«Lembremo-nos que característica inamovível do programa crítico é uma síntese entre os interesses pela estrutura transcendental do conhecimento e a preservação da estrutura dualista, estrutura de toda a teoria da experiência que lhe é própria. Por outro lado o problema do sentido não é, como se viu, limitado à positividade da experiência, pelo que o criticismo se afasta decisivamente de teses neo-empiristas que na primeira metade do nosso século ocuparam um espaço importante e por onde aliás passaram alguns autores fundamentais.» ( António Marques, Criticismo, in Dicionário do Pensamento Contemporâneo, direcção de Manuel Maria Carrilho, página 62-63 , Círculo de Leitores, 1991).

 

Não é integralmente verdade o que António Marques escreve acima. O criticismo de Kant, ao negar validade, no plano positivo, da verificação, à metafísica, abriu caminho ao neoempirismo lógico, em particular do círculo de Viena. O problema do sentido, entendido como campo verificacionista da verdade, é similar no kantismo e no neoempirismo lógico: só os objectos da experiência empírica e os objectos matemáticos formam o campo do cognoscível, o campo das ciências.

 

As teses capitais da «Crítica da Razão pura» como «os corpos não são objectos em si, que nos estejam presentes, mas uma simples manifestação fenoménica, sabe-se lá de que objecto desconhecido» (CRP, pág. 363, nota de rodapé, Fundação Calouste Gulbenkian; o negrito é colocado por mim) passam desapercebidas a António Marques, tal como não foram entendidas por Bertrand Russell, Wittgenstein, José Gil e a generalidade dos catedráticos de filosofia.

 

Na medida em que é idealista material - a matéria não passa de representação, ilusão tridimensional no espaço - Kant é ainda mais monista do que as filosofias da identidade de Schelling e Hegel porque estas separam a matéria do indivíduo humano, fazem desta uma exterioridade real frente ao homem (realismo material ou físico).´O criticismo de Kant não se reduz às teses da idealidade/ irrealidade dos objectos materiais e da impossibilidade de demonstrar os objectos metafísicos como Deus e a alma imortal. Engloba ainda a teoria das qualidades primárias e secundárias, originada na Antiguidade clásica com Demócrito, retomada por Galileu, Descartes e John Locke, e o sistema das formas a priori da sensibilidade (espaço e tempo) e do entendimento (categorias e juízos puros) e a apercepção transcendental. Kant escreveu:

  

«O sabor agradável de um vinho não pertence às propriedades objectivas desse vinho, portanto de um objecto, mesmo considerado como fenómeno, mas à natureza especial do sentido do sujeito que o saboreia. As cores não são propriedades dos corpos...» (Kant, Crítica da Razão Pura, pag. 69, nota de rodapé, Fundação Calouste Gulbenkian).

 

 

O discurso retórico, grandiloquente, de António Marques sobre o criticismo de Kant passa por cima destas «minúcias» que são a pedra de toque que distingue os que entenderam Kant com profundidade - tão poucos são! - e os que não o entenderam mais do que a 50% .


 

 

www.filosofar.blogs.sapo.pt
f.limpo.queiroz@sapo.pt

 

© (Direitos de autor para Francisco Limpo de Faria Queiroz)

 



publicado por Francisco Limpo Queiroz às 15:28
link do post | comentar | favorito
|

mais sobre mim
pesquisar
 
Junho 2017
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3

4
5
6
7
8
9
10

11
12
14
15
17

19
21
23
24

25
26
27
28
29
30


posts recentes

Áreas 21º-24º de Carangu...

Ponto 27º 37´/ 27º 44´ de...

Equívocos no Exame Nacion...

25 a 30 de Junho de 2017:...

28 de Junho a 1 de Julho ...

Breves reflexões de Junho...

Areas 14º-18º of Aries, 2...

Identidade de género, uma...

Teste de filosofia do 10º...

Teste de Filosofia do 11º...

arquivos

Junho 2017

Maio 2017

Abril 2017

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Agosto 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Setembro 2006

Agosto 2006

Julho 2006

Maio 2006

Abril 2006

Março 2006

Fevereiro 2006

tags

todas as tags

favoritos

Teste de filosofia do 11º...

Pequenas reflexões de Ab...

Suicídios de pilotos de a...

David Icke: a sexualidade...

links
Fazer olhinhos
blogs SAPO
subscrever feeds