Quarta-feira, 24 de Abril de 2013
Equívocos no manual «Lições de Filosofia, 10º Ano» da Didáctica Editora ( Crítica de Manuais Escolares - XLIX)

 

O manual «Lições de Filosofia 10º ano» de Aires Almeida, Célia Teixeira e Desidério Murcho, da Didáctica Editora,  incorre nos habituais erros da filosofia analítica sobre as correntes da acção humana no plano do livre-arbítrio, determinismo e indeterminismo. .

 

CONFUSÕES SOBRE LIBERTISMO E SEU SUPOSTO INCOMPATIBILISMO


 

Escrevem Aires Almeida, Célia Teixeira e Desidério Murcho:

 

«A teoria libertista combina duas teses: primeiro, que o determinismo é incompatível com o livre-arbítrio; segundo, que temos livre-arbítrio. Estas teses estão relacionadas: segundo o libertista, nem tudo está determinado precisamente porque temos livre-arbítrio» (Aires Almeida, Célia Teixeira e Desidério Murcho,  «Lições de Filosofia 10º ano», pag. 38, Didáctica Editora; o destaque a negrito é posto por mim).

 

 

Esta definição é uma incoerência, no seu conjunto: se nem tudo está determinado - ou seja, por exemplo, o movimento da água evaporando-se da superfície terrestre, condensando-se em nuvens e precipitando-se sobre a Terra é determinismo, o envelhecimento dos organismos vivos obedece a determinismos, etc - é porque temos livre-arbítrio, ou seja, há compatibilidade entre determinismo e livre-arbítrio. Se ambos existem, são compatíveis no quadro global da realidade. A compatibilidade é uma coexistência, não é necessariamente uma fusão ou interpenetração. Logo, é um erro dizer que o libertismo é um incompatibilismo - é um chavão, uma frase feita, sobre a qual não se opera reflexão.

 

E a definição de libertismo dada neste manual é, substancialmente, a mesma do compatibilismo ou determinismo moderado porque ambas admitem um livre-arbítrio e determinismo, e em ambas o livre-arbítrio pode agir contra o determinismo. Duplicação sob nomes diferentes, erro de raciocínio. É como dizer sobre uma dada estrada inclinada: «esta estrada que sobe não é a mesma estrada que desce».

 

Heráclito, do fundo dos séculos, ensina estes confusos «pensadores» analíticos: «o caminho que sobe e o caminho que desce são um e o mesmo». O caminho que sobe poderia ser o «libertismo» e o caminho que desce o «determinismo moderado». São, segundo estas definições, a mesma coisa, ora enfatizando verbalmente a liberdade, ora enfatizando o determinismo.

 

SOMOS SEMPRE CONSTRANGIDOS POR SITUAÇÕES ANTERIORES?

 

Lê-se neste manual:

«Comparemos as duas situações seguintes:

 

Situação 1. O João escolhe ficar em casa a estudar em vez de ir ao cinema.

Situação 2. O João é obrigado pelos seus pais a ficar em casa a estudar.

 

O determinista moderado defende que na situação 1 a acção do João é livre porque nada o obrigou a escolher uma coisa em vez de outra. Mas defende que na situação 2 a escolha de João não foi livre, porque foi obrigado pelos pais a ficar em casa. Contudo, a única diferença entre 1 e 2 é o tipo de constrangimento em causa. Na situação 2, o João é constrangido pelos pais. Na situação 1, é constrangido pelos acontecimentos anteriores.» (Aires Almeida, Célia Teixeira e Desidério Murcho,  «Lições de Filosofia 10º ano», pag. 42, Didáctica Editora).

 

Como se pode demonstrar que na situação 1 é constrangido pelos acontecimentos anteriores? Não pode. Sucede que, naquele momento, João acha que se vai aborrecer com o filme e por isso escolhe ficar em casa. É isto ser constrangido por acontecimentos anteriores?

 

É possível ainda argumentar contra a tese deste manual que «na situação 2 a escolha de João não foi livre, porque foi obrigado pelos pais a ficar em casa» com o pensamento de Sartre de que «nunca fomos tão livres como debaixo da ocupação alemã»  em 1940-1944 porque aí podíamos escolher sem meias tintas: resistir ao nazismo ou colaborar com ele. De facto, se João ficou em casa «obrigado» pelos pais foi porque não quis assumir a sua liberdade de rebeldia. Logo, a sua aceitação foi de livre vontade, derivou do exercício do livre-arbítrio porque, a menos que estivesse trancado no quarto e a chave da porta da parte de fora, preferiu a submissão do «animal doméstico». Podia ter saído de casa, desafiando a vontade dos pais. A sua decisão foi livre, apesar da condicionante. O mar da liberdade move-se sempre entre as rochas de condicionantes, mas a água flui, vai e vem, mesmo contornando as rochas ou submergindo-as.

 

ERROS NAS DEFINIÇÕES DE RELATIVISMO E OBJECTIVISMO

 

A definição de relativismo enferma do habitual erro da filosofia analítica:

 

«A tese central da teoria relativista é que os juízos de valor são relativos às sociedades. Quando uma sociedade condena ou aceita um determinado juízo de valor não pode estar enganada. Isto contrasta com os juízos de facto.» (Aires Almeida, Célia Teixeira e Desidério Murcho,  «Lições de Filosofia 10º ano», pag. 54, Didáctica Editora; o destaque a negrito é da minha autoria).

 

Esta definição é falsa e incoerente. A sociedade francesa, até há um mês atrás condenava, maioritariamente, e rejeitava, juridicamente, a legalização dos casamentos gays e lésbicos e a adopção de crianças por casais homossexuais. Era, portanto, «relativista» segundo, o raciocínio dos autores deste manual e «não podia estar enganada». .. Há dias, em 23 de Abril de 2013, por votação na Assembleia Nacional francesa, com 331 votos a favor (socialistas, comunistas e outra esquerda) e 225 votos contra (direitas), foi aprovada a lei autorizando o casamento de gays e lésbicas e a adopção por estes de crianças. Isto, sim, é relativismo, variação de posição/ verdade teórica, axiológica, jurídica. E nega a definição de relativismo dada acima segundo a qual «quando uma sociedade condena ou aceita um determinado juízo de valor não pode estar enganada.» Esta definição do manual  é absolutismo e não relativismo.

 

Por outro lado, Aires Almeida, Célia Teixeira e Desidério Murcho persistem em ignorar, por limitação de inteligências ou subserviência  face às cúpulas universitárias ou ambas as coisas, que relativismo é o mosaico de opiniões e ideias no seio de uma mesma sociedade. É relativismo haver ecologistas, comunistas, conservadores, sociais-democratas, católicos, ateus, agnósticos, benfiquistas, sportinguistas, portistas, etc, cada um com a sua ideologia e valores.

 

Sobre objectivismo escreve o manual:

 

«A tese central da teoria objectivista é que alguns juízos de valor são objectivos; o objectivismo não defende que todos os juízos de valor são objectivos. Isto significa que quando uma pessoa ou uma sociedade condena ou aceita um dado juízo de valor, pode estar enganada, tal como acontece com os juízos de facto.»

(Aires Almeida, Célia Teixeira e Desidério Murcho,  «Lições de Filosofia 10º ano», pag. 57, Didáctica Editora; o destaque a negrito é da minha autoria).

 

Esta definição peca por vagueza. É tautológica: objectivismo é... juízos de valor objectivos. Não se diz com clareza o que é objectividade, que esta se divide em duas modalidades: extra anima e intra anima. Coitados, não sabem, não têm precisão no pensamento... A dialética é, para eles, uma estranheza.

 

Aires Almeida, Célia Teixeira e Desidério Murcho continuam petrificados nas suas erróneas definições, atrelados ao frágil pensamento de Thomas Nagel, John Searle, Peter Singer e outros, apesar de lerem este blog há anos e terem obrigação de rectificar os seus gritantes equívocos em filosofia. Nada a fazer.. O poder corrompe. Os mestres e doutorados nas universidades estabelecem, em regra, entre si um pacto de silêncio e aceitação dos erros uns dos outros.

 

Antes de tudo, «há que preservar a autoridade sobre os alunos, não pôr em dúvida as cátedras, e estar nas boas graças da opinião pública (im)pensante», dos editores e jornalistas, da classe dominante.  Assim pensam os antifilósofos, dominados por um pragmatismo estreito de ganhar dinheiro com manuais das grandes editoras e popularizar a superficial filosofia analítica que os faz "ser alguém" no mundo burguês dos títulos universitários e das certificações.

 

 

www.filosofar.blogs.sapo.pt

 

f.limpo.queiroz@sapo.pt

 

© (Direitos de autor para Francisco Limpo de Faria Queiroz)



publicado por Francisco Limpo Queiroz às 21:30
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