Terça-feira, 12 de Março de 2013
Teste de filosofia do 11º ano de escolaridade (último do 2º período, 2013)

 

Final do segundo período lectivo em Portugal. Eis um teste centrado na teoria do conhecimento - que classifico, classicamente, como gnosiologia - e  na epistemologia ou reflexão filosófica sobre as ciências formais, empíricas naturais e hermenêuticas.

 

Escola Secundária Diogo de Gouveia , Beja
TESTE DE FILOSOFIA, 11º ANO, TURMA A

  11 de Março de 2013        Professor: Francisco Queiroz
I

 

«As ideias adventícias, segundo Descartes, são parcialmente ilusórias. Na teoria de Kant, as categorias são formas puras do entendimento, e influenciam a construção quer dos juízos analíticos quer dos juízos sintéticos

 

1) Explique, concretamente, este texto.

 

2) Relacione, justificando:

 

A) A lei da luta de contrários, por um lado, as quatro forças fundamentais da natureza, o relógio químico e o binómio entropia/neguentropia (ponto de vista da ciência materialista dialéctica), por outro lado.

B) Explique como, segundo a gnosiologia de Kant, se formam o fenómeno SOBREIRO e o conceito empírico de SOBREIRO.

 

C) Espaço e tempo segundo Kant, espaço e tempo segundo David Hume, e espaço e tempo segundo o materialismo dialéctico.

 

III

 

3) Disserte, livremente, sobre o seguinte temas:

 

«Revisibilidade, falsificabilidade, testabilidade, indução, verificação e corroboração nas ciências empíricas – o ponto de vista de Karl Popper, filósofo do realismo, inspirado em David Hume, filósofo do idealismo

 

CORRECÇÃO DO TESTE, COTADO PARA UM TOTAL DE VALORES

 

1) Por ideias adventícias, Descartes entendia as sensações e percepções empíricas. Exemplo: ver uma jarra de flores, saborear gaspacho, ouvir música. Ora, as percepções empíricas serão parcialmente ilusórias segundo Descartes: as cores (exemplo:o vermelho da rosa), os cheiros (exemplo: o perfume da rosa), os sabores, a dureza e a moleza, o calor e o frio, são qualidades secundárias, isto é não existem na realidade objectiva, no mundo material exterior ao corpo humano, surgem apenas na mente como ilusão, resultando do embate nos orgãos sensoriais de «poeiras» exteriores emanadas dos objectos. No entanto, as ideias adventícias, na medida em que reflectem as formas, o tamanho e o movimento dos objectos exteriores, isto é, as qualidades primárias, não transmitem ilusão mas sim verdade. (VALE TRÊS VALORES) As categorias, em Kant,  são formas a priori ou puras do entendinento, isto é, mecanismos inatos do pensamento, anteriores a toda a experiência sensorial, como por exemplo, unidade, pluralidade e totalidade (categorias da quantidade), que unificam a diversidade dos dados empíricos (do fenómeno). Os juízos analíticos são as proposições em que o predicado não acrescenta nada de novo ao sujeito, como por exemplo, o juízo «A esfera é redonda». A categoria de Realidade entra, de certo modo, na construção deste juízo. Os juízos sintéticos são as proposições em que o predicado acrescenta um conteúdo novo ao sujeito, como por exemplo, «A esfera é vermelha».(VALE TRÊS VALORES)

 

 

2) A) A lei da luta de contrários é a seguinte: um  divide-se em dois, em cada ente há uma luta de contrários que constitui a essência e o motor de desenvolvimento desse ente ou fenómeno. Essa luta manifesta-se por exemplo na oposição entre a força nuclear forte, (yin, para dentro) interacção entre os quarks e os gluões que mantém coeso o núcleo de cada átomo, mantendo os protões unidos entre si, por serem compostos de quarks, e a força nuclear fraca, (yang, para fora)  que cinde as partículas e constitui, por exemplo, a radioactividade - ou desintegração de um núcleo instável de urânio com emissão de partículas alfa, beta, radiações electromagnéticas de alta frequência gama e poeiras. Manifesta-se ainda na luta entre o electromagnetismo (yang, para fora) que inclui a luz, as ondas de rádio e televisão,  microcondas, raios X, radar, baseado na transmissão dos fotões e a  gravidade ou força gravitacional (Yin, para dentro) força atractiva que mantém unido o sistema solar e evita a explosão das estrelas,   a mais fraca das quatro forças mas aquela que se exerce numa maior vastidão. A lei da luta de contrários manifesta-se na experiência do relógio químico: moléculas azuis e vermelhas de um gás rodando num caos, em vez de originarem moléculas de cor roxa, alternam entre si a cor do gás, que ora é azul ora é vermelho, de forma homogénea, a intervalos regulares. Isto prova que a entropia, estado de desorganização molecular teorizado pelo segundo princípio da termodinâmica, não é o fim dos processos naturais mas dá origem à neguentropia, um estado de ordem da natureza, que é capaz de auto organização. (VALE QUATRO VALORES). 

 

 

2) B) O fenómeno SOBREIRO forma-se na sensibilidade, uma das três partes do espírito humano, do seguinte modo: os númenos afectam, desde o exterior, a sensibilidade (isto é, o espaço e o tempo que rodeiam o corpo do sujeito) e fazem nascer nela um caos de sensações (cores, matéria, sons, etc). Esse caos é moldado pelo espaço (extensão e formas geométricas) e pelo tempo (duração, sucessão simultaneidade) e transforma-se num sobreiro, no fenómeno sobreiro,- uma imagem tridimensional, dir-se-ia hoje. O entendimento intervém na medida em que confere ao sobreiro o carácter de substância, de divisibilidade (em partes: pernas, tampo, etc).O conceito empírico de SOBREIRO forma-se no entendimento do seguinte modo: as imagens / intuições empíricas de sobreiro (as imagens dos diferentes sobreiros que vimos) sobem da sensibilidade ao entendimento, passando pela imaginação. O entendimento, munido de categorias ou conceitos puros como unidade, pluralidade, realidade, recebe as diversas imagens de sobreiro e redu-las a uma imagem abstracta única, o conceito de sobreiro, de base empírica. (VALE QUATRO VALORES).

 

2) C) Em Kant, o espaço e o tempo são formas a priori da sensibilidade,  isto é são condições subjectivas da existência da matéria, não são reais em si mesmos, mas existem antes de todo e qualquer objecto - idealismo transcendental. Em David Hume, espaço (lugar) e tempo são relações filosóficas, não existem em si mesmos fora da mente do sujeito, mas, ao contrário de Kant, não existem antes dos objectos que são meras impressões de sensação e ideias. No materialismo dialético, espaço e tempo são dimensões, desdobramentos da matéria, que é real em si mesma, anterior à humanidade, o espaço sempre existiu e nunca se reduziu à dimensão de um ponto que concentrasse toda a matéria e energia existentes no universo como sustenta a discutível teoria do Big Bang do abade Lemaitre. (VALE TRÊS VALORES)

 

3) Popper sustentou o princípio da falsificabilidade: uma teoria científica deve ser considerada potencialmente falsa (falsificabilidade) e para isso ser sujeita a rigorosos testes experimentais (testabilidade) e à discussão racional já que a indução amplificante é inaceitável (por mais cisnes brancos que vejamos não podemos inferir a tese de que todos os cisnes do mundo são brancos, a verificação implicaria conhecer a totalidade dos cisnes vivos). Portanto, só pode corrobar-se (confirmar-se) este ou aquele caso. As ciências são conjuntos de conjecturas, suposições, e não devemos nunca presumir de que atingimos a verdade definitiva. Deve procurar-se as excepções e não a regra. Defendeu a revisibilidade - em qualquer momento se podem rever as teses e os métodos de uma ciência. depois de achar anomalias .Popper era realista, admitia que o mundo material é real e não invenção da nossa mente. Inspirou-se em Hume que subjectivizou a causação, o princípio do determinismo (a causa A produz sempre o efeito B). Hume era idealista, sustentava que os objectos materiais eram ideias assentes em impressões de sensação. (VALE TRÊS VALORES)

 

 

 

f.limpo.queiroz@sapo.pt

 

© (Direitos de autor para Francisco Limpo de Faria Queiroz)



publicado por Francisco Limpo Queiroz às 22:18
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4 comentários:
De Frederico a 20 de Abril de 2013 às 23:21
É o que eu digo. Ninguém sabe bem qual é o programa de filosofia e depois os professores dão largas à imaginação nos testes


De Francisco Limpo Queiroz a 21 de Abril de 2013 às 09:20
Discordo. O programa de filosofia está definido, só que é um programa aberto, não obriga a que todos os professores dêem os mesmos filósofos - se exceptuarmos Popper, Kuhn, Hume e algum outro.

O professor é co-autor do programa, no que se refere a concretizar os objectivos gerais deste. Nada do que coloquei neste teste está fora do programa do 11º ano. E este é um teste de rigor, que implica pensamento profundo, reflexão, não apenas imaginação. Gostaria de saber quantos professores têm a coragem de colocar os seus testes e a respectiva correção na internet...

O que acontece é que alguns professores, eu incluído, são mais substanciais no ensino, mais ricos em saber filosófico e científico do que a larga maioria que se refugia nas perguntas de resposta múltipla e no vaguismo. E os medianos sentem sempre algum desconforto...


De Filipe a 18 de Fevereiro de 2016 às 00:15
Gostaria de saber a percentagem de negativas que a turma obteve ao fazer este teste, que não segue de qualquer maneira o modelo de exame, ao qual irão ser submetidos!


De Francisco Limpo Queiroz a 18 de Fevereiro de 2016 às 17:40

Em 24 alunos que fizeram este teste só dois tiveram classificações inferiores a 10 valores (na escala de 0 a 20 valores). E houve alguns com 18 e 19 valores de classificação.

Porque havia este teste de filosofia seguir o modelo dos testes de exame nacional se a quase totalidade dos meus alunos NÂO TÊM DE SUBMETER-SE A EXAME NACIONAL? O exame nacional é facultativo, opcional. E, ademais, o modelo de exame nacional está mal concebido: em média, um terço das perguntas de resposta múltipla possui erros de palmatória na resposta dada como «correta», já o demonstrei em artigos deste blog ; as questões sobre David Hume, Descartes, Popper ou Kuhn não têm inteligência criativa, em regra, exigem só memorização do aluno sem mais nada. É um despejar conteúdos sem relacionação profunda...

Só os professores de filosofia medianos ou fracos passam o ano todo a treinar os alunos para o exame nacional de filosofia. Os bons professores de filosofia desenvolvem um ensino de conteúdos e testes criativos que ultrapassam em muito a qualidade mediana dos testes de exame nacional, mais ou menos estereotipados e pouco inteligentes.
O exame não é sacrossanto. É a banalização da filosofia, o mínimo denominador comum.


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