Sexta-feira, 19 de Abril de 2013
Equívocos no manual de Filosofia 10º ano «Novos Contextos» da Porto Editora (Crítica de Manuais Escolares XLV)

 

O manual «Novos Contextos, Filosofia 10º ano» de José Ferreira Borges, Marta Paiva e Orlando Tavares, da Porto Editora, apresenta um aspecto gráfico agradável. Já no plano do conteúdo filosófico e epistémico, há equívocos visíveis a apontar-lhe.

 

INDISTINÇÃO ENTRE COMPATIBILISMO E LIBERTISMO

 

Escrevem os autores sobre o compatibilismo ou determinismo moderado:

 

«O compatibilismo, também designado determinismo moderado, é uma perspectiva que aceita o determinismo no mundo natural, mas defende que existe espaço para a liberdade e para a responsabilidade humanas. Afirma que, além disso, que um acto pode ser, ao mesmo tempo, livre e determinado. (...)

«Na perspectiva dos compatibilistas, mesmo que as nossas acções sejam causadas, podemos sempre agir de outro modo se assim o escolhermos. » (José Ferreira Borges, Marta Paiva e Orlando Tavares, «Novos Contextos, Filosofia 10º ano», paginas 78-79,

Porto Editora).

 

E sobre o libertismo, que afirmam ser diferente do compatibilismo escrevem:

 

«O libertismo é a corrente que defende, de modo mais radical, o livre-arbítrio e a responsabilidade do ser humano. Para defender a liberdade de escolha, considera-se que o agente tem o poder de interferir no curso normal das coisas pela sua capacidade racional e deliberativa

«É como se existisse uma categoria especial de causalidade do agente por meio da qual este inicia, ao agir, sequências de acontecimentos, sem que esse desencadear seja, por sua vez, causalmente determinado.» (José Ferreira Borges, Marta Paiva e Orlando Tavares, «Novos Contextos, Filosofia 10º ano», paginas 79, Porto Editora).

 

 

Mas, afinal, o que distingue o libertismo do determinismo, se, neste último, «podemos sempre agir de outro modo se assim o escolhermos», isto é, agir sobre e contra o determinismo? Nada. Rigorosamente nada. A dualidade compatibilismo/ libertismo é uma das duplicações falaciosas da filosofia analítica presente em quase todos os manuais de filosofia em Portugal. Requer a navalha de Ockham: sintetizar, cortar as «gorduras» do pensamento inerte e balofo.

 

Á noção de libertismo é ambígua na esfera da filosofia analítica. Há alguns autores desta corrente que definem libertismo como existência do livre-arbítrio e inexistência de leis biofísicas fixas, isto é, de determinismo físico. Neste caso, libertismo distinguir-se-ia de determinismo moderado.

Mas porque se chamaria ao libertismo  «incompatibilismo», se o livre arbítrio se compatibilizaria com um funcionamento indeterminista da natureza biofísica? É um compatibilismo, diferente do «determinismo moderado» baptizado de «compatibilismo» nos manuais. Compatibilismo é uma noção formal, insubstancial, que pode aplicar-se a mais do que uma corrente da esfera livre-arbítrio/determinismo/ indeterminismo. Isto não o concebem os pensadores "analíticos".

 

 

www.filosofar.blogs.sapo.pt

 

f.limpo.queiroz@sapo.pt

 

© (Direitos de autor para Francisco Limpo de Faria Queiroz)



publicado por Francisco Limpo Queiroz às 21:01
link do post | comentar | favorito
|

2 comentários:
De Frederico a 20 de Abril de 2013 às 22:50
A diferença está na na ideia de causa. Para o determinismo moderado todos os nossos atos são causados por causas anteriores. Se essas causas forem o nossos desejos e crenças consideram o ato livre. Daí serem compatibilistas. Um ato pode ser simultaneamente determinado (por ser caausado) e livre (por depender dos nossos desejos e crenças. Não foi constrangido por causas exteriores. Mas esses desejos e crenças já dependem de causas anteriores). Para o libertismo, a nossa vontade, através de deliberações racionais é capaz de iniciar novas cadeias causais. Ela não nega que haja causalidade deterministica no mundo físico, considera é que o espírito humano não está sujeito a essa causalidade..


De Francisco Limpo Queiroz a 21 de Abril de 2013 às 09:06
Agradeço o seu comentário. No entanto, eu não partilho a ideia de que «Para o determinismo moderado todos os nossos atos são causados por causas anteriores». Isso seria uma espécie de fatalismo. É sempre possível romper com a cadeia do passado através do exercício do livre-arbítrio. O início de novas cadeias causais é decido pelo livre-arbítrio - e tanto faz chamar a isto libertismo como determinismo moderado. Neste último, o livre-arbítrio escapa à causalidade determinista.

Designam a mesma coisa, a partir do momento em que «ela ( a posição libertista) não nega que haja causalidade deterministica no mundo físico, considera é que o espírito humano não está sujeito a essa causalidade»


Comentar post

mais sobre mim
pesquisar
 
Dezembro 2017
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2

3
4
5
6
7
8
9

10
11
12
13
15
16

17
18
19
20
21
22
23

24
25
26
27
28
29
30

31


posts recentes

Previsões para 2018 (base...

Transplantes de orgãos: a...

Sismo em Portugal de 11 a...

Reflexões breves de Dezem...

Salvador Freixedo: o derr...

Áreas 25º-28º de Escorpiã...

Áreas 17º-18º de Balança,...

Área 0º-3º de Sagitário: ...

João Bereslavsky: a homos...

Reflexões de Novembro de ...

arquivos

Dezembro 2017

Novembro 2017

Outubro 2017

Setembro 2017

Agosto 2017

Julho 2017

Junho 2017

Maio 2017

Abril 2017

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Agosto 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Setembro 2006

Agosto 2006

Julho 2006

Maio 2006

Abril 2006

Março 2006

Fevereiro 2006

tags

todas as tags

favoritos

Teste de filosofia do 11º...

Pequenas reflexões de Ab...

Suicídios de pilotos de a...

David Icke: a sexualidade...

links
Fazer olhinhos
blogs SAPO
subscrever feeds